O guarani mbiá (em guarani mbiá: mbya ayvu, AFI: [mbɨ.a.aɨ.ˈʋu]), também conhecido como mbyá guarani, dialeto mbiá ou variedade mbyá é uma das variedades da língua guarani, parte da família tupi-guarani. É falado pelo povo mbyá, grupo guarani que habita a região fronteiriça entre Brasil, Paraguai e Argentina, e o litoral brasileiro entre os estados de Rio Grande do Sul e Espírito Santo. Há, ainda, diásporas mbyá no Tocantins, no Pará e no Centro-Oeste. Segundo a UNESCO, o guarani mbiá encontra-se em risco de extinção, sendo classificado como língua "vulnerável".

Os censos demográficos dos países com presença mbyá indicam que há aproximadamente 49 mil falantes da língua. No Paraguai, em que é língua oficial desde 1992, há 28.988 falantes. Na Argentina, em que é oficial na província de Corrientes, há 11.014 falantes. No Brasil, há 9.373 falantes do guarani mbiá, além de ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/MinC). O guarani é, ainda, oficial em Tacuru e Coronel Sapucaia, no Mato Grosso, mas nenhum dos municípios apresenta população mbyá significativa. Desde 2006, o guarani é também língua oficial do Mercosul.MERCOSUL/CMC/DEC. N° 35/06. Incorporação do guarani como idioma do Mercosul.

O guarani é estudado desde o século XVI, com os primeiros contatos da Coroa Espanhola com falantes das variedades guaranis. A formação da Companhia de Jesus na América, por meio das reduções guarani-jesuíticas, levou a um maior estudo da língua, com a elaboração das primeiras gramáticas de variedades guaranis a partir do século XVII. Com as missões jesuíticas, foi introduzido o alfabeto latino para grafar a língua, com Robert Dooley, pesquisador do grupo evangélico Summer Institute of Linguistics, propondo uma das ortografias mais empregadas para a língua em 1982.

O guarani mbiá apresenta uma morfologia aglutinante complexa, na qual palavras são formadas pela adição de afixos, com pouco nível de fusão (cada afixo adiciona um único significado à palavra). A língua possui notável flexibilidade de função sintática, havendo palavras que mudam de função a depender do contexto, a exemplo de substantivos agindo como verbos. Além disso, o espalhamento do traço nasal (ou harmonia nasal) é um fenômeno fonológico comum na língua.

Etimologia O termo "mbyá", derivado de mbya, "gente", na própria língua guarani mbiá, é empregado por esse povo como autodenominação. Em guarani mbiá, uma forma comum para referir-se à língua é mbya ayvu, que significa "língua dos mbyá" (lit. "fala de muita gente"). Além disso, o termo guarani, "guerreiro", é um exônimo atribuído pelos colonizadores espanhóis, sendo usado para referir-se às diversas comunidades guaranis.

Existe também a autodenominação ñandeva, que significa "quem somos" ou "o que é nosso", utilizada por todos os grupos guaranis, mas esta é usualmente empregada em contextos acadêmicos para referir-se especificamente ao grupo nhandeva. Os mbyá possuem também a autodenominação jeguakava tenonde porangue’í, a qual significa "os primeiros homens escolhidos que levarão o adorno de plumas", utilizada em contextos religiosos, como rituais.

Antes de "mbyá" consolidar-se como etnônimo, foram usados exônimos como kainguá ou kaiuá, derivados de kaỹngua, "gente do mato". Alguns outros termos, utilizados pelos nhandevas, são tambéaópé, "chiripá largo" (relativo ao chiripá que os mbyá usam entre as pernas), e txeirũ (ou naneirũ), "meus (ou nossos) amigos". Existe, ainda, o termo apytere, mas os mbyá rejeitam este, por ser depreciativo.

Distribuição thumb|Distribuição geográfica do guarani mbyá|291x291px|upright=1

O guarani mbiá é falado predominantemente na região fronteiriça entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai, também chamada de Tríplice Fronteira do Iguaçu, estando presente também na parte meridional da costa brasileira, com a presença de aldeias mbyá desde o estado do Espírito Santo até o estado do Rio Grande do Sul. Existem, ainda, diásporas mbyá no estado do Pará, no estado do Tocantins e na região Centro-Oeste.

