Os Lusíadas é uma obra de poesia épica do escritor português Luís Vaz de Camões, a primeira epopeia portuguesa publicada em versão impressa. Provavelmente iniciada em 1556 e concluída em 1571, foi publicada em Lisboa a 12 de março de 1572, no período literário do Classicismo, ou Renascimento tardio, três anos após o regresso do autor do Oriente, via Moçambique.
A obra é composta por dez cantos, estrofes, conhecidas também como estâncias e versos em oitavas decassilábicas, sujeitas ao esquema rimático fixo ABABABCC – oitava rima real, ou camoniana. A ação central é a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, em torno da qual se vão evocando outros episódios da história de Portugal, glorificando o povo português.
É frequentemente apontada como a obra mais importante da literatura de língua portuguesa, sendo frequentemente comparada à Eneida de Virgílio (séc. I a.C.).
Escrito à maneira das epopeias clássicas, Os Lusíadas é muitas vezes considerado o épico nacional de Portugal, desempenhando na cultura portuguesa um papel comparável ao da Eneida, de Virgílio, na cultura romana, ou ao da Ilíada e da Odisseia, de Homero, na cultura grega.
O poema evoca o período que precedeu a retomada de Valência pelos Almorávidas em 1102, o domínio dos Almóadas, cuja capital era Marraquexe, e os acontecimentos que antecederam a Batalha dos Três Reis.
Estrutura
A estrutura externa refere-se à análise formal do poema: número de estrofes, número de versos por estrofe, número de sílabas métricas, tipos de rimas, ritmo, figuras de estilo, etc. Assim: Os Lusíadas é constituído por dez partes, chamadas de cantos na lírica; cada canto tem um número variável de estrofes (em média, 110); as estâncias são oitavas, tendo portanto oito versos; a rima é cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos (AB AB AB CC, ver na citação ao lado); cada verso é constituído por dez sílabas métricas (decassilábico), na sua maioria heróicas (acentuadas nas sextas e décimas sílabas).
Sendo Os Lusíadas um texto renascentista, não poderia deixar de seguir a estética grega que dava particular importância ao número de ouro. Assim, o clímax da narrativa, a chegada à Índia, foi colocada no ponto que divide a obra na proporção áurea (início do Canto VII).
A estrutura interna relaciona-se com o conteúdo do texto. Esta obra mostra ser uma epopeia clássica ao dividir-se em quatro partes: Proposição - introdução, apresentação do assunto e dos heróis (estrofes 1 a 3 do Canto I); Invocação - o poeta invoca as ninfas do Tejo e pede-lhes a inspiração para escrever (estrofes 4 e 5 do Canto I); Dedicatória - o poeta dedica a obra ao rei D. Sebastião (estrofes 6 a 18 do Canto I); Narração - a narrativa da viagem, in medias res, partindo do meio da ação para voltar atrás no tempo e explicar o que aconteceu até ao momento na viagem de Vasco de Gama e na história de Portugal, e depois prosseguir na linha temporal. Por fim, há um epílogo a concluir a obra (estrofes 145 a 156 do Canto X).
thumb|Camões Lendo «Os Lusíadas» aos Frades de São Domingos (1929), de António Carneiro. Os planos temáticos da obra são: Plano da Viagem - é descrita a viagem da descoberta do caminho marítimo para a Índia de Vasco da Gama e os seus marinheiros; Plano da História de Portugal - são relatados episódios da história dos portugueses; Plano da Mitologia - são descritas as influências e as intervenções dos deuses da mitologia greco-romana na ação dos heróis. Plano das considerações do Poeta - Camões refere-se a si mesmo enquanto poeta admirador do povo e dos heróis portugueses;
Ao longo da narração deparam-se-nos vários tipos de episódios: bélicos, mitológicos, históricos, simbólicos, líricos e naturalistas.
Impressão Da edição impressa pela primeira vez em 1572 em Lisboa, ou de outras apresentadas com a mesma data mas que podem ter sido impressas nos anos seguintes ainda ao abrigo da mesma licença, subsistem apenas 34 exemplares conservados em três Continentes.
