thumb|250px|Aleijadinho: Detalhe do Cristo carregando a cruz, início do século XIX, parte de um grande grupo no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. thumb|250px|Bruno Giorgi: Meteoro, 1967-1968. Palácio do Itamaraty, Brasília.

A escultura no Brasil acompanhou as correntes estéticas que animaram o desenvolvimento desta arte em outros países do ocidente, especialmente os europeus, de onde vieram as principais influências que fecundaram o solo artístico brasileiro. Ao longo dos últimos 500 anos de sua história, o Brasil testemunhou florescimentos particularmente ricos da escultura nos períodos Barroco, com um estilo geral unificado, e a partir do Modernismo, quando predomina a diversidade.Klintowitz, Jacob. O Ofício da Arte: A Escultura. SESC, 1988. p. 43

A arte da escultura se firmou no país primeiro pela força da religião, manifestando-se quase sempre no terreno da estatuária devocional, sendo parte importante no culto Católico. Depois de um início naturalmente tímido e amador, ao longo dos difíceis anos de conquista e povoamento do território pelos portugueses, uma época de lutas sangrentas e asperezas de todas as ordens, quando o Brasil iniciou uma fase de consolidação socioeconômica e relativo avanço civilizatório, entre fins do século XVII e o início do século XVIII, a escultura brasileira viria a ganhar inúmeros adeptos, incluindo muitos mestres altamente qualificados, expressando-se em um estilo Barroco, então a corrente dominante na arte europeia, incluindo na lusa, sempre a grande referência. Paralelamente, desenvolveu-se com grande riqueza a escultura aplicada, na forma do entalhe decorativo em estruturas arquitetônicas, como a talha dourada das igrejas e os adornos em relevo em fontes públicas e fachadas, ou como elemento integrante de mobiliário e outros objetos utilitários.

Este ciclo perdurou com crescente solidez estética e técnica e abundância produtiva até o início do século XIX, sempre baseado num sistema de produção corporativo, onde o anonimato e o trabalho coletivo e semi-artesanal eram a regra. Este quadro viria a mudar acompanhando uma série de mudanças sociais, administrativas e culturais na nação em vias de formação, mas ainda uma colônia. Dois marcos foram fundamentais neste processo de transição: a transferência da corte portuguesa para o Brasil, fugindo de Napoleão, situação que acabaria levando o Brasil à independência de Portugal, e a atuação da Missão Artística Francesa, que sintetizou a corrente neoclássica, a grande voga cultural na Europa neste período, e introduziu a metodologia acadêmica, o mais gabaritado padrão de ensino sistematizado e de nível superior praticado no Velho Mundo, ao organizar a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. O impacto entre dois universos tão distintos foi trabalhoso, gerou muitas resistências, disputas e mesmo prejudicou a expansão da arte escultórica no país por quase toda a primeira metade do século XIX.

Na maturidade de Dom Pedro II a antiga Escola Real, ora Academia Imperial de Belas Artes, passou a centralizar todos os avanços artísticos de um país que ansiava pela modernização e queria ter uma arte que o representasse dignamente no concerto das nações progressistas e liberais. Consolidava-se o sistema acadêmico, baseado na imitação dos mestres consagrados, e se iam incorporando novidades estéticas, como o Romantismo e o Realismo, ao estilo neoclássico dominante, gerando uma arte eclética. No entanto, a escultura sempre ficou em segundo plano, sendo ofuscada pela pintura, a "grande arte" da época, e por isso deu relativamente poucos frutos de maior qualidade. No fim do século XIX, sob a influência de novas ideias, novas tecnologias e novos hábitos de vida, a escultura nacional se veria revigorada, ampliando-se o número de praticantes e as aplicações da arte. Mas, ao mesmo tempo, uma profunda crise de valores agitava a cultura de todo o ocidente.

