Mecópteros (Mecoptera; do grego Mecos= longo, e ptera= asas), é uma ordem de insetos relativamente pequena, com aproximadamente 550 espécies descritas, das quais 90% pertence às famílias Panorpidae e Bittacidae, sendo muito comuns no hemisfério norte. Entretanto, há um total de 9 famílias já identificadas.

thumb|Um macho de Panorpa communis

Os indivíduos adultos geralmente apresentam dois pares de asas estreitas e longas, que dão nome ao grupo, antenas e pernas longas e delgadas e um rostro ventral alongado formado pelas peças bucais mastigadoras, o que confere à cabeça um formato peculiar característico desta ordem. O corpo é dividido em cabeça, tórax e abdômen, tendo este último onze segmentos. Em Panorpidae, o abdômen do macho termina em uma estrutura similar ao ferrão de um escorpião, que é o responsável pelo nome popular de mosca-escorpião dado à ordem, mas que na verdade configura a genitália masculina, não sendo, portanto, capaz de inocular veneno.

Geralmente, membros da ordem Mecoptera são encontrados em locais úmidos, como florestas, apresentando hábito voador diurno. Possuem hábitos alimentares que variam de espécie a espécie, podendo ser herbívoros, predar outros insetos ou consumir néctar.

História do grupo Histórico taxonômico A ordem Mecoptera conhecida hoje em dia foi criada em 1886 por Packard e orginalmente chamada de Mecaptera devido às longas asas dos animais. Em 1895, porém, Comstock alterou o nome para Mecoptera e este vem sendo usado desde então para designar esta ordem de insetos.SHI-TAO, Yie . Introduction. In: SHI-TAO, Yie . The Biology of Formosan Panorpidae and Morphology of Eleven Species of their Immature Stages. Taipeh: National Taiwan University, 1951. p. 3. Disponível em: Memoirs of the College of Agriculture, National Taiwan University, vol. 2, nº 4CARPENTER, Frank M. The Biology of the Mecoptera. Psyche: A Journal of Entomology, [s.l.], v. 38, n. 1, p.41-55, mar. 1931. Hindawi Limited.

Anterior a essa data (1886), porém, mecópteros eram considerados membros da ordem Diptera, que inclui as moscas e os mosquitos, estando a primeira referência a eles presente no livro “De animalibus insectis libri septem, cum singulorum iconibus ad vivum expressis”, publicado em 1602 por Ulisse Aldrovandi. Esta é, na verdade, a primeira referência definitiva à Mecoptera presente na literatura. Estudiosos acreditam, porém, que no livro “História Natural” de Plínio, o Velho, a referência à escorpiões com asas possa, na verdade, se referir à machos de Panorpidae, família que possui órgão reprodutor similar ao ferrão de um escorpião. De acordo com Figuier, autor de “Les Insectes” (1867), o mesmo valeria para Aristóteles, porém parece haver discordâncias quanto à veracidade dessa afirmação, uma vez que, em sua obra “De Partibus Animalium”, o filósofo e naturalista afirma que escorpiões não são capazes de voar.

Diversidade Trata-se de um grupo com poucas espécies quando comparado com outras classes de insetos, como por exemplo Diptera que possui cerca de 150.000 espécies descritas, contando atualmente com 550 espécies e nove famílias. A ordem é cosmopolita, ou seja, podem ser encontrados em todo o mundo, com exceção da Antártica, muito embora sejam mais comuns em ambientes temperados e subtropicais úmidos.

Estudos mostram que as regiões australianas, neoárticas e regiões neotropicais, possuem grande diversidade nos níveis de família e gênero, mas relativamente poucas espécies. Já as regiões etíopes, orientais e paleárticas apresentam pequena diversidade ao nível de família e gênero, mas grande diversidade ao nível de espécies.

thumb|Bittacus sp.

thumb|Ilustração de um Boreus sp.

thumb|Austromerope brasiliensis, espécie brasileira da família Meropeidae

thumb|Bittacus sp., conhecidas como hanging flies, inglês para moscas que se penduram.

Em dados aproximados por região:

Australianas: 5 famílias, 11 gêneros,  27 espécies; Neoárticas: 5 famílias, 7 gêneros,  72 espécies; Neotropicais: 3 famílias, 9 gêneros, 34 espécies; Etíopes:  1 famílias, 2 gêneros,  53 espécies; Orientais: 2 famílias, 4 gêneros,  190 espécies; Paleárticas: 3 famílias, 4 gêneros, 94 espécies.

