Grifo (; Grego Antigo: γρύψ, gryps; Latim Clássico: grȳps or grȳpus; Latim Tardio e Medieval: gryphes, grypho etc.; Francês Antigo: griffon) é uma criatura lendária de origens asiáticas milenares. Sua descrição mais corrente o mostra como um híbrido metade águia e metade leão, mas foi uma imagem comum em uma ampla gama de civilizações do Oriente e Ocidente, onde sua representação e atributos variaram significativamente. No Oriente, no Egito e na Grécia arcaica manteve durante longos séculos uma forte ligação com o sagrado, sendo representante de deuses e invocado em rituais e cerimônias, associado à justiça, à luz e à autoridade divinas e ao ciclo da morte e renascimento.

No Ocidente tem se mantido como um apreciado ícone desde seu aparecimento nos primórdios da civilização grega, mas já no período clássico havia quem duvidasse da sua existência. Permanece até hoje, porém, num lugar destacado entre os animais fabulosos no imaginário popular, na arte e no folclore, além de desempenhar um papel na cultura como alegoria e símbolo, aparecendo em uma infinidade de representações visuais e obras literárias, geralmente associado a conceitos de poder, força, dignidade e proteção.

Os grifos também tem contrapartes no folclore e na mitologia finlandesa. Dependendo do nome, os grifos finlandeses podem ser espíritos que guardam tesouros escondidos no subsolo ou pode ser capangas de magos, assumindo a forma de pássaros gigantes.

Nomenclatura

Etimologia A derivação desta palavra permanece incerta. Pode estar relacionado com a palavra grega (grypos), que significa 'curvo', ou 'gancho'. grego (gryph) de 'nariz de gancho' é sugerido.

Também poderia ter sido uma palavra emprestada da Anatólia derivada de uma língua semítica; compare a palavra hebraica para querubim (kerúv).William H. C. Propp, Exodus 19–40, volume 2A of The Anchor Bible, New York: Doubleday, 2006, , p. 386; citing Julius Wellhausen, Prolegomena to the History of Israel, Edinburgh: Black, 1885, p. 304.Also see Robert S. P. Beekes, Etymological Dictionary of Greek, volume 1, Leiden and Boston: Brill, 2010 , p. 289, entry for , "From the archaeological perspective, origin in Asia Minor (and the Near East: Elam) is very probable."

Nomes persas Na língua persa moderna, o grifo passou a ser chamado de shirdal (), que significa 'águia-leão'. No entanto, a prática de se referir a antigos objetos ou monumentos de grifos iranianos como shirdal não é seguida por outros estudos arqueológicos atuais (por exemplo, aqui).

Possíveis nomes iranianos antigos ou médios para a criatura foram discutidos. O persa médio Sēnmurw na cultura sassânida era uma criatura composta fabulosa. O termo Sēnmurw é reconhecido como o ancestral etimológico de simurgh, que é geralmente considerado como um pássaro mitológico (em vez de um composto) na literatura persa medieval posterior, embora alguns argumentem que este pássaro pode ter se originado do grifo-leão da Mesopotâmia.

Origem e dispersão thumb|esquerda|180px|Um grifo em um relevo da cultura hitita thumb|esquerda|180px|Reprodução da decoração de uma ânfora da Cítia com dois grifos atacando um cavalo thumb|esquerda|180px|Capitel de coluna com cabeças de grifo em palácio da antiga Persépolis

Não se sabe ao certo qual a origem da figura do grifo, sendo propostas várias teorias. A que recebeu maior aceitação diz que a figura possivelmente é uma interpretação fabulosa de ossadas de dinossauros vistas por povos pré-históricos.Tsujita, Cameron J. "Mythology as a Conceptual Bridge for Teaching Science". In: The Western Conference on Science Education. Western University, 2019 Há evidências de que a criatura já estava presente na mitologia de povos nômades pré-históricos que viviam na região das Montanhas Altai.