Surgia o Modernismo, uma contestação maciça do cânone acadêmico e de tudo que significasse autoridade e tradição, em nome da liberdade de pesquisa e da individualidade criativa. Desde então o panorama se pulverizou em uma enorme quantidade de tendências estéticas, absorveram-se, com marcada veia experimental, materiais e procedimentos jamais cogitados por escultores acadêmicos, perderam-se os limites nítidos entre as categorias artísticas, o próprio conceito de escultura, antigamente baseado no entalhe e na modelagem, foi largamente ampliado para abranger todos os aspectos relacionados à tridimensionalidade, à espacialidade e à temporalidade, elaborou-se todo um novo discurso teórico e um novo enquadramento sócio-político-econômico, e pluralidade se tornou a palavra de ordem dos contemporâneos, com uma produção que vem ganhando crescente reconhecimento internacional.

Povos indígenas

Não há registro de que os povos indígenas nativos do Brasil tenham se dedicado à escultura com especial ênfase, embora a arte não deixasse de ser importante em sua sociedade. Há relativamente pouco material arqueológico antecedendo a descoberta do Brasil disponível para estudo, o que torna difícil determinar exatamente qual o papel da escultura nas comunidades indígenas tradicionais em tempos mais remotos. Em geral parece que produziram peças de pequenas dimensões, retratando ídolos e animais, que serviam como amuleto ou estavam relacionadas ao seu culto religioso, portando significados específicos e podendo veicular poderes mágicos, mas objetos semelhantes também podiam funcionar como brinquedos.Eduardo Góes Neves. "Os Índios Antes de Cabral: arqueologia e história indígena no Brasil". In Aracy Lopes da Silva & Grupioni, Luiz Donisete Benzi (orgs.). A Temática Indígena na Escola: novos subsídios para professores de primeiro e segundo graus. Ministério da Educação e Cultura / Mari - Grupo de Educação Indígena da USP / Unesco, 1995, pp. 171-193.Beuttenmüller, Alberto Frederico. Viagem pela arte brasileira. Editora Ground, 2002, pp. 14-15

Na Amazônia se tornaram famosos os muiraquitãs, amuletos em forma de sapo entalhados em pedras diversificadas, como o jade, o talco, a ametista, o quartzo, a serpentina e a amazonita, indicando uma versátil capacidade de trabalhar materiais de dureza muito diferente através de um instrumental também variado, que incluía serras, pedras de polir e raspadores.Costa, Marcondes Lima da; Silva, Ana Cristina Resque Lopes da; Angélica, Rômulo Simões. "Muyrakytã ou Muiraquitã, um Talismã Arqueológico em Jade Procedente da Amazônia: uma revisão histórica e considerações antropogeológicas". In: Acta Amazonica, 2002; 32(03):467-490 Alguns elementos escultóricos também são encontrados em ornamentos corporais como máscaras, ou em objetos utilitários, como bancos em madeira e vasos cerâmicos, a exemplo das culturas Tapajós, Santarém e sobretudo Marajoara, que deixaram um rico legado de vasos e urnas fúnebres com formas escultóricas de grande apuro formal e força expressiva.Roiter, Márcio Alves. "A Influência Marajoara no Art Déco Brasileiro". In: Revista UFG, 2010; ano XII (08):19-27 Schaan, Denise Pahl. A Linguagem Iconográfica da Cerâmica Marajoara. Dissertação de Mestrado em História. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 1996. Praticamente nada desta tradição aborígene se incorporou à arte escultórica brasileira de inclinação erudita que se desenvolveu mais tarde, a não ser algumas técnicas de tingimento de cerâmica com pigmentos naturais, como o tauá e a tabatinga, aproveitadas pelos primeiros colonizadores brancos.Araújo, Emanuel Santos de. "A imaginária religiosa na produção de Fia". In: Anais do II Encontro Estadual de História. Universidade Estadual de Feira de Santana, de 27 a 30 de julho de 2004

Tradição colonial Origens

thumb|esquerda|Santo Amaro, século XVII. Obra de Agostinho da Piedade no Museu de Arte Sacra de São Paulo.

