280px|thumb|Manuel Pardal (direita) com um amigo fazendo frente ao capataz Mau Tempo, Marés e Mudança é um documentário português de longa-metragem de Ricardo Costa, a sua primeira docuficção: uma etnoficção. A personagem central deste filme é o poeta Manuel de Brito Pardal, repentista: um dos representantes da tradição oral da literatura popular na poesia. Quarteira comemora centenário do nascimento do Poeta Pardal, Sul Informação, 11 de agosto de 2016 Foi publicado em 1977 um livro com poemas seus, intitulado Em Cima do Mar Salgado, edição do investigador José Ruivinho Brazão. Reeditada obra de Manuel Pardal, “a voz” dos pescadores de Quarteira – notícia do jornal Observador, 16/8/2016
O povoamento do território português foi desde sempre resultado de migrações humanas, que depois do século XVI se mantiveram com a colonização do Brasil, acarretando consigo hábitos não só sociais mas também culturais. A poesia popular foi um deles, reproduzindo-se aí em larga escala. Cantoria, texto em inglês na Encyclopedia of Latin American History and Culture The songs improvised by the poets of the Brazilian Northeast : Tradition, urbanization, expansion, animation of a territory – artigo de Thierry Rougier, Bordeaux University
Na filmografia do realizador, Mau Tempo, Marés e Mudança é um filme sucedido por duas outras docuficções: O Pão e o Vinho e Brumas (o primeiro da trilogia LONGES).
Em formato televisivo, o filme divide-se em três partes: 1 – Mau Tempo, 2 – Marés, 3 – Mudança (versão TV). Estreou na RTP em 1977, integrado na série Mar Limiar, em três episódios separados.
Sinopse Manuel Pardal, pescador na vila algarvia da Quarteira, é um poeta analfabeto, como quase todos os improvisadores populares do Alentejo e do Algarve. Tal como o bem conhecido António Aleixo, é um repentista. É o único repentista pescador de que há memória na literatura popular em Portugal.
Manuel Pardal pesca na sua lancha a remos, à qual adaptou um motor fora de borda, tal como muitos outros nessa época fizeram. Permite-lhe o motor percorrer distâncias consideravelmente maiores ao longo da costa. Pesca à linha ou com rede de emalhar peixe graúdo e miúdo. Por experiência sabe para que lado deve ir, este ou oeste, mais ao abrigo ou mais ao largo. Ganha assim a vida.
É um filósofo. A solidão e os tempos de espera no silêncio do mar fazem-no pensar. E pensa muito, o que reforça o seu sentir e o seu saber: algo que não é privilégio dos letrados, tal como nos garante Manuel Viegas Guerreiro. E não falha na letra: nem na rima nem mesmo quando encena aquilo que quer dizer. Não tem papas na língua, nem quando recita ou canta o fado. Sempre que o desafiam entra no jogo. E aqui o vemos, desenvolto, contando velhas histórias que ilustram bem os novos tempos.
Enquadramento histórico Mau Tempo, Marés e Mudança, de Ricardo Costa, Gente da Praia da Vieira de António Campos e Trás-os-Montes (filme) de António Reis e Margarida Cordeiro são três docuficções portuguesas do mesmo ano. Os primeiros filmes do género realizados antes destes em Portugal são Maria do Mar (1930) e Ala-Arriba! (filme) (1942) de Leitão de Barros e ainda Acto da Primavera (1962), de Manoel de Oliveira.
O Acto da Primavera é uma encenação filmada de um Auto da Paixão, representado por populares da Curalha, aldeia de Trás-os-Montes. Trás-os-Montes (filme) é um documentário criado a partir de uma ideia de ficção poética. Gente da Praia da Vieira e Mau Tempo, Marés e Mudança partem para o modo ficcional por outra via. Primeiro, pela escolha do tema: a vida dos pescadores da costa de Portugal. Segundo, pela abordagem desse tema a partir de uma ideia puramente documental, isto é, filmando na essência «a vida tal e qual ela é» e depois nela introduzindo situações ficcionais. O tema dos pescadores da praia da Viera de Leiria é também abordado, além de Campos, por Ricardo Costa na sua primeira longa-metragem: Avieiros. Qualquer um destes filmes explora as técnicas do cinema directo, que se desenvolveu a partir da década de sessenta, com notáveis representantes nos Estados Unidos, Canadá e França.
