Ricardo II (no original, Richard II) é uma peça de teatro de William Shakespeare, geralmente classificada como drama histórico. Acredita-se que tenha sido escrita por volta de 1595 e representa os últimos anos do reinado de Ricardo II de Inglaterra, culminando na sua deposição e na ascensão ao trono de Henrique Bolingbroke. É a primeira peça da chamada Henriad, a tetralogia de dramas históricos de Shakespeare centrada na sucessão da coroa inglesa, sendo seguida por Henrique IV, Parte 1, Henrique IV, Parte 2 e Henrique V.

A peça concentra-se no conflito entre o rei Ricardo II e o seu primo Henrique Bolingbroke, filho de João de Gante. Ricardo é apresentado como o monarca legítimo, mas o seu exercício do poder é progressivamente contestado por membros da nobreza. A questão da legitimidade do poder real, a natureza da autoridade monárquica e as consequências políticas da deposição de um rei constituem alguns dos principais temas da obra.

Enredo A peça começa com a acusação apresentada por Henrique Bolingbroke contra Thomas Mowbray, duque de Norfolk, a quem responsabiliza, entre outros crimes, pela morte de Tomás de Woodstock, duque de Gloucester. Ricardo II determina que os dois homens resolvam a disputa através de um duelo judicial. Pouco antes do combate, porém, o rei interrompe-o e determina o exílio de ambos: Bolingbroke é inicialmente condenado a dez anos de afastamento, pena posteriormente reduzida para seis, enquanto Mowbray é banido pelo resto da vida.

Durante o exílio de Bolingbroke, João de Gante, seu pai, morre. Ricardo aproveita a ausência do primo para confiscar os bens que lhe deveriam ser transmitidos por herança, utilizando-os para financiar a campanha militar na Irlanda. A decisão contribui para aumentar a oposição ao rei entre parte da nobreza inglesa.

Bolingbroke regressa à Inglaterra e reúne apoiantes. Inicialmente apresenta o seu regresso como uma tentativa de recuperar os direitos e propriedades que lhe foram retirados, mas a sua força política e militar cresce rapidamente. Quando Ricardo regressa da Irlanda, encontra a sua posição enfraquecida e os seus aliados progressivamente afastados.

O conflito termina com a deposição de Ricardo. Bolingbroke assume a coroa como Henrique IV de Inglaterra. Ricardo é posteriormente encarcerado no Castelo de Pontefract, onde é assassinado por um dos partidários do novo rei, depois de descoberta e frustrada uma conspiração contra Henrique.

Personagens principais

Ricardo II — rei de Inglaterra, cuja deposição constitui o centro da peça. Henrique Bolingbroke — primo de Ricardo e filho de João de Gante; regressa do exílio e acaba por ocupar o trono como Henrique IV. João de Gante — duque de Lancaster, pai de Bolingbroke e tio de Ricardo. Thomas Mowbray — duque de Norfolk, acusado por Bolingbroke e posteriormente exilado. Duque de York — tio de Ricardo e figura importante entre os nobres que procuram preservar a ordem política. Duquesa de York — esposa do duque de York. Rainha de Ricardo — consorte de Ricardo II. Aumerle — filho do duque de York e aliado de Ricardo. Thomas Percy, conde de Worcester — membro da família Percy e posteriormente envolvido na oposição a Henrique IV.

Temas Um dos principais temas de Ricardo II é a relação entre a legitimidade dinástica e o exercício efetivo do poder. Ricardo é apresentado como o legítimo herdeiro da coroa, mas as suas decisões políticas e a forma como exerce a autoridade provocam crescente oposição. A peça coloca assim em confronto a conceção do rei como autoridade sagrada e a realidade política de um monarca dependente da lealdade dos seus súbditos.

A deposição de Ricardo constitui o momento central dessa tensão. A sua legitimidade como rei não desaparece simplesmente com a perda do poder, e a peça explora a diferença entre possuir o direito à coroa e ser capaz de conservar o poder político. A ascensão de Bolingbroke introduz, por outro lado, o problema das consequências da substituição de um monarca legítimo por outro através da força.

A linguagem desempenha igualmente um papel central na caracterização de Ricardo. À medida que perde o poder político, o personagem adquire maior capacidade de reflexão sobre a própria identidade, a condição de rei e a perda da autoridade. O contraste entre a linguagem de Ricardo e a ação política de Bolingbroke é uma das características marcantes da peça.

Contexto histórico A peça dramatiza acontecimentos ocorridos no final do século XIV. Ricardo II tornou-se rei em 1377, sucedendo ao seu avô Eduardo III de Inglaterra, depois da morte do seu pai, Eduardo, o Príncipe Negro. O seu reinado foi marcado por conflitos com setores da nobreza e por disputas relacionadas com o exercício da autoridade régia.

A peça concentra-se particularmente nos acontecimentos de 1398 e 1399, incluindo o exílio de Bolingbroke, a morte de João de Gante, o confisco das suas propriedades, o regresso de Bolingbroke e a deposição de Ricardo. A ascensão de Bolingbroke deu origem à dinastia de Lencastre e aos acontecimentos políticos e militares que constituem o pano de fundo das três peças seguintes da tetralogia.

Embora baseada em acontecimentos históricos, a obra não constitui uma reconstrução documental do reinado de Ricardo II. Shakespeare reorganiza acontecimentos e personagens para construir um drama centrado na legitimidade, na autoridade e na transferência do poder.

Composição e representação A data exata da composição de Ricardo II não é conhecida. A peça é geralmente situada por volta de 1595. Existe, contudo, evidência de que já era representada nesse ano: uma carta de Edward Hoby a Robert Cecil, datada de 7 de dezembro de 1595, contém uma referência à representação da peça. A documentação disponível indica, portanto, que a obra já estava em circulação teatral no final de 1595.

Ricardo II foi representada pela companhia de Shakespeare, os Lord Chamberlain's Men.

Publicação A primeira edição conhecida de Ricardo II foi publicada em 1597, em formato quarto (Q1), por Valentine Simmes para o livreiro Andrew Wise. A obra foi registada no Stationers' Register em 29 de agosto de 1597.

Seguiram-se uma segunda e uma terceira edições em quarto em 1598. Uma quarta edição foi publicada em 1608 e uma quinta em 1615. A peça foi posteriormente incluída no First Folio de Shakespeare, publicado em 1623.

As diferentes edições apresentam algumas diferenças textuais. Em particular, a edição de 1608 inclui uma passagem conhecida como Cena da Deposição (Deposition Scene), na qual Ricardo abdica formalmente da coroa. Essa passagem não aparece na primeira edição de 1597 e apresenta diferenças significativas entre as versões impressas posteriormente, incluindo a do First Folio.

Relação com a tetralogia Ricardo II é a primeira das quatro peças históricas que constituem a Henriad. A narrativa prossegue com Henrique IV, Parte 1 e Henrique IV, Parte 2, centradas no reinado de Henrique IV e na relação entre o rei e o seu filho, o futuro Henrique V. A tetralogia termina com Henrique V, que acompanha a ascensão do novo rei e a sua campanha militar em França.

Embora Ricardo II se concentre sobretudo na deposição do monarca, o seu final estabelece diretamente as condições políticas para os acontecimentos das três peças seguintes. A transferência da coroa de Ricardo para Henrique IV constitui, assim, o ponto de partida da sequência dramática.

Ver também

Ricardo II de Inglaterra Henrique IV de Inglaterra Henrique IV, Parte 1 Henrique IV, Parte 2 Henrique V (peça) Henriad William Shakespeare Dramas históricos de Shakespeare

Referências

Categoria:Peças de teatro de William Shakespeare