AinsaVOLP, verbete ainsa (do sânscrito अहिंसा, ahimsâ, "não injúria") é um princípio ético-religioso adotado principalmente pelo jainismo e presente no hinduísmo e no budismo, e que consiste em não cometer violência contra outros seres.FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 71. O ainsa é inspirado pela premissa de que todos os seres vivos têm uma centelha da energia espiritual divina; consequentemente, ferir alguém é ferir a si próprio. O ainsa também se relaciona à ideia de que qualquer violência tem consequências cármicas. Antigos estudiosos do hinduísmo foram pioneiros na formulação do conceito de ainsa e o desenvolveram ao longo do tempoː contudo, o princípio do ainsa veio a atingir particular importância na ética jainista.PHILLIPS, S. H. Encyclopedia of Violence, Peace, & Conflict. Second Edition. Elsevier Science. p. 1 347–1 356, 701–849, 1 867.CHAPPLE, C. Nonviolence to animals, earth and self in asian traditions. State University of New York Press. 1993. Capítulo 1.
O preceito de "não causar dano" do ainsa inclui intenção, palavras e pensamentos do praticante.KIRKWOOD, W. G. Truthfulness as a standard for speech in ancient India. Southern Communication Journal. 1989. nº 54(3). p. 213-234.KANEDA, T. Shanti, peacefulness of mind. C. Eppert & H. Wang (Eds.), Cross cultural studies in curriculum: Eastern thought, educational insights. Taylor & Francis. p. 171–192. A literatura clássica do hinduísmo, como o Mahabharata e o Ramáiana, e estudiosos contemporâneosSTRUCKMEYER, F. R. The "Just War" and the Right of Self-defence. Ethics. 82(1). p. 48-55. costumam debater os princípios do ainsa em situações de guerra e de defesa pessoal, fornecendo elementos para a doutrina da guerra justa.BALKARAN, R. e DORN, A. W. Violence in the Vālmı̄ki Rāmāyaṇa: Just War Criteria in an Ancient Indian Epic. Journal of the American Academy of Religion. 80(3). p. 659–690. No Ocidente, o princípio do ainsa popularizou-se (ainda que de uma forma distorcida, segundo alguns) graças a Mahatma Gandhi (1869-1948).GANDHI, M. The essential Gandhiː an anthology of his writings on his life, work, and ideas. Random House Digital, Inc. 2002.
Etimologia A palavra sânscrita deriva do radical hiṃs, "bater, golpear"; hiṃsā significa "dano", a-hiṃsā significa o oposto, isto é, "ausência de dano", "não violência".Disponível em http://www.sanskrit-lexicon.uni-koeln.de/cgi-bin/monier/serveimg.pl?file=/scans/MWScan/MWScanjpg/mw0125-ahalyA.jpg. Acesso em 17 de outubro de 2016.
Existe um debate sobre a origem do termo e sobre a forma como seu sentido evoluiu. Manfred Mayrhofer e Dumot sugerem que a etimologia da palavra possa ser han, "matar", o que leva à interpretação de que ainsa significa "não matar". Já Schmidt e Henk Bodewitz defendem que a etimologia correta da palavra é hiṃs e o verbo sânscrito hinasti, o que leva à interpretação de que ainsa significa "não ferir". Wackernagel-Debrunner concorda com a segunda explicação.BODEWITZ, H. HOUBEN, J. E. M., VAN KOOIJ, R., K., editores. Violence Denied: Violence, Non-Violence and the Rationalization of Violence in South Asian Cultural History. Brill Academic Pub. June 1999. Capítulo 2.WALLI pp. XXII-XLVII; BORMAN, W. Gandhi and Non-Violence. Albany. 1986. p. 11–12.
Na literatura clássica sânscrita do hinduísmo, a palavra adroi é, algumas vezes, usada no lugar de ainsa, como uma das virtudes cardeais para a vida moral. Um exemplo está no Baudhayana Dharmasutra 2.6.23: वाङ्-मनः-कर्म-दण्डैर् भूतानाम् अद्रोही ("Aquele que não fere outros com palavras, pensamentos ou atos é chamado de adrohi".).
