The Cure é uma banda britânica de rock alternativo fundada em 1976, em Crawley, Inglaterra. A banda passou por várias mudanças de formação, com o vocalista, guitarrista e principal compositor Robert Smith sendo o membro constante e principal responsável por sua direção musical e criativa. Iniciaram a sua carreira ainda muito influenciados pelo punk, porém, rapidamente começaram a desenvolver sons mais sombrios e densos, assim como letras mais complexas e angustiantes — influenciadas por literatura existencialista, niilista, gótica e de fantasia de autores como Sartre, Kafka, Peake, Camus, Poe, Farmer entre outros — sem cedências, conseguindo, com essa combinação, a sua imagem de marca e um estatuto de culto que perdura até hoje.
Em meados dos anos 1980, já com alguma abertura a sons e letras mais comerciais, obtiveram grande sucesso entre as massas, com diversos álbuns e singles a alcançar grande exposição e popularidade em boa parte do globo. Na segunda metade dos anos 1990 sofrem de algum distanciamento e rechaço por parte da imprensa musical e também dos fãs — estes já tinham partido em novas direcções musicais e tendências —, assim como de sérios problemas internos que os paralisaram por um longo período e os penalizaram comercialmente. Com a chegada do novo século, a banda acabou por vir a ser, paulatinamente, reconhecida internacionalmente como uma das mais influentes do rock alternativo e uma nova vaga de fãs e de entusiasmo reavivou a banda com turnês enormes e pavilhões esgotados no mundo ocidental.
Várias canções dos Cure atingiram o sucesso nas rádios e as posições cimeiras de canções mais vendidas, tais como "Just Like Heaven", "Close To Me", "Lovesong" ou "Friday I'm in Love", recebendo imensas indicações e vários prémios. O grupo tinha vendido, até 2004, mais de 30 milhões de cópias em todo o mundo, com 1.1 milhão de vendas certificadas somente no Reino Unido,Certification Database. British Recording Industry. Retirado em 12 de março de 2008. elevando-o assim ao estatuto de uma das bandas alternativas de maior sucesso da história.Uncut, Agosto de 2004 Em Outubro de 2008 a revista britânica NME anunciou a atribuição do prémio 'Godlike Genius' à banda, em forma de reconhecimento pela contribuição para a música alternativa e pela sua extraordinária carreira. A banda acabou por ser introduzida no Hall da Fama do Rock and Roll de 2019. Em meio a apresentações de comemoração aos 30 anos do disco Disintegration,https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2019/02/19/cure-disintegration-turne/amp/ o grupo estava no processo de gravação de seu décimo quarto álbum de estúdio, Songs of a Lost World, lançado em 1 de novembro de 2024 pela Fiction, Lost Music, Universal, Polydor e Capitol Records. É o primeiro lançamento de material novo da banda em 16 anos desde 4:13 Dream, de 2008.
História Formação: Malice, Easy Cure, The Cure e Three Imaginary Boys (1973–1979) A primeira formação do que viria a ser os The Cure chamava-se The Obelisk e era composta por estudantes da Notre Dame Middle School de Crawley, Sussex. O grupo fez a sua estreia em público em abril de 1973 e contava com Robert Smith no piano, Michael Dempsey e Marc Ceccagno nas guitarras, Laurence "Lol" Tolhurst na percussão e Alan Hill no baixo.Apter, pg. 26 Em Janeiro de 1976, após deixar os Obelisk, Marc Ceccagno forma os Malice com Robert Smith, que agora passa a guitarrista e Michael Dempsey, por sua vez, a baixista, mais outros dois companheiros de turma da St. Wilfrid's Catholic Comprehensive School.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg. 6 Ceccagno, abandona o projeto pouco depois para formar uma banda de Jazz-rock fusion chamada Amulet. Mais tarde, Lol Tolhurst, dos Obelisk, e Porl Thompson — este último já bastante conhecido na região pelas sua destreza na guitarraBarbarian, Steve Sutherland, Robert Smith — entram para os Malice para os lugares de baterista e guitarrista solo respetivamente. Após várias tentativas falhadas para conseguirem um novo vocalista, Peter O'Toole assume a posição.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg. 8 Neste período fazem covers de David Bowie, Alex Harvey, Jimi Hendrix, entre outros e começam também a escrever o seu próprio material.
