thumb|A República de Veneza O território republicano é vermelho escuro, as fronteiras em vermelho claro
A República de Veneza (; ) foi um Estado soberano e uma república marítima no nordeste da Itália, que existiu por um milênio entre o e 1797.
Foi baseada nas comunidades lagunares da cidade historicamente próspera de Veneza, e foi uma das principais potências econômicas e comerciais da Europa durante a Idade Média e o Renascimento, sendo a mais bem-sucedida das repúblicas marítimas italianas. No final da Idade Média, ocupou territórios significativos no continente, no norte da Itália, conhecidos como ("Domínios da terra firme"), juntamente com a maior parte da costa da Dalmácia, do outro lado do mar Adriático, Creta e inúmeras pequenas colônias ao redor do mar Mediterrâneo, juntos conhecido como o Stato da Màr.
Um lento declínio político e econômico começou por volta de 1500 e, no século XVIII, a cidade de Veneza dependia em grande parte do comércio turístico, como ainda depende, e o Stato da Màr foi em grande parte perdido.
Antecedentes thumb|O Retorno de Bucentauro ao Molo no Dia de Ascensão, por Canaletto (1730). A cena retrata um momento de uma tradicional e importante cerimônia veneziana, o casamento místico do doge, na qualidade de representante da República, com o mar, levado a efeito durante uma procissão aquática liderada pela gôndola ducal, o Bucentauro, quando o doge lança um anel de ouro nas águas. Ao fundo, o Palácio Ducal de Veneza, erguido na Idade Média thumb|Os doges Pietro Orseolo II e Ottone Orseolo
A região onde se ergue Veneza era habitada desde a Pré-história. Sua história escrita começa no tempo dos romanos, que organizaram jurídica e politicamente o território, promovendo o povoamento. No tempo de Augusto, a laguna fazia parte da região romana da Venécia e Ístria, cujo território ia da Panônia até o rio Adda na Lombardia. Diz a tradição que, em 25 de março de 421, foi consagrada a Igreja de San Giacomo di Rialto na região de Rialto, que compreende um grupo de ilhas na laguna, sendo o mais antigo registro sobre sítio com povoamento ininterrupto, uma data que até a queda da república foi comemorada como o natalício da cidade. No as invasões lombardas penetravam todo o norte da Itália, a região de Veneza se tornaria motivo de disputa entre grandes potências, e entre 540-555 foi anexada pelo Império Bizantino. A constante ameaça de invasões fez grande parte da população, que vivia no entorno continental (a terraferma), se retirar para as ilhas da laguna, onde ficava mais protegida pelos pântanos e pelo mar. A primeira capital desse povoamento foi Eraclea, que em 667 foi estabelecida como sede de uma província bizantina. A sede mudou de local algumas vezes até se fixar em Rialto. Em meados do o centro histórico de Veneza já estava basicamente delimitado, mas a densidade populacional ainda era muito baixa.Ravegnani, Giorgio. "La nascita di Venezia, narrazioni, miti, Leggende". Biblioteca Nazionale MarcianaCastagnetti, Andrea. "Eta Ducale - La societa e gli ordinamenti: Insediamenti e Populi". In: Storia di Venezia. Treccani, 1992
Em 697, de acordo com a tradição, teria sido eleito o primeiro duque (doge), Paulo Anafesto, por aclamação da assembleia civil, um Conselho Geral (), mas a historicidade deste doge é controversa. Nesta época o povoamento veneziano estava subordinado ao Exarcado de Ravena, ao qual cabia indicar e instalar o doge. O Conselho podia vetar a indicação. O primeiro cuja existência é certa é Orso Ipato, eleito em 726. O doge atuava como um monarca vitalício, mas não hereditário, formalmente chamado de cônsul imperial e duque das Províncias Vênetas (Venécia). Seu poder era abrangente, mas era moderado por dois tribunos, eleitos a cada ano, e pela Concio generalis. Entre suas capacidades, eram enfatizadas as militares, devido a uma história de séculos de invasões repetidas na região.Ortalli, Gherardo. "Eta Ducale - Il Dinamismo Politico: Il Ducato e la Civitas Rivoalti: tra carolingi, bizantini e sassoni". In: Storia di Venezia. Treccani, 1992Archivio di Stato di Venezia [Mosto, Andrea da (ed.)]. L'Archivio di Stato di Venezia: Indice Generale, Storico, Descritivo. Tomo I. Volume V della Biblioteca degli Annales Institutorum. Biblioteca d’Arte Editrice, 1940, p. 69-73; 219-220 A elite era composta pela famílias fundadoras da cidade, os cittadini originarii, que dominavam a Concio e o tribunato e formavam a primeira nobreza local.
