Jorge VI (nascido Alberto Frederico Artur Jorge, em inglês: Albert Frederick Arthur George; Norfolk, — Norfolk, ) foi Rei do Reino Unido e dos Domínios Britânicos de 1936 até sua morte em 1952, como também foi o último Imperador da Índia até agosto de 1947. Segundo filho de Jorge V, não era esperado que herdasse o trono, o que fez com que passasse parte de sua vida sob a sombra da popularidade de seu irmão mais velho, Eduardo. Serviu à marinha e à força aérea durante a Primeira Guerra Mundial, retomando seus compromissos públicos usuais após o término do conflito. Casou-se com Isabel Bowes-Lyon em 1923 e teve duas filhas: Isabel e Margarida.
Em 1936, com a morte de seu pai, seu irmão mais velho ascendeu ao trono como Eduardo VIII. No entanto, menos de um ano depois, o novo rei manifestou o interesse de casar-se com a socialite norte-americana Wallis Simpson, com quem já mantinha um relacionamento. Advertido pelo primeiro-ministro Stanley Baldwin de que razões políticas e religiosas impediam tal consórcio, Eduardo VIII decidiu abdicar em favor de Jorge, que se tornou o terceiro monarca da Casa de Windsor.
Durante o reinado de Jorge VI, acelerou-se o processo de desmembramento do Império Britânico e sua transição para a Comunidade de Nações. No dia de sua ascensão, o Oireachtas, parlamento do Estado Livre Irlandês, retirou a menção direta ao monarca de sua Constituição, declarando formalmente a república e deixando a Comunidade de Nações em 1949. Em 1939, o Império e a Comunidade de Nações, com exceção da Irlanda, declararam guerra à Alemanha Nazista. Nos dois anos seguintes, declarou-se guerra também à Itália e ao Japão. Embora o Reino Unido e seus aliados tenham saído vitoriosos do conflito, os Estados Unidos e a União Soviética elevaram-se como proeminentes potências mundiais, enquanto o Império Britânico declinava. Em junho de 1948, pouco menos de um ano após a independência da Índia e do Paquistão, Jorge abandonou o título de Imperador da Índia, mas manteve o status de rei de ambos os países (a Índia se tornaria uma república em 1950, como país-membro da Comunidade de Nações). Nessa época, o rei adotou o novo título de Chefe da Comunidade Britânica. Atormentado por problemas de saúde nos últimos anos de seu reinado, Jorge VI morreu em 1952, sendo sucedido por sua filha primogênita, Isabel II do Reino Unido.
Biografia Infância e juventude thumb|left|Quatro reis, em foto de 1908: Eduardo VII (extrema direita), seu filho, o futuro Jorge V (extrema esquerda), e seus netos, os futuros Eduardo VIII (ao fundo) e Jorge VI (à frente). Jorge VI nasceu no York Cottage, em Sandringham House, durante o reinado de sua bisavó, a rainha Vitória. Seu pai era o príncipe Jorge, duque de Iorque (futuro Jorge V), segundo filho e herdeiro dos príncipes de Gales (futuros rei Eduardo VII e rainha Alexandra). Sua mãe era a duquesa de Iorque (futura rainha Maria), filha mais velha do duque e da duquesa de Teck.
Seu nascimento, em 14 de dezembro de 1895, ocorrera em pleno aniversário da morte de seu bisavô, o príncipe consorte Alberto. O príncipe de Gales escreveu ao filho informando que a rainha Vitória havia recebido "bastante angustiada" a notícia do nascimento. Dois dias depois, ele escreveu novamente: "Penso realmente que agradaria a ela se você se lhe propusesse o nome de Alberto". A rainha acalmou-se com a proposta de dar ao novo príncipe o nome de Alberto e escreveu à duquesa de Iorque: "Estou impaciente para vê-lo; nascido num dia tão triste, mas um pouco mais caro para mim, especialmente porque ele vai ser chamado por esse nome querido, que é sinônimo de tudo o que é grande e bom." Consequentemente, ele foi batizado três meses depois como "Alberto Frederico Artur Jorge", na Igreja de Santa Maria Madalena, próximo de Sandringham. Como bisneto da rainha Vitória, foi chamado formalmente de "Sua Alteza o Príncipe Alberto de Iorque" desde seu nascimento. Em família, entretanto, era chamado informalmente de "Bertie". Sua avó materna, a duquesa de Teck, não gostou do primeiro nome dado ao bebê e escreveu profeticamente que esperava que o último nome "pudesse suplantar aquele menos favorável". Alberto, como era conhecido, foi o quarto na linha de sucessão ao trono desde seu nascimento, atrás de seu avô, seu pai e seu irmão mais velho, Eduardo. Em 1898, a rainha Vitória emitiu cartas-patentes concedendo aos filhos do filho mais velho do príncipe de Gales o tratamento de "Alteza Real" e, aos dois anos de idade, Alberto tornou-se "Sua Alteza Real o Príncipe Alberto de Iorque".
