No fim do século XIV e durante o convulso século XV ocorreu na isolada Galiza a transformação da antiga nobreza e a incorporação de uma nova que formaram seu poder econômico e social alicerçado na posse da terra (unificada num único patrimônio, sob a mão do cabeça-de-casal) e o poder das armas. Configurou-se assim uma sociedade baseada na instituição do morgado e no ideal cavaleiresco, dando lugar às linhagens, que perduraram durante toda a Baixa Idade Média e até a Idade Moderna, com a reforma política levada a cabo pelos Reis Católicos, tendo muitas delas continuidade quando conseguiram adaptar-se à nova situação, achegando-se ao novo centro real de poder, a Corte Real.

O passo da cognação à agnação: a generalização do morgado dentro de um quadro de crise thumb|270px|Progressão anual da peste negra na Europa no século XIV. A cor verde indica baixa incidência

O século XIV foi o século das calamidades, um século de crise: Crise agrária que provocou uma terrível fome que abriu as portas à grande epidemia de peste que assolou Europa de ponta a ponta. A guerra, presente na maioria do território europeu. Também na Galiza, que participou ativamente nos conflitos nos quais se viu imersa a coroa de Castela.

A expansão demográfica e econômica de séculos anteriores foi destacável, mas já no fim do século XIII se apreciara certa recessão que se iria agravando com a mudança de centúria, isto foi devido ao estancamento da agricultura. Foi nesta tessitura que fez aparição a fome. E foram duas as razões principais: uma de índole econômica e outra de índole social. A primeira devido a que, com a bonança agrícola, o aumento demográfico fora espetacular, mas com a súbita parada das araduras de terras não havia suficientes alimentos para todos e, além disso, a rigorosidade do clima estragava as colheitas. A segunda razão, consequência do anterior, foi o enorme desequilíbrio social, já que as classes dominantes decidiram adotar uma posição defensiva aumentando as carregas fiscais e rendas que tinham que pagar seus vassalos, sem reinvestir o obtido na melhora da produtividade. Mas alguns nobres laicos com poucas terras recorreram a outros meios mais expeditivos para subsistirem.

Um exemplo encontra-se no ordenamento dado por Afonso XI nas cortes de Valladolid de 1325, que contestava às queixas interpostas por mosteiros e prelados sobre os atropelos cometidos pelos ricoshomes ou seus meirinhos. As fontes da época recolhem, não isentas de dramatismo, as calamidades que castigavam nomeadamente à população mais desfavorecida: fue muy grant mortandat en los ganados, e otrosí la simiença muy tardía por el muy fuerte temporal que ha fecho de muy grandes nieves e de grandes yelos.

Depois fez aparição a peste, a princípios do outono de 1348, e foi na costa onde se detectaram os primeiros brotes pestíferos, na zona do bispado de Tui, para ir estendendo-se para o interior da Galiza através das vias de comunicação mais frequentadas.

A escassez de braços tornou-se evidente, obrigando à nobreza a reorganizar suas explorações e a ganhar o pão mediante outras formas: a violência indiscriminada, roubos, novos impostos (os maus usos), etc.

thumb|275px|left|Arte do códice de esgrima medieval Gladiatória em que se amostra a esgrima de espada longa armada

O terceiro grande lastro que acompanhou o século XIV foi a guerra. De entre os conflitos salienta a guerra civil entre Pedro I e Henrique de Trastâmara (futuro Henrique II) entre 1365 e 1369. Neste conflito a Galiza jogou um papel ativo e protagonista, posicionando-se a maior parte da alta nobreza e as urbes junto a Dom Pedro. A ingente massa de pequenos cavaleiros aproveitaram a contenda para ascender socialmente apoiando a causa do bastardo. Com o triunfo deste, foram eles os que ocuparam os postos vacantes deixados pela nobreza petrista.