Ascensão O sucessor de Orso Ipato, , mudou sua sede de Eraclea para Malamocco (no Lido) na década de 740. Ele era filho de Orso e representou a tentativa de seu pai de estabelecer uma dinastia. Tais tentativas eram mais do que comuns entre os doges dos primeiros séculos da história veneziana, mas nenhum teve sucesso.
A mudança política do Reino Franco, começou a mudar a divisão faccional de Veneza. Uma facção era decididamente pró-bizantina. Eles desejavam permanecer bem conectados ao império. Outra facção, de natureza republicana, acreditava em continuar no caminho da independência prática. A outra facção principal era pró-franca. Apoiados principalmente pelo clero (em linha com as simpatias papais da época), eles olhavam para o novo rei carolíngio dos francos, Pepino, o Breve, como o melhor provedor de defesa contra os lombardos. Uma facção menor, pró-lombarda, se opunha a estreitar laços com qualquer uma dessas potências mais distantes e interessava-se em manter a paz com o vizinho Reino Lombardo, que cercava Veneza, exceto do lado do mar.
Teodato Ipato foi assassinado e seu trono usurpado, mas o usurpador, Galla Gaulo, sofreu um destino semelhante dentro de um ano. Durante o reinado de seu sucessor, Domênico Monegário, Veneza mudou de uma cidade de pescadores para um porto de comércio e centro de mercadores. A construção naval também foi muito avançada e o caminho para o domínio veneziano do Adriático foi estabelecido. Também durante o mandato de Domênico Monegário, foi instituído o primeiro tribunal duplo. A cada ano, dois novos tribunos eram eleitos para supervisionar o doge e evitar abusos de poder.
Nesse período, Veneza estabeleceu um próspero comércio de escravos, comprando na Itália, entre outros lugares, e vendendo aos mouros, no norte da África. O próprio Papa Zacarias teria proibido tal tráfico para fora de Roma.Duchesne, Louis Marie Olivier. XCIII Zacharias (741–752). Le Liber pontificalis; texte, introduction et commentaire par L. Duchesne (Volume 1). 1886. p. 426–439. Available on archive.orgReverend Alban Butler. "St. Zachary, Pope and Confessor". The Lives of the Saints, Volume 3. 1866.
O pró-lombardo Monegário foi sucedido em 764, por um pró-bizantino eracleano, Maurício Galba. O longo reinado de Galba (764-787) levou Veneza a um lugar de proeminência não apenas regional, mas internacional e viu o esforço mais concertado até agora para estabelecer uma dinastia. Maurício supervisionou a expansão veneziana para as ilhas de Rialto. Ele foi sucedido por seu filho igualmente longo reinado, Giovanni Galbaio, que entrou em conflito com Carlos Magno sobre o comércio de escravos e entrou em conflito com a igreja veneziana.
As ambições dinásticas foram destruídas quando a facção pró-franca conseguiu tomar o poder sob em 804. Obelério trouxe Veneza para a órbita do Império Carolíngio. No entanto, ao chamar o filho de Carlos Magno, Pepino, rex Langobardorum, em sua defesa, Obelério levantou a ira da população contra ele e sua família e eles foram forçados a fugir durante o cerco de Veneza por Pepino. O cerco provou ser um fracasso carolíngio caro. Durou seis meses, com o exército de Pepino devastado pelas doenças dos pântanos locais e eventualmente forçado a se retirar. Alguns meses depois, o próprio Pepino morreu, aparentemente como resultado de uma doença contraída ali.
