Scylla Nogueira Médici (Bagé, 4 de outubro de 1907 — Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2003) foi a esposa do general Emílio Garrastazu Médici, 28.º presidente do Brasil, e exerceu a função de primeira-dama do país entre 1969 e 1974, durante um dos períodos mais tensos da ditadura militar.

Diferentemente de algumas de suas antecessoras, Scylla não presidiu a Legião Brasileira de Assistência nem dirigiu um programa social permanente. Sua presença pública foi predominantemente cerimonial, abrangendo recepções oficiais, inaugurações, viagens diplomáticas e ações beneficentes pontuais. Em suas manifestações públicas, apresentou-se sobretudo como esposa, mãe e dona de casa, reproduzindo uma concepção tradicional do papel feminino difundida durante o período.

Durante o mandato presidencial de Médici, acompanhou o marido em compromissos nacionais e em visitas de Estado aos Estados Unidos, em dezembro de 1971, e a Portugal, em maio de 1973. Após o encerramento do governo, afastou-se quase completamente da vida pública.

Primeiros anos e família

Scylla Gaffrée Nogueira nasceu em Bagé, no estado do Rio Grande do Sul. Filha de Inocente Martins Nogueira e Maria das Mercês Lucas Gaffrée, era a terceira das quatro irmãs Juliana, Irene e Scyla. Casou-se com o militar Emílio Garrastazu Médici em 2 de maio de 1931. O casal teve dois filhos, Sérgio Roberto Nogueira Médici e Roberto Nogueira Médici.

Durante a década de 1930, Scylla e Emílio Médici participaram do movimento Integralista, fazendo parte da Ação Integralista Brasileira, que tinha em Bagé um núcleo ativo.

Emílio Médici desenvolveu sua carreira no Exército Brasileiro, exercendo diferentes comandos militares antes de ser escolhido para a Presidência da República em 1969. Ao longo da carreira do marido, Scylla permaneceu voltada principalmente para a vida familiar e manteve reduzida exposição pública.

Primeira-dama do Brasil

Emílio Médici tomou posse como presidente do Brasil em 30 de outubro de 1969, durante a ditadura militar brasileira. Com a posse do marido, Scylla sucedeu Yolanda Costa e Silva como primeira-dama.

Imagem pública e concepção do papel feminino

A imprensa da época apresentou Scylla como uma mulher reservada, tímida e pouco inclinada à exposição política. A primeira-dama também descreveu publicamente sua identidade a partir das funções de esposa, mãe e responsável pelo ambiente doméstico.

Em mensagem publicada na revista Brasil Jovem, em dezembro de 1969, Scylla afirmou que continuava a se considerar uma dona de casa, apesar da posição ocupada pelo marido. O pronunciamento associava o papel da primeira-dama à proteção da família e à maternidade, sem apresentar um programa político ou administrativo próprio.

Essa postura diferenciou sua atuação da de primeiras-damas que assumiram diretamente a direção da Legião Brasileira de Assistência ou de outras instituições. A bibliografia acadêmica sobre o primeiro-damismo brasileiro não identifica Scylla como presidente da LBA durante o governo Médici.

Atividades cerimoniais e assistenciais

Como primeira-dama, Scylla participou de recepções diplomáticas, inaugurações, cerimônias oficiais, chás beneficentes e eventos promovidos em favor de instituições assistenciais. Também foi convidada para exercer funções simbólicas, como o apadrinhamento de embarcações e a presença em solenidades de lançamento ou inauguração.

Em dezembro de 1970, participou da campanha denominada Natal em família, organizada com o auxílio das esposas dos chefes dos gabinetes Civil e Militar da Presidência. A iniciativa distribuiu brinquedos, roupas, calçados e alimentos a crianças de cidades-satélites de Brasília. Segundo registros da imprensa examinados pela historiadora Dayanny Rodrigues, aproximadamente cinquenta escolas e instituições foram atendidas e mais de vinte mil sacolas de presentes foram preparadas.

A campanha foi realizada de maneira descentralizada. Em vez de promover uma grande cerimônia na residência presidencial, os donativos foram encaminhados às escolas e entidades responsáveis pela entrega. A decisão correspondia ao perfil reservado atribuído a Scylla e à sua resistência em transformar o espaço familiar da Presidência em palco de atos políticos.

Em maio de 1972, durante uma visita ao Rio Grande do Sul, participou de uma atividade ligada à inauguração de uma creche. Também compareceu a compromissos oficiais em diferentes estados, geralmente acompanhando o presidente ou representando simbolicamente a Presidência da República.