As populações de comunidades mbyá no Paraguai, na Argentina e no Brasil, segundo os censos demográficos dos respectivos países em 2022, são:

: 28.988 membros de comunidades mbyá; : 11.014 membros de comunidades mbyá; : 9.373 membros de comunidades mbyá. O domínio do guarani mbyá por membros de comunidades mbyá é alto, por volta de 98% no Brasil, com poucos indivíduos nas aldeias que não possuem fluência na língua. Há, também, uma parcela significativa da população mbyá falante de outras línguas, mais comumente o português e o espanhol, com uma taxa de plurilinguismo de aproximadamente 17%.

Contudo, determinar a quantidade exata de falantes do guarani mbyá (ou de qualquer outra variedade guarani) apresenta alta complexidade, visto que a mobilidade nos grupos guaranis é frequente, devido tanto a lógicas cosmológicas guaranis (a busca da Terra sem Males) quanto a questões territoriais de cunho conjuntural e pragmático. Há, ainda, uma parcela significativa da população que migra devido a questões políticas e humanitárias, como a busca desses povos por ter controle sobre a terra em que habitam e a busca por autonomia. Com isso, a população dos povoamentos guaranis é bastante mutável, fator que dificulta assegurar quantitativamente a população falante de forma precisa.

Ainda, o reconhecimento do guarani e suas variedades ocorre em diferentes proporções, a depender da região. No Paraguai, o guarani foi reconhecido como "língua nacional" em 1967,Artigo 5. Constituição Paraguaia de 1967. mas sem status oficial, que só foi concedido com a Constituição Paraguaia de 1992.Artigo 140. Constituição da República do Paraguai (1992). Em 2010, o governo paraguaio promulgou a Ley de Lenguas ("lei de línguas"), que detalhou as modalidades oficiais de utilização do guarani, garantiu os direitos linguísticos individuais e coletivos dos cidadãos paraguaios e proibiu a discriminação linguística contra falantes do guarani e de outras línguas indígenas.Lei Nº 4251. Das Línguas. Sancionado pelo Congresso da Nação Paraguaia. Por ser língua oficial do Paraguai, o guarani é, ainda, língua oficial do Mercosul, desde 2006.MERCOSUL/CMC/DEC. N° 35/06. Incorporação do guarani como idioma do Mercosul.

Em 2004, o guarani foi reconhecido como língua oficial na província argentina de Corrientes, localizada na região fronteiriça entre Brasil, Argentina e Paraguai, com a elaboração de uma lei provincial que instituiu o uso do guarani como língua oficial alternativa e promoveu a preservação e valorização da língua guarani.Lei 5.598, sancionada pelo Senado e pela Câmara dos Deputados da Província de Corrientes.

No Brasil, o guarani mbyá é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/MinC) como patrimônio cultural imaterial brasileiro desde 2011, medida que visava valorizar e promover a pesquisa e a preservação tanto da língua guarani mbyá como de outras línguas indígenas. O guarani é também oficial nos municípios matogrossenses de Tacuru, desde 2010,Lei Nº. 848/2010, sancionada pela Prefeitura Municipal de Tacuru. Dispõe sobre a co-oficialização da língua guarani no município de Tacuru/MS. e em Coronel Sapucaia, desde 2022.Lei Nº. 1.412/2022, sancionada pela Prefeitura Municipal de Coronel Sapucaia. Dispõe sobre a cooficialização da língua guarani no município de Coronel Sapucaia/MS. No entanto, nenhuma das duas cidades apresenta população significativa de falantes do guarani mbyá.