Instituições com exemplares da primeira edição Fonte: Academia Brasileira de Letras Academia das Ciências de Lisboa Ateneu Comercial do Porto Biblioteca José Mindlin (Universidade de São Paulo) Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa Biblioteca Nacional da Espanha, Madrid Biblioteca Nazionale, Nápoles Biblioteca Nacional da França Biblioteca Bodleiana, Universidade de Oxford Bosch Brazilian Library, Estugarda Biblioteca Britânica Casa de Bragança Universidade Harvard Lello & Irmãos Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro Sociedade Martins Sarmento, Guimarães Universidade de Coimbra Harry Ransom Humanities Research Center, Universidade do Texas em Austin The Hispanic Society of America, Nova Iorque John Carter Brown Library, Universidade Brown, Providence (Rhode Island) Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, Açores Fundação Cultursintra FP
Parecer do Santo Ofício thumb|upright=0.7|left|Estátua de D. Afonso Henriques no Castelo de São Jorge em Lisboa. Réplica da original de Guimarães, por Soares dos Reis O poema épico mais genuíno é o canto da construção duma nação com a ajuda de Deus ou dos deuses. Os Lusíadas, como já a Eneida, é uma epopeia moderna, em que o maravilhoso não passa dum artifício necessário, mas só literário. A fé única no Deus cristão é defendida por toda a obra.
Não se pode pensar em heresia porque não fazia sentido, em tempos de Contrarreforma, acreditar nos deuses do panteão greco-romano, e a prova é a não censura dos inquisidores aos «Deoses dos Gentios». No episódio da Máquina do Mundo (estrofe 82 do Canto X), é a própria personagem da deusa Tétis que afirma: «eu, Saturno e Jano, Júpiter, Juno, fomos fabulosos, Fingidos de mortal e cego engano. Só para fazer versos deleitosos Servimos». No entanto, críticos defendem que esta fala de Tétis foi introduzida a pedido dos Censores, e que várias outras Oitavas foram ou alteradas, ou mesmo cortadas, para que o Poema pudesse ser publicado.José Maria da Costa e Silva, Ensaio Biographico-Critico sobre os Melhores Poetas Portuguezes, Tomo III (Imprensa Silviana, 1851), Livro IV, Capítulo III: "Luiz de Camões", pp. 106 e ss.
Apesar de terem cortado excertos da obra nas suas primeiras edições,Os Lusíadas, Luís de Camões, Publicações Europa-América, edição anotada (1997) o Parecer do censor do Santo Ofício na edição de 1572 declara que percebeu que este recurso «não pretende mais que ornar o estilo Poético». Por isso, continua, «não tivemos por inconveniente ir esta fábula dos Deoses na obra», mas não resiste a acrescentar «ficando sempre salva a verdade de nossa santa fé, que todos os Deuses dos Gentios são Demonios».
Todavia, a presença destes deuses ocupa um lugar de muito relevo no poema. São as suas intrigas que ligam os episódios dispersos da epopeia e as suas intervenções deus ex machina que emprestam lógica a acontecimentos inesperados da viagem, relatados na narrativa.
Temáticas O herói
Como o título indica, o herói desta epopeia é colectivo, os Lusíadas, ou os filhos de Luso, os portugueses. Nas estrofes iniciais do discurso de Júpiter no concílio dos deuses olímpicos, que abre a parte narrativa, surge a orientação laudatória do autor.
O rei dos deuses afirma que desde Viriato e Sertório, o destino (fado) dos valentes portugueses (forte gente de Luso) é realizar feitos tão gloriosos que façam esquecer os dos impérios anteriores (assírios, persas, gregos e romanos).
O desenrolar da sua história atesta-o, pois além de ser marcada pelas sucessivas e vitoriosas lutas contra mouros e castelhanos, mostra como um país tão pequeno descobre novos mundos e impõe a sua lei no concerto das nações.
thumb|left|upright=0.7|O herói da obra, os portugueses. Monumento aos Descobrimentos Portugueses em Belém, Lisboa, Portugal No final do poema surge o episódio da Ilha dos Amores, recompensa ficcional da gloriosa caminhada portuguesa através dos tempos. E é confirmado o receio de Baco de as suas façanhas de conquista serem ultrapassadas pelas dos portugueses.
