A República da China (), ou como é chamado na China de Era Republicana (民国时期), foi um período histórico na China, quando o Governo da República da China situado hoje em Taiwan, controlou a China Continental, de 1º Janeiro de 1912 até 7 de Dezembro de 1949. O período republicano, chamado hoje em Taiwan de Período Continental (大陆时期), foi uma etapa de grandes mudanças políticas, econômicas e sociais, marcada desde a Revolução Xinhai em 10 de Outubro de 1911, com a fundação da República da China em 1912, a brusca volta da monarquia por parte de Yuan Shikai em 1915 e a Era dos senhores da guerra como consequência da restauração. A segunda metade do período também foi protagonizado pela divisão do Partido Nacionalista da China, entre a facção direita com o Governo Nacional em Nanquim de Chiang Kai-shek, a facção esquerda sediada no Governo Nacional de Wuhan e liderada por Wang Jingwei, e por fim, o Partido Comunista da China que saiu do Partido Nacionalista para formar seu próprio governo e entidade politica a partir de 1º de Agosto de 1927, ínicio da Guerra Civil Chinesa. Após a vitória dos comunistas na guerra civil em 1949, sob a liderança de Mao Zedong, se pôs fim ao regime republicano no continente chinês, com a proclamação da nova República Popular Chinesa. O exército comunista, no entanto, nunca conseguiu ocupar a ilha de Taiwan, única província chinesa na qual se manteve até a atualidade o regime da República da China.

Antes da fundação da República da China, a China era governada pela Dinastia Qing. Em 10 de Outubro de 1911 eclode a Revolta de Wuchang em Wuhan, que era de caracter pró-Tongmenghui; Em Dezembro de 1911 a cidade de Nanquim é capturada e um governo provisório é criado lá, onde Sun Yat-sen, líder do Tongmenghui, é empossado como o primeiro presidente da República da China, e em 1º de Janeiro de 1912, proclama-a. Em Março de 1912, Sun Yat-sen, em troca da paz, entregou a presidência para o general Qing, Yuan Shikai, que forçou o imperador Pu Yi a renunciar; Yuan Shikai moveu a capital para Pequim e dissolveu a Assembléia Nacional em Nanquim, majoritariamente formado por membros do Partido Nacionalista da China, sucessor do Tongmenghui, que rapidamente se mobilizaram, acusando Shikai de tirania, declarando a Segunda Revolução. Yuan Shikai em 1915 proclamou o Império da China e os nacionalistas novamente se mobilizaram e deram inicio a Guerra de Proteção Nacional que acabou forçando Shikai a dissolver o império e renunciar a presidência. Após a morte de Yuan Shikai em 1916, seu Exército de Beiyang se dividiu em várias facções que viraram camarilhas que tomaram conta do governo chinês, no que ficou conhecido como Governo de Beiyang. O Partido Nacionalista da China se reorganizou no sul da China em 1917, e deu ínicio a "terceira revolução", chamada de Movimento de Proteção Constitucional, criando a Junta de Proteção Constitucional que mais tarde em 1921 virou o Governo da República da China em Guangzhou. Durante este periodo, as facções e exércitos na China se baseavam em:

Governo dos Senhores da Guerra (Beiyang): Baseado em Pequim, este governo era controlado, essêncialmente, pelos "senhores da guerra". Generais do antigo Exército de Beiyang de Yuan Shikai, agora morto, que se dividiram e passaram a controlar provincias chinesas e lutar entre sí em uma período de guerra civil que durou de 1916 até 1928. Governo da República da China em Guangzhou (Nacionalistas): O Partido Nacionalista, liderada por Sun Yat-sen, criou um governo paralelo no sul da China, e tinha como objetivo dissolver o Governo dos Senhores da Guerra e reunificar a China sob o controle do Partido Nacionalista e implementar a Ideologia Socialista do Kuomintang.