Em Janeiro de 1977, após alguns concertos pouco satisfatórios e também pela crescente influencia do movimento punk rock, que nesta altura começava a emergir com uma enorme vitalidade, os Malice passam a ser conhecidos como Easy CureApter, pg. 38 — nome retirado de uma canção de Lol Tolhurst.Ross Clarke, pg. 16 No mesmo ano ganham um concurso de talentos promovido pelo selo alemão Hansa Records e conseguem um contrato de gravação, porém, apesar da banda ter gravado várias faixas para esta editora, nenhuma foi lançada no mercado.Frost, Deborah. Taking The Cure With Robert. Creem Magazine (01/10/87). Em Setembro do mesmo ano, Peter O'Toole, abandona o grupo e Robert Smith, à falta de melhor, assume o papel de vocalista.Apter, pg. 46 Após desavenças, em Março de 1978, sobre a direcção que a banda deveria tomar — o grupo rapidamente percebeu que haviam ganhado o concurso não pelo seu valor mas pela sua imagem, — decidiram terminar o contrato com a Hansa.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg.11 Smith mais tarde recordaria "Nós éramos muito jovens e pensaram que nos podiam transformar num grupo para adolescentes. O que realmente queriam era que apenas fizéssemos covers e nós recusávamos sempre".
left|thumb||250px|O coreto de Crawley onde os The Cure fizeram um dos seus primeiros concertos e que se pode ver no vídeo Staring At The Sea - The Images.
Robert Smith deixa de achar graça ao nome da banda e altera-o para The Cure, uma vez que a antiga denominação lhe soava demasiado à "West Coast" (i.e. Hippie).Ross Clarke, pg. 23 Entretanto, Robert Smith também começa a não achar muita piada aos longos solos de Porl Thompson, já que começava a estar cada vez mais inclinado para um som minimalista e assim, em pouco tempo, também este abandonaria o projeto.
Nesta altura os Cure passam a ser um trio composto apenas por Robert na voz e guitarra, Michael Dempsey no baixo e Lol Tolhurst na bateria. Enviam as suas demos a todas as grandes editoras, mas não obtêm nenhuma resposta excepto do A&R da Polydor, Chris Parry, que ao ouvir a canção "10:15 Saturday Night" se entusiasmou e sentiu ter encontrado uma banda com enorme potencial.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg. 12 Após uma longa conversa, com vários copos à mistura, assinam um contrato com Parry. Porém, não foi com a Polydor, como esperavam inicialmente, mas sim pela sua própria editora que acabara de criar — a Fiction Records. Assim, os The Cure, são a primeira banda a assinar por este selo discográfico.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg. 14
O primeiro single da banda, "Killing an Arab", é lançado no Natal de 1978 e é bem recebido pela crítica inglesa sem, no entanto, pelo seu título, deixar de criar polémica — para aumentar a controvérsia era também frequente, ainda que com grande desagrado por parte da banda, a presença da Frente Nacional Britânica em vários concertos — junto de pessoas menos informadas que pensaram que a música teria conteúdo racista, porém a música não era nem mais nem menos que uma singela homenagem ao romance existencialista, O Estrangeiro, de Albert Camus.Dave Thompson, Jo Ann Greene, pg. 10, 11 O primeiro álbum, Three Imaginary Boys, sai em Maio de 1979, e foi igualmente recebido com boas críticas, ao ponto de os apelidarem de "os novos Pink Floyd" (do período de Syd Barrett).