Camões dedicou sua obra-prima ao rei D. Sebastião de Portugal. Os feitos inéditos dos descobrimentos portugueses e a chegada ao «novo reino que tanto sublimaram» no Oriente, foram sem dúvida os estímulos determinantes para a tarefa, desde há muito ambicionada, de redigir o épico português.
Havia um ambiente de orgulho e ousadia no povo português. Navegadores e capitães eram heróis recentes da pequena nação, homens capazes de extraordinárias façanhas, como o «Castro forte» (o vice-rei D. João de Castro), falecido poucos anos antes de o poeta aportar na Índia.
E principalmente Vasco da Gama, a quem se devia o descobrimento da rota para o oriente numa viagem difícil e com poucas probabilidades de êxito, e que vencera inúmeras batalhas contra reinos muçulmanos em terras hostis aos cristãos. Esta viagem épica foi por isso usada como história central da obra, à volta da qual vão sendo contados episódios da história de Portugal.
A cruzada contra o mouro thumb|upright=0.7|Retrato do Rei D. Sebastião (1571-74), por Cristóvão de Morais, no Museu Nacional de Arte Antiga. Foi ao rei D. Sebastião que Camões dedicou Os Lusíadas
O poema pode ser lido numa perspetiva que já era antiga, mas a que factos recentes haviam dado acrescida atualidade, a da cruzada contra o mouro. As lutas no Oriente seriam a continuação das que já se haviam travado em Portugal e no Norte de África, dominando ou abatendo o poder do Islão.
O próprio "movimento" dos descobrimentos surgiu numa lógica de combate ao poderoso Império Otomano que ameaçava a Europa cristã, incapaz de vencer o inimigo em guerra aberta. Os objetivos passavam por fazer uma concorrência comercial aos muçulmanos, ao mesmo tempo ganhando proveitos e debilitando a economia dos rivais. Mas também se ambicionava encontrar aliados dos europeus nas novas terras, que poderiam ser eles mesmos cristãos, ou passíveis de conversão.Age of Discovery, 1400-1600, David Arnold, Routledge (2002) ISBN 0-415-27995-X
Em 1571, a aparente invencibilidade do sultanato turco tinha sido desmentida na batalha de Lepanto. Sentia-se que os otomanos afinal não detinham a supremacia no Mediterrâneo. E o comandante das forças cristãs fora D. João de Áustria, filho bastardo do imperador Carlos V, o avô de D. Sebastião. Foi neste contexto de exaltação que o poeta terá contribuído para incitar o jovem rei português a partir em conquista para a África, com os desastrosos efeitos que daí se seguiram.
Narradores e os seus discursos thumb|left|upright=0.7|Vasco da Gama, protagonista por excelência dOs Lusíadas, na chegada à Índia Cada um dos tipos de discurso neste poema evidencia particularidades estilísticas concretas. Dependendo do assunto que tratam, o estilo pode ser heroico e exaltado, empolgante, lamentoso e melancólico, humorístico, admirador.
Os Lusíadas é uma obra narrativa, mas os seus narradores são quase sempre oradores que fazem discursos grandiloquentes: o narrador principal, Camões, que abre em grande estilo e retoma a palavra em várias ocasiões; Vasco da Gama, reconhecido como «facundo capitão» (eloquente); Júpiter, que também toma a palavra em diversas ocasiões; Paulo da Gama (Canto VIII, estrofes 2 a 42); o Velho do Restelo (Canto IV, estrofes 95 a 104); Tétis; a Sirena que profetiza ao som de música (Canto X, estrofes 10 a 74), etc.
Na Invocação, quando o poeta pede às Tágides «um som alto e sublimado, Um estilo grandíloco e corrente», por oposição ao estilo da poesia lírica, de «verso humilde», está certamente a pensar nesse tom empolgante da oratória. Um tom assemelhado à «tuba canora e belicosa» (trompeta de guerra) e não à «agreste avena ou frauta ruda» (flauta do pastor), que seja digno dos «feitos da famosa Gente vossa» (célebre gente do Tejo, os portugueses).