A vacina do sapo é o nome popular para a aplicação das secreções produzidas pela perereca Kambô (Phyllomedusa bicolor) em pequenos ferimentos ou queimaduras produzidos nos braços ou nas pernas de uma pessoa, para que as substâncias presentes na pele do animal penetrem na circulação sanguínea. Esta aplicação do veneno possui efeitos laxativos, normalmente causando náusea, vômitos e diarreia, e podendo causar a morte. Não há evidência científica de ser tratamento eficaz para nenhuma condição médica.

O procedimento é tradicionalmente realizado por xamãs indígenas ou curandeiros, designados por alguns como "sapeiros" no norte do Brasil, e integra o conjunto de práticas da medicina indígena praticada na Amazônia. Tradicionalmente usado como revigorante e estimulante para caça por grupos indígenas do sudoeste amazônico, em décadas recentes também passou a ser usada nos centros urbanos.Lima, Edilene Coffaci de; Labate, Beatriz Caiuby. "Remédio da Ciência" e "Remédio da Alma": os usos da secreção do kambô (Phyllomedusa bicolor) nas cidades. CAMPOS - Revista de Antropologia Social, [S.l.], out. 2007. ISSN 1519-5538. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/campos/article/view/9553/6626>. Acesso em: 02 de agosto de 2021. doi:10.5380/cam.v8i1.9553.

thumb|180px|Phyllomedusa bicolor

Tradição indígena A aplicação da vacina do sapo tem origem em várias tribos indígenas da Amazônia, incluindo kanamaris, katukinas, caxinauás, matsés, marubos, matis, yaminawa, shawadawa, ashaninka e os culinas.Enciclopédia Mirador Internacional, Anfíbios V2 (551-560) SP, Encyclopædia Britannica do Brasil / Melhoramentos, 1987

Segundo as tradições desses povos indígenas, o ritual acerca de seu uso visa acabar com a má sorte na pesca e na caça e também para acabar a "panema", o estado de espírito negativo que causa doenças.Gorman, Peter Making Magic, A Westerner Glimpses One of the Secrets of a Tribe of Hunter-Gatherers in the Amazon - originally in Omni Magazine in July, 1993 -http://www.pgorman.com/MakingMagic.htm, 2004Labate, Bia. O Pajé que virou sapo e depois promessa de remédio patenteado. -http://www.antropologia.com.br/ Coluna, Edição nº 27, SP, abril de 2005

As pesquisadoras Lima e Labate assinalam que paralelo a expansão do uso entre seringueiros e mais recentemente no meio urbano alguns grupos indígenas como os nuquini e poyanawa reiniciaram a sua utilização a partir de influências de grupos indígenas vizinhos que mantiveram o uso da secreção ao longo dos anos como os katukina, yawanawá, kaxinawá, marubo e matsés nos estados do Acre e Amazonas.

Lima e Labate citam, como possivelmente a primeira descrição do uso da substância, a feita pelo missionário Constantin Tastevin em 1925, falando da prática entre as que populações indígenas do Alto Juruá:

Uso nos centros urbanos thumb|200px|Aplicação da secreção do sapo na pele. Países: Brasil, Colômbia, Guiana e Peru Proibida no Brasil desde 2004 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em função da ausência de comprovação de segurança ou eficácia, e da identificação de campanhas e matérias publicitárias sendo feitas na época promovendo o seu uso, mas sem mencionar seus riscos.

A consciência dos riscos e conhecimento de medidas de urgência e emergência médica deveria ser difundido mesmo entre as populações indígenas. Pesquisas devem ser feitas por especialistas para entrever o modo como os indígenas lidam com tais situações, se provavelmente ocorrem e/ou se há especificidades de suscetibilidade imunológica associada à características raciais. De qualquer sorte o entendimento do sistema etnomédico indígena não deve descartar sua integração a outras práticas tidas como xamânicas por setores de nossa sociedade capazes tanto de influenciar as culturas indígenas como de serem influenciados por elas.