280px|thumb|Manuel Pardal, olhos nos olhos
São estes filmes obras pioneiras no seu género, como docuficção. Curiosamente, a perspectiva temática comum a todos eles, de diferentes países, é a vida das gentes do mar:
1926 – Moana, de Robert Flaherty, EUA 1930 – Maria do Mar de José Leitão de Barros. Portugal 1932 – L'or des mers de Jean Epstein, França 1934 – Man of Aran], de Robert Flaherty, GB 1942 – Ala-Arriba! (filme), de Leitão de Barros, Portugal 1948 – La Terra Trema, de Luchino Visconti, Itália 1963 – Pour la suite du monde de Pierre Perrault e Michel Brault, Canada 1976 – Gente da Praia da Vieira, de António Campos, Portugal 1976 / 77 – Mau Tempo, Marés e Mudança, de Ricardo Costa, Portugal
Ficha técnica Argumento: Ricardo Costa Realizador: Ricardo Costa Produção: Ricardo Costa / RTP - 1976/77 Intérpretes: Manuel Pardal, família, gentes da Quarteira Imagem: Ricardo Costa Som: Maurício Cunha e Jorge Melo Cardoso Sonoplastia: Jorge Melo Cardoso Montagem: Alice Cruz Laboratórios: RTP Formato: 16 mm p/b Género: documentário etnográfico (docuficção) Duração: 90’ aprox. Estreia: RTP, 1976/1977
280px|thumb|Manuel Pardal canta o fado na taverna
Festivais e projecções especiais Mostra de Cinema Documental - O Algarve Documentado (Quarteira, Praça do Mar, 12 de Agosto de 2010, 21h 30,) Programa no Jornal do Algarve, 10/08/2010
Ver também Cinema de Portugal Cinema de arte Antropologia visual Novo Cinema
Ligações externas Mau Tempo, Marés e Mudança na IMDb A etnografia no cinema em Portugal – artigo de Carlos Gomes Comemorações do centenário do nascimento do poeta Pardal em Quarteira, notícia no jornal A Voz do Algarve, 10/08/2016 Mau Tempo, Marés e Mudança em Testemunhos do Tempo, Quarteira, agosto 2010* Centenário do Nascimento do Poeta Pardal | Projeção de um documentário sobre a sua vida no Centro Autárquico, 28/1/2017 Décimas, magia da poesia popular – exemplos Em Cima do Mar Salgado - capa do livro (antologia, 175 páginas) Em Cima do Mar Salgado - poema do livro Literatura Oral Tradicional em Folha de Poesia, 11 de abril de 2007 Literatura popular: em torno de um conceito – importar artigo de Manuel Viegas Guerreiro Manuel Viegas Guerreiro: evocação de um mestre e amigo - artigo de Maria Fonseca e Francisco Ferreira, Finisterra, XXXIII, 65, 1998, pp 7-10 Poesia oral com autor: um território ultraperiférico – artigo de Ruy Ventura O poeta Aleixo em Oficina das Ideias Quadras populares de António Aleixo Poetas populares em Portal da Literatura Manuel Pardal, 1916 (Quarteira) Documentáro de 31 minutos da RTP (1975) da série A Gente Que Nós Somos intitulado Poeta, Pescador, Pardal Things we see: Portuguese anthropology on material culture – artigo de Filomena Silvano em Etnografica, 2010
Categoria:Documentários de Portugal Categoria:Filmes de Portugal de 1976 Categoria:Filmes realizados por Ricardo Costa (cineasta)