Hinduísmo Antigos textos védicos O conceito de ainsa se desenvolveu ao longos dos textos védicos.CHAPPLE, C. Nonviolence to animals, earth and self in Asian Traditions. State University of New York Press. 1993.WALLI, K. The Conception of Ahimsa in Indian Thought. Varanasi. 1974. p. 113–145. Os textos mais antigos, enquanto discutem os rituais de sacrifício de animais, mencionam, indiretamente, o ainsa, porém sem enfatizá-lo. Ao longo do tempo, os rituais e o conceito de ainsa foram sendo continuamente refinados e enfatizados, até que, no período védico tardio (por volta de 500 a.C.), o ainsa se tornou a virtude máxima. Por exemploː o hino 10.22.13 do Rigueveda usa as palavras satya (verdade) e ainsa numa oração ao deus Indra.TÄHTINEN, U. Non-violence as an Ethical Principle, Turun Yliopisto. Finlândia. PhD Thesis, 1964. p. 23–25. Mais tarde, o Iajurveda, datado de 1000 a 600 a.C., dizː "possa todo ser me olhar com olhos benévolos, possa eu fazer o mesmo, e que ambos possamos nos olhar com os olhos de amigo."
O termo aparece no texto Taitiria Xaca do Iajurveda (TS 5.2.8.7), se referindo à não injúria ao próprio sacrificante.TÄHTINEN, U. Non-violence as an Ethical Principle, Turun Yliopisto. Finlândia. PhD Thesis, 1964. p. 2. Aparece várias vezes no Satapatha Brahmana com o sentido de "não injúria".Shatapatha Brahmana 2.3.4.30; 2.5.1.14; 6.3.1.26; 6.3.1.39. A mais antiga referência à ideia de não violência a animais (pashu-ahimsa) está no Kapisthala Katha Samhita do Iajurveda (KapS 31.11), que foi escrito por volta do século VIII a.C.TÄHTINEN, U. Non-violence as an Ethical Principle, Turun Yliopisto. Finlândia. PhD Thesis, 1964. p. 2,3. Bowker diz que o termo aparece porém com pouca frequência nos principais Upanixades.BOWKER, J. Problems of suffering in religions of the world. Cambridge University Press. 1975. p. 233. Kaneda cita exemplos de uso do termo nos Upanixades.KANEDA, T. Shanti, peacefulness of mind. C. Eppert & H. Wang (Eds.). Cross cultural studies in curriculum: Eastern thought, educational insights. Taylor & Francis. 2008. p. 171–192. Outros acadêmicosARAPURA, J. Hindu spirituality: Postclassical and modern. K. R. Sundararajan e Bithika Mukerji (editores). 1997. p. 392–417.IZAWA, A. Empathy for Pain in Vedic Ritual. Journal of the International College for Advanced Buddhist Studies. 2008. 12, 78. sugerem que o ainsa começou seu desenvolvimento nos Vedas, até se tornar um conceito central dos Upanixades.
O Chāndogya Upaniṣad, datado do século VIII ou VII a.C., um dos mais antigos Upanixades, tem a mais antiga evidência do termo no sentido comum do hinduísmo (como um código de conduta). Ele proíbe a violência contra "todas as criaturas" (sarvabhuta), e o praticante de ainsa é tido como capaz de escapar ao ciclo das metempsicoses (CU 8.15.1).TÄHTINEN, U. Non-violence as an Ethical Principle, Turun Yliopisto. Finlândia. PhD Thesis, 1964. p. 2-3. Alguns estudiosos acreditam que o conceito tenha sido uma concessão do hinduísmo védico à crescente influência do jainismo.BILIMORIA, P., PRABHU, J., SHARMA, R. M. Indian Ethics: Classical traditions and contemporary challenges. Ashgate Publishing. 2007. p. 315.
O Chāndogya Upaniṣad nomeia o ainsa, junto com o satyavacanam (verdade), arjavam (sinceridade), danam (caridade) e tapo (penitência/meditação), como as cinco virtudes essenciais (CU 3.17.4).KUMAR, R. Non-violence and Its Philosophy. 2008. p. 11–14.
