O Museu do Samba, anteriormente denominado Centro Cultural Cartola (CCC), é uma instituição cultural e museológica localizada na Mangueira, na cidade do Rio de Janeiro, dedicada à pesquisa, documentação, preservação, difusão e salvaguarda da memória do samba, das escolas de samba e do Carnaval do Rio de Janeiro. Foi fundado em 2001 por descendentes de Cartola e Dona Zica, entre eles a museóloga e pesquisadora Nilcemar Nogueira, inicialmente com o nome de Centro Cultural Cartola.
A instituição teve participação central no processo de reconhecimento das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro — partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo como Patrimônio Cultural do Brasil. O Centro Cultural Cartola apresentou formalmente ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 14 de setembro de 2004, o pedido de registro do bem cultural. O pedido foi aprovado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural em 9 de outubro de 2007 e a inscrição das Matrizes no Livro de Registro das Formas de Expressão ocorreu em 20 de novembro do mesmo ano.
Em 2026, o Museu reunia mais de 50 mil itens relacionados à história do samba e do carnaval, entre documentos, livros, fotografias, registros sonoros e audiovisuais, indumentárias, pinturas, esculturas, instrumentos, partituras e objetos pessoais de sambistas. O arquivo de história oral mantido pela instituição aproximava-se, no mesmo período, de duzentos depoimentos originais de personagens ligados às diversas tradições do samba.
História
O Museu do Samba foi criado em 2001 como Centro Cultural Cartola, a partir da iniciativa de descendentes de Cartola e Dona Zica interessados na preservação do acervo e da memória do compositor. A instituição instalou-se na Rua Visconde de Niterói, aos pés do Morro da Mangueira, território historicamente relacionado à formação e ao desenvolvimento do samba carioca.
O edifício utilizado pela instituição é um antigo galpão pertencente ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), posteriormente adaptado para receber atividades culturais, educativas, documentais e museológicas.
Inicialmente centrado na trajetória de Cartola e de sua família, o Centro Cultural passou a receber doações de documentos, objetos e acervos relacionados a sambistas de diferentes escolas e regiões do Rio de Janeiro. A ampliação de sua atuação resultou na criação de programas de pesquisa, história oral, educação patrimonial, exposições e salvaguarda das tradições associadas ao samba.
miniaturadaimagem|esquerda|250px|Nilcemar Nogueira, museóloga, pesquisadora e uma das fundadoras do Museu do Samba, em 2019.
Em 2009, o Centro Cultural Cartola tornou-se Pontão de Cultura voltado à execução de ações de salvaguarda das Matrizes do Samba.
Em agosto de 2015, o Centro Cultural Cartola passou a utilizar a denominação Museu do Samba. Parecer técnico do IPHAN registra que, em 2016, a instituição passou por uma ressignificação de sua missão institucional e consolidou-se como Museu do Samba, reunindo acervos documentais e museológicos e exposições desenvolvidas em diálogo com os detentores das tradições registradas.
Em 2017, o IPHAN reconheceu a relevância da instituição como Centro de Referência das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro.
Em 2026, a instituição comemorou 25 anos de atividades. As celebrações incluíram espetáculo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com participação de artistas de diferentes gerações do samba, e a produção de um documentário sobre sua trajetória institucional.
Matrizes do Samba no Rio de Janeiro
O processo de patrimonialização das Matrizes do Samba constituiu uma das principais iniciativas de pesquisa realizadas pelo antigo Centro Cultural Cartola.
O pedido formal de registro foi apresentado ao IPHAN em 14 de setembro de 2004, tendo o Centro Cultural Cartola como autor e proponente. A proposta delimitou como objeto de registro três formas consideradas matriciais do samba praticado no Rio de Janeiro: o partido-alto, o samba de terreiro e o samba-enredo.
