Dulcídio Wanderley Boschilia (São Paulo, janeiro de 1938 — São Paulo, 14 de maio de 1998) foi um árbitro de futebol, policial militar e advogado brasileiro. Segundo o Diário Popular, era "conhecido como um dos melhores árbitros que o País já teve e temido por falar o que pensa, doa a quem doer".
Era tio do futebolista Boschilia.
Carreira Polêmico por seu jeito enérgico e disciplinador, era considerado imparcial pela maioria dos clubesEnciclopédia do Futebol Brasileiro Lance!, Areté Editorial, 2001, pág. 489 (mesmo sem nunca ter negado ser são-paulino)"'Coragem é competência'", Ari Borges, Placar número 864, 15 de dezembro de 1986, Editora Abril, pág. 12 e sempre era lembrado para jogos que envolviam um clima tenso."'Coragem é competência'", Ari Borges, Placar número 864, 15 de dezembro de 1986, Editora Abril, pág. 9 "Falam que sou são-paulino porque um dia carreguei a bandeira do São Paulo no estádio", contou, em 1987. "Tenho simpatia pelo São Paulo, mas não passa disso. Fora de campo, posso ter minhas preferências, mas lá dentro não: sou árbitro.""Dulcídio, poucos erros", Luís Antônio Prósperi, Jornal da Tarde, 31 de agosto de 1987, Edição de Esportes, pág. 7 É o mesmo discurso que ele já fazia em 1974: "Todo mundo sabe: sou são-paulino. Por que vou esconder? Não estaria neste meio se não gostasse de futebol, e quem gosta torce para algum clube. Mas torço assim. Lá dentro, eles que se danem. Se estou apitando, não quero nem saber. Se estou vendo o jogo da arquibancada, só fico de olho no juiz."
Começou a carreira de árbitro profissional em 1964, depois de ser goleiro, conhecido como Wand, no Anay, um time de várzea."A hora do apito final", Roberto Salim, Placar número 814, 27 de dezembro de 1985, Editora Abril, págs. 38-41 Nessa época, quase foi levado por José Poy para o São Paulo. "Vi o Dulcídio jogando na várzea em 1963, quando estava me iniciando como técnico dos juvenis do São Paulo", lembrou Poy, em 1974. "Ele tinha realmente grandes qualidades. Se fosse um pouco mais jovem [já tinha 25 anos], poderia se transformar num goleiro de primeira." Dulcídio começou a apitar jogos quando estava na reserva do São João Clímaco, também um time de várzea, e não havia outra pessoa para ser o juiz.
Foi o presidente desse clube que o aconselhou a fazer o curso de arbitragem da FPF. "Eu nem sabia que existia esse curso", reconhecia o árbitro. "Mas fui. E fiquei." Dulcídio formou-se na Escola de Árbitros da FPF em dezembro de 1965, na mesma turma de José de Assis Aragão e Silvio Luiz.
Já diplomado no curso e por ser policial, apitou partidas de futebol na Casa de Detenção, em São Paulo, algumas vezes envolvendo detentos que ele tinha prendido, mas era respeitado por eles apesar disso. "Até me cumprimentavam", contaria, em 1986. "Diziam que eu era gente. Isso, na linguagem da bandidagem, falando de um tira, é altamente significativo."
Também apitava jogos internos em clubes e entre times de várzea, até passar a ser escalado na Terceira Divisão paulista, em 1966. "Desde essa época, senti que poderia chegar a apitar jogos de profissionais, pois sempre confiei em mim", disse, em 1971. Já em 1966, foi agredido durante uma partida entre Amália e Pirassununguense, quando um jogador do Amália o atingiu com um pontapé no tórax, o que em 1971 dizia ser a única agressão sofrida em sua carreira até ali. Em 1974, foi questionado sobre o que aconteceria se um episódio assim se repetisse: "Ah, nenhum tem coragem. Mas, se acontecer e ele já estiver expulso, coitado do cara. Revido na hora. E eu brigo melhor do que atiro."
