O Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética foi o órgão máximo do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) entre os congressos. Eleito pelo Congresso, o Comitê Central tornou-se o núcleo da autoridade executiva e administrativa do partido, com supremacia de facto sobre o governo da União Soviética. Era composto por membros plenos e membros candidatos (sem direito a voto). A autoridade real concentrava-se frequentemente em órgãos menores e mais ágeis eleitos pelo Comitê, nomeadamente o Politburo, o Secretariado e o Orgburo (dissolvido em 1952), bem como no cargo de secretário-geral. Teoricamente uma liderança coletiva, o Comitê tornou-se cada vez mais uma instituição meramente homologadora, sobretudo a partir do fim da década de 1920, sob o domínio de Josef Stalin.
O Comitê Central teve origem no Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), fundado em 1898, e continuou no partido bolchevique, fundado em 1912. Depois que os bolcheviques tomaram o poder na Revolução de Outubro de 1917, o Comitê assumiu um papel central de liderança, funcionando tanto como órgão estratégico quanto como canal para a implementação das diretrizes partidárias no Estado soviético em expansão. Stalin usou seu controle sobre as nomeações de pessoal para dominar o Comitê e assegurar a conformidade ideológica e, durante seu governo, a composição do órgão frequentemente refletiu lutas entre facções, expurgos e reorganizações da liderança. Durante o Grande Expurgo, de 1936 a 1938, uma parcela significativa de seus membros foi executada ou encarcerada.
Após a morte de Stalin, em 1953, o Comitê Central passou por uma relativa revitalização à medida que a liderança coletiva procurava limitar os poderes do secretário-geral, desempenhando papéis fundamentais na tentativa fracassada de destituir Nikita Khrushchov em 1957 e em sua destituição em 1964. Sob Leonid Brejnev e seus sucessores, o Comitê voltou a desempenhar uma função mais cerimonial, refletindo a burocratização mais ampla do sistema soviético. Durante a era Brejnev, o Comitê tornou-se cada vez maior e menos manejável, reunindo centenas de membros plenos e candidatos, entre eles dirigentes regionais do partido, oficiais militares e planejadores econômicos. Os últimos anos do Comitê foram marcados pelas tentativas de reforma de Mikhail Gorbatchov a partir de 1985, período em que foi marginalizado pela crescente influência dos órgãos estatais e pela rápida desintegração do controle partidário. O Comitê foi oficialmente dissolvido após a proibição do PCUS no fim de 1991.
História
thumb|Sede administrativa do Comitê Central do PCUS entre a década de 1920 e 1991, atual Administração do Presidente da Rússia, na Praça Staraya.
Antecedentes: 1898–1917
No congresso de fundação do Partido Operário Social-Democrata Russo (antecessor do Partido Comunista da União Soviética), Lenin conseguiu obter apoio suficiente para a criação de um órgão central todo-poderoso no congresso seguinte. Esse órgão central viria a ser o Comitê Central e teria o direito de decidir todas as questões do partido, com exceção das questões locais. O grupo que apoiou a criação de um Comitê Central no 2.º Congresso passou a ser conhecido como bolcheviques, enquanto os derrotados (a minoria) receberam de seu próprio líder, Julius Martov, o nome de mencheviques. O Comitê Central teria três membros e supervisionaria o conselho editorial do Iskra, o jornal do partido. Os primeiros integrantes do Comitê Central foram Gleb Krzhizhanovsky, Friedrich Lengnik e Vladimir Noskov. Ao longo de sua história, o partido e o Comitê Central foram marcados por lutas internas entre facções e pela repressão das autoridades governamentais. Depois de uma discussão longa e acalorada, Lenin conseguiu convencer o Comitê Central a iniciar a Revolução de Outubro. A maioria dos membros mostrara-se cética quanto a iniciar a revolução tão cedo, e foi Lenin quem conseguiu persuadi-los. A moção para realizar uma revolução em outubro de 1917 foi aprovada pelo Comitê Central por dez votos a favor e dois contra.
Era Lenin: 1917–1922
Segundo Lenin, o Comitê Central deveria ser a autoridade suprema do partido. Muito antes de se unir a Lenin e tornar-se o líder militar soviético, Leon Trótski criticara essa concepção, afirmando: "nossas regras representam a 'desconfiança organizacional' do partido em relação às suas partes, isto é, a supervisão de todas as organizações locais, distritais, nacionais e outras ... a organização do partido toma o lugar do próprio partido; o Comitê Central toma o lugar da organização; e, por fim, o ditador toma o lugar do Comitê Central."
Nos primeiros anos no poder, sob o governo de Lenin, o Comitê Central foi o principal órgão decisório tanto na prática quanto na teoria, e as decisões eram tomadas por maioria de votos. Por exemplo, o Comitê Central votou a favor ou contra a assinatura de um tratado de paz com os alemães entre 1917 e 1918, durante a Primeira Guerra Mundial; a maioria votou pela paz quando Trótski recuou em 1918. O resultado da votação foi o Tratado de Brest-Litovski. Durante os acalorados debates no Comitê Central sobre uma possível paz com os alemães, Lenin não possuía maioria; tanto Trótski quanto Nikolai Bukharin tinham mais apoio às próprias posições do que Lenin. Somente quando Lenin procurou formar uma coalizão com Trótski e outros as negociações com os alemães foram aprovadas por maioria simples. Críticas a outros dirigentes eram permitidas nessas reuniões; por exemplo, Karl Radek disse a Lenin, ao criticar sua posição favorável à paz com os alemães: "Se houvesse quinhentos homens corajosos em Petrogrado, nós o colocaríamos na prisão." A decisão de negociar a paz com os alemães só foi alcançada quando Lenin ameaçou renunciar, o que levou a uma coalizão temporária entre os partidários de Lenin e os de Trótski e outros. Nenhuma sanção foi aplicada à oposição no Comitê Central depois da decisão.