A pesquisa reuniu levantamento documental, bibliográfico, discográfico e audiovisual, além de entrevistas, trabalho de campo e documentação das práticas contemporâneas dos sambistas. Foram estudadas especialmente comunidades ligadas à Estação Primeira de Mangueira, Portela, Império Serrano, Acadêmicos do Salgueiro, Unidos de Vila Isabel e Estácio de Sá.
O pedido foi aprovado em 9 de outubro de 2007, durante a 54ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, e a inscrição no Livro de Registro das Formas de Expressão foi efetivada em 20 de novembro de 2007.
Após o reconhecimento, o Museu do Samba tornou-se um dos agentes envolvidos na execução das políticas de salvaguarda do bem registrado, promovendo documentação, pesquisa, transmissão de conhecimentos, encontros entre gerações de sambistas e ações de educação patrimonial.
Dossiê Matrizes do Samba
O estudo realizado para instrução do processo deu origem ao Dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro: partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo. O material foi produzido a partir de pesquisa desenvolvida no Rio de Janeiro em 2006 e posteriormente publicado pelo IPHAN, em 2014, como o volume 10 da série Dossiê Iphan.
A publicação possui 201 páginas e examina a história e as origens do samba carioca, suas dimensões musicais, poéticas, coreográficas e sociais, os lugares de produção do samba, seus detentores e produtores, os processos de transmissão do conhecimento e as recomendações de salvaguarda.
A coordenação do dossiê foi de Nilcemar Nogueira, com idealização de Leci Brandão. A equipe de pesquisa incluiu Aloy Jupiara, Helena Theodoro, Nilcemar Nogueira e Rachel Valença, além de pesquisadores convidados como Carlos Sandroni, Felipe Trotta, Haroldo Costa, João Batista Vargens, Lygia Santos, Marília Andrade, Nei Lopes, Roberto Moura e Sérgio Cabral.
O dossiê também apresenta capítulos dedicados aos elementos que estruturam socialmente o universo do samba, entre eles a roda, a religiosidade, a comida, os instrumentos, as bandeiras, as baianas, as velhas guardas, os terreiros e os mecanismos de transmissão dos saberes entre gerações.
Acervo e Centro de Documentação e Pesquisa
O Museu do Samba mantém um Centro de Documentação e Pesquisa especializado na história do samba, do carnaval carioca e de seus agentes culturais. O acervo é constituído por documentos textuais, livros, fotografias, discos, vídeos, registros sonoros, indumentárias, fantasias, obras de arte, instrumentos musicais, partituras, troféus e objetos pessoais.
Em 2026, a instituição informava possuir mais de 50 mil itens.
Entre os sambistas representados por peças ou documentos no acervo encontram-se Cartola, Dona Ivone Lara, Alcione, Leci Brandão, Beth Carvalho, Arlindo Cruz, Wilson das Neves, Monarco e outros nomes relacionados à história do samba.
História oral
Desde 2009, a instituição desenvolve o programa Memória das Matrizes do Samba do Rio de Janeiro, voltado ao registro audiovisual de depoimentos de sambistas e agentes do carnaval.
As entrevistas contemplam cantores, compositores, mestres de bateria, intérpretes, passistas, baianas, carnavalescos, fundadores de agremiações, mestres-salas e porta-bandeiras e outros detentores de conhecimentos relacionados às Matrizes do Samba.
Em setembro de 2026, o acervo de história oral reunia relatos de quase duzentas personalidades. Entre os entrevistados encontram-se Alcione, Dona Ivone Lara, Nelson Sargento, Monarco, Tia Surica, Haroldo Costa, Mestre Ciça, Neguinho da Beija-Flor, Delegado da Mangueira, Selminha Sorriso, Dodô da Portela e Vilma Nascimento.
Exposições
O Museu do Samba mantém exposições de longa duração e temporárias dedicadas à história social do samba, às escolas de samba, às relações entre samba e ancestralidade africana e às trajetórias de seus principais agentes.
