A Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, localizada no Largo do Paiçandu, na região central da Cidade de São Paulo, foi construída gratuitamente por trabalhadores negros no início do século XX. Originalmente, era localizada na Praça Antônio Prado, onde foi construída entre os anos de 1721 e 1722. Era um espaço de reunião de negros e escravos, que celebravam ritos católicos misturados com crenças de origem banto. Com o processo de urbanização iniciado pelo prefeito Antônio Prado, a antiga igreja foi demolida em 1903 e depois reconstruída onde se encontra atualmente. A nova igreja foi consagrada em 1906, quando grande procissão, acompanhada por banda, trasladou as imagens do antigo templo.

História A Irmandade dos homens pretos

As irmandades de homens pretos surgiram na América colonial no período escravocrata como forma de socialização, resistência e cooperação entre escravos e os alforriados. A figura da Mãe de Deus, representada pelo rosário, destacou-se fortemente nos cultos dessas irmandades por dois motivos: uma catequização dos escravos, quanto à importância da Virgem Maria, que vinha sendo feita pelos portugueses desde as Costas africanas; e pela adoção comunitária de um único santo (denominado patrono), que embasaria o culto, tipicamente banto, em torno de um ancestral comum.

A associação de irmandades, que no geral eram muito pobres e não contavam com posses territoriais, era muito comum, pois permitia que diferentes associações religiosas utilizassem o mesmo templo. Um exemplo é a Irmandade de Santa Ifigênia (uma princesa Núbia que foi catequizada), que, sendo a maior e de mais destaque entre as irmandades, ficou responsável por outras agremiações menores.A atual Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, por exemplo, é considerada uma capela dependente da Igreja paroquial de Santa Ifigênia.

Um exemplo da mistura entre as divindades católicas e pagãs nos cultos dos homens pretos era a substituição de nomes de santos católicos por nomes da tradição negra. São Benedito era chamado de Lingongo; Santo Antônio de Vereque; e Nossa Senhora das Dores de Sinhá Samba. Esse sincretismo religioso era necessário quando as religiões de matriz africanas eram negligenciadas pelos homens brancos no Brasil (normalmente os donos de escravos, senhores de engenho).

A primeira igreja A primeira Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi fundada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no século XVIII. Sua história começou com uma petição da Irmandade, no ano de 1721, ao então rei de Portugal, Dom João V, pedindo permissão para construir um templo "que pudesse solenizar os mistérios do Rosário da Mãe de Deus". Apesar de não haver registros da resposta real, presume-se que ela tenha sido favorável, uma vez que nos anos subsequentes começou um processo de arrecadação de fundos para a construção da igreja. Nesse mesmo ano, enquanto não tinham os recursos necessários nem a permissão oficial da realeza, os escravos, proibidos de frequentar as igrejas dos brancos, construíram uma pequena capela nas proximidades do ribeirão do Anhangabaú. Na época, tratava-se de um subúrbio da cidade reconhecido pelas reuniões de escravos e de alforriados. Essa primeira igreja foi construída de taipa de pilão e tinha características predominantementes barrocas.

O processo de arrecadação de dinheiro começou em 1725, quando o ermitão Domingo de Melo Tavares, devoto da Irmandade dos homens pretos, começou uma peregrinação pelo estado de Minas Gerais recebendo esmolas em nome da Irmandade. Nesse mesmo ano a Irmandade pediu um terreno para a Câmara Municipal de São Paulo (CMSP) para que a igreja pudesse ser construída. O pedido foi visto com simpatia por D. Antônio de Guadelupe, bispo de São Paulo, que os ajudou a conseguir o tereno. No Livro do Tombo da Sé há uma referência ao fato: ele diz que a Virgem do Rosário foi "colocada pelos pobres escravos e pretos com toda a devoção na Capela que edificarão por graça do Ex. Snr. d. Antonio de Guadelupe". Como a irmandade era muito pobre, constituída pelos escravos e alforriados, quase todos os elementos que compunham a primeira igreja, como móveis, madeira, imagens de santos, tecido, toalhas e bordados para o altar, entre outros foram adquiridos através de doações.

Foi esse terreno, no qual a primeira capela tinha sido construída, que foi doado pela Câmara de São Paulo para a Irmandade em 10 de julho de 1728. Somado aos 10 mil cruzados que o ermitão Tavares recolhera de doações em Minas Gerais, a posse legal do terreno permitia a construção de uma igreja canônica. As obras começaram nesse ano, e há registros de terem acabado apenas em 1737. A conclusão das obras foi comemorada com a celebração de uma missa seguida da festa de Congos (congada). As outras referências à igreja registradas são de épocas bem posteriores: há duas cartas registradas na Câmara em 1750 e, em 1783, ela figura em uma relação de templos paulistas feita por Manuel Cardoso de Abreu. Em 5 de novembro de 1745, o ermitão que arrecadou os fundos para ereção da igreja foi nomeado Administrador Perpétuo das Obras da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

O antigo templo ficava na Rua do Rosário, atual rua 15 de Novembro, região central da cidade de São Paulo, na esquina com a atual Praça Antônio Prado. Sua fachada ficava na rua 15 de Novembro, e era formada por quatro janelas, uma torre do lado esquerdo, que possuía uma janela baixa, e duas portas. Sua outra face, voltada para o Largo do Rosário, possuía uma porta de entrada para a sacristia e uma janela acima desta. A capela-mor possuía seis tribunas e um altar com painel da N. S. do Rosário, ao lado de S. Roque e S. Antônio. O corpo da igreja possuía quatro tribunas, dois púlpitos e dois altares, sendo um para Bom Jesus da Prisão, Santa Ifigênia e Santo Elesbão e outro para o Sagrado Coração de Jesus. A capela do Bom Jesus da Pedra Fria ficava à esquerda da igreja, sendo o outro lado tomado pela sacristia e um altar de Nossa Senhora das Dores.