Os mais antigos registros iconográficos foram encontrados no Egito e Elão, a leste da Mesopotâmia, em meados do ,Wyat, Nicolas. "Grasping the Griffin: Identifying and Characterizing the Griffin in Egyptian and West Semitic Tradition". In: Journal of Ancient Egyptian Interconnections, 2009; I (I):29-39 e depois a figura se dispersou em uma larga área do Oriente Próximo, incluindo a Mesopotâmia, Síria e Anatólia, com datações que variam de três a dois mil anos a.C.Wood, Juliette. Fantastic Creatures in Mythology and Folklore: From Medieval Times to the Present Day. Bloomsbury Publishing, 2018, pp. 99-106Basic, Rozmeri. "Between Paganism and Christianity: Transformation and Symbolism of a Winged Griffin". In: Ikon — Journal of Iconographic Studies, 2009; 2 O grifo pertence a uma grande família de seres híbridos alados encontrados nessas civilizações antigas, que incluem a esfinge, o touro alado, o leão alado, homens alados com cabeças de ave e suas variantes.

No Antigo Egito a figura parece ter derivado de combinações variáveis do leão, do falcão e da esfinge, atestadas desde o período pré-dinástico, e em sua forma clássica o mais antigo registro foi encontrado na Tumba Abusir, da 5ª Dinastia , onde o faraó é representado sob a forma de grifo derrotando seus inimigos. O grifo egípcio é também interpretado como uma manifestação do deus Hórus, que tinha a função de proteger os faraós,Lymer, Kenneth. "Griffins, Myths and Religion — a review of the archaeological evidence from ancient Greece and the early nomads of Central Asia". In: Art of the Orient, 2018 (7) além de ter funções de guardião de lugares sagrados e das fronteiras entre o mundo visível e invisível. Foi associado ao poder real e, através da sua condição de símbolos dos deuses Osíris e Seth, aos pares de opostos luz/trevas e vida/morte. Aparecem descritos num papiro como os seres mais poderosos da Terra e como representantes da dividade solar, e em tal qualidade eram os dispensadores de bênçãos e executores da vontade divina.

O grifo egípcio parece ter sido uma das origens das formas primitivas dos querubins e serafins da tradição semita e palestina, pois as palavras usadas para descrevê-los nos textos mais antigos parecem derivar de uma mesma raiz, assim como parecem ter desempenhado funções semelhantes no mito. Na Síria aparecem várias vezes em cilindros de argila com uma crista a partir do , e se tornaram um motivo proeminente na arte assíria e mitanita, onde as características leoninas predominaram e seu simbolismo estava ligado à destruição, possivelmente associado ao poder régio.

Foi também particularmente comum na Pérsia desde o Império Aquemênida, assim como em parte da Índia e regiões asiáticas influenciadas pelo zoroastrianismo e o lamaísmo, sendo um personagem importante em festividades, sacrifícios e rituais e na mitologia relacionada à morte e sepultamento, pois como predadores terríveis eram os responsáveis simbólicos pela destruição do corpo possibilitando o renascimento espiritual. Neste sentido sua imagem muitas vezes era fundida à de outros animais necrófagos, como os lobos e abutres, e nas tradições orais e literárias persas seu caráter régio, benéfico e miraculoso é invariavelmente enfatizado.Cheremisin, D. V. "On the Semantics of Animal Style Ornithomorphic Images in Pazyryk Ritual Artifacts". In: Archaeology Ethnology & Anthropology of Eurasia, 2009; 37 (1): 85–94 Também eram-lhes atribuídas qualidades como mediadores entre o céu e a terra e guardiães e protetores contra a calúnia, o mau-olhado e a feitiçaria.Adhikari, Swati Mondal. "Winged Animals: Mediator between Celestial and Terrestrial World". In: Journal of the Centre for Heritage Studies, 2018; 1: 7-18 thumb|Placa de bronze grega do período arcaico

