Maria Guilhermina de Oliveira PenaNa grafia original, anterior ao Formulário Ortográfico de 1943 e mantida ao longo de sua vida, Maria Guilhermina de Oliveira Penna. (Barbacena, — Rio de Janeiro, ) foi a esposa do advogado e político Afonso Pena, o 6.º presidente do Brasil. Exerceu as funções sociais de primeira-dama do Brasil entre 1906 e 1909, durante a presidência do marido, e anteriormente foi segunda-dama do país e primeira-dama de Minas Gerais.
A documentação sobre sua trajetória pública é escassa, mas um conjunto expressivo de sua correspondência familiar foi preservado. Cartas enviadas ao filho Afonso Pena Júnior, assim como missivas trocadas com Afonso Pena, integram corpora acadêmicos utilizados em estudos sobre história do português brasileiro, formas de tratamento, escrita privada e participação das mulheres na mudança linguística.
Origens familiares
Guilhermina nasceu em Barbacena, então pertencente à província de Minas Gerais. A Brasiliana Fotográfica, iniciativa da Fundação Biblioteca Nacional e da Fundação Oswaldo Cruz, registra que ela nasceu em 1857 e era irmã de Belisário Augusto de Oliveira Pena, barão e visconde de Carandaí. A relação de parentesco também é confirmada por biografias institucionais do Arquivo Nacional e da Casa de Oswaldo Cruz, segundo as quais Guilhermina era tia do médico sanitarista Belisário Penna, filho do visconde.
A grafia histórica do sobrenome familiar aparece frequentemente como Penna, forma empregada nas cartas e nos nomes de Afonso e Guilhermina. Fontes institucionais e publicações posteriores também utilizam a ortografia simplificada Pena, que se consolidou no título pelo qual ela é mais conhecida.
Casamento e descendência
Guilhermina casou-se com Afonso Augusto Moreira Pena em 23 de janeiro de 1875. A data é registrada pela Brasiliana Fotográfica, que a identifica como irmã do visconde de Carandaí e Afonso como futuro presidente da República. A tese de doutorado da historiadora Dayanny Deyse Leite Rodrigues afirma que Guilhermina tinha dezessete anos quando se casou.
As fontes secundárias divergem quanto ao número de filhos do casal. O verbete biográfico da Fundação Getulio Vargas registra nove filhos — quatro mulheres e cinco homens —, enquanto a tese de Rodrigues informa que nasceram doze filhos da união. Em razão dessa divergência, não há base suficientemente segura para apresentar um total único como fato incontroverso.
Entre os filhos documentados por fontes institucionais estão Afonso Pena Júnior e Maria da Conceição Moreira Pena. Afonso Pena Júnior tornou-se advogado, professor, político, ministro da Justiça e membro da Academia Brasileira de Letras, na qual ocupou a cadeira 7. Outro filho, Álvaro Augusto Moreira Pena, morreu em 1908, episódio posteriormente relacionado por biógrafos ao abalo emocional sofrido por Afonso Pena no último ano de sua presidência.
Vida ao lado de Afonso Pena
Primeira-dama de Minas Gerais e segunda-dama do Brasil
Afonso Pena presidiu o estado de Minas Gerais entre 1892 e 1894. Por ser sua esposa, Guilhermina é retrospectivamente incluída entre as primeiras-damas mineiras daquele período. Depois de exercer a presidência do Banco da República do Brasil e retornar ao Senado mineiro, Afonso foi escolhido para substituir Silviano Brandão na Vice-presidência da República, cargo que ocupou de 1903 a 1906 durante o governo de Rodrigues Alves. Guilhermina passou, assim, à condição de segunda-dama do país.
Ao analisar as primeiras-damas da Primeira República, Rodrigues distingue a simples ocupação da posição social de primeira-dama da realização de um conjunto organizado de práticas públicas. No trecho dedicado a Guilhermina, a autora não identifica programa assistencial próprio e observa que a produção historiográfica sobre sua vida permanece lacunar.
Primeira-dama do Brasil
Afonso Pena foi eleito presidente da República e tomou posse em 15 de novembro de 1906. Guilhermina permaneceu como primeira-dama até 14 de junho de 1909, quando o marido morreu durante o exercício do cargo e foi sucedido pelo vice-presidente Nilo Peçanha.
miniaturadaimagem|esquerda|Afonso Pena e Guilhermina, sentados ao centro, junto a um grupo reunido no Palácio do Catete, em fotografia de Augusto Malta, de 12 de março de 1907.
Um dos principais registros de sua presença no ambiente presidencial é uma fotografia realizada por Augusto Malta no Palácio do Catete, em 12 de março de 1907. Na imagem, Guilhermina e Afonso Pena aparecem sentados ao centro, junto a um grupo de autoridades e convidados. A fotografia integra o acervo do Instituto Moreira Salles, está em domínio público e foi incorporada à Brasiliana Fotográfica.
A correspondência conjugal constitui uma das poucas fontes que permitem observar a maneira pela qual Guilhermina descrevia sua posição diante da carreira do marido. Em carta examinada por Célia Regina dos Santos Lopes, ela declarou ter resolvido não interferir nos planos políticos de Afonso Pena, por considerar que não compreendia suficientemente o assunto, mas manifestou preocupação com os efeitos das mudanças políticas e das viagens sobre a saúde dele. A documentação, portanto, revela familiaridade com o cotidiano político e preocupação com suas consequências privadas, sem comprovar participação direta na formulação das decisões presidenciais.
