Abu Ubaide Abedalá ibne Abedalazize ibne Maomé ibne Aiube ibne Anre Albacri Alandalusi (; Alandalus, início do – Córdova, outubro–novembro de ), mais conhecido como Abu Ubaide Albacri ou simplesmente Albacri, foi um geógrafo, filólogo, homem de letras e botânico andalusino. Pertencente a uma família aristocrática dos becrita, era filho de , governante do pequeno principado de Huelva e Saltes até sua anexação por Almutadide de Sevilha em 1051–1052. Albacri recebeu ampla formação no Alandalus, tendo entre seus mestres o historiador Ibne Haiane, e manteve relações com diferentes cortes dos reinos de taifas. Apesar da extensão geográfica de seus escritos, aparentemente nunca deixou a Península Ibérica, compondo suas descrições de outras regiões a partir de obras anteriores, documentos e informações transmitidas por viajantes e outros informantes.
Considerado, ao lado de Dreses, um dos principais geógrafos do Ocidente islâmico medieval, Albacri destacou-se sobretudo por duas obras. O Muʿjam mā istaʿjam, concluído em 1069–1070, é um repertório de topônimos da Península Arábica mencionados na poesia da Jailia, no Alcorão e na literatura de hádice, reunindo informações geográficas, históricas, genealógicas e linguísticas. Sua principal obra, o al-Masālik wa-l-mamālik, concluído em 1068, pertence à tradição islâmica dos livros de rotas e reinos e descreve cidades, povos, itinerários e regiões do mundo conhecido. Embora preservado apenas parcialmente, distingue-se particularmente pelas informações relativas ao Alandalus, Magrebe, Ifríquia e Sudão, combinando geografia com materiais de natureza política, social, econômica e etnográfica. Suas descrições constituem fontes importantes para a história do Ocidente islâmico, incluindo os idríssidas e as origens dos almorávidas.
A produção de Albacri estendeu-se ainda à filologia, literatura, religião e botânica. Escreveu comentários e correções às obras de Alcali, entre eles o Simṭ al-laʾālī fī sharḥ Amālī al-Qālī, trabalhos sobre poesia, língua e tradições árabes e o perdido Kitāb al-Nabāt, dedicado à botânica e utilizado por naturalistas posteriores como Ibne Albaitar. Sua amplitude de interesses levou Lévi-Provençal a caracterizá-lo como um mushārik, erudito versado em diversos campos do conhecimento. Albacri viveu durante as transformações que conduziram do período dos reinos de taifas à intervenção almorávida no Alandalus e morreu em Córdova em Xaual de 487 A.H. (outubro–novembro de 1094).
Vida
Albacri nasceu em data incerta, provavelmente no início do , no Alandalus. Pertencia a uma família aristocrática dos becritas, estabelecida no sudoeste da Península Ibérica. Seu pai, , governou o pequeno principado de Huelva e Saltes, constituído em 403 A.H. (1012–1013), durante a desagregação do Califado de Córdova. Segundo a tradição seguida por Évariste Lévi-Provençal, Abedalazize foi o único soberano desse domínio ou sucedeu nele ao próprio pai, . O principado situava-se na costa atlântica do sul da Península Ibérica, a oeste de Niebla, e permaneceu independente até 443 A.H. (1051–1052), quando a pressão exercida pelo governante abádida de Sevilha, Almutadide, obrigou Abedalazize a entregar-lhe seus territórios, que foram incorporados aos domínios sevilhanos. Depois da perda do principado, Albacri acompanhou o pai para Córdova, escolhida como nova residência sob a proteção, ao menos nominal, do governante , dos jauáridas. Outra tradição afirma que pai e filho se retiraram para a própria Sevilha, possibilidade que Lévi-Provençal considera plausível. Abedalazize morreu por volta de 456 A.H. (1064). Albacri recebeu uma formação ampla e tornou-se conhecido ainda relativamente jovem nos círculos eruditos andalusinos. Entre seus mestres esteve o historiador Ibne Haiane, além de outros estudiosos de renome. Manteve relações com diferentes cortes dos reinos de taifas, particularmente com os de Almeria, e sua posição social e erudição facilitaram seu contato com os ambientes cortesãos e intelectuais do Alandalus.
Apesar da extraordinária extensão geográfica de seus escritos, não há evidência de que Albacri tenha viajado ao Oriente islâmico ou às regiões do Norte da África que descreveu detalhadamente. Sua atividade intelectual parece ter-se desenvolvido inteiramente no Alandalus, e seus conhecimentos sobre territórios que não visitara foram obtidos através de obras anteriores, documentos e informações de viajantes e outros informantes. Sua formação e seus interesses eram excepcionalmente variados. Embora tenha alcançado maior reputação como geógrafo, dedicou-se também à filologia, literatura, teologia e botânica, além de cultivar a poesia. Lévi-Provençal caracteriza-o como um típico mushārik, isto é, um erudito versado em diversos campos do saber. As fontes preservaram inclusive alguns de seus versos báquicos, ao mesmo tempo que lhe atribuem uma refutação dirigida contra um bebedor inveterado. Foi também descrito como bibliófilo, cuidadoso com seus manuscritos, que conservava envoltos em tecidos finos. Quando os almorávidas intervieram militarmente no Alandalus e começaram a depor sucessivamente os governantes dos reinos de taifas, Albacri já havia composto a maior parte de sua extensa produção e reunido grande quantidade de materiais para suas obras. Estabeleceu-se posteriormente em Córdova, que Iúçufe ibne Taxufine restaurou à condição de principal centro político do Alandalus sob o domínio almorávida. Ali morreu em Xaual de 487 A.H. (outubro–novembro de 1094), em idade avançada. fornece alternativamente o ano de 496 A.H. (1102–1103), mas a data de 487 A.H. é a geralmente aceita. Adabi atribui-lhe ainda o título de dhu l-wizāratayn, "possuidor dos dois vizirados".
