thumb|350px|Victor Meirelles: A primeira missa no Brasil, 1861, Museu Nacional de Belas Artes O Academismo no Brasil foi a expressão institucionalizada de todo o sistema de arte que prevaleceu no Brasil do início do século XIX até o início do século XX, baseado nos princípios das academias de arte europeias. Nasceu com a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios fundada por Dom João VI em 1816 por incentivo da Missão Artística Francesa, floresceu com a Academia Imperial de Belas Artes e o mecenato de Dom Pedro II e encerrou-se com a incorporação de sua sucessora republicana, a Escola Nacional de Belas Artes, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1931.Academicismo. Enciclopédia Itaú CulturalEulálio, Alexandre. "O Século XIX". In Tradição e Ruptura. Síntese de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1984-85, p. 121
Antes que um estilo específico, o Academismo é, estritamente falando, um método de ensino artístico profissionalizante de nível superior, equivalente ao ensino universitário moderno. No Brasil tal sistema foi introduzido no período de vigência do Neoclassicismo, estilo do qual foi um dos principais motores de difusão, e depois absorveu estéticas românticas, realistas, simbolistas e outras que deram o tom à virada do século XIX para o XX, expurgando delas o que não se enquadrasse na formalidade da Academia.Biscardi, Afrânio & Rocha, Frederico Almeida. "O Mecenato Artístico de D. Pedro II e o Projeto Imperial". In: 19&20 - A revista eletrônica de DezenoveVinte. Volume I, n. 1, maio de 2006Fernandes, Cybele Vidal Neto. "O Ensino de Pintura e Escultura na Academia Imperial das Belas Artes". In: 19&20 - A revista eletrônica de DezenoveVinte. Volume II, n. 3, julho de 2007
A estreita ligação da arte acadêmica brasileira com o poder constituído ampliou o significado do termo fazendo do Academismo nacional tanto um sistema de ensino quanto um movimento filosófico e um ato político, como um laboratório para a formulação de importantes símbolos da identidade nacional e uma vitrine para a sua divulgação, contribuindo para tornar o seu tempo de vigência um dos mais ricos, complexos, movimentados e interessantes da história da arte brasileira. Seu pujante legado em arte permanece significante até os dias de hoje.Vale, Vanda Arantes do. "A pintura brasileira do século XIX - Museu Mariano Procópio". In: 19&20 - A revista eletrônica de DezenoveVinte. Volume I, n. 1, maio de 2007 Apesar de o termo Academismo se aplicar mais comumente na História da Arte brasileira ao período acima delimitado, o sistema acadêmico de ensino sobreviveu aos atropelos do Modernismo e das correntes vanguardistas do século XX, embora se tenha modificado, inserindo-se no ambiente das escolas de arte das modernas universidades, que hoje produzem e teorizam a arte em alto nível e são filhas diretas da Escola fundada por Dom João e os franceses.Amaral, Aracy. Artes plásticas na Semana de 22. Editora 34, 1998. pp. 59-60
O modelo acadêmico europeu e o contexto brasileiro
thumb|Giorgio Vasari: Auto-retrato
As academias de arte nasceram no final do Renascimento. Antes a produção artística ocorria através de corporações de artesãos e de ateliês coletivos, as guildas, que muitas vezes tinham um caráter de entidade de classe, onde o aprendizado acontecia de modo essencialmente informal. Não havia aulas regulares, nem uma metodologia sistematizada. Procurando organizar esse sistema e elevar o status da arte de uma função artesanal qualificada para um ofício liberal, fundou-se em Florença, em 1563, sob o incentivo de Vasari e a proteção de Cosmo de Médici, a Accademia del Disegno.Smith, Paul & Wilde, Carolyn. A companion to art theory. Wiley-Blackwell, 2002, p. 106-108 Inicialmente oferecendo apenas palestras teóricas e aulas de anatomia, e na prática não diferindo muito de uma guilda como as outras, logo