Rogério Paulo (Silva Porto, Angola, 17 de Outubro de 1927, — Lisboa, 25 de Fevereiro de 1993) foi um encenador e actor português com presença marcante em Portugal desde a década de 1950, no teatro, no cinema e na política.
Biografia Rogério Gomes Lopes Ferreira nasceu em 17 de Novembro de 1927 em Silva Porto, África Ocidental Portuguesa (actual Kuito, Angola).
Ainda aluno do Conservatório Nacional, juntou-se em 1950 à Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro. Aqui trabalhou com Amélia Rey Colaço, Palmira Bastos, Nascimento Fernandes e Maria Matos. Estreia-se no cinema em A Garça e a Serpente (1952). Adquiriu estatuto de galã na comédia O Costa d'África (1954) e contracenou com Vasco Santana, Laura Alves, Anna Paula e Ribeirinho.
Rogério Paulo foi cidadão politicamente activo desde a juventude, acérrimo opositor do regime fascista de Oliveira Salazar, que sempre combateu. Em 1957 integrou as listas da oposição democrática ao regime. Durante a ditadura nunca assumiu a sua ligação ao Partido Comunista Português, do qual foi militante desde 1953. Participou da "fuga de Peniche", com Álvaro Cunhal e outros comunistas, a 3 de Janeiro de 1960. Quando Marcelo Caetano ascendeu ao poder, redigiu um documento, assinado por 170 actores, que protestava contra o estado do teatro em Portugal e contra a censura, que há muito impedia a liberdade de expressão, espartilhando a criação artística no país.
Depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, durante o PREC, numa célebre reunião com gente de teatro na Fundação Calouste Gulbenkian, Rogério Paulo quer ganhar a aposta: os signatários «iam salvar o teatro», «agora, é que os grupos (o Teatro da Comuna, A Barraca, a Cornucópia e outros) «iriam ver o que era teatro a sério».
Entre 1975 e 1976 foi deputado na Assembleia Constituinte, a primeira assembleia eleita em liberdade depois da revolução, substituindo José Pinheiro Lopes de Almeida eleito pelo PCP no Círculo Eleitoral de Lisboa.
Sonhou com a Revolução socialista, com a igualdade social. A Revolução dos Cravos deu-lhe asas ao sonho. Tornou-se presidente da Associação Portugal-Cuba. Tentou realizar ideais que dignificassem os desfavorecidos, como o do cooperativismo. No seu reino, o do teatro, passou à acção e estabeleceu solidárias relações com actores de intervenção, como o cubano Alfonso Sastre. Os ventos sopram a favor: imaginam um «organismo de vocación federal que habrá de considerar en su horizonte la incorporación de Portugal bajo la insignia de lo Ibérico».artigo, 14 de abril de 2007 A História do tempo em que vive explica o sonho.
Destacou-se em filmes como O Crime da Aldeia Velha (1964), de Manuel Guimarães, A Recompensa (1979), de Arthur Duarte, Verde por Fora, Vermelho por Dentro (1980), de Ricardo Costa e Sem Sombra de Pecado (1983), de José Fonseca e Costa. Na televisão ficou marcada a sua passagem com o personagem "Mimoso das Sardinhas" na telenovela Chuva na Areia (1985).
Rogério Paulo morreu em 25 de Fevereiro de 1993 em Lisboa.
Teatro O Teatro-Estúdio do Salitre, em Lisboa, companhia amadora dirigida pelo italiano Gino Saviotti, emigrado em Portugal após a queda do fascismo em Itália, pretendeu impor-se com um reportório actual para a época. Dele sairam António Manuel Couto Viana, Artur Ramos, Luís Francisco Rebelo, Ricardo Alberty (autor de teatro infantil), Rogério Paulo.
A Companhia Amélia Rey Colaço - Robles Monteiro dirigiu o Teatro Nacional. Caracterizava-se por uma escolha apurada de belos textos, alguns revolucionários. com encenações ousadas. Francisco Ribeiro (o Ribeirinho) e seu irmão António Lopes Ribeiro e os Comediantes de Lisboa, exploravam autores mais clássicos como Bernard Shaw. Os Companheiros do Pátio das Comédias, o Teatro do Povo (Ribeirinho) e depois o Teatro Nacional Popular tinham por alvo um público menos exigente.
Rogério Paulo iniciou a sua carreira profissional em 1950 na Companhia Alves da Cunha. Faz teatro radiofónico na RCP ao lado de nomes como Paulo Renato, Alves da Costa, Isabel Wolmar, Carmen Dolores, Laura Alves, Álvaro Benamor e Josefina e António Silva. O seu aspecto de galã levou-o pouco depois a lançar-se como actor de cinema. Com Glicínia Quartin e Artur Ramos, fundou em 1958 O Teatro do Jovem Espectador, que estreou a peça Emílio e os detectives. Três anos mais tarde, em finais de 1961, com esses dois actores e outros (Fernando Gusmão, Armando Cortez, Paulo Renato) fundou um novo grupo: o Teatro Moderno de Lisboa que, nas palavrasGlicínia Quartin de Glicínia Quartin foi «uma pedrada no charco naquela época». O grupo esteve quatro temporadas em cena, no Cinema Império.Homenagem a Armando Caldas em Jornal de Notícias Carmen Dolores refere que «o que de facto se passou nas idas e (infelizmente) curtas temporadas de 1961/62, 1962/63 e 1964/65 foi o despertar de uma geração».