O século XV foi palco de atropelos e abusos por parte destes cavaleiros, como também de uma instabilidade interna cujo máximo expoente se personificou nas contínuas disputas bandeiriças entre os diferentes magnatas e os prelados das mais importantes Sés. Mas a instabilidade transladou-se ao mesmo seio da aristocracia, ou seja, às mesmas bases que alicerçavam sua própria existência: a terra. Houve desde o final do século XIII uma reorganização dos modos de traspasso dos bens patrimoniais com a única ideia de reforçar o patrimônio e evitar a "fuga" das escassas terras possuídas em casamentos e na divisão das mesmas entre os filhos. O morgado converteu-se assim numa verdadeira instituição, tornando-se no primeiro passo da cognação à agnação.

300px|thumb|A batalha de Aljubarrota (1385) enfrentou o reino de Portugal com o de Castela O gérmen da transmissão patrimonial no período alto medieval foi o germânico, sendo os códigos e direitos que a regulamentavam iguais para toda a prole (modelo cognatício); o patrimônio constituiu aquele conjunto de bens imóveis e para que isto ocorresse estes bens deviam ser estáveis e sólidos. O princípio cognativo obriga que a repartição da herança prime equitativamente a todos os filhos havidos no casal sem importar sexo e idade. Este princípio gerava certa instabilidade patrimonial e, portanto, precisava a busca de soluções adequadas que paliassem a crescente desconfiança neste sistema sucessório.

Também se tem de levar em conta os seguintes condicionantes: as quatro quintas partes das posses matrimoniais passavam às mãos dos filhos, restando uma quinta parte à livre disposição dos cônjuges. Normalmente esta parte ia parar quer às instituições eclesiásticas (nomeadamente às ordens mendicantes para que agissem como mediadores frente ao passo ao além, visando assim garantir a glória celestial) ou para dotar melhor a algum dos filhos. O princípio cognativo rachava pois, paulatinamente, os bens familiares desmembrando sua base econômica.

Surgiu então um novo modelo que já se vinha impondo em outros territórios europeus, o princípio agnatício, mediante o qual prevalece a linha paterna da família (frente à materna do anterior) à hora da sucessão como também também a primogenitura. Está firmemente vinculado a um apelido, num solar determinado, à ideia de linhagem, ao primogênito varão. Um exemplo vê-se no testamento de Pedro Arias de Aldao de 1347: "Quero e he a minha vontade que toda a minha fazenda quede junta, porque sempre aja memória das minhas casas e da minha gente fidalga que deles bem." O primogênito varão era, portanto, o descente privilegiado e recebia todos os bens em conceito de morgado. Era o encarregado de proporcionar prestígio ao apelido e de engrossar o patrimônio. Mulheres e segundos aparecem como os mais prejudicados, ficando relegados a um segundo plano, tendo por diante um futuro cheio de incertezas.

A formação das linhagens thumb|left|160px|O brasão representava uma família nobre

A linhagem sustentava-se no solar de origem, num brasão; incluía a gente viva e morta da família, e apinhava-se ao redor de uma família já não apenas a conjugal, mas a extensa. Cada linhagem tinha um chefe, um autêntico líder que procurava a maior glória para seu apelido e fazia as funções de cabeça visível, e para este fim era educado o varão primogênito.

A pertença a uma determinada linhagem não era uma questão biológica; em torno ao líder tecia-se uma rede de clientelismo (domésticos, meirinhos, homens de armas, criados) junto aos seus consanguíneos. Tinha uma clara função aglutinadora. O chefe tomava todas as decisões que atingiam o seu contorno e tinha a obriga da salvaguarda do patrimônio familiar.

150px|thumb|Espadas do período final da Idade Média Aspirava-se à solidez patrimonial, pelo qual a solução radicava no morgado. Este era constituído pela massa de bens inseparáveis do vínculo hereditário. Além disso, exige-se uma condição fundamental ao primogênito que: se casse com gente fidalga e limpa de toda agaficidade e má raça.