As primeiras notícias de esculturas na tradição europeia no Brasil datam do final do século XVI, quando algumas vilas já se haviam estabelecido no litoral e se iniciava a construção de templos e edifícios públicos. Neste período inicial, assinala-se que João Gonçalo Fernandes, o primeiro escultor identificado em atividade no Brasil, produziu obras na década de 1560. Devido à carência geral de condições próprias para o florescimento artístico, a maior parte das peças ainda era importada da Europa, especialmente de Portugal, a metrópole colonizadora.Coelho, Beatriz. Devoção e arte: imaginária religiosa em Minas Gerais. EdUSP, 2005, pp. 15-16Pfeiffer, Wolfgang. "Imaginária Seiscentista na Capitania de São Vicente". In: Tirapeli, Percival. Arte Sacra Colonial: barroco memória viva. UNESP, 2005, pp. 82-89

Grande parte da atividade escultórica se limitava aos trabalhos de talha decorativa em madeira e, em menor grau, em pedra. Um dos primeiros nomes dignos de lembrança no século XVII como entalhador de refinado talento é o Frei Domingos da Conceição da Silva, que trabalhou no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro. Os mosteiros e colégios religiosos, aliás, mantidos por missionários jesuítas, franciscanos, beneditinos, carmelitas, com membros talentosos que haviam sido preparados na Europa, foram os grandes centros de produção artística nos tempos primitivos da colonização.

Também se iniciou alguma atividade na estatuária devocional, onde a primeira figura a se destacar foi o Frei Agostinho da Piedade, deixando criações de serena beleza e grande sensibilidade, já apontando para o Barroco mas ainda devedoras do espírito de equilíbrio e sobriedade renascentista, num estilo transicional chamado Maneirismo que seria praticado até meados do século XVII, com um significativo atraso em relação à cronologia europeia. Frei Agostinho da Piedade é considerado o fundador da escultura nacional. Outro nome importante é o do Frei Agostinho de Jesus, também produzindo obra de grande qualidade em estilo semelhante e, também como o outro, produzindo na técnica do barro cozido. Poucas obras desta fase inicial sobrevivem.Etzel, Eduardo. Imagem Sacra Brasileira. Melhoramentos, 1979, p. 9.

O Barroco

Nos séculos XVII e XVIII, com o avanço dos colonizadores em direção ao interior do país, fundando novas cidades e novos mercados, e com a relativa estabilização da economia levando a um rápido crescimento dos povoados mais antigos no litoral, paralelamente à descoberta de grandes riquezas em ouro e diamantes, houve condições para que a arte recebesse maior atenção, e a escultura, em suas variadas manifestações, floresceu de forma notável, e quase sempre no terreno sacro. Isso se deve à ausência de uma corte na colônia, que patrocinou na Europa grandes obras profanas, e mesmo a classe governante ativa no Brasil não primou pelo interesse em arte senão em data muito tardia. Ao longo da maior parte do período colonial, os nobres portugueses e os altos oficiais não mostraram interesse em se radicar no Brasil, que para eles era apenas um sertão inóspito e longínquo, do qual gostariam de partir assim que terminassem suas funções oficiais, ou depois que tivessem enriquecido com a exploração da colônia. Com este espírito, a elite não ergueu palácios e mansões decorados com luxo como na Europa, pois o Brasil era uma terra de permanência temporária. Mesmo os colonos das classes inferiores comumente mantinham o mesmo espírito, sempre com os olhos postados em Portugal. Diferente foi o caso das ordens religiosas, pois seus templos e conventos eram obras destinadas a durar, e de acordo com o costume do tempo, mereciam uma decoração suntuosa, até onde permitissem as possibilidades econômicas de cada local.Novais, Fernando. "Condições de privacidade da colônia". In: Novais, Fernando (diretor da coleção) & Souza, Laura de Mello e (organizadora do volume). História da Vida Privada no Brasil, vol. 1: Cotidiano e vida privada na América portuguesa. Companhia das Letras, 1997, 10.ª reimpressão, pp. 14-39