A Ordem de São Bento de Avis (inicialmente chamada de Milícia de Évora ou Freires de Évora) foi uma Ordem militar católica de cavaleiros portugueses que foi criada em Portugal, no século XII, para defender a cidade de Évora dos Mouros.
Os Cavaleiros desta Ordem, em 1744, tinham quarenta e oito rendosas comendas e veneravam uma Cruz verde com quatro flores-de-lisFundação da Ordem Militar de Avis, Veratatis, 11 de agosto de 2022, in Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744..
Em 1789 a Ordem de Avis foi secularizada, tornando-se uma ordem honorífica até sua extinção em 1910. Hoje designando-se simplesmente Ordem Militar de Avis foi refundada em 1917, como sucederia à Ordem Militar de Cristo no ano seguinte, e é presidida pelo seu Grão-Mestre, o Presidente da República Portuguesa.
História Nascimento das ordens religiosas militares
Embora seja estranho falar hoje de Ordens, Religiosas Militares, elas nasceram num tempo e num contexto especifico. Em plena Idade Média, num sistema feudal, com guerras incessantes entre cristãos, com grande parte da Europa ocupada pelos “infiéis”, e sobretudo em plena Cruzada (ou guerra “Santa”). São Bernardo num texto dirigido aos cavaleiros do Templo (entre 1120 e 1136) tenta explicar esse dilema com esses argumentos: “eles não devem temer ofender Deus matando um inimigo, e não correm perigo se eles próprios se matarem, pois é por Jesus Cristo que eles dão ou recebem a morte, e que, não só não ofendem a Deus, mas também, adquirem uma grande glória”.Liber ad milites Templi de laude novae militiae, Bernardo de Claraval, cap. III Soldados do Cristo, https://fr.wikisource.or/wiki/De_Laude_novae_militiae É em Jerusalém em 1118, que Hugo de Payens e Godofredo de Saint-Omer com mais sete cavaleiros criaram a primeira das ordens militares, a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo (os cavaleiros templários), para proteger os peregrinos entre o porto de Jaffa e a vila Santa, e depois para proteger e reconquistar todas as Terras Cristãs anteriormente invadidas pelos infiéis. Em 1129, no concílio de Troyes (França),Alain Demurger, Les Templiers, une chevalerie chrétienne au Moyen Âge, Paris, Seuil, coll. « Points Histoire » o Papa Honório II, reconhece essa Ordem, e coloca-a na sua direta dependência (com os privilégios associados) e dá-lhe como estatuto, a Regra de Cister (Mosteiro da Borgonha) de São Bernardo. Em 1128 a Ordem do Templo já está presente em Portugal, e no tempo de D. Afonso Henriques, ela torne-se o ferro de lança das nossa tropas, a primeira linha da nossa defesa.
As Ordens ibéricas A Ordem do Templo, sendo a mais antiga serviu de exemplo as outras Ordens, como as Ordens Ibéricas, a mais antiga delas, é a Ordem de Calatrava fundada em 1158 por Raimundo de Seurrat, abade cisterciense de Fitero, para defender a fortaleza há pouco conquistada de Kalaat Rawah (Calatrava). Essa nova Ordem foi reconhecida por uma bula de Alexandre III, em 25 de Setembro de 1164, adotando ela também a regra cisterciense. A seguir em 1175, Regra Bulata inserida na Bula Benedictus Dei com que Alexandre III reconheceu a existência da Ordem«[o o . ] vos recebemos em especiaes e proprios filhos da Santa Igreja de Roma e confirmando vossa Ordem por autoridade apostolica [o o . ] estatuindo que quaesquer posissõoes e bens que ao presente legitimamente posuis [o o . ] por concessam de pontifices ou per dadivas de reys [o o . ] permaneçam firmes e estaves a vos e a vossos socessores. As quaes cousas quisemos declarar estas por seus proprios nomes [o o . ] Almada com suas pertenças, Aruda com suas pertenças I . . . ]". UCBG, R-3 1 -20, fls. 23-23v é confirmada a Ordem de Santiago seguindo a regra augustiniana e enfim em 1177 a Ordem cisterciense dos Cavaleiros de Alcântara sempre confirmada pelo mesmo Papa.Miguel Oliveira, A Milícia de Évora e a Ordem de Calatrava, Lusitânia Sacra t. 1 p.51, Lisboa 1956 Essas principais Ordens “espanholas” (referência geográfica, pois não tinha surgido ainda o conceito político de "Espanha") tiveram no início pouca presença no nosso território (Afonso Henriques doou bens à Ordem de Santiago em 1172, mas só marcaram presença em Portugal durante 5 anos no tempo de D. Sancho I, para voltar em definitivo no tempo de Afonso II).
