Karl Ferdinand Schlatter, mais conhecido no Brasil como Fernando Schlatter (às vezes grafado Schlater) (Lindau, 7 de julho de 1870 - Porto Alegre, 7 de setembro de 1949) foi um artista alemão naturalizado brasileiro radicado em Porto Alegre, no Brasil.
Recebeu sua formação inicial em Lindau, no atelier do pintor Ferdinand Riegel, graduando-se em 1887. Desenvolveu a primeira parte da sua carreira na Europa, deixando trabalhos de decoração em várias cidades, mas quase nada se sabe sobre sua produção nesta etapa. Emigrou para o Brasil em 1899 e ganhou fama depois de transferir-se para Porto Alegre em 1901, onde trabalhou como pintor e artista gráfico, sendo mais notável pela sua obra de decoração em edifícios públicos, igrejas e residências, especialmente no Paço Municipal e na Biblioteca Pública do Estado. Desenvolveu um estilo eclético que aproveitava elementos de diversos estilos históricos, e foi reconhecido como o principal pintor-decorador ativo na cidade em sua geração. Também deixou alguns trabalhos em cidades do interior, com destaque para a decoração da Igreja de Nossa Senhora da Purificação em Bom Princípio.
Foi ainda um ativo membro da comunidade germânica da capital. Foi ator e diretor de peças teatrais alemãs, fundou uma sociedade dedicada a promover a cultura bávara, presidindo-a por 28 anos, administrou o parque esportivo da Sogipa por 40 anos, e foi o principal mentor da introdução da Oktoberfest no Brasil, celebrada pela primeira vez em Porto Alegre em 1911, e por muitos anos colaborou em sua organização.
Biografia Europa
Karl Ferdinand Schlatter nasceu em Lindau em 7 de julho de 1870, em uma família de poucos recursos, sendo o primeiro filho de Ferdinand Schlatter, operário da construção, e Maria Julia Meisen.Britto, Alexsander Candido de.O imigrante perfeito a atuação de Fernando Schlatter no Rio Grande do Sul (1870-1949). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2022, pp. 64-72 Com 14 anos ingressou como aprendiz na oficina do pintor Ferdinand Riegel, que ainda trabalhava no sistema das antigas guildas, oferecendo não apenas preparo artístico para seus discípulos, mas também dando-lhes casa e comida, preparando-os para uma carreira de técnicos em decoração, mais do que uma de artistas criativos independentes. Com uma bolsa de estudos oferecida pelo município, entrou para uma escola regular para aprender contabilidade, caligrafia, aritmética e geografia.
Teve um excelente aproveitamento na oficina de Riegel e graduou-se em 17 de abril de 1887, recebendo um diploma da Associação de Indústrias de Lindau. O exame final incluía desenhos técnicos, a pintura de um armário, a decoração de um tampo de mesa de mármore e a decoração do teto de uma sala na casa do mestre.
Em 1888 fez uma viagem à Suíça para aperfeiçoamento, frequentando o curso noturno da Gewerbehaus de Sankt Gallen, fazendo cópias e desenhos a partir de modelos. De lá partiu para Altstadt, na Alemanha, onde obteve um emprego como assistente do pintor e decorador Wyhler. A região tinha uma bela paisagem e Schlatter deixou impressões entusiasmadas sobre o cenário:
"Chegamos a tempo de assistir ao belo nascer do sol, como um lindo quadro. Ao sul e ao leste os vastos Alpes, ao oeste as montanhas suíças de menor porte e ao norte, o lindo lago de Constança na sua totalidade, com todas as cidades do litoral e aldeias, com a terra alemã desaparecendo no horizonte infinito. Para mim foi uma experiência sagrada ver a minha pátria de uma altura de 2500 metros. Ainda hoje vivencio essa vista [...] Somente aqueles que tiveram a experiência de estar entre as montanhas podem ter uma ideia de como o ser humano é pequeno e sem importância frente a esta enorme beleza natural [...] Aqui se vê que o homem é um verme miserável e no mundo espetacular dos Alpes desaparecem todas distinções de classe".Apud Britto, p. 65
Contudo, ali ficou doente, voltando a Lindau para ser cuidado pelos pais. Ao recuperar-se, partiu para Munique, onde familiarizou-se com a comunidade local ingressando na Sociedade de Ginástica. Conseguiu alguns trabalhos, e nos fins de semana visitava os ricos museus da cidade. Mais tarde diria: "Munique foi para mim uma sorte em sentido espiritual e também social, nestes anos tive impressões que ainda hoje influenciam e guiam o meu coração".Apud Britto, p. 66 Nesses museus copiava obras de grandes mestres, e entrou em contato com a produção do grupo dos Nazarenos, especialmente Peter von Cornelius e Willhelm von Kawlbach.
