Arara-azul-grandeVocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), verbete arara-grande-azul (nome científico: Anodorhynchus hyacinthinus), também conhecida popularmente como arara-preta, araraúna, arara-hiacinta, arara-jacinto, araruna ou somente arara-azul, é a maior espécie de arara (tribo dos arinos, Arini) da família dos psitacídeos (Psittacidae) se comparado às outras três espécies de araras-azuis tipicamente sul-americanas — a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), a arara-azul-pequena (Anodorhynchus glaucus) e a ararinha-azul (Cyanopsitta spixiii). É nativa do centro e leste da América do Sul, onde ocorre na Bolívia, no Paraguai e no Brasil nas biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Com comprimento (do topo da cabeça até a ponta da longa cauda pontiaguda) de cerca de um metro, é mais comprida que qualquer outra espécie de arara e pode pesar até dois quilos. Embora geralmente seja facilmente reconhecida, pode ser confundida com a arara-azul-de-lear. Apresenta plumagem azul cobalto com pele nua amarela em torno dos olhos e fita da mesma cor na base da mandíbula. Seu bico parece maior que o próprio crânio. Devido a essas características, são alvo do tráfico, onde são exportadas para diversos países e acabam integradas a zoológicos, parques de diversão ou até mesmo coleções particulares de aves.

Sua alimentação, enquanto viver livremente, consiste basicamente dos frutos das palmeiras disponíveis no local, sendo principalmente da castanha do urucuri (Attalea phalerata) e do coco-de-espinho (Acrocomia aculeata). Costumam viver em bando, sendo consideradas aves sociais. São consideradas animais monogâmicos, devido a viverem com um mesmo parceiro durante toda a sua vida, sendo fiéis aos locais de alimentação e reprodução — utilizam este último várias vezes. O casal divide todas as tarefas em relação aos cuidados com os ninhos e os filhotes, só se separando após a morte de um dos indivíduos, onde não costumam se juntar a um novo parceiro e continuar a se reproduzir.

Já foi considerada espécie ameaçada, tal como a arara-azul-de-lear e a arara-azul-pequena, mas em 2014 foi retirada da lista brasileira de animais em extinção. No entanto, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN / IUCN), é considerada uma espécie vulnerável. A perda de habitat e a captura de aves selvagens para o comércio de animais de estimação têm causado grande impacto em sua população na natureza. Foi listada no anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES).

Etimologia O vernáculo arara é oriundo do tupi a'rara e serve de designação comum às aves da tribo dos arinos (Arini), da família dos psitacídeos (Psittacidae). Antônio Geraldo da Silva, em seu Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi (DHPT), parafraseou a explicação de José de Alencar sobre o tema, segunda a qual o termo originalmente era escrito ará para designar periquitos, mas os indígenas comumente repetiam a última sílaba para designar um aumentativo, em especial para se referirem à espécie maior do gênero. O termo foi registrado em 1576 como aráras e em cerca de 1584 como arara. Jacinto é uma referência à flor homônima do gênero Hyacinthus, também de coloração azul. Araraúna e araruna é uma junção de a'rara com o pospositivo tupi -una, "preto" ou "negro", que geralmente é reduzido como -um ou -u. O pospositivo ocorre a partir do e é utilizado na construção de vários termos de uso popular. Araraúna ocorre em cerca de 1584, enquanto araruna ocorre em cerca de 1584 como ararúna, em cerca de 1594 como arauna e em cerca de 1631 como araruna. O nome genérico Anodorhynchus vem do grego antigo anodōn, "sem dentes", e rhunkhos, "bico", e faz referência ao bico sem dentes de maxila sem entalhe. O epíteto específico hyacinthinus (lit. "jacintino(a)") deriva do grego antigo huakinthos e alude ao jacinto devido à cor azul predominante da espécie.

O nome "arara-azul" foi selecionado como nome vernáculo técnico para a espécie pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos1.

Taxonomia

miniaturadaimagem|upright=1.1|Vista de perto da cabeça, permitindo a visualização de seu típico bico curvado

O médico, ornitólogo e artista inglês John Latham descreveu pela primeira vez a arara-azul-grande em 1790 sob o nome binomial Psittacus hyacinthinus. Tony Pittman, em 2000, levantou a hipótese de que, embora a ilustração neste trabalho pareça ser de uma arara-azul-grande real, a descrição de Latham do comprimento da ave pode significar que mediu um espécime de arara-azul-de-lear. No entanto, a descrição de Latham foi baseada num espécime taxidérmico, que era o único que Latham sabia existir até 1822. Foi preparado a partir de um animal vivo originalmente pertencente a Lord Orford e dado ao agente de terras Parkinson para exibição na Coleção Leveriana depois que morreu.

No entanto, Latham menciona outro pássaro, que ele chama de 'arara-azul', supostamente do mesmo tamanho. Esta arara-azul já havia sido descrita no volume de Latham de 1781 de seu A general synopsis of birds como meramente uma variedade da arara-canindé (Ara ararauna), e foi anteriormente figurada na obra de Mathurin Jacques Brisson (1760), Patrick Browne (1756) e Eleazar Albin (1738) como uma arara encontrada na Jamaica. Albin, Browne e Brisson fazem referência a autores ainda mais antigos e afirmam que a ave também ocorre no continente, e Albin afirma que esta ave é a versão feminina da araracanga (Ara macao). Latham menciona que a proveniência dos psitacídeos em geral era muitas vezes confundida pelo fato de que as aves eram muito comercializadas em todo o mundo para fins de venda.