Obras
A produção de Abu Ubaide Albacri abrangia geografia, filologia, literatura, religião e botânica, refletindo a amplitude de sua formação. Embora sua reputação posterior se deva sobretudo às obras geográficas, escreveu também numerosos trabalhos de língua e literatura. Entre estes estava o al-Tanbīh ʿalā awhām Abī ʿAlī fī Kitāb al-Nawādir, também referido como Kitāb al-Tanbīh ʿalā aghlāṭ Abī ʿAlī fī Amālīhi, no qual assinalou e corrigiu erros encontrados no al-Amālī de Alcali. A obra foi posteriormente publicada juntamente com o al-Amālī. Albacri dedicou ao mesmo autor um trabalho mais extenso, o Simṭ al-laʾālī fī sharḥ Amālī al-Qālī (), comentário ao conjunto do al-Amālī no qual reuniu explicações, correções e materiais adicionais à obra de Alcali, posteriormente editado por ʿAbd al-ʿAzīz al-Maymanī e publicado no Cairo em 1936. Albacri escreveu ainda dois comentários sobre obras de . O Ṣilat al-mafṣūl fī sharḥ abyāt al-Gharīb al-muṣannaf comentava os versos citados no al-Gharīb al-muṣannaf, enquanto o Faṣl al-maqāl fī sharḥ Kitāb al-Amthāl () era dedicado à coletânea de provérbios Kitāb al-Amthāl. Este último sobreviveu e foi publicado em edição preparada por Iḥsān ʿAbbās e ʿAbd al-Majīd ʿĀbidīn no Cairo em 1958.
Entre outros escritos linguísticos e literários que lhe são atribuídos figuram al-Iḥṣāʾ li-ṭabaqāt al-shuʿarāʾ, sobre as classes de poetas, Ishtiqāq al-asmāʾ, Shifāʾ ʿalīl al-ʿArabiyya e al-Tadrīb wa-l-tahdhīb fī ḍurūb aḥwāl al-ḥurūb. Outra obra, aparentemente perdida, era o al-Muʾtalif wa-l-mukhtalif, dedicado aos nomes das tribos árabes. atribui-lhe também uma obra, cujo título não registra, acerca dos sinais da missão profética de Maomé. No campo da botânica, Albacri compôs o Kitāb al-Nabāt (), obra atualmente perdida e conhecida por referências de autores posteriores. O trabalho pertencia à tradição andalusina de tratados de botânica descritiva organizados alfabeticamente e concentrava-se sobretudo nas plantas da Península Ibérica. Serviu de fonte para naturalistas posteriores, entre eles , e Ibne Albaitar.
Geografia
A reputação de Albacri repousa sobretudo em duas grandes obras geográficas, o Muʿjam mā istaʿjam e o al-Masālik wa-l-mamālik. Concluído em 462 A.H. (1069–1070), o Muʿjam mā istaʿjam min asmāʾ al-bilād wa-l-mawāḍiʿ () é um repertório geográfico dedicado principalmente aos topônimos da Península Arábica mencionados na poesia da Jailia, no Alcorão e na literatura de hádice. Albacri procurou reunir informações históricas e geográficas sobre esses lugares e esclarecer formas de escrita e pronúncia que haviam se tornado objeto de divergência ou corrupção na transmissão. Após uma introdução sobre a geografia da antiga Arábia e a distribuição territorial das principais tribos árabes, os topônimos são apresentados em ordem alfabética. O Muʿjam possui especial importância para a interpretação da antiga poesia árabe e das tradições nas quais aparecem topônimos cuja identificação já apresentava dificuldades para os estudiosos medievais. Ao reunir materiais geográficos, históricos, genealógicos e literários, Albacri preservou numerosas informações relativas à ocupação tribal da Arábia. A obra chegou aos tempos modernos e foi publicada por Ferdinand Wüstenfeld em Gotinga entre 1876 e 1877, recebendo posteriormente outras edições.
Sua obra geográfica mais importante, contudo, foi o al-Masālik wa-l-mamālik (), "Os caminhos e os reinos", concluído em 460 A.H. (1068). Concebido segundo a tradição dos livros de rotas e reinos da geografia islâmica, descrevia itinerários, cidades, regiões e povos, indicando distâncias entre localidades e etapas de viagem. Seu âmbito geográfico era amplo e abrangia diferentes partes do mundo conhecido pelos geógrafos muçulmanos, embora sejam particularmente importantes as seções dedicadas ao Alandalus, Magrebe, Ifríquia e Sudão. Albacri ultrapassou a simples elaboração de um roteiro geográfico e incorporou à obra grande quantidade de informações de natureza política, social, econômica e etnográfica. Essa combinação conferiu ao al-Masālik particular importância para o conhecimento do Ocidente islâmico medieval. O al-Masālik wa-l-mamālik não sobreviveu integralmente, conservando-se extensos fragmentos de diferentes partes da obra. Seu volume introdutório tratava de geografia geral e de povos muçulmanos e não muçulmanos, enquanto outras partes descreviam diferentes regiões do mundo islâmico e de fora dele. As descrições de cidades distinguem-se frequentemente pela precisão, e o material toponímico referente ao Magrebe, à Ifríquia e ao Sudão é particularmente abundante. Seus relatos históricos constituem igualmente fontes importantes: Lévi-Provençal destaca, entre outros, os relatos sobre os idríssidas e as origens dos almorávidas, que considera fundamentais para o conhecimento dessas dinastias.