Este Governo em Guangzhou foi um estado revolucionário que formaria em 1927 o atual governo da República da China, mas antes disso, em 1925, o líder nacionalista, Sun Yat-sen, morreu, e o Partido Nacionalista passou a ser liderado pelo general do Exército Revolucionário, Chiang Kai-Shek, que era de direita e tinha muitas desavenças com a esquerda do partido, o que incluía também os comunistas, que desde 1921, faziam parte do Partido Comunista da China, que era integrado ao Partido Nacionalista. Depois do episódio conturbado do Massacre de Xangai em Abril de 1927, a facção esquerda expulsou Chiang Kai-Shek do partido e moveu a capital do governo revolucionário de Guangzhou para Wuhan, com apoio comunista. No entanto, Chiang Kai-Shek ainda possuia o controle do Exército, e capturou a cidade de Nanquim dos senhores da guerra e fundou lá um governo paralelo, esta divisão ficou conhecida como Divisão Nanjing-Wuhan:

Governo Nacional de Wuhan: Sediado na cidade de Wuhan, em Hubei, liderado por Wang Jingwei, era o governo da facção esquerda do Partido Nacionalista e pelo Partido Comunista, formado em Setembro de 1926 após a expulsão de Chiang Kai-Shek do partido. Governo Nacional da República da China: Sediado em Nanquim, era o governo formado por Chiang Kai-Shek, pela facção direita e seu exército, após ter sido expulso do partido.

Os governos de Wuhan e Nanquim apenas se reunificariam após o Golpe de Wuhan e a expulsão dos membros do Partido Comunista da China do Partido Nacionalista, que em 1º de Agosto de 1927 passaram a se revoltar contra os nacionalistas e pretendiam formar um governo totalmente comunista na China, dando ínicio a Guerra Civil Chinesa. Em 1928, os nacionalistas capturaram a Manchúria e dissolveram o governo de Beiyang, encerrando os conflitos dos senhores da guerra, em um período próspero chamado de Década de Nanquim, que durou até 1937 com a Segunda Guerra Sino-Japonesa que durou até 1945. Os conflitos entre os comunistas e nacionalistas retornaram em 1946 de forma muito mais intensa, no que culminou com a derrota daqueles em Dezembro de 1949 após moverem o governo de Nanquim para Taipé e Mao Zedong, líder comunista, proclamar a República Popular da China.

Origens

Desde o Século XVII, a China era um império absolutista, governado pela Dinastia Qing. Os Qings eram formados pela etnia Manchu, originários da região da Manchúria no nordeste da China; sua nobreza era baseada na familia Aisin Gioro e alguns poucos oficiais e líderes de etnia Han, principal da China e composta pela maior parte da população chinesa. Desde o final do século XVII, a legitimidade Dinastia Qing era contestada pelos chineses, como a Revolta dos Três Feudatórios em 1673, o que dava enfase ao Sentimento anti-Qing, compartilhado por uma boa parcela da população chinesa. A partir do século XIX, a situação da China Imperial foi agravada pelas derrotas militares frente às potências estrangeiras, como nas guerras do ópio, por exemplo, que levou muitos setores da classe média chinesa a proporem uma necessidade de reformas políticas que permitissem à China conseguir o desenvolvimento econômico e social que havia atingido as potências ocidentais e o Japão, especialmente, pois se tratava de um país asiático e que, como tal, muitos chineses viam como modelo a imitar. Como resposta, ocorreu a Reforma dos Cem Dias, que no entanto, não teve exito em sua proposta e não atingiu as expectativas após a imperatriz revogar as reformas; Até que os Qing deram inicio as Reformas Finais a partir de 1901. O Japão havia conseguido um desenvolvimento econômico destacado após a restauração Meiji, e muitos intelectuais defendiam a necessidade de que a China Imperial, empreendesse também reformas necessárias para se atingir um modelo de monarquia constitucional, mantendo-se assim a tradição imperial e, ao mesmo tempo, adotando um sistema político moderno, necessário para que a China pudesse acompanhar as revoluções industrial e tecnológica, saindo, dessa forma, de seu estado relativamente atrasado. Frente à estas correntes, outros reformadores mais radicais propunham, inclusive, a necessidade de dissolver a monarquia regida pela dinastia Qing, vista por muitos como uma dinastia "estrangeira", devido à sua origem manchu, e proclamar uma república. O ideólogo republicano mais importante dos últimos anos da dinastia Qing foi Sun Yat-sen, que já em 1895, depois de ter fundado a Sociedade para a Regeneração Chinesa (興中會, xīngzhōnghuì), tentou organizar uma revolução contra a dinastia Qing na cidade de Guangzhou. A revolta fracassou e Sun Yat-sen viu-se obrigado a fugir da China, num exílio que o levaria aos Estados Unidos e, posteriormente a Canadá, Europa e Japão. esquerda|miniaturadaimagem|307x307px|o Edifício de Zizhengyuan (imagem) iria servir como uma espécie de parlamento, e virou um simbolo das Reformas Finais Apesar das reformas institucionais levadas a cabo pela dinastia Qing, o descontentamento com o sistema continuava a aumentar, tornando-se especialmente grave nos últimos anos do e na primeira década do Século XX, período em que a China sofreu ainda mais derrotas militares. Particularmente grave para a consciência chinesa foi a derrota na Primeira Guerra Sino-Japonesa, que terminou em 1895 com a assinatura do Tratado de Shimonoseki, no qual a China perdia a sua influência sobre a Coreia, que passava a ser um protetorado japonês, e perdia também a soberania sobre a ilha de Taiwan, convertida em território japonês. Este descontentamento crescente provocou o aumento do número de seguidores do movimento republicano de Sun Yat-sen, na época exilado no Japão, que havia unido sua Sociedade de Regeneração Chinesa com outras organizações secretas, formando assim a Sociedade da Aliança (同盟會, tóngménghuì). A Sociedade da Aliança havia sido fundada em Tóquio, Japão, em 1905, e já protagonizava sucessivas revoltas contra a Dinastia Qing, que terminariam todas em fracasso; Foi com esta organização que sun Yat-sen promoveu pela primeira vez seu pensamento tridemista sobre a criação de uma China forte e independente, que promovia o nacionalismo, o anti-imperialismo, Autodeterminação, Anticapitalismo e posteriormente o que se tornaria a Ideologia Socialista do Kuomintang, o Bem-estar Social e o Conservadorismo social.