Outra análise importante se dá em relação a escassez aparente de Mecoptera em ilhas. Por exemplo, nenhuma espécie foi encontrada na ilha de Madagascar, embora diversas espécies são registradas a partir de regiões próximas da África. Nas ilhas do pacífico sul ocorre apenas uma endemia de espécie na Nova Zelândia. No Caribe a ocorrência de Mecoptera é conhecida apenas na ilha de Trinidade.

No Brasil conhecem-se cerca de 23 espécies, sendo a maioria do gênero Bittacus (16 espécies), seguida por Issikiella (3 espécies), Nannobittacus (2 espécies) e Pazius (2 espécies).

Apesar de atualmente ser considerada uma das ordens de insecta com menor número de representantes, há um longo registro fóssil, com aproximadamente 400 espécies distribuídas em mais de quinze famílias distintas, indicando grande diversidade evolutiva do grupo.PENNY, Norman D.; BYERS, George W.. A Check -List of the Mecoptera of the World. Acta Amazonica, [s.l.], v. 9, n. 2, p.365-368, 1979. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/aa/v9n2/1809-4392-aa-9-2-0365.pdf>. Acesso em: 20 maio 2018.ARNETT, Ross H.. Order 28. Mecoptera. In: ARNETT, Ross H.. American Insects: A Handbook of the Insects of America North of Mexico. 2. ed. Florida: Crc Press, 2000. p. 832-834. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=DKzAmSDdLtsC&printsec=frontcover&hl=pt-BR#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 26 maio 2018.

Os exemplares mais velhos de Mecoptera são fosseis de Nannochoristidae que remontam ao Permiano Superior (259.8 Ma – 251.902 Ma).WILLMANN, Rainer. Evolution und Phylogenetisches System der Mecoptera (Insecta: Holometabola). Abhandlungen Der Senckenberg Gesellschaft Für Naturforschung, Stuttgart, v. 544, n. --, p.1-153, 1989. Registros mais antigos que são encontrados geram problemas quanto à classificação porque são fósseis de asas isoladas, e a venação das asas de mecopteros basais difere pouco da condição ancestral de Antliophora e de Amphiesmenoptera. Dessa forma, esses exemplares mais antigos podem tanto pertencer a uma porção basal de Mecoptera quanto a outros clados mecopteróides de Mecopteroidea.

A diversificação do grupo ocorreu durante o Mesozoico, sendo que todas as famílias viventes já existiam no final do Cretáceo.

Famílias Apteropanorpidae Panorpodidae Notiothaumidae/Eomeropidae Meropeidae Nannochoristidae Choristidae Boreidae Bittacidae Panorpidae

Morfologia Externa Possuem forma similar à dos dípteras da família tipulidae, com corpo alongado e fino, cabeça vertical hipognata com um prolongamento bicudo (em um rostro formado pelo clípeo, labro e gena), dirigido para baixo, onde, em sua extremidade, são encontradas as peças bucais.

Os mecópteras possuem desenvolvimento indireto, isto é, apresentam forma larval e forma adulta que diferem significativamente em suas morfologias e passam por um estágio de pupa.

Ovos Os ovos de Mecoptera são poliédricos ou esféricos e possuem córion duro. Para eclodirem necessitam de temperaturas adequadas e ambiente úmido, uma vez que absorvem a água para iniciarem o processo, aumentando de tamanho. A ausência das condições ideais leva geralmente a estágios de quiescência, em que podem permanecer por um longo período de tempo.ISABELA, Daniel Grustán. Orden Mecoptera. Revista Ide@ Sea, [s.l.], v. --, n. 60, p.1-10, jun. 2015. Disponível em: <http://sea-entomologia.org/IDE@/revista_60.pdf>. Acesso em: 27 maio 2018.