Viagens oficiais

Entre 6 e 9 de dezembro de 1971, Scylla acompanhou Emílio Médici em uma visita de Estado aos Estados Unidos. O casal foi recebido em Washington pelo presidente Richard Nixon e pela primeira-dama Pat Nixon. A agenda incluiu cerimônias na Casa Branca, uma recepção na Embaixada do Brasil e um compromisso na sede da Organização dos Estados Americanos.

A viagem ocorreu em um período de aproximação diplomática entre os governos brasileiro e norte-americano. A participação de Scylla concentrou-se nos compromissos protocolares destinados aos chefes de Estado e seus cônjuges.

Entre 15 e 19 de maio de 1973, acompanhou o presidente em uma visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, o casal foi recebido pelo presidente Américo Tomás e por sua esposa, Gertrudes Tomás, no Palácio Nacional da Ajuda. Scylla também participou de um banquete no Palácio Nacional de Queluz.

A agenda portuguesa incluiu ainda uma passagem por Guimarães, onde a comitiva visitou o Paço dos Duques de Bragança. Fotografias preservadas pelo Museu da Presidência da República Portuguesa documentam a presença de Scylla nos compromissos.

Moda e representação pública

O vestuário de Scylla recebeu atenção da imprensa durante sua permanência no Palácio da Alvorada. Parte de suas roupas foi produzida pelo estilista gaúcho Rui Spohr, que também vestiu outras personalidades públicas brasileiras.

A cobertura dedicada às roupas das primeiras-damas fazia parte de uma forma de representação pública que associava a esposa do presidente à imagem institucional do governo. No caso de Scylla, essa cobertura coexistiu com a construção de uma personalidade discreta, doméstica e afastada da atividade político-partidária.

Encerramento do mandato

Em 15 de março de 1974, Emílio Médici transmitiu a Presidência da República ao general Ernesto Geisel. Scylla foi sucedida como primeira-dama por Lucy Geisel. Durante a despedida, dirigiu à sucessora uma breve mensagem de caráter religioso e desejou que ela fosse feliz no exercício de suas novas responsabilidades.

Vida posterior

Depois de deixar Brasília, Scylla afastou-se da exposição pública e passou a residir com o marido no Rio de Janeiro.

Em 3 de maio de 1981, Scylla e Emílio Médici celebraram cinquenta anos de casamento. A comemoração reuniu aproximadamente mil convidados, entre os quais o então presidente João Figueiredo e o ex-presidente Ernesto Geisel.

Em 1984, o casal adotou formalmente Cláudia, neta que havia sido criada por eles, conferindo-lhe a condição jurídica de filha.

Emílio Médici morreu no Rio de Janeiro em 9 de outubro de 1985, aos 79 anos. Depois da morte do marido, Scylla preservou sua vida privada e realizou poucas aparições públicas.

Morte

Scylla Médici morreu em 25 de janeiro de 2003, no Rio de Janeiro, aos 95 anos. Seu corpo foi sepultado no Cemitério de São João Batista, onde também se encontrava o túmulo de Emílio Médici.

Condecorações

alt=|50x50px Grã-Cruz da Ordem de Benemerência, concedida em 24 de abril de 1972 pelo presidente português Américo Tomás.

Avaliação histórica

A atuação de Scylla Médici como primeira-dama foi caracterizada por uma presença pública limitada e predominantemente protocolar. Ao contrário de primeiras-damas que presidiram a Legião Brasileira de Assistência ou desenvolveram programas próprios, Scylla não construiu uma estrutura administrativa vinculada ao cargo.

Sua imagem pública foi fundamentada no modelo da esposa reservada e dedicada à família. Esse modelo, apresentado pela própria Scylla em discursos e entrevistas, correspondia às representações tradicionais da feminilidade empregadas no primeiro-damismo brasileiro daquele período.

Embora tenha participado de campanhas assistenciais pontuais, recepções diplomáticas, viagens oficiais e cerimônias públicas, sua influência institucional permanece pouco documentada. Por essa razão, afirmações sobre uma participação direta na formulação das políticas sociais do governo Médici não encontram respaldo nas pesquisas acadêmicas disponíveis.

Ver também

Lista de primeiras-damas do Brasil Emílio Garrastazu Médici Ditadura militar brasileira Legião Brasileira de Assistência

Bibliografia

Ligações externas

Imagens da visita de Estado aos Estados Unidos, em 1971 Fotografias da visita oficial a Portugal, em 1973

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