O misterioso nascimento da Milícia de Évora
Como indica a página oficial da Ordem Militar de Avis, as origens desta primeira Ordem portuguesa estão envoltas em várias lendas, e a falta de documentos dificulta bastante a leitura clara dos acontecimentos, mas simplificando um pouco, podemos distinguir duas teorias (uma terceira teoria é defendida por poucos autores, mesmo assim pessoas de grande relevo, como Alexandre Herculano e o Cardeal Saraiva, que é, a chegada em Évora em 1166 de cavaleiros da Ordem de Calatrava que formaram uma Milícia, mas a nomeação dum Grão-Mestre português e o facto do Rei nunca se referir a Ordem de Calatrava, mas sim a Milícia de Évora, desacredita essa hipótese), uma defendida pelos autores desde o séc XVI, e outra defendida pelos autores modernos.
thumb|120 px|Frei Bernardo de Brito Primeira teoria:
A ordem nasceu a volta dum grupo de cavaleiros, depois da batalha de Ourique em 1139, “pela fé de Cristo, defesa do reino e amor da pátria”. Esse grupo ganhando em número, e sendo tão útil a obra de reconquista, Afonso Henriques, deu-lhes um estatuto em 1162, na cidade de Coimbra, e transformou esses confrades, em frades regulares da Ordem de São Bento, aplicando as regras da reforma de Cister.Frei José de Purificação, Catalogo dos mestres e administradores da ilustre e antiquíssima Ordem Militar de Avis, Academia de História de 1722 Esses estatutos, cujo documento original nunca apareceu só temos uma transcrição de 1602 publicada pelo frei Bernardo de Brito, foram assinados por “Petrus proles Regis par francorum Magister novae militiae” ou seja Pedro Afonso filho do Rei, e Par de França, é nomeado primeiro Grão-Mestre desta nova Milícia, e “Gundisalus Vanegas, (Gonçalo Viegas), miles novae Militia” é simples soldado dessa nova milícia.Bernardo de Brito na Chronica de Cister liv. V cap XI, de 1602 Assim sendo, a Ordem de Avis, como Ordem de São Bento terá nascido por vontade real.
Segunda teoria:
O primeiro a contestar essa primeira versão, foi o Cardeal Saraiva numa obra póstuma publicada em 1884,Cardeal Saraiva, Memória sobre a instituição da Ordem Militar de Avis em Portugal em Obras completas do Cardeal Saraiva tome 3, 1884 pp 21-37 segundo ele, esse documento de 1162, com os estatutos da Ordem, publicada pelo frei Bernardo de Brito, é falso. Porque entre outros factos, é um simples legado do Papa, um Abade de São João de Tarouca (João Cirita), que oficializa essa Ordem em nome da Igreja, e não o próprio Papa, através duma Bula, porque Pedro Afonso é meio-irmão do rei, e não filho de rei, e porque ele não pode ser Par de França, e porque dos 7 cavaleiros (ver Ordem do Templo) que assinaram esse documento, 4 foram Grão-Mestre da Ordem de Avis, e Fernando Rodrigues Monteiro (que foi Grão-Mestre de 1227 a 1237) assim como João Portariva, por ventura nessa data nem estavam nascidos. Assim sendo a Ordem não nasceu em 1139, mas mais tarde. Ruy Pinto de Azevedo constatou que em 1172-1173, essa milícia ainda não existia por não ser contemplada na distribuição das terras conquistadas nos anos anteriores.Ruy Pinto de Azevedo, Primórdios da Ordem militar de Évora, no boletim da Junta Distrital de Évora Nº 8, 1967. De facto, o primeiro documento, em que aparece o nome da