Larva Por serem organismos holometábolos, os Mecoptera apresentam forma larval após a eclosão do ovo. Neste estágio, são classificadas como eruciformes, possuindo corpo cilíndrico e cabeça, olhos e mandíbulas esclerotizadosMEYER, John R.. Mecoptera. 2016. Disponível em: <https://projects.ncsu.edu/cals/course/ent425/library/compendium/mecoptera.html>. Acesso em: 26 mar. 2018., ou seja, endurecidos. Possuem antenas curtas, três pares de patas torácicas pouco articuladas e podem apresentar 8 pares de falsas-patas abdominais para locomoção e/ou formações abdominais nos últimos segmentos para fixação ao substrato e locomoção.COMMONWEALTH SCIENTIFIC AND INDUSTRIAL RESEARCH ORGANISATION (Austrália). Mecoptera: scorpion flie. Disponível em: <http://www.ento.csiro.au/education/insects/mecoptera.html>. Acesso em: 26 mar. 2018.

Os espiráculos estão presentes no protórax (dois) e no abdômen (oito). Neste último também podem ser encontradas estruturas prolongadas que são usadas na camuflagem (crípse).

As larvas apresentam glândulas labiais sericígenas e peças bucais mastigadoras. Em Panorpa, Neopanorpa e Chorista, tem destaque a presença de olhos compostos com 30 ou mais omatídios, uma vez que não se é conhecida a presença de tais órgãos sensoriais em larvas de qualquer outro inseto holometábolo. Também estão ausentes os ocelos nesses mesmos três gêneros.

Pupa As pupas de Mecoptera ficam localizadas nas câmaras escavadas no solo ou na madeira em decomposição e não possuem casulo. São do tipo exaradas, em que os membros são facilmente distinguíveis do corpo, e décticas, possuindo a possibilidade de articular as mandíbulas em estágio pupal.

Imago Imagos de Mecoptera são geralmente de pequeno tamanho (1,5 a 3,0 cm)BORROR, Donald J.; DELONG, Dwight M.. Ordem Mecoptera. In: BORROR, Donald J.; DELONG, Dwight M.. Introdução ao Estudo dos Insetos. São Paulo: Edgard Blücher Ltda., 1988. Cap. 24. p. 278-280. e ativos durante um curto período do ano. Conforme é comum entre os insetos, apresentam corpo dividido em três tagmas: cabeça, tórax e abdômen.

thumb|Detalhe da cabeça de Panorpa communis.

Os imagos possuem cabeça mais alongada que a sua forma larval, com peças bucais mandibulares delgadas. Estas ficam estendidas em um rostro ventral proeminente adaptado ao hábito onívoro. Possuem um par de antenas filiformes longas, delgadas e multissegmentada, com o número de “artículos” variando entre 16 e aproximadamente 50, atingindo, geralmente, metade do comprimento do corpo. Apresentam olhos compostos bem desenvolvidos, com exceção de Apteropanorpa Carpenter, que não apresenta estes órgãos sensoriais, além de possuírem 3 ocelos no topo da cabeça .MACHADO, Renato Jose Pires; COLLUCCI, Eliana. Mecoptera. In: RAFAEL, Jose Albertino et al. Insetos do Brasil: Diversidade e Taxonomia. [s.i.]: Holos Editora, 2010. Cap. 38

A região torácica apresenta protórax pequeno e mesotórax e metatórax bem desenvolvidos e fundidos com o primeiro tergito abdominal. Neste tagma estão presentes dois pares de asas membranosas que são mantidas horizontalmente nos lados do corpo quando em repouso. Ambos os pares são estreitos, alongados e geralmente de mesmo tamanho ou de tamanhos muito próximos (apesar de existirem espécies com perda secundária de asas).CARRERA, Messias. Ordem dos Mecópteros. In: CARRERA, Messias. Entomologia para você. 4. ed. São Paulo: Edart, 1973. Cap. 25, p. 111. A nervação é semelhante e bastante generalizada, com veios transversais, em geral, muito numerosos. Possuem três pares de patas longas e finas, permitindo que o animal permaneça pendurado ao prender as garras das pernas anteriores. A região do tarso é segmentada em 5 partes e, dentro da ordem Bittacidae, o quinto segmento, nas pernas posteriores, se dobra para trás sobre o quarto e é usado para a captura de presas.

O abdômen das fêmeas de Mecoptera possui 11 segmentos e um par de cercos que, geralmente, é segmentado em dois (não segmentados em Bittacidae e Boreidae). Em fêmeas de Boreidae, o décimo segmento é prolongado e, em conjunto com os cercos pontudos e esclerotizados, forma um ovipositor funcional.