a Accademia del Disegno tornou-se uma instituição educativa respeitada, responsabilizando-se pelo treinamento de pintores, escultores e arquitetos, e se transformou na instância de assessoria governamental para todos os assuntos de obras públicas da cidade.Henninger-Voss, Mary. "Measures of Sucess: Military Engineering and the Architectonic understanding of Design". In Lefèvre, Wolfgang (ed). Picturing machines 1400-1700. MIT Press, 2004, p. 152 Em 1593 fundou-se em Roma a Accademia di San Luca, com uma organização já bem mais objetiva e um cronograma de aulas mais consistente Olsewski, Edward J. "Introduction". In Armenini, Giovanni Battista. On the true precepts of the art of painting. Ayer Publishing, 1568-1977, pp. 50-51 Consolidando-se com a experiência dos anos, o sistema de educação acadêmico tornou-se bastante padronizado, baseado em princípios práticos e teóricos, incluindo desenho de observação e cópias de modelos consagrados, geometria, anatomia e perspectiva, história e filosofia. Adotando a ideia de que a arte pode ser ensinada, transmitida em sua completude, e que o talento apenas não conduzia a lugar nenhum sem um treinamento disciplinado e metódico, ficava problematizada a noção de originalidade individual, mas distinguia-se a arte do artesanato por situar o artista numa esfera superior, a do intelectual e do profissional liberal. Para os acadêmicos o ponto de partida era a tradição, acreditando que se fossem adotados os mesmos pressupostos teóricos e técnicos observados no trabalho dos mestres consagrados, seria possível alcançar o mesmo patamar de qualidade.Tarasantichi, Ruth. Pintores paisagistas. EDUSP, 2002, p. 16 esquerda|thumb|120px|Charles Le Brun
Seguindo o exemplo italiano, em 1648 foi fundada em Paris a Academia Real de Pintura e Escultura, com o mesmo propósito de ensinar arte como uma profissão liberal. Com o suporte financeiro do governo de Luís XIV e sob a direção de Le Brun, a Academia francesa desenvolveu uma sólida ortodoxia estética e uma filosofia alinhada à política propagandística do Estado que controlou quase por completo da arte produzida na França, exercendo grande influência em toda a Europa e sendo especialmente fértil e marcante durante o Neoclassicismo."Academy of Art". In: Encyclopædia Britannica online. 01/05/2009 E desta fonte vem o Academismo brasileiro. Assim, "Academismo" não é tanto um estilo específico, pois acadêmicos houve desde o século XVI, atravessando todos os estilos sucessivos — Renascentista, Maneirista, Barroco, Neoclássico, etc — mas trata-se de um sistema de ensino dirigido por critérios pedagógicos e estéticos tradicionais e formalizados. O termo artista acadêmico significa, a rigor, simplesmente aquele que ingressou e foi treinado em qualquer uma das academias de arte. thumb|Debret: Dom João VI em trajes de sua aclamação, 1816. MNBA
Até ao início do século XIX o ensino de arte ocorria no Brasil de modo largamente informal, nas oficinas dos artistas e seus discípulos, em tudo semelhantes às guildas europeias. O Estado subvencionava apenas uma modesta escola, a Aula Régia de Desenho e Figura, fundada em 1800 no Rio de Janeiro e dirigida por Manuel Dias de Oliveira. A transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808 gerou profundas modificações culturais, sociais e institucionais no país, até então uma colônia de economia extrativa e agrária. Foram reorganizadas as instituições, os serviços públicos, a administração em geral, e sentia-se a necessidade de atualizar o Brasil com as correntes culturais mais avançadas que se desenvolviam na Europa da época. Ao mesmo tempo, havia séria carência de profissionais preparados para atender às crescentes demandas por artífices e mestres em várias especialidades técnicas, como a arquitetura, o urbanismo e a engenharia, especialidades que, no costume da época, se sobrepunham e eram muitas vezes ensinadas nos cursos de arte, e que seriam valiosas para a industrialização e modernização da colônia, logo elevada à condição de Reino Unido a Portugal. Assim, a instituição de uma academia de artes no Brasil atenderia a diversas necessidades, práticas e culturais.Denis, Rafael. "Academicism, Imperialism and national identity: the case of Brazil's Academia Imperial de Belas Artes". In: Denis, Rafael & Trod, Colin. Art and the academy in the nineteenth century. Manchester University Press, 2000, pp. 53-55 thumb|esquerda|120px|Joachim Lebreton