A figura foi introduzida na cultura minoica provavelmente através da SíriaMorgan, Lyvia. "An Aegean griffin in Egypt: The hunt frieze at Tell el Dab'a". In: Ägypten Und Levante / Egypt and the Levant, 2010; 20: 303–323 por meio de imagens em tecidos, e na Grécia continental se consolidou a imagem clássica ocidental do grifo como um híbrido de águia e leão, com a cabeça, asas e patas dianteiras da ave e a parte posterior do corpo e cauda leoninos. Pode ter chifres, orelhas ou uma crista ao longo do pescoço. Nos séculos VII e se tornara um motivo decorativo muito comum em uma vasta região, encontrado sob a forma de pintura, gravura, tapeçaria ou escultura em monumentos, templos e altares, palácios, sepulturas, habitações, vasos, espelhos, arreios, joias e outros objetos utilitários da Grécia, Levante, Cáucaso, Pérsia, Síria, sul da Rússia, Afeganistão, Cazaquistão e outras regiões asiáticas.

É difícil interpretar com precisão o significado do grifo em todas essas várias culturas, e provavelmente desempenhava funções diferentes em cada uma delas, embora algumas características tenham sido muito comuns na maioria delas. Sua forma também teve variações. Às vezes o aspecto da águia é dominante, e noutras vezes tem mais características leoninas. Parecem ter sido mais comuns as associações mágicas e religiosas, aparecendo como criaturas protetoras de ambientes sagrados e como companheiros de deuses ou heróis, também foram um emblema frequentemente carregado de atributos de poder, dignidade e majestade, sendo usado por famílias reais ou pela nobreza, ou podiam ser um identificador de certos clãs, tendo associações com a ancestralidade e tradições familiares.

Grécia e Roma thumb|Relevo no antigo palácio de Cnossos, c. 1600– thumb|Um grifo luta com um arimaspo, detalhe de um vaso grego do

O grifo está presente no imaginário grego desde as origens minoicas e micênicas da sua civilização, provavelmente introduzido através de diversas fontes da Síria, Anatólia e Egito, quando aparece com ou sem asas, geralmente tem uma crista de plumas de pavão sobre o pescoço e pode ser adornado de joias.Rosch, Heather. "Emerging Evidence about Neolithic Western Anatolia: What can be Gained from Studying Architecture?" In: Chronika, 2017; VII: 1-10 No período arcaico geralmente é representado com um bico proeminente, orelhas pontiagudas, chifres, cabeça e asas de ave de rapina e corpo de leão.

No período clássico os chifres tendem a desaparecer e um pescoço coberto por uma crista se torna comum. Nesta época surgem as primeiras citações literárias do grifo. Na tragédia Prometeu acorrentado de Ésquilo os grifos são criaturas que devem ser temidas. Heródoto fala várias vezes dos grifos, mencionando que eram guardiãos do ouro de Plutão, defendendo-o da cobiça dos arimaspos, guerreiros de um só olho. Diz também que foram mencionados em um poema (perdido) de Aristeas de Proconeso, que foram usados como motivo decorativo pelos samianos, e que viviam em montanhas da Índia também guardando ouro, descrevendo-os como "aves de quatro patas tão grandes como lobos, suas patas e garras parecem com as do leão, as penas de seu peito são vermelhas, e as do corpo são pretas. Embora haja muito ouro nessas montanhas, é difícil obtê-lo por causa dessas aves"."Gryps". The Theoi Project Os dois autores usam a palavra γρυψ (gryps) para designá-los, significando "gancho" ou "curvo", possivelmente uma referência ao seu bico curvo.

Pausânias disse que seu corpo tinha manchas como o leopardo. Filóstrato referiu que os grifos da Índia eram venerados como animais sagrados de Hélio, o Sol. Disse que tinham as patas palmadas com membranas vermelhas, sua força excedia a dos elefantes e dragões, mas eram superados pelos tigres, e embora fossem alados não eram excelentes no voo, sendo capazes apenas de voos curtos por causa da forma inadequada das suas asas. thumb|left|180px|Grifo romano em relevo do Fórum de Trajano

Em Roma Cláudio Eliano os descreveu como nativos da Índia,