Dois anos depois, passou a atuar na Primeira Divisão, como auxiliar do árbitro argentino Roberto Goicoechea: "Várias vezes, fui escalado para auxiliá-lo, um dos fatores mais importantes para que eu adquirisse experiência, pois considero-o o melhor árbitro que já vi atuar." Sua primeira partida apitando na elite, porém, só viria no ano seguinte, com a estreia num jogo entre São Bento e Ferroviária, que ele contava ter sido uma ocasião especial: "Normalmente, quando os jogadores sabem que o juiz é estreante, fazem de tudo para desmoralizá-lo e tomar conta da partida. Tive sorte, e, comigo, aconteceu o contrário: Bazzaninho, do São Bento, e Fogueira, da Ferroviária, passaram o tempo todo me incentivando, compreendendo até os meus erros."
Nessa época,José Jorge Farah Neto e Rodolfo Kussarev Jr., Almanaque do Futebol Paulista 2000, Panini, 2000, págs. 338 e 360 apitou um jogo entre Penapolense e São Bento de Marília, em Penápolis, pela Terceira Divisão paulista. A torcida e os jogadores do time local pressionavam para que ele inventasse um pênalti ("Dá um pênalti para não morrer, depois o senhor muda tudo na súmula", teria dito um dos jogadores, segundo Dulcídio), mas ele recusou-se e depois, no vestiário, teve de usar a arma que carregava na mochila para assustar "os mais exaltados". "O policiamento era muito pequeno: três soldados da PM e quatro vigilantes noturnos", lembrou, em 1974. "Corri para o vestiário e fechei a porta. Não adiantou. Estavam quebrando os vidros. Peguei meu 38, abri a porta, dei três tiros e gritei: 'Venham!' Só assim consegui sair." Ele considerava essa partida sua "primeira prova de fogo". Entretanto, em 1971 ele mesmo contava essa história de maneira diferente: "Para minha surpresa, o vestiário tinha sido invadido, e todos queriam minha cabeça. Simulei um desmaio e fui colocado num carro de presos, só 'recobrando os sentidos' na delegacia, quando iriam me transportar para a Santa Casa. Se não faço isso, talvez fosse linchado."
Assim como naquela partida, durante boa parte de sua carreira ia aos estádios armado, embora não entrasse em campo com as pistolas."", , Placar número 864, , Editora Abril, págs. 9–10</ref> Havia quem dissesse tê-lo visto apitando o segundo tempo de um jogo tumultuado em Americana, em 1973, com um revólver na cintura, o que ele também negava."A grande noite de um juiz de futebol", Jornal da Tarde, 16 de agosto de 1973, pág. 28 Ele se empenhou para manter essa fama, que se espalhou principalmente pelo Norte e Nordeste, como quando empunhou uma pistola para abrir caminho entre dirigentes do Bahia depois de um jogo contra o Flamengo.
Já era um árbitro respeitado em 1970, quando o então diretor do Departamento de Árbitros da Federação Paulista de Futebol, Rogélio Rodrigues, revelou: "Quando tenho um jogo duro, escalo o Dulcídio. E durmo tranquilo." Ele dizia não se incomodar com jogos duros, mesmo nas divisões inferiores: "Mesmo correndo riscos, gosto de apitar futebol e, se for designado, volto a apitar jogos nessas divisões." Ele recebia também elogios de jogadores, como Pedro Rocha ("É um dos melhores juízes que já conheci.") e Ademir da Guia ("Um juiz excelente."). Já em fim de carreira, ainda ganhava elogios, como de Biro-Biro: "Ele mostra segurança até quando erra."
Em 1973, emocionou-se e foi às lágrimas depois de apitar um jogo entre Corinthians e Portuguesa, quando foi elogiado pelos dois lados. "No intervalo o próprio Wladimir veio me cumprimentar, dizendo que o Cabinho não estava mesmo impedido e que eles tinham reclamado apenas para forçar uma situação", comemorou, depois do jogo. No ano seguinte, foi chamado à Federação Paulista de Futebol para ser comunicado que seu nome tinha sido aprovado para os quadros da FIFA, mas, no dia seguinte, deu uma entrevista criticando o cartão amarelo e, coincidência ou não, seu nome foi retirado da lista pouco depois.
Nunca ter entrado para os quadros da Fifa foi uma mágoa que guardou por muito tempo. Em 1983, por exemplo, ele afirmou que não tinha conseguido chegar lá por causa de seu temperamento: "Eu sei que poderia ter ido além. Tenho consciência disso. Mas existe aquela linha de conduta esquematizada por homens que julgam e que nunca colocaram como aspecto decisivo se eu sou bom ou mau árbitro. Preferiram [outros] porque eu não uso paletó e gravata, porque seria irrelevante, irresponsável, mulherengo, de vida desregrada… coisas assim. E, principalmente, porque eu não como enrolado. Eu não digo, mesmo, 'amém'."