O Teatro Moderno de Lisboa, criado sem subsídios, foi uma iniciativa revolucionária para a época sendo uma sociedade artística com divisão de lucros pelos associados e a primeira companhia a representar em Portugal autores como Arthur Miller, August Strindberg e John Steinbeck. Teve grandes sucessos como O Tinteiro, de Carlos Muñiz, onde o desempenho de Armando Cortez se destacou. Tornou-se, como se lê na revista Vértice de Fevereiro de 1962, «um dos casos mais sérios de companhias portuguesas, tanto pelos intuitos que se propõe, como pelos elementos de que dispõe». Refere ainda a mesma revista que a companhia, fazendo convergir três agentes (o autor, o encenador e o actor) constituiu «um verdadeiro “triângulo de juventude” que é interessante fixar para que se desenhe com verdade um característico aspecto de renovação do teatro em Portugal». O Teatro Moderno de Lisboa fechou as portas ao fim de três épocas: «A PIDE perseguia-nos dia e noite», assim se explicou Glicínia Quartin.
Pouco a pouco, Rogério Paulo tornou-se um dos mais conceituados encenadores do teatro português. No Teatro Nacional Dona Maria II encena peças como Esfera Facetada (1969), de Nuno Moniz Pereira, e O Pecado de João Agonia (1969), de Bernardo Santareno.
Com a Revolução dos Cravos assumiu as suas convicções políticas. Publicou Um Actor em Viagem (1976) e Introdução ao Teatro Cubano (1978). Um dos seus últimos trabalhos no palco foi Mãe Coragem e Seus Filhos (Mutter Courage und ihre Kinder), de Bertolt Brecht, contracenando com Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho, Catarina Avelar, Irene Cruz e Carlos Daniel (1986). Estreada a 5 de Junho de 1986 e encenada por João Lourenço, a peça é «um sucesso sem precedentes com grande afluência de público» e obtém o Prémio Garrett, como melhor produção de 1986, atribuído pela Secretaria de Estado da Cultura.
Filmografia Cinema Integrou o elenco dos filmes: 1952 – A Garça e a Serpente, de Arthur Duarte 1954 – O Costa d'África, de João Mendes 1960 – Encontro com a Vida, de Arthur Duarte 1962 – L’Anglaise, de Artur Ramos 1964 – O Elixir do Diabo, de Thor L. Brooks 1964 – O Crime da Aldeia Velha, de Manuel Guimarães 1964 – Le Grain de sable, de Pierre Kast 1979 – A Recompensa, de Arthur Duarte 1980 – Le Soleil en Face, de Pierre Kast 1980 – Verde por Fora, Vermelho por Dentro, de Ricardo Costa 1982 – La Guérilléra, de Pierre Kast 1983 – Le Cercle des Passions, de Claude d'Anna 1983 – Sem Sombra de Pecado, de José Fonseca e Costa 1992 – O Luto de Electra, de Artur Ramos 1993 – Zéfiro, de José Álvaro Morais 1996 – O Judeu, de Jom Tob Azulay
Televisão 1957 – Um Pedido de Casamento, de Artur Ramos 1971 – O Anfitrião ou Júpiter e Alcmena, de Félix Ferreira 1974 – A Morte de um Caixeiro Viajante, de Henry Miller, adaptação de Félix Ferreira 197? – Juan Palmieri, de Bento Pinto da França 1975 – Português, Escritor, 45 Anos de Idade, de Artur Ramos 1975 – 24, 25, 26 (de Abril), de Arthur Ramos 1979 – O Convidado Debaixo da Mesa, de João Roque 1986 – Resposta a Matilde, de Artur Ramos 1987 – A Relíquia, , adaptação do livro de Eça de Queioz por Artur Ramos e Luis Sttau Monteiro 1987 – Mãe Coragem e Seus Filhos, adaptação da peça de Brecht por João Lourenço 1969 – Trilogia das Barcas, de Arthur Ramos 1970 – Millionen nach Maß, mini-série, de Erich Neureuther 1983 – Origens, de Nicolau Breyner 1984 – Chuva na Areia, série, de Nuno Teixeira 1980 – Retalhos da Vida de um Médico, de Artur Ramos 1989 – Ricardina e Marta, de Victor Manuel
Obras
Prémios e homenagens Foi-lhe atribuído o Prémio Bordalo 1962, na categoria Teatro, a par da atriz Laura Alves, do Teatro Moderno de Lisboa e do autor Bernardo Santareno, entregue pela Casa da Imprensa em 1963.
Em 1969, pelo seu trabalho na peça Tango, de Slawomir MrozeKa, a Secretaria de Estado da Informação e Turismo atribuí-lhe o "Prémio Eduardo Brazão", para melhor encenação de teatro declamado. Eunice Muñoz considerou-o como «uma criatura muito honesta e um grande companheiro, para além de ser um grande actor».José de Matos-Cruz em Imaginário (Memória)
Em 1990, quando fez quarenta anos de vida teatral, recebeu a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pela Secretaria de Estado da Cultura de Portugal.
Ver também Teatro de Portugal Cinema de Portugal
Bibliografia
Ligações externas
Artigos relacionados Teatro: um espartilho chamado censura – artigo de Morais e Castro Ver: Teatro Moderno de Lisboa, em Festival de Almada Até uma carta gosto de redigir em voz alta – entrevista com Carmen Dolores em Correio dos Açores Armando Caldas homenageado pelo seus 50 anos de carreira – em GForum, Cultura e Lazer José Morais e Castro em entrevista à Sociedade Portuguesa de Autores La traición del padre Martín – em Cuban Latino Theater Archive Rogério Paulo no jornal El Pais A Fuga de Peniche (com participação de Rogério Paulo) em OTI Fuga de Peniche - Um passo para a Revolução de Abril na pág. web do Partido Comunista Português Fuga de Peniche foi há 40 anos – artigo do jornal Avante de 3 de Janeiro de 2000 Dias Lourenço e a fuga de Peniche em Setúbal na Rede
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