Alberto sofria de problemas de saúde e foi descrito como "facilmente assustável e algo propenso às lágrimas". Seus pais, o duque e a duquesa de Iorque, geralmente não participavam da educação ou do aprendizado diários dos filhos, como era comum entre as famílias aristocráticas da época. Ele teve gagueira por muitos anos e foi forçado a escrever com a mão direita, embora fosse naturalmente canhoto. Alberto também sofria de problemas estomacais crônicos e de joelho valgo - que o obrigaram a usar dolorosas talas corretivas.
Quando seu avô tornou-se o rei Eduardo VII, em 1901, Alberto passou a ser o terceiro na linha sucessória.
Educação e carreira militar Em 1909, Alberto ingressou como cadete na Royal Naval College de Osborne. Em 1911, apesar de suas notas nos exames finais ficarem abaixo da média de sua turma, ele foi promovido para o Britannia Royal Naval College, em Dartmouth. Com a morte de Eduardo VII em 1910, o pai de Alberto assumiu o trono, como Jorge V, e seu irmão mais velho tornou-se príncipe de Gales, fazendo com que Alberto se tornasse o segundo na linha de sucessão ao trono. thumb|right|250px|O príncipe Alberto em um jantar da RAF, com Hugh Trenchard (centro) e Christopher Courtney (à direita), em 1919. Alberto passou os seis primeiros meses de 1913 em treinamento no navio HMS Cumberland, nas Índias Ocidentais e na costa leste do Canadá. Em 15 de setembro desse ano foi promovido a guarda-marinha e passou três meses no Mediterrâneo a bordo do HMS Collingwood, onde seus colegas deram-lhe o apelido de "Sr. Johnson". Um ano após essa missão, Alberto tomou parte da Primeira Guerra Mundial, sendo mencionado nos despachos por sua ação como oficial de torre a bordo do Collingwood durante a Batalha da Jutlândia (31 de maio a 1 junho de 1916), um embate de resultados incertos com a marinha alemã que constituiu a maior ação naval da guerra. Entretanto, devido a uma úlcera péptica – que o levaria a ser operado em novembro de 1917 –, ele não viu o avançar do combate. Em fevereiro de 1918, foi nomeado oficial encarregado pelos meninos no centro de treinamento do Royal Naval Air Service, em Cranwell. Dois meses depois, com a criação da Real Força Aérea e a consequente transferência da Royal Naval Air Force para seu controle, Alberto transferiu-se da marinha para a aeronáutica, sendo nomeado oficial comandante do Number 4 Squadron of the Boys' Wing, onde permaneceu até agosto de 1918. Ele foi o primeiro membro da família real a ser certificado como piloto totalmente qualificado. Nas últimas semanas da guerra, serviu na equipe da RAF junto à Independent Air Force, em sua sede em Nancy, França. Com a dissolução da Independent Air Force, em novembro de 1918, Alberto permaneceu no continente por dois meses, como oficial do estado-maior da Real Força Aérea, antes de retornar à Grã-Bretanha.
Em Outubro de 1919, Alberto foi para o Trinity College em Cambridge para estudar História, Economia e Educação Cívica por um ano. Em 4 de junho de 1920, foi nomeado duque de Iorque, conde de Inverness e barão de Killarney. Ele começou a assumir mais tarefas reais, representando seu pai em visitas a minas de carvão, fábricas e ferrovias. Tais visitas lhe renderam o apelido de "Príncipe Industrial".Current Biography 1942, p. 280 Sua gagueira e o constrangimento que ela lhe causava, aliada à sua tendência à timidez, fez com que ele parecesse muito menos impressionante que seu irmão mais velho. No entanto, ele era fisicamente ativo e gostava de jogar tênis. Alberto interessava-se pelas condições de trabalho da população e chegou a presidir a Industrial Welfare Society. A série de acampamentos de verão para meninos promovidos pelo príncipe entre 1921 e 1939, reuniu crianças de diferentes classes sociais.