Contudo, o que caracteriza este primeiro álbum, uma espécie de compilação de temas antigos ainda com algumas influências punk, é uma música rápida e direta que já não reflete a imagem de Robert Smith desta altura, mas sim a do passado, do período Easy Cure.Dave Thompson, Jo Ann Greene pg. 23, 24 Apesar disso, há já algumas boas indicações quanto ao som que Robert estaria a imaginar para o futuro em temas como "Another Day", "10:15 Saturday Night" ou "Three Imaginary Boys" — três canções já mais melancólicas, intimistas e sombrias. A capa deste álbum tem a particularidade — bastante original, diga-se — de não ter imagem nenhuma da banda, mas sim de três objetos comuns a representá-la (abajur, aspirador e um frigorífico), e tampouco em lugar algum se pode ver o nome das faixas. Apenas encontramos imagens relacionadas com cada uma delas, criando assim um certo mistério e intelectualismo em torno do grupo de Smith.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg. 20, 21, 26 Chris Parry queria demonstrar com esta estratégia, que a banda valia essencialmente pela sua música e não pela sua imagem. Neste período, que vai até, mais ou menos, à segunda passagem de Smith pelos Banhees, pretendiam demonstrar que eram essencialmente pessoas comuns a fazer música sem necessitar de qualquer tipo de imagem ou encenação.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg. 20, 21, 37
thumb|left|upright=1.3|Steven Severin, Siouxsie Sioux e Budgie da banda Siouxsie and the Banshees da qual Robert Smith era afiliado em 1979, e de 1982 a 1984. Começam em Maio de 1979 a tournée de promoção ao álbum e três meses depois são convidados para banda de suporte de Siouxsie and the Banshees.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg. 26 Após uma invulgar e inesperada deserção no seio deste grupo, em plena tournée, Robert Smith oferece-se para o lugar de guitarrista até ao fim desta — sabia que abrir para os Banshees era de importância vital para a sua banda e não podia correr o risco de esta ser cancelada — e passa a fazer ambos sets, tanto pelos Cure como pelos Banshees.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg. 26, 27, 28 Essa experiência musical com os Banshees teve um forte impacto sobre Smith, permitindo-lhe tocar uma música mais sombria e com mais efeitos nas guitarras: .Paytress, Mark. "Siouxsie & the Banshees: The Authorised Biography" [livro]. Sanctuary Publishing. 2003. Entretanto, editam o single "Boys Don't Cry", em Junho, que, apesar das boas expectativas que tinham, não obtém o sucesso esperado.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg. 126
O terceiro single dos Cure, "Jumping Someone Else's Train" foi lançado no começo de Outubro de 1979. Pouco depois, Dempsey, sai da banda pela sua fria recepção ao material que Smith havia escrito para o álbum seguinte.Apter, pg. 106 Dempsey junta-se aos The Associates, enquanto o baixista Simon Gallup e o teclista Matthieu Hartley, da banda de pós-punk/new wave de Horley, The Magspies, se juntam aos The Cure.Barbarian, Steve Sutherland, Robert Smith, pg. 30, 31 Já com a nova formação, os Cure apresentam várias canções ao vivo do projetado segundo álbum, denotando, desde logo, uma viragem abrupta na sua sonoridade.Apter, pg. 112 Enquanto isso, uma banda paralela formada por Smith, Tolhurst, Dempsey, Gallup, Hartley e Thompson, com vozes de apoio da família e amigos, e com o carteiro local, Frankie Bell, a vocalista, lançam um single de 7 polegadas em Dezembro sob o nome presumido de Cult Hero.Apter, pg. 100–101
Período obscuro (1980–1982) Após a edição deste primeiro álbum e da sua tournée de promoção, Robert, inicia pouco depois a gravação do período mais sombrio do grupo — a trilogia, Seventeen Seconds, Faith e Pornography. Este período é considerado, por uma parte considerável de fãs, como a melhor fase da banda no qual foram produzidas canções incontornáveis da sua carreira como "A Forest", "Play For Today", "Primary", "Faith", "Charlotte Sometimes", "One Hundred Years" ou "A Strange Day". Se Seventeen Seconds nos reporta ao princípio do fim da ilusão infantil e da inocência do amor, Faith, por sua vez, descreve, com uma precisão assinalável, a agonia e morte de esses mesmos sentimentos. Em Pornography, toda essa melancolia letárgica e emoções reprimidas, liberta-se em forma de desespero, raiva e ódio contra a realidade humana, colocando este álbum como um referente indefectível para a música alternativa.