Farmacologia

thumb|217x217px|Estrutura química da Dermorfina

Segundo Haddad Jr. e Itamar, Junior, Vidal Haddad, and Itamar Alves Martins. “KAMBÔ: an Amazonian enigma.” Journal of venom research vol. 10 13-17. 26 May. 2020. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7284396/ aces. 11/01/2022 desde a década de 1980, pesquisadores e empresas se interessam pela composição dessas secreções. A secreção inclui uma variedade de compostos chamados peptídeos, com diferentes efeitos. Peptídeos encontrados nestas secreções incluem a dermorfina e a deltorfina. Estes peptídeos se ligam aos receptores opioides sauvagina, um vasodilatador, e dermaseptina, que possui propriedades antimicrobiais in vitro. Várias outras substâncias, como a filomedusina, filocinina, cerulina e adrenoregulina também estão presentes.

Existe pesquisa médica ativa sobre os efeitos biológicos dos peptídeos encontrados nas secreções da pele das Phyllomedusa bicolor. Até novembro de 2019, apenas pesquisas pré-clínicas em ratos e camundongos haviam sido publicadas, mas ainda não havia nenhum ensaio clínico da segurança em humanos.

Espécies do gênero

Outras espécies Possivelmente espécies do mesmo gênero apresentam substancias semelhantes em suas secreções. Sabe-se também que diversas espécies de Anuros apresentam substancias tóxicas em sua estrutura corporal,Dornelles, M., Marques, M., Renner, M. Revisão sobre toxinas de Anura (Tetrapoda, Lissamphibia) e suas aplicações biotecnplógicas - DOI: http://dx.doi.org/10.15602/1983-9480/cmbs.v12n24p103-114. Ciência em Movimento - Biociências e Saúde, Brasil, 12, feb. 2011. Disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistas-ipa/index.php/EUM/article/view/67/39. algumas destas extraídas da família Bufonidae em especial do gênero Bufo geralmente da pele seca do Bufo gargarizans ainda utilizado na medicina chinesa com o nome de Chan’su (Senso em japonês) para dor de cabeça, sinusite e hemorragias causadas por abscesso nas gengivas. Hoje em dia já se reconhece as propriedades anestésicas e vasoconstritoras (que pode estacar sangramentos) de alguns das substâncias extraídas de sapos do gênero bufo (Bufaginas) além das conhecidas Bufoteninas classificada como modificador das funções cerebrais (psicodisléptico) também encontradas em outras espécies do gênero Bufo como o nosso sapo cururu.Chilton WS, Bigwood J, Jensen RE. (1979). "Psilocin, bufotenine and serotonin: historical and biosynthetic observations". J Psychedelic Drugs. 11 (1-2): 61-69.

A espécie Phyllobates terribilis conhecida como sapo do veneno de flecha possuem uma substância chamada batrachotoxina, presente nas glândulas espalhadas por seu corpo. Apenas 136 microgramas (0,1 – 0,2 mg), o que equivale a dois ou três grãos de sal de cozinha (NaCl), são capazes de matar uma pessoa de 68 Kg por paralisia dos músculos respiratórios.DALY, John W.;GARRAFFO, H. Martin; SPANDE, Thomas F. Amphibian alkaloids. (Cap.3) p.193-194 in: CORDELL, Geoffrey A. (Ed.) The Alkaloids: Chemistry and Pharmacology V43: Chemistry and Pharmacology, Volume 43. California, Academic Press, 1993 ISBN 0-12-469543-4 Google BooksTokuyama, T.; Daly, J.; Witkop, B. (1969). "The structure of batrachotoxin, a steroidal alkaloid from the Colombian arrow poison frog, Phyllobates aurotaenia, and partial synthesis of batrachotoxin and its analogs and homologs". J. Am. Chem. Soc. 91 (14): 3931–3938. doi:10.1021/ja01009a052.

Alguns índios que habitam a região noroeste da América do Sul entre a cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, feito os Emberá de língua Chocó que vivem nas florestas que hoje pertencem a Colômbia, utilizam dardos envenenados com as secreções do Phyllobates terribilis em suas zarabatanas para caçar.Guizburg, C. História noturna. SP, Cia das Letras 1991Martins, M.; Sazima I.. Dendrobatídeos, cores e venenos. RJ,1989 Ciência Hoje v 9 nº 53

Ver também 300px|right|thumb|Aldeia Caxinauá no Acre Apiterapia Anafilaxia Toxinologia Dermaseptina Ancrodo Medicina indígena Medicina tradicional Curandeirismo Antropologia médica Etnobotânica Etnozoologia

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