O Segundo Concílio Ecumênico do Vaticano, comumente conhecido como Concílio Vaticano II ou Vaticano II, foi o 21º e mais recente concílio ecumênico da Igreja Católica.Constituição Apostólica Humanae Salutis - Papa João XXIII. O concílio se reuniu a cada outono de 1962 a 1965 na Basílica de São Pedro, na Cidade do Vaticano, para sessões de 8 e 12 semanas.

O Papa João XXIII convocou o concílio porque sentiu que a Igreja precisava de "atualização" (em italiano: aggiornamento). Ele acreditava que, para se conectar melhor com as pessoas em um mundo cada vez mais secularizado, algumas das práticas da Igreja precisavam ser aprimoradas e apresentadas de maneira mais compreensível e relevante.

O apoio ao aggiornamento venceu a resistência à mudança e, como resultado, 16 documentos magisteriais foram produzidos pelo concílio, incluindo quatro "constituições":

Dei verbum, a Constituição dogmática sobre a Revelação Divina enfatizou o estudo da Escritura como "a alma da teologia". Gaudium et spes, a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo moderno, dizia respeito à promoção da paz, ao dom de si e à missão da Igreja aos não-católicos. Lumen gentium, a Constituição dogmática sobre a Igreja sobre "o chamado universal à santidade" Sacrosanctum concilium, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia para restaurar "a participação plena e ativa de todo o povo".

Outros decretos e declarações incluíam:

Apostolicam actuositatem, um decreto sobre o Apostolado dos Leigos Dignitatis humanae, uma declaração sobre a liberdade religiosa Nostra aetate, uma declaração sobre religiões não-cristãs Orientalium Ecclesiarum, um decreto sobre as Igrejas Católicas Orientais Unitatis redintegratio, um decreto sobre o ecumenismo cristão

Os documentos propunham uma ampla variedade de mudanças na doutrina e na prática que mudariam a vida da Igreja.  Alguns dos mais notáveis foram na execução da missa, incluindo que as línguas vernáculas poderiam ser autorizadas, bem como o latim.

Antecedentes históricos Da Revolução Francesa ao início do século XX, passando por todo o século XIX, a Igreja Católica foi sendo "perseguida, difamada, dessacralizada e desacreditada" pelos liberais, pelos comunistas e socialistas e pelos radicais ateus. A Igreja, por outro lado, vendo tudo isso acontecer, condenou por isso as novas correntes filosóficas agnósticas e subjectivistas, que estão associadas à heresia modernista. Esta heresia foi fortemente condenada pelos Papas Gregório XVI (1831-1846), Pio IX (1846-1878) e São Pio X (1903-1914). Esta atitude foi também o espírito do Concílio Vaticano I (1869–70), que definiu o dogma da infalibilidade papal.

Por outro lado, floresceram também na Igreja tentativas de adaptação ao mundo moderno, através, como por exemplo, da "atitude de vários leigos católicos no campo político e social" (destaca-se Frédéric Antoine Ozanam, fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo); da publicação da encíclica Rerum Novarum (1890) pelo Papa Leão XIII (1878-1903), que defendia os direitos dos trabalhadores; da criação da Acção Católica (1922) pelo Papa Pio XI (1922-1939); e da perda gradual de popularidade da Escolástica e do consequente aparecimento da Nouvelle Theologie (que é diferente do modernismo). Este movimento teológico do início do século XX, que é apoiado por alguns sectores eclesiásticos, defendia principalmente "a valorização da leitura das Sagradas Escrituras" (que foi também um dos temas da encíclica Divino afflante Spiritu do Papa Pio XII) e uma "volta às fontes", através do estudo da Bíblia e das obras patrísticas. Os defensores mais ilustres da Nouvelle Theologie foram os progressistas Karl Rahner, John Courtney Murray, Yves Congar, Joseph Ratzinger e Henri de Lubac. Teilhard de Chardin e Jacques Maritain também defenderam uma maior abertura da Igreja.

Ao mesmo tempo, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Cúria Romana "encontrava-se em franco processo de estagnação" e vários dos seus elementos mais tradicionais condenaram as novas tendências teológicas mais progressistas. Em 1950, o Papa Pio XII, na sua encíclica Humani Generis, chegou mesmo a alertar para os possíveis desvios "neo-modernistas" da Nouvelle Theologie. Enquanto tudo isso acontecia, os bispos de todo o mundo tiveram que enfrentar novos problemas originados por drásticas mudanças políticas, sociais, económicas e tecnológico-científicas. É neste ambiente paradoxal, quer ao nível interno quer ao nível externo da Igreja, que muitos católicos sentiram a necessidade de a Igreja encontrar uma nova postura para enfrentar o mundo moderno.

E é também neste ambiente que o Papa João XXIII sentiu a necessidade urgente de convocar o Concílio Vaticano II. Aliás, "a ideia de um Concílio já havia sido pensada por Pio XI e mesmo por Pio XII, mas sem grandes sucessos em sua realização". João XXIII, "temendo um novo desastre, como foi o da Reforma Protestante", decidiu realizar este Concílio a todo o custo. Esta sua intenção foi anunciada por ele no dia 25 de janeiro de 1959, causando uma grande surpresa dentro da Cúria Romana e até dentro da Igreja Católica. Em junho de 1960, através do motu proprio Superno Dei nutu, teve oficialmente início a preparação do Concílio. Passado apenas um ano, no Natal de 1961, João XXIII convocou oficialmente o Concílio para o ano seguinte (1962), através da bula papal "Humanae salutis". Esta convocação era "uma decisão totalmente pessoal do Papa, contrariando as opiniões de alguns cardeais, que pretendiam seu adiamento, em vista de uma melhor preparação".