A Revolução Xinhai

Os acontecimentos que levaram à queda da dinastia Qing, é um período de Outubro 1911 a Janeiro de 1912 chamado Revolução Xinhai; Xīnhài (辛亥) é o nome do ano 1911 no calendário agrícola chinês tradicional, e a revolução que acabou com 2000 anos de história imperial desencadeou-se por uma explosão súbita, isto é, surpresa ou inesperada, na cidade de Hankou em 9 de outubro daquele ano. Hankou é uma das três cidades que constituem a tripla metrópole de Wuhan, na provincia de Hubei, um ponto estratégico no centro da China, e que possuía uma intensa atividade revolucionária clandestina, bem como um grande número de tropas do reformado Novo Exército Qing. Naquele 9 de outubro, um grupo de revolucionários encontrava-se a manipular explosivos que iam ser utilizados em atentados antimonárquicos, quando uma explosão inesperada provocou vários mortos e feridos. As tentativas de resgate dos feridos puseram as autoridades locais a par das actividades e das identidades de muitos implicados, e naquele mesmo dia levaram-se a cabo diversas execuções sumarias. No entanto, o exército Qing em Wuhan estava já infiltrado por muitos activistas republicanos que, depois do acidente, temiam ser descobertos; Estes decidiram lançar-se à ofensiva ao invés de esperar a reação das autoridades leais à corte Qing, e a 10 de outubro de 1911, o Oitavo Batalhão de Engenheiros de Wuchang se rebelou e toda Wuchang estava em mãos dos rebeldes. No dia seguinte, 11 de outubro, Hanyang, a terceira cidade de Wuhan, caiu em poder dos rebeldes, e a 12 de outubro ocorria o mesmo em Hankou. Desta maneira, em menos de três dias, Wuhan, a triple metrópole de Yangzi, estava em poder de um exército rebelde ao serviço da causa republicana, apesar da falta de organização do movimento. Na data do 10 de outubro, o "dobro 10" (雙十 / 双十 Shuāng Shí), converter-se-ia na festa nacional da República da China e, ainda hoje, se comemora como tal em Taiwan.