A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, também referida como Igreja Matriz de Castro Verde e Basílica Real de Castro Verde, localiza-se na freguesia e vila de Castro Verde, no Município de Castro Verde, no distrito de Beja, em Portugal. A basílica foi edificada no século XVI, em homenagem à Batalha de Ourique, tendo substituído uma igreja anterior, provavelmente edificada durante o século XV. Foi alvo de obras de reconstrução no século XVIII, durante as quais foi muito ampliada, ganhando a segunda torre. Em 2019 iniciou-se um grande programa de restauro, que incidiu principalmente sobre o telhado e o tecto pintado, e que permitiu a reabertura do santuário em 2023. O edifício inclui um núcleo museológico, o Tesouro da Basílica Real, onde são expostas várias peças sacras do concelho. Foi classificada como Monumento de Interesse Público em 1993, tendo ascendido à categoria de Monumento Nacional em 2023.

Descrição A Basílica Real está situada junto à Praça do Município, no centro da vila de Castro Verde. É composta por um edifício de grandes dimensões, que se destaca facilmente da malha urbana da vila, sendo visível a uma grande distância. Apresenta uma planimetria no estilo chão, normalmente utilizada nos edifícios religiosos construídos nos finais do século XVI, embora tanto a fachada como o interior tenham sido posteriormente modificados. A sua planta é longitudinal, com vários volumes organizados de forma diferenciada. O edifício é rodeado por um adro em calçada, que é limitado por um miradouro, a Rua D. Afonso I e o conjunto dos Paços do Concelho. A fachada está dividida em três registos, abrindo-se no primeiro a porta principal da igreja, com uma moldura rectangular, ladeado por pilastras de ordem jónica e encimado por um frontão onde se realçam as armas da Ordem de Santiago. Por cima do portal encontra-se uma janela com moldura rectangular, sendo depois este conjunto rematado por uma empena. A fachada é marcada por duas imponentes torres sineiras, de planta quadrada, e que terminam em pináculos e coruchéus campaniformes.

O seu interior está organizado numa só nave, de secção rectangular, com uma capela-mor de menores dimensões, igualmente de planta rectangular, e que está ladeada por dois anexos. A sobriedade exterior do edifício contrasta com a riqueza decorativa no seu interior, com as paredes forradas com cerca de sessenta mil azulejos, num estilo típico dos artesãos lisboetas de 1730. A decoração é atribuída a João Antunes, que se destacou pela sua obra religiosa barroca em Portugal, sendo o interior bastante semelhante ao da Igreja de Alcácer do Sal, igualmente da autoria de João Antunes. Os azulejos formam dois registos distintos, um deles com composições de albarradas, enquanto que o segundo apresenta vários painéis retratando a Batalha de Ourique, a história de D. Afonso Henriques e o Milagre de Ourique. Este milagre consistiu numa aparição de Jesus Cristo a D. Afonso Henriques, tendo-lhe prometido que a batalha seria a génese de uma nova nação, que depois iria difundir a religião cristã pelo mundo. Destaca-se igualmente a talha dourada e policromada nos altares, principalmente a do altar-mor, e várias imagens marianas. A cobertura da capela-mor, em abóbada de berço, também está forrada com painéis de azulejos, produzidos em 1713 na cidade de Lisboa, e que retratam várias cenas da vida e pós-morte de São Tiago Maior, apóstolo de Cristo. A cobertura do edifício, em madeira, é um exemplo da marcenaria do século XVIII, com uma grande pintura que representa igualmente o milagre da Batalha de Ourique.

Numa das sacristias funciona um núcleo museológico, o Tesouro da Basílica Real, onde foram preservadas peças sacras provenientes de vários pontos do concelho, destacando-se a cabeça-relicário de São Fabião, originária de Casével, do século XIII, que é considerada um dos principais exemplares da ouriveraria românica na Península Ibérica. Outras peças incluem a custódia da própria Basílica Real, e uma imagem quatrocentista de Santa Bárbara, fabricada na Flandres, e um crucifixo indo-português do século XVII, ambos originários da vila de Entradas. Porém, parte do recheio original do período joanino já desapareceu, tendo sido perdidas importantes peças como um órgão, alguns dos altares laterais, alfaias e relicários.

Encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 45/93, de 30 de Novembro (Diário da República n.º 280, de 30 de Novembro de 1993), e é um dos monumentos de referência do património religioso do Baixo Alentejo. Possui um Tesouro, fundado em 2004 pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja e integrado desde então na Rede de Museus da Diocese de Beja.Celso Mangucci, Guia dos Museus do Alentejo, Beja, Turismo do Alentejo, 2010, p. 52. A Basílica Real é considerada como um dos ex-libris do concelho de Castro Verde, e um principais monumentos da Diocese de Beja.

História Antecedentes e edifício original A ocupação humana no local onde se encontra a Basílica remonta pelo menos à época romana, tendo sido encontrado um vasto espólio daquele período na Travessa da Igreja, nas proximidades do edifício, e que inclui vários fragmentos de cerâmica comum, campaniense e sigillata, partes de ânforas e lucernas, e peças em vidro.