O sistema apresentava muitas falhas, e a oposição a Lenin e ao que muitos consideravam suas políticas excessivamente centralizadoras chamou a atenção da liderança durante o 8.º Congresso do Partido (março de 1919) e o 9.º Congresso do Partido (março de 1920). No 9.º Congresso, o Grupo do Centralismo Democrático, uma facção de oposição dentro do partido, acusou Lenin e seus associados de criarem um Comitê Central no qual um "pequeno punhado de oligarcas do partido ... estava banindo aqueles que sustentavam opiniões divergentes". Vários delegados ao Congresso foram bastante específicos nas críticas; um deles acusou Lenin e seus associados de transformarem a República Socialista Soviética da Ucrânia em local de exílio para opositores. A resposta de Lenin foi evasiva: ele reconheceu que erros haviam sido cometidos, mas observou que, se tais políticas tivessem de fato sido executadas, as críticas feitas contra ele durante o 9.º Congresso não poderiam ter ocorrido. Durante o 10.º Congresso do Partido (março de 1921), Lenin condenou a Oposição Operária, uma facção dentro do Partido Comunista, por se afastar do comunismo. Lenin afirmou que o faccionalismo era permitido, mas apenas antes e durante os Congressos do Partido, quando os diferentes lados precisavam conquistar votos. Vários membros do Comitê Central que pertenciam à Oposição Operária apresentaram suas renúncias a Lenin, mas elas não foram aceitas; em vez disso, foram instados a se submeter à disciplina partidária. O 10.º Congresso também introduziu uma proibição das facções dentro do Partido Comunista; contudo, aquilo que Lenin considerava "plataformas", como o Grupo do Centralismo Democrático e a Oposição Operária, era permitido. Na concepção de Lenin, facções eram grupos dentro do Partido Comunista que subvertiam a disciplina partidária.
Apesar da proibição do faccionalismo, a Oposição Operária continuou sua agitação aberta contra as políticas do Comitê Central e, antes do 11.º Congresso do Partido (março de 1922), realizou uma tentativa mal concebida de obter apoio à sua posição na Internacional Comunista. A Internacional Comunista, como seria de esperar, apoiou a posição do Comitê Central. Durante o 11.º Congresso, Alexander Shliapnikov, líder da Oposição Operária, afirmou que certos indivíduos do Comitê Central o haviam ameaçado. A resposta de Lenin foi evasiva, mas ele declarou que a disciplina partidária precisava ser fortalecida durante "uma retirada" — a Nova Política Econômica havia sido introduzida no 10.º Congresso. O 11.º Congresso seria o último presidido por Lenin: ele sofreu um derrame em maio de 1922, ficou paralisado por um segundo derrame em dezembro daquele ano, foi afastado da vida pública em março de 1923 e morreu em 21 de janeiro de 1924.
Interregno: 1922–1930 thumb|Trótski foi um dos principais concorrentes à liderança após a morte de Lenin Quando Lenin morreu, a liderança soviética não tinha certeza de como deveria prosseguir a construção da nova sociedade socialista. Alguns defendiam a extensão da NEP, como Lenin sugerira no fim da vida, enquanto outros propunham encerrá-la e substituí-la por uma economia planificada, posição que o próprio Lenin sustentara quando iniciou a NEP. Após o afastamento forçado de Lenin devido à doença, começou uma luta pelo poder que envolveu Nikolai Bukharin, Lev Kamenev, Alexei Rikov, Josef Stalin, Mikhail Tomsky, Leon Trótski e Grigori Zinoviev. Entre eles, Trótski era o mais destacado. Em seu testamento, Lenin referiu-se às "capacidades excepcionais" de Trótski, acrescentando que "pessoalmente, ele talvez seja o homem mais capaz do atual Comitê Central". Trótski, porém, enfrentava um problema: anteriormente havia discordado de Lenin em várias questões.
Stalin, o segundo grande concorrente e futuro líder da União Soviética, era o menos conhecido e não era uma figura popular entre as massas. Embora fosse georgiano e se opusesse ao nacionalismo georgiano, falava como um adepto da eslavofilia, o que constituía uma vantagem. O Partido Comunista era sua base institucional; ele era o secretário-geral — outra vantagem. Mas havia um problema: Stalin era conhecido por sua brutalidade. Como declarou um militante fiel do partido: "Um homem selvagem ... um homem sanguinário. É preciso ter espadas como ele numa revolução, mas não gosto desse fato, nem gosto dele." Em seu testamento, Lenin disse sobre Stalin:
Stalin é rude demais, e esse defeito, perfeitamente tolerável em nosso meio e nas relações entre nós, comunistas, torna-se intolerável no cargo de secretário-geral. Por isso proponho aos camaradas que encontrem uma maneira de afastar Stalin desse posto e nomear para ele outro homem que, em todos os outros aspectos, se diferencie do camarada Stalin por uma única vantagem: ser mais tolerante, mais leal, mais cortês e atencioso com os camaradas, menos caprichoso e assim por diante.