Neste cenário em rápida transformação, em 1816 oportunamente chegou ao país a Missão Artística Francesa, propondo a criação de uma escola de artes inspirada no modelo da respeitada Academia francesa. Seu projeto envolvia a criação de cursos graduados de formação tanto para futuros artistas como para técnicos em atividades auxiliares como a modelagem, a decoração, a carpintaria e outras. Joachim Lebreton, o líder da Missão e idealizador do projeto, sistematizou o processo e os critérios de avaliação e aprovação dos alunos, o cronograma e currículo de aulas, sugeriu formas de aproveitamento público dos formados e projetou a ampliação de coleções oficiais com suas obras, discriminando também os recursos humanos e materiais necessários para o bom funcionamento da Escola. Reconhecendo pragmaticamente que a grande arte continuaria mesmo num mundo transformado pela Revolução, mudando-se apenas as monarquias pela burguesia abastada,Cipiniuk, Alberto. "A pedagogia artística de Lebreton". In: 19&20 - A revista eletrônica de DezenoveVinte. Volume I, n. 1, maio de 2006 Lebreton propôs, não obstante, um projeto decalcado em uma tradição já de significativa antiguidade, mas que era eminentemente prático e tinha uma eficiência comprovada pelo tempo, e que àquela altura era inédito no Brasil e mesmo em Portugal. Imediatamente acolhida por Dom João VI, esta proposta levou à fundação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. Criavam-se as condições iniciais para o nascimento de um novo sistema de arte no Brasil, que estaria inextricavelmente ligado ao funcionamento da academia como instituição. Entretanto, em seus primeiros tempos a Escola enfrentaria sérias dificuldades e levaria pelo menos dez anos para se estabelecer e entrar em funcionamento definitivo, conduzindo à sua reabertura em 5 de novembro de 1826, em presença do imperador Dom Pedro I, como Academia Imperial de Belas Artes.Denis, pp. 56-57
Primórdios: A Academia de Lebreton
O Academismo representou uma revolução nos métodos brasileiros de ensino de arte, constituindo a vanguarda da época. Afonso Taunay sintetizou seu significado quando disse que "ao empirismo, ou automatismo dos processos correntes de aprendizagem artística e profissional, substituiu uma metodologia. Terminava a época antididática e iniciava-se a de caráter didático.... Na pintura — o antigo, a mitologia e a história substituíram a obra quase que exclusivamente sacra dos 'santeiros' pictoriais da colônia e do último Vice-Reinado". Quanto ao método, o ensino se desenvolveria nas seguintes etapas:Lebreton, Joachim. Memória do Cavaleiro Joachim Lebreton para o estabelecimento da Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 12 de junho de 1816
Desenho geral e cópia de modelos dos mestres, para todos os alunos; Desenho de vultos e da natureza, e elementos de modelagem para os escultores; Pintura acadêmica com modelo vivo para pintores; escultura com modelo vivo para escultores, e estudo no atelier de mestres gravadores e mestres desenhistas para os alunos destas especialidades.
Para a arquitetura haveria também três etapas divididas em teóricas e práticas:
Na teoria: História da arquitetura através de estudo dos antigos; Construção e perspectiva; Estereotomia. Na prática: Desenho; Cópia de modelos e estudo de dimensões; Composição.