O Sandilya Upanixade lista dez obrigaçõesː ainsa, satya (verdade), asteya (não roubar), brahmacharya (castidade, fidelidade), daya (compaixão), arjava (sinceridade, não hipocrisia), kshama (paciência), dhriti (persistência), mitahara (alimentação moderada) e saucha (pureza mental, de fala e corporal).SWAMI, P. Encyclopaedic Dictionary of Upaniṣadsː SZ. Vol. 3. Sarup & Sons. 2000. p. 630–631.BALLANTYNE, J. R. e YOGINDRA, S. A Lecture on the Vedánta: Embracing the Text of the Vedánta-sára. Presbyterian mission press. 1850. Literatura épica O Mahabharata menciona, várias vezes, a frase Ahimsa Paramo Dharma (अहिंसा परमॊ धर्मः), que significa, literalmente, "a não violência é a mais alta virtude moral". Por exemploː o Mahaprasthanika Parva, que é o 17º dos dezoito livros que compõe o Mahabharata, tem o versoːMahabharata 13.117.37–38
Esse trecho enfatiza a importância capital do ainsa dentro do hinduísmo, significando, literalmenteː "O ainsa é a mais alta virtude, o ainsa é o mais alto autocontrole, o ainsa é o maior presente, o ainsa é o melhor sofrimento, o ainsa é o mais alto sacrifício, o ainsa é a melhor força, o ainsa é o maior amigo, o ainsa é a melhor felicidade, o ainsa é a verdade mais elevada, o ainsa é o melhor ensinamento".CHAPPLE, C. Ecological Nonviolence and the Hindu Tradition. In Perspectives on Nonviolence. Springer New York. 1990. p. 168–177.SUBRAMUNIYASWAMI. Ahimsa: To do no harm. What is Hinduism? p. 359–361. Outros livros do Mahabharata que discutem a frase Ahimsa Paramo Dharma são o Adi Parva, o Vana Parva e o Anushasana Parva. O Bagavadguitá, entre outros temas, discute qual a resposta apropriada diante da violência da guerra, desenvolvendo os conceitos de violência legítima e guerra justa. Entretanto, não há consenso sobre esta interpretação. Gandhi, por exemplo, interpreta este trecho como uma metáfora para a guerra interna que se processa dentro de todo ser humano que é confrontado por dilemas morais.FISCHER, L. Gandhi: His Life and Message to the World Mentor. New York. 1954. pp. 15–16.
Autodefesa, direito penal e guerra Os textos clássicos do hinduísmo dedicam vários capítulos à discussão sobre o que um praticante de ainsa pode e deve fazer quando confrontado com situações de guerra, ameaça de violência ou necessidade de sentenciar alguém culpado por um crime. Essa discussão levou à formulação de várias teorias sobre a guerra justa, sobre a autodefesa aceitável e sobre a punição proporcional.BALKARAN, R., & DORN, A. W. Violence in the Vālmı̄ki Rāmāyaṇa: Just War Criteria in an Ancient Indian Epic. Journal of the American Academy of Religion, 80(3). 2012. P. 659–690.KLOSTERMAIER, K. K. in Harvey Leonard Dyck and Peter Brock (Ed), The Pacifist Impulse in Historical Perspective. University of Toronto Press. 1996. pp. 230–234. O Artaxastra discute, entre outras coisas, o que constitui a resposta e a punição proporcionais.ROBINSON, P. F. Just War in Comparative Perspective Ashgate Publishing. 2003. pp. 114–125.COATES, B. E. Modern India's Strategic Advantage to the United States: Her Twin Strengths in Himsa and Ahimsa. Comparative Strategy, 27(2), 2008. pp. 133–147. Guerra Dentro do hinduísmo, o ainsa prega que toda guerra deve ser evitada através de um diálogo sincero. A força deve ser o último recurso. Se a guerra é necessária, sua causa deve ser justa, seu propósito deve ser virtuoso, seu objetivo deve ser limitar o mal, sua finalidade deve ser a paz, seu método deve ser correto.ROBINSON, P. F. Just War in Comparative Perspective Ashgate Publishing. 2003. pp. 114–125. A guerra somente pode ser iniciada e finalizada por uma autoridade legítima. As armas utilizadas devem ser proporcionais ao oponente e ao objetivo da guerra, e não devem produzir destruição aleatória.<ref>SUBEDI, S. P. The Concept in Hinduism of 'Just War'''. Journal of Conflict and Security Law. 8(2). 2003. pp. 339–361.</ref> Todas as estratégias e as armas utilizadas devem visar à vitória sobre o adversário, e não a causar dor ao adversário. Por exemploː o uso de flechas é permitido, mas não o uso de flechas embebidas em veneno doloroso. Os guerreiros devem usar o discernimento no campo de batalha. Crueldade para com o oponente durante a guerra é proibido. Guerreiros feridos ou desarmados não devem ser atacados ou mortos, e sim recolhidos e tratados. Crianças, mulheres e civis não devem ser feridos. Durante a guerra, o diálogo sincero em busca da paz deve ser mantido. Autodefesa No que tange à autodefesa, diferentes interpretações têm sido oferecidas a antigos textos hindus. Por exemplo, Tähtinen sugere queː a autodefesa é apropriada; criminosos não são protegidos pela regra do ainsa; e as escrituras hindus apoiam o uso de violência contra um agressor armado.Mahabharata 12.15.55; Manu Smriti 8.349–350; Matsya Purana 226.116. Ainsa não implica pacifismo.