Depois de algum tempo voltou a Lindau, sendo contratado como primeiro oficial na oficina de seu antigo mestre, e renovou sua filiação à Associação dos Trabalhadores, participando de atividades culturais e grupos de canto. Recrutado para o serviço militar por um período de três anos, foi designado para trabalho de gabinete. Depois de liberado, recebeu uma proposta de trabalho do artesão Ernest von Franke, que recusou. Pretendia fixar-se em Sarajevo, na Bósnia, passando antes por Veneza e Trieste, onde tomou lições com pintores locais.
Em março de 1893 estava em Sarajevo, onde encantou-se com a paisagem, conseguiu diversos contratos de decoração e colaborou na construção da Catedral. Lá conheceu a costureira Anna Barbara Fuog, nascida em 5 de agosto de 1868 em Herisau, filha do estampador de tecidos Konrad Fuog e Barbara Hogger. Com ela casou-se em 19 de abril de 1896. Anna Barbara recebeu um dote substancial de 2 mil marcos, Schlatter era bem pago, e o casal desfrutava de um bom nível de vida. Tiveram duas filhas.
Brasil
Sua transferência para o Brasil provavelmente se deve ao incentivo do governo para a imigração. Chegou em 1899 e se fixou inicialmente em Ijuí, adquirindo um lote de terras na Linha G. Ijuí era então uma colônia nas fases iniciais de desenvolvimento e havia sido planejada como uma colônia agrícola. A vida ali se revelou difícil e não havia trabalho para seu preparo especializado em artes.
Deixou Ijuí em 1901 e se estabeleceu em Porto Alegre, instalando-se em uma casa na Rua Ramiro Barcelos nº 1253 e abrindo uma empresa de decoração e pintura, contando com diversos auxiliares. No mesmo ano obteve seu primeiro e importante contrato para decorar o Paço Municipal, trabalho que foi muito elogiado. Seguiram-se muitos outros contratos para decoração de edifícios públicos e privados, igrejas e residências particulares, uma produção muito apreciada que o tornou conhecido em todo o estado.
Além da sua atividade na pintura, criou carros alegóricos para o grupo carnavalesco Esmeralda, e foi um destacado membro da comunidade germânica da capital. Foi ator e diretor de teatro na encenação de diversas peças alemãs, além de criar as peças de arte gráfica promocional para elas. Em 4 de julho de 1903, junto com nove outros amigos que só são identificados por pseudônimos, fundou a Sociedade Die Haberer, presidindo-a por 28 anos, que se dedicava a obras de caridade e ao cultivo das tradições e da cultura bávaras.
Em 1904 associou-se à Sociedade Ginástica Turner-Bund, que mais tarde viria a se tornar a Sogipa, decorou a sua sede e assumiu a administração da sua praça de esportes, mantendo o posto por 40 anos.Britto, p. 105 Com o crescimento no número de associados, Schlatter entrou em um acordo com o presidente da Turner-Bund para que fosse feita a incorporação dos Haberer, construindo uma sede do Parque São João da Turner-Bund. O grupo manteve sua autonomia administrativa até 1940, quando foi transformado no Departamento de Bávaros da Sogipa.Kaiser, Douglas Márcio. A Oktoberfest de Igrejinha e a percepção sobre qualidade de vida na comunidade local. Universidade Feevale, 2022, pp. 33-34Menezes, Tiago Pasqualon Castro. Cultura alemã na gestão de empresa: o exemplo da SOGIPA. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2014, p. 34
Em 8 de outubro de 1911, com a liderança de Schlatter, os Haberer promoveram a primeira Oktoberfest no Brasil, montada no Parque São João, ficando Schlatter responsável pelo material gráfico e publicitário e a decoração de objetos comemorativos. Participou da organização da festa todos os anos e voltou a criar peças publicitárias e decorativas, desenhou os diplomas honoríficos da Haberer e o material gráfico da Turner-Bund.