Veneza alcançou assim uma independência duradoura ao repelir os sitiantes. Isso foi confirmado em um acordo entre Carlos Magno e Nicéforo que reconheceu Veneza como território bizantino e também reconheceu os direitos comerciais da cidade ao longo da costa do Adriático, onde Carlos Magno ordenou anteriormente ao papa que expulsasse os venezianos da Pentápolis.
Alta Idade Média thumb|O Leão de Veneza
O sucessores de Obelério herdaram uma Veneza unificada. Pela Pax Nicephori (803), os dois imperadores tinham reconhecido a independência de facto de Veneza, ao mesmo tempo em que a cidade se mantinha nominalmente vassala do Império Bizantino. Em 840 já era para todos os efeitos uma entidade política com amplo grau de autonomia, mas a influência de Bizâncio permaneceria forte por muito tempo, definiria boa parte da sua cultura inicial, e só começaria a enfraquecer no .
No ano de 840 o território tinha vários núcleos importantes de povoamento, entre eles Rialto, Olivolo, Murano, Malamocco, Albiola, Chioggia, Brondolo, Fossone, Loreo, Torcello, Ammiana, Burano, Cittanova, Fine, Equilo, Caorle e Grado. As fontes da época são escassas e lacônicas demais para permitir um bom entendimento de como funcionavam em termos administrativos. Cronistas antigos sugeriram que em suas etapas iniciais esses núcleos se uniram em um sistema federativo, com administrações locais mais ou menos autônomas a cargo de tribunos, uma ideia ainda defendida por muito historiadores contemporâneos, mas a base dessa tradição historiográfica é fraca e se sustenta apenas por uma suposição de que a organização local imitava a organização política bizantina e a de regiões vizinhas, mas não sobrevivem documentos que a provem. Se chegou a haver uma federação, ela não durou. No começo do século IX a autoridade dos tribunos havia se tornado apenas simbólica e o dogado se constituíra em um poder claramente centralizado, embora a condição de um efetivo Estado unificado ainda fosse embrionária.
Um traço distintivo da história da república foi sua completa aversão ao desenvolvimento do feudalismo, não havendo condições nem culturais e nem sociais ou políticas que permitissem a afirmação de famílias encasteladas como potentados locais. Além disso, apesar da concentração inicial do poder na figura do doge, os séculos X e XI seriam o palco de uma contínua disputa entre os doges e a nobreza pelo controle do governo, na qual os nobres acabariam triunfando. Um reflexo disso foi o fracasso de todas as poucas tentativas de se formar dinastias governantes hereditárias. Ao longo desse processo, a nobreza do núcleo habitado de Rialto assumiu o papel de protagonista em termos de influência política. Segundo Andrea Castagnetti, crônicas dos séculos XI e XII ainda insistem nas narrativas sobre a existência de uma federação, mas são mais o sintoma de um desejo da nobreza das outras cidades de ter voz ativa no governo central do que a expressão de uma realidade, pois mesmo que essas cidades já fossem bastante populosas, permaneceram com uma organização acentuadamente rural, enquanto Rialto, núcleo originador da cidade de Veneza e sede ducal, desenvolvia um perfil de metrópole e capital.Castagnetti, Andrea. La società veneziana nel medioevo. I. Dai tribuni ai giudici. Verona, 1992, pp. 25-29
Durante o reinado dos Participácios, Veneza cresceu em sua forma moderna. Embora eracleano de nascimento, Ângelo, primeiro doge da família, foi um imigrante pioneiro para Rialto e seu governo foi marcado pela expansão de Veneza sobre o mar por meio da construção de pontes, canais, baluartes, fortificações e edifícios de pedra. A moderna Veneza, junto com o mar, estava sendo parida. Ângelo foi sucedido pelo filho , que levou o corpo de São Marcos de Alexandria para Veneza e fez dele o santo padroeiro da cidade. thumb|O faustoso interior da Basílica de São Marcos, influenciado pela arte bizantina, é ilustrativo da opulência da república na Idade Média