Casamento Numa época em que era hábito membros da realeza desposarem seus pares, era incomum que Alberto tivesse tanta liberdade para escolher sua futura esposa. Na juventude, Alberto envolveu-se romanticamente com a socialite Sheila Chisholm, na altura já casada, e Poppy Baring, chegando a propor casamento a esta última, o que foi rechaçado pela rainha Maria que alegou má reputação da noiva. Em 1920, o príncipe reencontrou a jovem lady Isabel Bowes-Lyon (a quem não via desde a infância), filha mais nova do conde e da condessa de Strathmore e Kinghorne. Alberto estava determinado a desposá-la, mas a pretendente recusou duas vezes suas propostas (em 1921 e 1922) - alegadamente por sua relutância em submeter-se aos sacrifícios necessários para fazer parte da família real. Nas palavras da mãe de lady Isabel, a escolha do príncipe por sua filha faria dele alguém vitorioso ou arruinado. Após um longo namoro, Isabel aceitou seu pedido de casamento.
Eles se casaram em 26 de abril de 1923 na Abadia de Westminster. A recém-criada BBC desejava gravar e transmitir o evento pelo rádio, mas o capítulo da abadia vetou a ideia (embora o deão Herbert Edward Ryle fosse a favor). Após o casamento, lady Isabel foi nomeada "Sua Alteza Real a Duquesa de Iorque". A união de Alberto com uma plebeia britânica foi considerada um gesto de modernidade.
Entre dezembro de 1924 a abril de 1925, o duque e a duquesa visitaram o Quênia, Uganda e Sudão, viajando através do Canal de Suez e Áden. Durante a viagem, eles participaram do big game hunting.
Devido à sua gagueira, Alberto temia falar em público. Depois de seu discurso de encerramento na British Empire Exhibition em Wembley, em 31 de outubro de 1925 - um suplício para ele e seus ouvintes -, ele começou a tratar-se com Lionel Logue, um terapeuta da fala australiano. O duque e Logue faziam exercícios de respiração, que a duquesa praticava pacientemente com o marido. O treinamento permitiu que, posteriormente, ele fosse capaz de falar com menos hesitação.Current Biography 1942, pp. 294–295 Mais desenvolto, o duque fez o discurso de abertura do parlamento de Canberra, durante uma excursão pelo Império em 1927. Sua viagem por mar para a Austrália, Nova Zelândia e Fiji levou-o à Jamaica, onde Alberto jogou uma partida de tênis em dupla com um homem negro - o que era incomum para a época e foi tomado localmente como uma demonstração de igualdade racial.
O duque e a duquesa de Iorque tiveram duas filhas: Isabel (chamada familiarmente de "Lilibet") e Margarida. A família vivia uma vida relativamente tranquila em sua residência londrina - no número 145 da avenida Piccadilly - e era descrita como unida e amorosa. Uma das poucas agitações que sofreram até então surgiu quando o primeiro-ministro canadense, Richard Bedford Bennett, sugeriu o nome do duque para governador-geral do Canadá em 1931, uma proposta que o rei Jorge V rejeitou a conselho de seus ministros.
Reinado Rei relutante thumb|right|230px|Pintura de sir Gerald Kelly retratando Jorge VI com o Cetro de Santo Eduardo (ornado pelo diamante Cullinan I, de 530 quilates) e a Coroa Imperial do Estado (à direita).
Jorge V tinha sérias reservas em relação ao príncipe Eduardo e chegou a declarar: "Peço a Deus que meu filho mais velho nunca se case e que nada fique entre Bertie e Lilibet e o trono". Com sua morte, em 20 de janeiro de 1936, o então príncipe de Gales ascendeu ao trono como Eduardo VIII. No Westminster Hall, durante a Vigília dos Príncipes, Alberto e seus três irmãos revezaram-se nas extremidades do catafalco onde o caixão fechado do pai foi depositado.