Correspondência e legado documental
Fundo Documental Affonso Penna Junior
O Fundo Documental Affonso Penna Junior, organizado pelo Laboratório de História do Português Brasileiro da Universidade Federal do Rio de Janeiro, reúne cartas familiares recebidas por Afonso Pena Júnior e escritas por Guilhermina, Afonso Pena, Manuel Penna e Álvaro Penna. O conjunto contém ainda missivas conjugais trocadas entre Afonso Pena e Guilhermina e cartas amorosas entre Afonso Pena Júnior e Marieta Penna. Os documentos tratam de assuntos familiares e políticos.
A plataforma da UFRJ disponibiliza parte dos documentos em versões fac-similar, diplomática, modernizada e digital em XML. Entre as cartas catalogadas estão missivas de Guilhermina ao filho datadas de 8 de janeiro de 1896, 23 de setembro de 1898, 20 de fevereiro de 1899 e 13 de abril de 1926, o que demonstra a continuidade de sua escrita familiar por cerca de três décadas.
Lopes analisou uma amostra de cartas pessoais escritas entre 1906 e 1937. No núcleo formado por Afonso e Guilhermina, a autora trabalhou com 26 cartas do marido e 20 respostas da esposa, produzidas entre 1901 e 1910. A pesquisa identificou o predomínio de formas associadas ao paradigma de tu na correspondência conjugal, relacionado à intimidade entre os interlocutores.
Estudos linguísticos
A correspondência da família Penna foi editada e estudada por Rachel de Oliveira Pereira em dissertação de mestrado apresentada à UFRJ em 2012. O corpus se tornou uma fonte para pesquisas diacrônicas sobre as formas de tratamento no português brasileiro e para análises que consideram fatores como parentesco, intimidade, idade e gênero dos remetentes.
Márcia Cristina de Brito Rumeu utilizou os resultados do estudo de Pereira para discutir a alternância entre tu e você em cartas dos séculos XIX e XX. Segundo a pesquisadora, os documentos da família Penna ajudam a demonstrar a relevância do gênero como categoria social na inserção de você no sistema pronominal do português brasileiro, com participação particularmente importante das mulheres na difusão da forma inovadora.
As cartas tornam Guilhermina uma remetente historicamente identificável e permitem estudar sua linguagem para além do papel protocolar de esposa de um governante. O acervo registra preocupações com saúde, relações familiares, deslocamentos, trabalho e envio de recursos a parentes, oferecendo evidências sobre práticas de escrita privada de uma mulher pertencente à elite brasileira na passagem do século XIX para o XX.
Viuvez e últimos anos
Álvaro Pena, um dos filhos do casal, morreu em 1908. No ano seguinte, Afonso Pena foi acometido por pneumonia e morreu no Palácio do Catete em 14 de junho de 1909. O verbete biográfico da FGV relaciona o agravamento de seu estado à perda do filho, à morte de um irmão e à crise política em torno da sucessão presidencial, sem atribuir o falecimento a um único fator. Guilhermina ficou viúva após trinta e quatro anos de casamento.
Durante a viuvez, ela continuou a corresponder-se com Afonso Pena Júnior. A última carta sua datada com segurança no corpus público da UFRJ é de 13 de abril de 1926. Guilhermina morreu em 14 de julho de 1929, aos 72 anos, cerca de vinte anos depois de Afonso Pena.
Historiografia, arquivos e iconografia
A historiadora Dayanny Rodrigues caracteriza como lacunar a historiografia sobre Guilhermina. As informações biográficas disponíveis aparecem sobretudo em estudos sobre Afonso Pena, em obras sobre primeiras-damas e em pesquisas linguísticas baseadas na correspondência familiar. A edição e a digitalização das cartas permitiram que Guilhermina fosse estudada como produtora de documentos, e não somente como personagem vinculada à biografia presidencial.
O Arquivo Nacional conserva o Fundo Afonso Pena, doado pela família na década de 1970. O conjunto cobre o período de 1826 a 1909 e está dividido em treze séries, que incluem correspondência, fotografias, gravuras, jornais, livros de registro, mapas, objetos museológicos, documentos pessoais e papéis oficiais; parte considerável encontra-se digitalizada no Sistema de Informações do Arquivo Nacional. O acervo complementa o fundo de cartas familiares organizado pela UFRJ e reúne documentação indispensável para estudos sobre o ambiente político e doméstico no qual Guilhermina viveu.
A fotografia de 1907 no Palácio do Catete, preservada pelo Instituto Moreira Salles, constitui um dos principais registros visuais de Guilhermina. Um retrato formal também se encontra em domínio público, embora sua página no Commons não informe autoria ou data exata de produção.
Bibliografia
Ver também
Lista de primeiras-damas do Brasil Lista de segundas-damas do Brasil
Ligações externas
Fundo Documental Affonso Penna Junior, Laboratório de História do Português Brasileiro da UFRJ Fundo Afonso Pena, Arquivo Nacional Fotografia de Afonso Pena e Guilhermina no Palácio do Catete, Instituto Moreira Salles
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