milícia de Évora, é uma doação régia de Abril de 1176, em que aparece o nome de Gonçalo Viegas como Mestre da Ordem (o Livro Velho de Linhagens, documento de referência, também o dá como o primeiro Grão-Mestre da Ordem de Avis), ora em Março de 1175 ele era mordomo da infanta D. Teresa Portugal futura Condessa de Flandres. Por isso nessa teoria, a Ordem de Avis terá nascido entre o fim de 1175 e princípio de 1176, como milícia em Évora,Ruy Pinto de Azevedo, Primórdios da Ordem militar de Évora, no boletim da Junta Distrital de Évora Nº 8 ,1967 pp. 49-53 para proteger dos Mouros essa cidade conquistada em 1166, A crónica dos Godos, Frei António Brandão, Monarquia Lusitana, Parte Terceira, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1973, págs. 129-137 por Geraldo sem Pavor, que a deixou nas mãos do Rei. A Ordem do Templo tendo recusado ao Rei defender Évora, em território muçulmano e longe da sua linha de defesa ao longo do Tejo. Essa função é então desempenhada pela Milícia de Évora que em Abril de 1176 recebeu a primeira doação de D. Afonso Henriques a fim de “a povoarem, desenvolverem e organizarem”. A notar que nessa versão, não é claro que essa Ordem terá nascido por vontade real, embora Ruy Pinto de Azevedo, e outros, o pensa , a doação régia, aliás bem modesta, não o comprova, nem mesmo a nomeação do seu primeiro Grão-Mestre, ainda há margem para dúvida.
Como vemos tudo gira a volta da veracidade ou não, desse documento de 1162. Sendo falso, a Ordem foi criada em 1175-76, e o primeiro Grão-Mestre é Gonçalo Viegas, o nascimento é tardio e o Grão-Mestre desconhecido. Sendo verdadeiro, a Ordem nasce no glorioso campo de batalha de Ourique, é a mais antiga da península Ibérica, e o seu primeiro Grão-Mestre é o próprio irmão do Rei, tudo bem mais prestigioso. Por isso, há uma quase unanimidade hoje em dia, para dizer que esse documento milagroso é falso, até alguns como Mons. Miguel Oliveira falando dessa primeira teoria chama-lhe de, fantasia.
No entanto, isso não impede em definitivo, que uma confraria anterior existisse, alguns autores como Luís Filipe OliveiraLuís Filipe OLIVEIRA – Ordem Militar de Avis. In Ordens Religiosas em Portugal: guia histórico (das origens a Trento). Dir. Bernardo Vasconcelos e Sousa. Lisboa: CEHR/UCP – Livros Horizonte, 2005, pp. 487-488. o pensa, e isso obviamente não pode ser negado, o problema é a falta total de documentos comprovando essa tese. Mesmo assim é bom referir que o pai de Gonçalo Viegas, Egas Fafes de Lanhoso, participou na batalha de Ourique e em seguida foi para Jerusalém, não em peregrinação mas em cruzada, recebeu em recompensa o brasão do Rei Balduino de JerusalémNobiliário das Famílias de Portugal, Felgueiras Gayo Vol. IX Teixeiras e o seu Paço da Quinta do Lameiro em Ponte (Vila Verde) que foi honrado por D. Afonso I (não sabemos em recompensa de que obra),Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones vol. 1 fas. 3 1888 p. 428, São Vicente foi a sede da mais antiga Comenda da Ordem de Avis, a Comenda de Oriz fundada em antes de 1187,Bula Papal, Quoties a nobis petítur de Gregório VIII de 1187, confirmada pela bula de 1201, Maio 17, Latrão – Bula Religiosam vitam, de Inocêncio III:” Mafara, Alcanede, Alpedriz, Hooriz...”