Influência de Pio XII Segundo o Papa Bento XVI, depois das Sagradas Escrituras, o Papa Pio XII é o autor ou fonte autorizada mais citada nos documentos do Concílio Vaticano II. Bento XVI considera que não é possível entender o Concílio Vaticano II sem levar em conta o magistério de Pio XII. (…) A herança do magistério de Pio XII foi recolhida pelo Concílio Vaticano II e proposta às gerações cristãs posteriores.Zenit Visitado em 19.11.2008.

Nas intervenções orais e escritas, se encontram mais de mil referências ao magistério de Pio XII e o seu nome aparece mencionado em mais de duzentas notas explicativas dos documentos do Concílio, estas notas com frequência constituem autênticas partes integrantes dos textos conciliares; não só oferecem justificativas de apoio para o que afirma o texto, mas também oferecem uma chave de interpretação, disse o Papa Bento XVI no discurso que dirigiu aos participantes do congresso sobre "A herança do magistério de Pio XII e o Concílio Vaticano II", promovido pelas universidades pontifícias Gregoriana e Lateranense, no 50.º aniversário da morte de Pio XII (2008).

Como por exemplo, os conceitos e as ideias expressas na encíclica Mystici Corporis Christi (1943), do Papa Pio XII, influenciaram fortemente a redacção da constituição dogmática Lumen Gentium, que trata da natureza e da constituição da Igreja. Este documento do Concílio Vaticano II usou e defendeu o conceito de Igreja expresso nesta encíclica (a Igreja como Corpo místico de Cristo), que era baseado na teologia de São Paulo.

Objetivos O objetivo do Concílio é discutir a ação da Igreja nos tempos atuais, ou seja, a sua finalidade é "promover o incremento da fé católica e uma saudável renovação dos costumes do povo cristão, e adaptar a disciplina eclesiástica às condições do nosso tempo" e do mundo moderno.Papa João XXIII, bula Humanae salutis Por outras palavras, o Concílio pretende o aggiornamento (actualização e abertura) da Igreja. thumb|direita|João XXIII convocou o Concílio e o presidiu até sua morte, em 1963.

O Papa João XXIII "imaginava o Concílio como um «novo Pentecostes» […]; uma grande experiência espiritual que reconstituiria a Igreja Católica" não apenas como instituição, mas sim "como um movimento evangélico dinâmico […]; e uma conversa aberta entre os bispos de todo o mundo sobre como renovar o Catolicismo como estilo de vida inevitável e vital".George Weigel, A Verdade do Catolicismo, Bertrand Editora 2002 ISBN 972-25-1255-2; cap. 3, págs. 45-46

Por esta razão, ao contrário dos concílios ecuménicos anteriores, preocupados mais em condenar heresias e em definir verdades de fé e de moral, o Concílio Vaticano II "teve como orientação fundamental a procura de um papel mais participativo para a fé católica na sociedade, com atenção para os problemas sociais e econômicos"."Catolicismo e mundo moderno" , do site Hieros Aliás, o próprio Papa João XXIII teve o cuidado de mencionar a diferença e a especificidade deste Concílio: "a Igreja sempre se opôs a […] erros; muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações".Discurso de Sua Santidade Papa João XXIII na Abertura Solene do SS. Concílio (1962); cap. VII, n. 2

Logo, o Concílio não visava a condenar heresias nem proclamar nenhum dogma novo."Vatican II gave us no new dogmatic definitions...". Citação retirada do "Tablet" (2 de Março de 1968) O Concílio apenas queria dar uma nova orientação pastoral à Igreja e uma nova forma de apresentar e explicar os dogmas católicos ao mundo moderno, mas sempre fiel à Tradição."The substance of the ancient doctrine of the Deposit of Faith is one thing, and the way in which it is presented is another". Citação retirada do "Discurso de Abertura do Concílio Vaticano II", feito pelo Papa João XXIII (11 de Outubro de 1963) O próprio Papa João XXIII afirmou que "o que mais importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz".Discurso de Sua Santidade Papa João XXIII na Abertura Solene do SS. Concílio (1962); cap. V, n. 1 Para satisfazer esta sua intenção, o Papa queria ardentemente que a Igreja mudasse de mentalidade, para poder melhor enfrentar e acompanhar as transformações do mundo moderno.

Pelas palavras da constituição Sacrosanctum Concilium, o "Concílio propõe-se a fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições suscetíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja".Sacrosanctum Concilium, n. 1

Inauguração e número de participantes thumb|esquerda|A abertura do Concílio Vaticano II.

No dia 11 de outubro de 1962, o Concílio Vaticano II, idealizado pelo Papa João XXIII, "teve seus trabalhos oficialmente inaugurados, contando com a presença de 2 540 padres conciliares ou prelados, número este inédito para a História da Igreja: 1060 europeus (dos quais 423 italianos, 144 franceses, 87 espanhóis, 59 poloneses, 29 portugueses…), 408 asiáticos, 351 africanos, 416 da América do Norte, 620 da América Latina e 74 da Oceânia". Mas, mesmo assim, "estavam ainda ausentes do Concílio muitos bispos de dioceses que viviam sob regimes autoritários", na sua maioria de ideologia comunista. "O número de participantes variou muito de acordo com as sessões, nunca porém estando abaixo de 80% do total de padres conciliares". miniaturadaimagem|Basílica de São Pedro durante as sessões conciliares. Pela primeira vez na História, "os peritos […] foram ouvidos na elaboração dos textos conciliares, trazendo consigo uma imensa riqueza de tradições e culturas". Estes peritos, que não tinham direito a voto, são também chamados de consultores teológicos e tinham uma grande influência no Concílio. Várias dezenas de observadores protestantes e ortodoxos também foram convidados e estiveram presentes nas 4 sessões do Concílio.