De acordo com os documentos das Visitações da Ordem de Santiago, a Basílica Real foi instalada no local de uma igreja dedicada a Santa Maria, igualmente conhecida como de Nossa Senhora da Conceição, que terá sido a primeira igreja matriz da vila. Não se sabe ao certo qual foi a data de fundação da igreja original, embora o registo da visitação de 1510 indique que algumas partes do imóvel, então denominado de Igreja de Santa Maria, estavam em más condições de conservação, pelo que poderá ter sido construído durante o período quatrocentista. Este documento descreveu o templo como sendo ao mesmo tempo capela e igreja, contando com três naves e uma torre. A capela era de planta quadrada, com 5,5 m de lado, tinha um arco em tijolo e uma sacristia de pequenas dimensões na fachada posterior. Quanto à igreja, tinha 12.10 m de comprimento por 7.7 m de largura, sendo o acesso feito por três portas, com um alpendre de 8.40 m de comprimento por 3.65 m de largura. O edifício assentava sobre um amplo adro, e estava rodeado por uma necrópole, que se prolongava até à antiga capela de Santo António, que foi posteriormente substituída pelo edifício dos Paços do Concelho.

Os documentos da visitação de 1565 indicam que o edifício já tinha mudado o seu nome para Igreja de Nossa Senhora da Conceição, e que tinha sofrido várias obras de expansão, incluindo um acréscimo no comprimento, tendo sido sacrificado parte do alpendre. Também foi construída uma capela de abóboda quadrada, que funcionava como coro, e que dava acesso à sacristia.

Construção da basílica e remodelação joanina Após 1573, ano em que o rei D. Sebastião passou por Castro Verde, a igreja foi demolida, encontrando-se nessa altura já muito arruinada. No seu lugar foi construído um novo templo, provavelmente já com a categoria de basílica, que pretendia homenagear a vitória portuguesa na Batalha de Ourique, que segundo a tradição foi travada em 25 de Julho de 1139, nas imediações da vila de Castro Verde. A basílica original foi descrita como tendo paredes com dezasseis palmos de espessura, uma torre, duas sacristias com acesso à capela-mor, e uma cobertura em forma de abóbada. O edifício possuía um órgão, e estava ricamente decorada com revestimentos em mármore e madeira do Brasil. A basílica poderá ter sido o ponto central de Castro Verde, a partir do qual se desenvolveu o tecido urbano da vila.

Durante a primeira metade do século XVIII, a basílica foi alvo de um novo programa de reconstrução, passando a ter a configuração pela qual é conhecida. Os trabalhos terão começado em 1713, sabendo-se que ainda decorriam em 1718. Esta intervenção foi feita com a iniciativa e apoio financeiro do rei D. João V, como mestre da Ordem de Santiago, que pretendia igualmente prestar homenagem à lendária Batalha de Ourique. Além das mudanças estruturais, também foi enriquecido o recheio do edifício, com várias encomendas feitas pelo próprio monarca, do qual recebeu a categoria de basílica real em 1735. O novo edifício foi desenhado por João Antunes, que faleceu em 1712, pelo que não terá assistido às obras. A cobertura da nave foi pintada entre 1728 e 1731. Segundo a documentação da confraria de São Miguel, recolhida pelo investigador Abílio Pereira de Carvalho na sua obra História de uma Confraria (1677-1855), o relógio da basílica foi encomendado em 1784 a Diodactus Lambinon, na cidade de Faro, por quinhentos mil réis, tendo sido entregue em 1785. Foi um dos três relógios fabricados por esta casa, tendo um ficado em Faro e outro sido fornecido a Portimão.

Século XX Segundo uma placa afixada no relógio, este foi reparado em Abril de 1918 por João da Luz, chefe de oficinas na Fábrica de Moagens. Posteriormente, o antigo relógio foi substituído por um novo sistema, tendo o mecanismo original sido preservado pelo filho de João da Luz, João dos Santos Luz.

Em 2 de Fevereiro de 1969, a basílica foi danificada por um sismo. Na década de 1980 foram descobertos vestígios osteológicos humanos durante obras na zona em redor da basílica, que indicam a presença do antigo cemitério.

Em meados da década de 1980, investigadores do Instituto Português do Património Cultural fizeram uma vistoria à basílica, a pedido da Câmara Municipal de Castro Verde, no sentido de ser feita uma proposta para a classificação do edifício junto do Secretário de Estado da Cultura. Nessa altura, o edifício apresentava vários problemas de conservação, tendo a autarquia facilitado cerca de dez mil contos à Comissão Fabriqueira da Igreja, que deveriam ser utilizados nas obras que eram consideradas mais prioritárias, como a instalação de energia eléctrica, rebocos e a cobertura. Em Agosto de 1987, aquela comissão entregou um pedido de comparticipação à Direcção-Geral do Ordenamento do Território, no sentido de obter financiamento para as obras. Em 29 de Outubro desse ano, o Presidente da República, Mário Soares, passou por Castro Verde no âmbito de uma das suas campanhas de Presidência Aberta, tendo visitado a basílica. A autarquia entregou-lhe um memorando, onde lamentou a falta de classificação do edifício e o seu avançado estado de degradação, «particularmente a cobertura e todo o revestimento exterior». De acordo com este comunicado, o município considerada que a basílica devia ser protegida como Monumento Nacional, devido aos seus atributos e à forte ligação à Batalha de Ourique. O monumento só foi classificado em 30 de Novembro de 1993, na categoria de Imóvel de Interesse Público, pelo Decreto n.º 45.PORTUGAL. Decreto n.º 45/93, de 30 de Novembro. Presidência do Conselho de Ministros. Publicado no Diário da República n.º 280, Série I-B, de 30 de Novembro de 1993.

Século XXI Década de 2000