Em 2025 e 2026, o circuito museológico incluía exposições como A Força Feminina do Samba, Aos Heróis da Liberdade, Semba/Samba: Corpos e Atravessamentos, Samba Patrimônio, Patrimônios Negros e Alvoradas de Cartola.
As mostras ocupam diferentes áreas do edifício e utilizam documentos, objetos, esculturas, fotografias, indumentárias, recursos sonoros e audiovisuais, instalações cenográficas e dispositivos interativos.
A Força Feminina do Samba
A exposição A Força Feminina do Samba foi inaugurada em 29 de julho de 2023, durante a programação relacionada ao Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Concebida e dirigida por uma equipe majoritariamente feminina e negra, teve idealização e curadoria de Nilcemar Nogueira.
A mostra aborda o caráter matriarcal da formação histórica do samba e destaca a atuação das mulheres negras como responsáveis pela criação, transmissão e preservação de práticas culturais relacionadas ao gênero. A narrativa expositiva recupera trajetórias de quituteiras, lavadeiras, compositoras, cantoras, partideiras, baianas, passistas, porta-bandeiras, dirigentes, carnavalescas e outras mulheres que participaram da construção social e cultural do samba.
Entre as personalidades representadas estão Tia Ciata, Clementina de Jesus, Dona Zica, Dona Neuma, Tia Surica, Tia Eulália, Tia Glorinha, Tia Nilda, Tia Gessy, Rosa Magalhães, Maria Augusta, Selminha Sorriso, Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Leci Brandão, Alcione, Ruça, Vilma Nascimento e outras mulheres ligadas às escolas de samba.
A expografia foi desenvolvida pela LICAAA, sob responsabilidade de Lilian Sampaio. A exposição incorporou fotografias, documentos, registros de história oral e recursos audiovisuais, entre eles o documentário Damas do Samba, dirigido por Susanna Lira. Paralelamente à mostra física, foi disponibilizado conteúdo digital com depoimentos de mulheres presentes no acervo audiovisual da instituição.
A exposição permaneceu integrada ao circuito do Museu nos anos seguintes e ainda constava entre as mostras oferecidas ao público em 2025.
Aos Heróis da Liberdade
A exposição Aos Heróis da Liberdade foi aberta ao público em maio de 2023, com curadoria de Gringo Cardia e consultoria histórica e textos de Luiz Antonio Simas.
O título faz referência ao samba-enredo Aos Heróis da Liberdade, apresentado pelo Império Serrano no carnaval de 1969, composição de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira.
A exposição propõe uma leitura da história social do samba a partir de temas como resistência cultural, combate ao racismo, liberdade, censura, afirmação da população negra e participação das escolas de samba na construção de narrativas sobre a história brasileira. Utiliza instalações cenográficas, documentos, recursos audiovisuais, música, canto e dança.
A mostra reúne referências a sambas e personagens de escolas como Império Serrano, Mangueira, Portela e Salgueiro. Entre os sambistas presentes em sua narrativa encontram-se Dona Ivone Lara, Cartola, Aluísio Machado, Candeia, Monarco, Tia Surica e Martinho da Vila.
Alvoradas de Cartola
A exposição Alvoradas de Cartola é dedicada à vida, obra e memória de Cartola e tem curadoria de Nilcemar Nogueira, neta do compositor e de Dona Zica.
A mostra reúne mais de cem itens distribuídos em sete núcleos temáticos, incluindo documentos pessoais, fotografias, capas de discos, manuscritos de composições, objetos pertencentes ao sambista e recursos audiovisuais.
Entre os objetos apresentados estão o violão de Cartola, manuscritos, cadernos, documentos e equipamentos utilizados pelo compositor. A exposição utiliza também estações de áudio e vídeo e material proveniente da reserva técnica do Museu e de instituições como o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, o Instituto Moreira Salles, o Arquivo Nacional, a Biblioteca Nacional e o Acervo Histórico da Light.
Semba/Samba: Corpos e Atravessamentos