Faleceu em Porto Alegre em 7 de setembro de 1949, sendo sepultado no Cemitério Evangélico da Capital.Alves, José Francisco. "Quem foi Fernando Schlatter, o pintor que Porto Alegre esqueceu". Zero Hora, 5 de maio de 2021
Obra
Em Porto Alegre, além da obra no Paço Municipal, fez a decoração do Teatro Parque (1901) e do Teatro Polytheama (1903). No Observatório Astronômico da UFRGS a partir de 1908 fez toda a decoração em pintura do interior, em grande parte perdida sob repinturas, um grande painel com a imagem do deus Cronos sobrevive intacto. Na antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário deixou obras em 1911, sem descrição, a igreja foi demolida em 1951. Na Biblioteca Pública a partir de 1921 fez toda a decoração em pintura do interior, em sua maior parte posteriormente coberta por uma camada de tinta cor creme, um restauro para a recuperação de alguns espaços iniciou recentemente; os salões Mourisco e Egípcio não foram repintados mas se degradaram com o tempo. Na Igreja de Nossa Senhora das Dores em 1927 se responsabilizou pela restauração do altar, pintura do forro e das paredes, e por uma cena de Maria com Cristo Menino sobre a entrada, que pode ter sido um restauro ou retoque de uma pintura antiga; em 1931 fez a pintura do forro e paredes da Capela de Nossa Senhora de Pompéia, e em 1948, pinturas comemorativas para o Congresso Eucarístico. São-lhe atribuídas as pinturas decorativas e um grande painel figurativo com cena clássica na Confeitaria Rocco, em 1931.Britto, pp. 97-104
No interior do estado fez toda a decoração da Igreja de Nossa Senhora da Purificação em Bom Princípio, incluindo frisos e arabescos, pequenas paisagens que aludem a aspectos urbanos e rurais da região, e sobretudo um ciclo de grandes cenas figurativas sobre a vida de Jesus e Maria, iniciado em torno de 1905 e que se estendeu até cerca de 1918. Também deixou murais no Santuário de Santo Antônio em Estrela (1909-1910) e na Igreja de Nossa Senhora do Rosário em Rio Pardo (1927-1930).Inda, Sofia R. "Nótulas para uma história da arte do Rio Grande do Sul: Obra e trajetória do pintor alemão Fernando Schlatter (1870–1849)". In: 19&20, 2019; XIV (1) São-lhe atribuídas ainda sete pinturas de grandes dimensões com cenas bíblicas no Seminário de Bom Princípio.Britto, p. 104
Suas obras na igreja de Bom Princípio foram consideradas por Altamir Moreira como "um conjunto que se situa entre as iniciativas pioneiras do muralismo religioso das colônias de imigração alemã do Rio Grande do Sul". O crítico acrescenta que "a harmonização pictórica de baixo contraste, [...] o desenho preciso, o detalhismo naturalista e a linha destacada sobre a cor são alguns dos atributos técnicos mais constantes".Moreira, Altamir. A Morte e o Além: iconografia da pintura mural religiosa da região central do Rio Grande do Sul (século XX). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006, pp. 18;52 Para Cristina Seibert Schneider, "a riqueza das pinturas internas de Ferdinand Schlatter [...] hoje constituem um importante referencial histórico, arquitetônico e cultural da região".Schneider, Cristina Seibert. "A Cidade Palimpsesto: qual futuro?". In: Arendt, Isabel Cristina; Witt, Marcos Antônio; Santos, Rodrigo Luis dos (orgs.). Migrações: Religiões e Espiritualidades. Oikos, 2016, p. 358