Línguas relacionadas e variedades guaranis O guarani é parte da família tupi-guarani, pertencente à família linguística tupi, junto a línguas como o sirionó, o tupinambá e o kamaiurá. A família tupi-guarani apresenta subgrupos, com o guarani usualmente pertencendo ao subgrupo I, com línguas como o aché e o xetá. A classificação da família tupi-guarani e de seus subgrupos, no entanto, é alvo de discordâncias entre os acadêmicos. Uma das divisões da família tupi-guarani em subgrupos, proposta por Antônio Mello em 2002, é como segue: miniaturadaimagem|295x295px|Mapa da distribuição da família tupi:

Tupi-guarani Subgrupo I Aché (ou guayaki) Guarani Mbyá Nhandeva Kaiowá Guarani avañe'ẽ (guarani paraguaio) Guarani oriental boliviano Dialeto chané Dialeto izoceño Dialeto tapieté Xetá Subgrupo II Sirionó Subgrupo III Guarayo Subgrupo IV Kawahiva Dialeto amondaua Dialeto caripuna Dialeto parintintin Dialeto tenharim Dialeto uru-eu-uau-uau Subgrupo V Apiaká Kamaiurá Kayabi Subgrupo VI Asurini do Trocará Asurini do Xingu Parakanã Suruí Tapirapé Tembé Subgrupo VII Anambé Araweté Aurê-aurá Guajá Subgrupo VIII Emerillon Urubu-kaapór Wayampi do Amapari Wayampi do Jari Subgrupo IX Língua geral amazônica Tupinambá

Ainda, devido à grande extensão territorial dos povoamentos e da frequente mobilidade dos grupos guaranis, a língua guarani apresenta variação significativa entre diferentes grupos, a qual foi estudada a partir do século XVI. Desde esse período, as províncias guaranis já apresentavam diferenças culturais e linguísticas significativas, entendidas hoje como predecessoras das variedades guaranis.

As três variedades modernas do guarani são o guarani mbyá, o guarani nhandeva (também guarani chiripá ou ava guarani) e o guarani kaiowá. Enquanto os kaiowás declaram serem distintos dos outros grupos guaranis (tanto linguisticamente quanto culturalmente), os mbyá e os nhandevas declaram serem parcialidades de uma única cultura e língua guarani. Existe, ainda, o guarani avañe'ẽ, ou guarani paraguaio, considerado distinto das variedades devido ao seu processo de formação política e histórica, mas que é frequentemente estudado e comparado com as variedades guaranis.

As variedades guaranis apresentam distinções gramaticais, lexicais e até fonológicas notáveis. Um exemplo é a variação entre a africada [tʃ], presente no mbyá, e a fricativa [s], presente no avañe'ẽ, no kaiowá e no nhandeva, ambas derivadas do fonema */tʃ/, reconstruído do proto-tupi-guarani: +Comparação do fonema proto-tupi-guarani */tʃ/ entre as variedades guaranis modernasProto-tupi-guaraniGuarani mbyáGuarani avañe'ẽGuarani kaiowáGuarani nhandevaSignificado*tʃɨchysysytsy/symãe*tʃu'uchu'usu'usu'utsu'u/su'umorder*tʃamchãsãsãytsãcorda*tʃɨrɨkchyrysyrysyrytsýi/sỹicorrer, escorregar*a-ʧema-chẽa-sẽa-sẽa-tsẽ/a-sẽsaí, sair*jaʧɨjachyjasyjasyjatsy/jasylua*ʦ-aʧɨø-achyh-asyh-asyø-atsy/ø-asydói*a-ʧ-aʧaβa-achaa-hasaa-hasaa-atsa/a-asapassar

História

História da língua e documentação A história guarani no período pré-colonial foi pautada por um processo de expansão e de migração significativos, com os indícios arqueológicos mais antigos indicando que a região ocupada inicialmente pelos guarani foi somente a região próxima à Tríplice Fronteira do Iguaçu. Por volta do século V, o processo migratório passou a ocorrer de forma mais intensa, com os guaranis expandindo seu território para regiões como a bacia do rio Uruguai, e a região onde hoje se encontra estados como Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul.

No período que precedeu a ocupação territorial das potências coloniais, os guaranis apresentavam unidade cultural e linguística significativa, porém havia intensa fragmentação quanto à organização política e territorial desses povos, resultado do seu comportamento migratório notável. Como consequência, o contato entre os colonizadores (espanhóis em sua maioria, em virtude do Tratado de Tordesilhas) e os guaranis ocorreu de forma gradual, motivando reações variadas à ocupação territorial europeia.thumb|upright=1|Jovens guarani mbyá em uma cerimônia religiosa.