A Igreja de Santo António, originalmente conhecida como Igreja de Santo António dos Militares, é um edifício religioso na cidade de Lagos, na região do Algarve, em Portugal. É um dos principais monumentos na cidade, sendo conhecido pela sua riqueza interior em talha dourada. Anexo ao edifício da igreja está o Museu Municipal de Lagos. A igreja foi encomendada pelos militares, tendo sido concluída em 1707. Foi destruída pelo Sismo de 1755, e reconstruída em 1769. Em 1823 foi construída a torre do relógio, e em 1932 foi instalado o museu municipal na antiga sacristia Sul. Foi elevada a Monumento Nacional em 1924.
thumb|left|Ornamentação da fachada. Descrição Igreja Exterior O edifício apresenta uma aparência muito modesta no exterior, com paredes de cantaria lisa, destacando-se a sua fachada principal, de traça barroca. A porta principal, igualmente com uma moldura de cantaria lisa, está voltada para o poente (rua General Alberto da Silveira), sendo encimada por um pequeno nicho e depois um óculo de forma simples, adornado com conchas. A fachada é rematada por um escudo nacional com ramificações, de estilo jesuítico. A fachada lateral, virada para o Largo do Compromisso Marítimo (rua Silva Lopes), inclui um arco de volta perfeita, de grandes proporções, que cria um alpendre abobadado.PAULA, 1992:288 O fecho deste arco possui a inscrição 1769. Tem duas torres sineiras de formas diferentes, com um relógio na torre Sul, de maiores dimensões. Apesar do edifício ser de construção muito posterior, ainda apresenta algumas características que eram mais comuns aos templos medievais, como a orientação no sentido de nascente para poente, apesar desta decisão ter forçado a igreja a ficar de frente para uma rua estreita e de lado para um grande espaço aberto, ao contrário do que seria de esperar.
thumb|left|Interior da Igreja, mostrando o retábulo e a imagem de Santo António. À esquerda está o púlpito.
Interior Enquanto que a aparência exterior do edifício é de grande simplicidade, o interior apresenta uma rica decoração, com um importante conjunto de talha dourada ao longo das paredes e no retábulo, azulejos e pinturas da abóbada. A igreja só tem uma nave, sem cruzeiro nem altares laterais, que é totalmente coberta por uma abóbada de berço. No pavimento da nave foi colocada uma só sepultura, pertencente ao oficial irlandês Hugo Beaty, comandante do Regimento de Lagos durante a guerra contra Espanha. Na lápide apresenta o seu escudo pessoal, de campo liso com oito pássaros voando na orla, e por baixo uma faixa com a divisa Non vi sed arte (Não pela força, mas pela destreza), e um leão rompante a segurar um crescente no timbre.
Devido à sua talha dourada, a Igreja de Santo António é considerada como dos principais exemplares de um templo forrado a ouro no Sul de Portugal. Segundo o historiador José Formosinho, todo o conjunto da talha dourada integra-se no estilo barroco, incluindo o retábulo, que ostenta igualmente motivos decorativos de inspiração renascentista do século XVI. O retábulo é onde a talha dourada mais se destaca pelo seu rigor e detalhe, sendo considerado como um dos exemplos mais notáveis do Estilo Nacional na região do Algarve. Inclui dois arcos concêntricos de volta inteira, com cordão em espiral, separados por estátuas de cariátides e um escudo com as armas de Portugal, sobreposto pela coroa real. Estes arcos são suportados por quatro colunas salomónicas ornadas com parreiras de cachos pendentes, e que são são rematadas por capitéis de ordem compósita. Assentam sobre pedestais duplos de forma quadrangular, decorados com volutas de acantos no estilo romano, e estátuas de atlantes. No centro no retábulo situa-se uma tribuna e um trono de forma piramidal, com uma imagem de Santo António com o menino nos braços, rodeado por dois anjos com tocheiros. Na base do trono existia originalmente uma outra estátua de Santo António, que segundo a tradição foi aquela que era levada pelo regimento em campanha, em conjunto com o altar portátil, elementos que foram preservados no museu.
A talha ao longo das paredes laterais tem uma decoração marcada por motivos fantásticos e vegetalistas, embora sem uma relação aparente de continuidade. Com efeito, as figuras celestiais surgem misturadas com animais grostescos, formando um cenário caótico típico do barroco, que se distingue pelo exagero e pela deformação do natural. As figuras míticas incluem querubins que funcionam como atlantes, e serafins coroados de rosas que seguram açafates. Foram igualmente representadas várias cenas de guerra e da vida quotidiana, como a pesca, a caça, e a matança do porco. No início da nave situa-se um coro alto, suportado por um arco abatido, e que possui uma balaustrada de pequenas colunas de planta quadrangular, com um parapeito.
Ao longo das paredes laterais encontram-se oito quadros, representando cenas da vida de Santo António de Lisboa, pintados pelo mestre José Joaquim Rasquinho de Loulé.Segundo a brochura oficial da Câmara Municipal de Lagos As paredes também estão parcialmente forradas com um silhar de 1,4 m de de altura, com azulejos em tons azuis e brancos de motivos florais, do século XVIII. Segundo José Formosinho, os azulejos nas paredes do fundo da igreja apresentam várias alterações em relação aos das paredes laterais, pelo que podem ter sido aplicados em épocas diferentes. Tanto a talha dourada como os azulejos foram aplicados devido à sua capacidade naturalmente brilhante, de forma a criar um ambiente ilusório e imaterial. A cobertura da nave está decorada com pinturas em perspectiva, de forma a simular a continuação das paredes, com duas janelas vidradas e oito colunas de mármore sobre duplas cartelas decoradas em cada lado. Entre as cartelas foram pintadas inscrições da Bíblia, em molduras. Em cada canto está um balcão, cada um com uma figura dos quatro evangelistas, pintados de forma a parecerem estar a observar o interior da igreja, cada um com o seu Tetramorfo. No centro procurou-se imitar uma abóbada, com um escudo nacional de grandes dimensões, cujas sombras foram pintadas de forma a simular um efeito de relevo em relação ao fundo.