O morgado proporcionava estabilidade àqueles cavaleiros pertencentes às pequenas linhagens economicamente pouco fortes, ávidas por perdurar na história e na memória da fidalguia galega.

A transcendência da linhagem aprecia-se no testamento de Vasco de Ulloa de 1290, no que exige que todos seus bens recaíssem no seu primogênito e se não for assim, em alguma pessoa capaz que portasse o apelido Ulloa: "con condiçon que ditos beens sempre anden juntos heredados encorporados nunha soa persoa (...) a persoa que teña sempre por mais adiantado o meu linaje de Ulloa e o traiga no seu escudo darmas con roda e o pendón da señora Santa Catalina."

No caso da inexistência de filhos legítimos, não resulta estranho que a sucessão recaísse nos ilegítimos: E falecendo a dita Ysabel sem semeda e menor de ydade e hos ditos Lopo e Gonzalo como ditto he, que todos estes dittos bees terras e senhorios que se tornem a Rodrigo meu filho que hey de Maria Fernandez, filha de Pedro Fernandez de Soñar.. Pedro Madruga foi outro bom exemplo desta prática.

thumbnail|200px|left|Castelo de Soutomaior, residência da família nobre dos Soutomaior

O termo "casa" é sinônimo de família ou linhagem. É sua significação simbólica; o gérmen da linhagem, o solar que os identifica perante a sociedade e acompanha o seu apelido. A consciência genealógica que desperta na nobreza galega da Baixa Idade Média mergulha-se até este ponto na procura do seu primeiro valedor; na busca das gestas e da glória que lhe supõe e que dignifique o nome do atual intitular da casa e da linhagem. Ganhará pulo nestes anos o passado, seguindo a linha reta até o mesmo fundador. Em palavras de Duby: Estas representaciones traducen una cierta conciencia de cohesion familiar; además (...) fijaron esta conciencia y la impusieron firmemente a los miembros del grupo, guiando en cierta medida su conducta durante las generaciones posteriores..

Novos modelos de comportamento, novas regras de conduta social e formas de relacionamento com o mundo dos antigos; tudo isto imbuído de uma forte marca militar-cavaleiresca. A partir de agora, geração após geração, embarcar-se-ão em prodigiosos esforços destinados ao crescimento dos bens e da glória da linhagem. Será através do pai de onde se transmita a consciência não somente da linhagem mas também de nobreza; a mãe participará por que ao seu través se percebem os recursos que fazem possível este fato como também o sangue azul que prestigia o cavaleiro.

A nobreza galega começará a preocupar-se da elaboração das árvores genealógicas criando uma realidade do passado à medida dos seus desejos inventando origens míticas e quase totalmente irreais. O solar primigênio (em muitas ocasiões relacionado com uma torre ou fortaleza) não pode ser alienado, deve permanecer inalterado ao ser o suporte da função aristocrática; o lugar onde nasceram e viveram os progenitores, e os destes ao mesmo tempo, do novo senhor.

Funções da cabeça de linhagem

Pelo geral, o chefe da linhagem via acrescentado o patrimônio como consequência da sua criança na casa de algum familiar que, seguindo os usos da época, uma vez armado cavaleiro, recebia do seu tutor alguma posse por muito pequena que fosse. A fortuna sorria mais se tinham a oportunidade de criar-se na corte real, como foi o caso de Fernando de Andrade na época dos Reis Católicos.

thumb|350px|Uma família nobre podia fundar ou melhorar mosteiros. Na imagem, mosteiro de Caaveiro

A linhagem tinha sua expressão material como manifestação de poder e da sua própria existência. Trata-se de uma das múltiplas imagens dos seus membros dadas ao exterior, traduzidas na fundação ou dotação de mosteiros escolhidos como colossais mausoléus familiares; fortalezas e importantes obras públicas (pontes e hospitais) como se veem em Fernán Pérez de Andrade.