A criação de uma igreja apenas para os negros evidencia dois traços importantes da época: o número crescente de escravos que eram trazidos para São Paulo; e a capacidade de associação e cooperação entre si. Nas palavras da pesquisadora Fernandes, a criação dessa igreja “constitui-se como entidade de união e auxílio mútuo de forros e escravos da cidade, atuando ainda como promotora de alforrias e participando das atividades abolicionistas”.

Festas e sincretismo religioso As festas realizadas na primeira igreja da Irmandade dos homens pretos revelavam grande sincretismo religioso entre o catolicismo e as crenças africanas da etnia bantu, pois grande parte dos escravos trazidos para São Paulo vinham do atual Congo, de ascendência bantu. As festas eram conhecidas pela eleição de um rei, uma rainha e uma corte; a venda de quitutes tradicionais da África; os leilões ao som de tambaques; o manuseio mútuo de terços católicos e peles de lagarto ou sapo, figas da guiné, olhos-de-cabras e pés de galinha, tradicionais elementos da religião bantu; a encenação da congada e a participação de grande parte dos moradores locais, que sempre observavam as festividades. A procissão da Nossa Senhora do Rosário era a principal festa da irmandade. Era caracterizada pelas músicas de diversos ritmos, como os batuques, sambas e moçambiques; as danças entusiasmadas de mulheres que vestiam lenços brancos na cabeça, colares e pulseiras de ouro e rosários de contas vermelhas; e os grandes banquetes na cada do rei e da rainha, onde eram servidos cachaça e quitutes típicos. Como alguns desses ritmos musicais eram muito reprimidos pela polícia, devido a reclamações de moradores e sua associação com a religiosidade africana, a dança dos Caiapós também foi adotada pela comunidade como uma forma de expressar sua religiosidade.

A imersão dos moradores locais nos ritos e festas dos "pretos do rosário" foi marcada também pelo aparecimento dos "escravos de ganho", que eram negro alforriados, contratados por pequenos comércios, para vender doces, mandioca, pinhão, milho, frutas e legumes ao redor da igreja. Também era muito comum a construção de casebres humildes ao redor da igreja, onde moravam os ex-escravos. Muitos observadores da época registraram a participação de escravos nessa festas, que eram vistas pelos senhores de escravos como momentos de "alívio do cativeiro".

O cemitério, construído ao lado da igreja logo após sua finalização, também ocupava um importante papel na vida religiosa daquela comunidade. Na sacristia havia uma gamela para lavagem dos defuntos e um caixão de madeira que transportava os corpos até as covas. Tal caixão era usado em todas as cerimônias, uma vez que os mortos eram enterrados apenas com lençóis. Os enterros começavam sempre de madrugada e eram caracterizados por um líder religioso que entoava canções identificadas como sendo do candomblé; o acompanhamento das músicas pelos presentes; e um batuque produzido pelos "mãos-de-pilão", que socavam a terra que ia sendo jogada em cima da cova. Diversos registros da época relatam o medo e apreensão que os moradores locais tinham com esses ritos, pois acordavam de madrugada ouvindo batuques associados ao paganismo e canções em outra língua.

Modernização de São Paulo A partir de finais do século XIX e início do XX, a cidade de São Paulo passou por um processo de modernização que implicou no realojamento da igreja em outra localidade. O primeiro passo do processo deu-se em 1870, quando o então presidente da província, João Teodoro, decidiu demolir alguns casarios antigos e desapropriar o cemitério de escravos, adjacente à antiga igreja, para a criação do Largo do Rosário. Essa desapropriação foi muito mal recebida pelos irmãos pretos, pois o cemitério tinha uma importante função no culto aos mortos, como seguiam das tradições africanas bantos.

As mudanças profundas, no entanto, viriam nos anos 1900, quando o primeiro prefeito de São Paulo, Antônio da Silva Prado, decidiu implantar na região um replanejamento urbanístico para modernizar a cidade. Seu projeto incluía uma ampliação do Largo do Rosário, que seria renomeado de Praça Antônio Prado em 1905, para melhorar a confluência do trânsito de veículos e pedestre no centro; a ligação do Triângulo Histórico com o Pátio do Colégio; a arborização de diversas praças, como a da Luz e da República; a reforma e alargamento da Praça da Sé; a construção da Praça do Patriarca e do Viaduto Santa Ifigênia; e a criação de jardins ao redor de todo o centro.

Dessa forma, em 1903 a Câmara Municipal votou a lei nº 607, que declarava de interesse público a desapropriação dos bens da Irmandade Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos para ampliação do Largo do Rosário. A indenização foi de 250 contos de réis mais o terreno no Largo do Paiçandu, onde se encontra atualmente a igreja. Enquanto a nova igreja era construída os ritos dos homens pretos ocorreram na Igreja de São Bento de Pedra, localizada na Praça da Sé.

Para alguns autores, a medida correspondeu a uma sanção moral, disciplinar e higiênica das autoridades, que pretendiam reprimir as manifestações de religiosidade africana e os aglomerados de pessoas consideradas "selvagens" e de "classes perigosas", segundo os cronistas da época. Os relatos da época de moradores do Largo do Rosário reclamando das cantorias noturnas dos pretos, que realizavam seus ritos fúnebres com batidas e cantigas nos cemitérios, também reforça a ideia de certa sanção moral. Tal opinião ainda pode ser fortalecida pelo projeto de lei, que surgiu alguns anos depois, que proibia batuques cateretês dentro da cidade.