Descrição

A arara-azul-grande é uma ave de grande porte, podendo chegar a um metro de comprimento (três pés e três polegadas) — medindo da ponta do bico à ponta da cauda — e 1,20 metro de envergadura, sendo mundialmente a maior espécie da família dos psitacídeos. Seu peso varia de 1,7 quilo quando filhote (três libras e 12 onças) a 1,3 (duas libras e dez onças) quilo quando adulto. Cada asa tem 38,8–42,5 centímetros (15+1⁄4–16+3⁄4 polegadas) de comprimento. Possui predominância do azul cobalto em suas penas, em degradê da cabeça à cauda, sendo a parte debaixo das asas e sua cauda longa em preto. Além disso, apresenta amarelo intenso nas pálpebras, ao redor dos olhos e na pele em torno da mandíbula. Seu potente bico é preto, grande e curvado e a sua língua apresenta cor preta com faixa amarela nas laterais. As espécies da ordem da qual as araras-azuis-grandes pertencem são caracterizadas pelo bico curvado para baixo, crânio arredondado, mandíbula larga, pés com dois dedos para frente e dois dedos para trás e, principalmente, plumagem com cores intensas.

Habitat e distribuição geográfica

A arara-azul-grande ocorre hoje em três áreas principais na América do Sul: na região do Pantanal do Brasil, e adjacente ao leste da Bolívia e nordeste do Paraguai, nas regiões de Cerrado do interior leste do Brasil (Maranhão, Piauí, Bahia, Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais), e nas áreas relativamente abertas associadas ao rio Tocantins, rio Xingu, rio Tapajós e a ilha de Marajó no leste da Bacia Amazônica (Amazonas e Pará). Populações menores e fragmentadas podem ocorrer em outras áreas. A arara-azul-grande escapou ou foi deliberadamente solta na Flórida, nos Estados Unidos, mas não há evidências de que a população esteja se reproduzindo e só pode persistir devido a solturas ou fugas contínuas.

miniaturadaimagem|esquerda|Espécime no Disney's Animal Kingdom, na Flórida

Nas últimas décadas, a variedade conhecida na Bolívia aumentou. É bem conhecido do extremo sudeste do país perto da fronteira trinacional com Brasil e Paraguai, onde é considerado símbolo emblemático da região, e os moradores costumam alimentar as araras com milho, como galinhas (Gallus gallus domesticus). No início da década de 1990, tornou-se evidente que a espécie também ocorria na remota área do Parque Nacional Noel Kempff Mercado, algumas centenas de quilômetros ao norte. Acredita-se que a maior parte da população boliviana esteja na Área de Manejo Integrado San Matías, uma área com extenso pantanal. Os censos realizados em 2008, 2009, 2011 e 2014, revelaram números populacionais estáveis: respectivamente 231, 107, 134, e 166. A contagem de pássaros num terreno tão pantanoso e difícil de navegar é inerentemente inadequada. Os censos foram realizados visitando locais com avistamentos anteriores relatados, porém, nem sempre foi possível visitar todos os locais, a cobertura variou. Assim, em 2011, a população estimada anteriormente de cerca de 300 aves nesta área foi considerada bastante precisa. Um estudo de 2014 que correlacionou os avistamentos com o habitat e extrapolou isso para uma área maior descobriu que as aves ocorrem na parte norte da Área Natural, e uma população semelhante provavelmente também ocorre numa área de tamanho igual ao norte desta, fora da Área Natural. Em um artigo da Mongabay Latam de 2018, os guardas florestais relatam que há evidências anedóticas de que a população estava aumentando e se espalhando, à medida que mais avistamentos eram relatados pelos habitantes locais e a ave foi confirmada pela primeira vez em vários municípios adjacentes.

Prefere habitats semiabertos, um tanto arborizados. Geralmente evita florestas densas e úmidas e, em regiões dominadas por esses habitats, geralmente fica restrita à borda ou seções relativamente abertas (por exemplo, ao longo dos principais rios). Em diferentes áreas de sua distribuição, essas araras são encontradas em campos de cerrado, em florestas secas de espinhos conhecidas como caatinga e em palmeirais ou pântanos, particularmente o buriti (Mauritia flexuosa). Um estudo boliviano de 2014 na Área Natural de Manejo Integrado de San Matías, que correlacionou os avistamentos ao habitat, descobriu que áreas incluindo savanas inundadas sazonalmente, zonas úmidas e habitats de áreas antropogênicas intercaladas com um mosaico de savanas eram os melhores indicadores à presença das araras. O habitat preferido de longe foi o antrópico, que são principalmente fazendas de gado praticando pastagem extensiva nesta área. Os autores, no entanto, não ficaram muito impressionados com esses resultados e alertaram que a metodologia pode ser falha. Na região da Amazônia (menor grupo), são encontradas nas bordas da floresta tropical úmida, floresta de galeria e matas secas em locais de várzea ricas em palmeiras, em áreas abertas e ao longo de rios. No Brasil Central, são encontradas em áreas abertas a pastagem, nas veredas, associadas aos buritizais, no Cerrado, em áreas com secas temporárias, em chapadas e planaltos e nos vales dos paredões rochosos. Nesta região, seus ninhos encontram-se em ocos de palmeiras, árvores grandes com a copa em forma de guarda-chuva e/ou em falhas de paredões rochosos. Na região do Pantanal (maior grupo), são encontradas em áreas abertas e nas matas que possuem palmeiras ou acurizais, enquanto seus ninhos localizam-se tanto na borda ou interior de cordilheiras e capões quanto em áreas abertas para o pasto.

Ecologia

miniaturadaimagem|Espécime no Zoológico de La Palmyre, França miniaturadaimagem|Araras-azuis-grandes em seu habitat natural, no Pantanal