Apitou as decisões dos Campeonatos Brasileiros de 1975 e 1988, além das decisões dos Campeonatos Paulistas de 1974, 1975, 1977, 1981, 1983, 1986 e 1987, do Campeonato Mineiro de 1985 e do Campeonato Baiano de 1988, entre outras decisões de estaduais. Foi ainda auxiliar no jogo que decidiu o Campeonato Paulista de 1971, quando correu para o meio-campo para indicar que o gol foi legal, decisão que o árbitro da partida, Armando Marques, reverteu. Na decisão do Campeonato Paulista de 1985, foi vetado pela Portuguesa. "[O presidente Osvaldo Teixeira Duarte] não quis árbitros 'velhos'", ironizou depois. "Agora eu gostaria de saber como está explicando no Canindé o pênalti marcado para o São Paulo, num lance em que o Sídnei pisou na bola."
Na decisão do Paulistão de 1987, quando o São Paulo foi campeão em cima do Corinthians, apitou apesar de ter sofrido um grave acidente de carro dezoito dias antes, na Rodovia Castelo Branco, quando faleceu sua segunda esposa, Berenice Bialski. Ele voltava de Tupã, onde tinha apitado a final da Terceira Divisão Paulista, entre Tupã e Palmital, com a esposa e os bandeirinhas, e bateu na traseira de um caminhão."Drama de Dulcídio", Placar número 89, 24 de agosto de 1987, Editora Abril, pág. 8 Ele foi aplaudido pela torcida antes de a partida começar. Ao final, depois de levantar a bola e chorar,"O apito perde o Alemão", Rubens Leme da Costa, Lance!, 15 de maio de 1998, pág. 23 desmaiou de dor ao ser abraçado por um amigo justamente na costela fissurada no acidente. "Eu tinha duas opções: encarar a realidade ou me entregar", disse, após o jogo."O velho Dulcídio de sempre", Placar número 901, 7 de setembro de 1987, Editora Abril, pág. 21 Ele dedicou sua arbitragem nessa final, além da esposa falecida, aos preparadores físicos do Corinthians, que em apenas dez dias ajudaram-no a se recuperar do acidente. Não foi, entretanto, sua primeira partida depois do acidente: uma semana antes, apitou uma partida da Divisão Intermediária, entre Esportiva de Guaratinguetá e Ferroviário Ituano. "De que adiantaria ficar me lamentando?", perguntou. "Mesmo sofrendo, prefiro voltar à rotina da vida.""Volta inesperada", Placar número 900, 31 de agosto de 1987, Editora Abril, pág. 10
O casamento com Berenice tinha feito com que ele se desligasse da polícia, em 1985, e passasse a trabalhar com crianças. "Cansei de correr atrás de trombadinhas e prostitutas no centro da cidade", contou, na época. "Estava ficando algo inglório para quem é avô duas vezes e vai completar 48 anos em janeiro [de 1986]."
Polêmicas Dulcídio era conhecido pelo temperamento explosivo. "Eu xingava jogador, mesmo", contou, em entrevista ao Lance!, em 1998: "Tratava os jogadores de igual para igual. Até com o Pelé eu discutia. Sou um jogador frustrado e falava a língua deles. Por isso, gostavam de mim. Já fui muito xingado também. Quantos jogadores já não me mandaram tomar ali, e eu apenas respondi? Não é desrespeito. É só uma linguagem." Nessa ocasião, ele contou como era um de seus discursos na hora de expulsar alguém: "Olha aqui, seu corno FDP! Eu vou expulsá-lo. Não venha colocar no meu, não. Aqui, eu é que boto no seu, viu?"
Ele também reclamou de como os árbitros se comportavam naquela época: "Endeusaram o árbitro. Hoje, é como se estivesse acima do bem e do mal. Não pode nem mais ajudar um jogador a se levantar. Tem que tratá-lo como 'Vossa Excelência'. Imagine se eu chego para um jogador hoje e digo: 'O que é, FDP? Se não estivesse aqui, você iria estar carregando feijão na estiva.' Eu seria perseguido até pelos defensores dos direitos humanos."
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