Museu O Museu Municipal de Lagos está anexo à igreja, possuindo uma rica colecção de pintura, etnografia, numismática, arqueologia e arte sacra, incluindo talha do século XVII. Após a sua reabertura em 2021, passou a albergar uma exposição permanente, Depois de 1460 & Coleções Especiais, formada a partir do acervo do museu, que foi recolhido desde a década de 1930 por José Formosinho. Um dos principais elementos do museu é um pórtico monumental, oriundo da Igreja do Compromisso Marítimo, e que é um dos mais antigos exemplos da arquitectura renascentista na região.
Importância e conservação Em Janeiro de 2016, a Igreja de Santo António era o terceiro monumento nacional no Algarve a ser mais visitado, estado apenas atrás da Fortaleza de Sagres e do Castelo de Silves. Do ponto do vista histórico e artístico, o seu interior é considerado um dos principais exemplos do barroco português.
A Igreja foi classificada como Monumento Nacional, pelo decreto n.º 9:842, de 1924. Por seu turno, a Zona de Especial Protecção foi definida por uma portaria de 30 de Outubro de 1969, publicada no Diário do Governo n.º 275, 2.ª Série, de 24 de Novembro de 1969.
História Séculos XVIII e XIX Em 1702, foram aprovados os estatutos da Irmandade de Santo António, tendo a igreja em si sido construída cinco anos depois. Foi encomendada pelas autoridades militares, sendo um dos exemplos em Portugal de um templo dedicado a Santo António que não estava anexado a um convento franciscano. O local onde se ergue a igreja e o seu conjunto era ocupado originalmente por uma porta da muralha medieval, tendo uma das torres sido instalada sobre as antigas estruturas. Os edifícios no lado oposto da Rua General Alberto da Silveira também foram construídos em cima das ruínas da antiga porta, incluindo uma cadeia, que foi posteriormente ocupada por uma esquadra da Polícia de Segurança Pública.
A escolha de Santo António como padroeiro deveu-se à sua forte ligação com as forças militares de Lagos desde Janeiro de 1668, durante a Guerra da Restauração, quando foi integrado no Regimento de Infantaria n.º 2, tendo várias vitórias contra os castelhanos sido atribuídas à sua intervenção. Devido à sua integração no regimento, a administração podia destacar uma certa quantia de dinheiro correspondente a um soldo, que oficialmente pertencia ao santo, mas que na realidade era utilizado no seu culto. Ao longo da sua história junto daquela unidade militar, o santo foi por várias vezes promovido, possuindo a patente de capitão ou de coronel quando esta prática terminou, provavelmente em 1910. O regimento possuía um altar portátil e uma estátua do santo, que foram utilizados durante a Guerra Peninsular, e depois preservados no museu.
O edifício foi destruído pelo Terramoto de 1755, tendo sido reconstruído em 1769 por ordem do comandante do Regimento de Infantaria de Lagos, Hugo Beaty, que era igualmente administrador da Confraria de Santo António. Foi também naquela data que terão sido produzidos os oito quadros com os milagres de Santo António. No interior da igreja, os azulejos, as pinturas da abóbada e a talha dourada também foram instaladas durante o século XVIII. Segundo a tradição popular, a igreja possuía um rico espólio em prata e alfaias, que foram saqueados durante a ocupação francesa, nos princípios do século XIX. Em 1823 foi edificada a torre do relógio, cuja cantaria foi aproveitada das ruínas da Igreja de Santa Maria. Porém, o sino só foi colocado dois anos depois, e o relógio em 1839. Segundo José Formosinho, o coro terá sido instalado durante o século XIX, devido ao grau de rigor e detalhe da sua decoração. Esta circunstância, em conjunto com as diferenças nos azulejos entre esta zona da igreja e os das paredes laterais, foram apresentados pelo investigador como prova de uma possível ampliação da igreja, já após a sua construção. Em 1935, avançou a teoria que o templo teria sido construído só após o Sismo de 1755, uma vez que até então ainda não tinha encontrado quaisquer documentos que lhe fizessem referência anteriores àquele período, sendo conhecida, nesse período, como Igreja de Santo António dos Militares. Porém, admitiu que o edifício apresentava algumas facetas que podiam representar uma construção anterior, como a sua disposição típica de uma igreja medieval, e a talha do retábulo, que tinha grandes semelhanças com o estilo do século XVI.
Século XX Décadas de 1900 a 1940 Durante os seus primeiros séculos de existência, a igreja esteve sob a administração das autoridades militares, que eram responsáveis pela sua manutenção. Porém, em princípios do século XX, o edifício encontrava-se num estado de preservação bastante grave, com infiltrações de água no telhado, que estavam a danificar a pintura da abóbada, os emadeiramentos do coro e a talha dourada.FORMOSINHO, 1930:2 Em 1924, a Igreja foi classificada como Monumento Nacional. Em 1928, os ministros da Instrução e da Ministério da Guerra, Alfredo de Magalhães e Abílio Passos e Sousa, decidiram fazer a transferência da igreja para o Ministério do Interior, tendo o auto de transferência sido assinado em 5 de Julho de 1929. Este processo foi feito por proposta da Comissão da Iniciativa dos concelhos de Lagos, Aljezur e Vila do Bispo, que foi responsável por vários trabalhos de conservação dos monumentos no barlavento algarvio, incluindo na Igreja de Santo António.