A Mina de São Domingos é um antigo complexo mineiro, situado na freguesia de Corte do Pinto, no Município de Mértola, na região do Alentejo, em Portugal.
Desde a antiguidade que são conhecidos os jazigos mineiros na área de São Domingos, tendo a produção começado provavelmente na Idade do Bronze, e atingido uma grande intensidade durante a época romana. Porém, só no século XIX é que se iniciou a produção em larga escala, que perdurou até meados da década de 1960.GUIMARÃES, 2011:29 Na década de 2000 o antigo complexo mineiro entrou numa nova fase, desta vez do ponto de vista do seu reaproveitamento turístico e da reabilitação ambiental.
O conjunto da Mina de São Domingos é composto por várias espaços, estruturas e equipamentos que eram utilizados na produção e processamento de minério, como a grande mina a céu aberto conhecida como corta, e o complexo industrial da Achada do Gamo, além de uma aldeia onde residiam os operários e os administradores da mina, a Aldeia da Mina de São Domingos. O minério era transportado por uma linha férrea até ao porto fluvial do Pomarão, no Rio Guadiana, onde era transferido para barcos com destino a outras partes do país ou para o estrangeiro. A exploração criou gravíssimos problemas ambientais na região em redor, devido principalmente à contaminação das águas pelas escórias, que foram deixadas no local após o encerramento da mina.
O complexo mineiro está incluído na Zona de Protecção Especial do Vale do Guadiana (Rede Natura 2000), e foi classificado como Conjunto de Interesse Publico desde 2013.
Descrição Localização e importância O antigo couto mineiro situa-se na Serra de São Domingos, no Município de Mértola, na região meridional do país, junto à fronteira com Espanha. Localiza-se a cerca de 17 Km da sede de Município, e a 67 Km da sede de distrito, Beja. As antigas infraestruturas mineiras, incluindo a plataforma da antiga via férrea, inserem-se numa propriedade com 2000 hectares, que pertence à firma espanhola La Sabina.
Além do complexo principal também existiu a exploração do Serro da Mina, que produziu manganês e ferro, e que funcionou no século XX, como parte da Mina de São Domingos.
Insere-se na Faixa Piritosa Ibérica, uma zona rica em minerais com cerca de 250 Km de comprimento e 50 Km de largura, que se prolonga sensivelmente desde Alcácer do Sal, em Portugal, até Sevilha, em Espanha. Além de São Domingos, esta área também concentrou outras importantes explorações mineiras, como as da Caveira, Lousal, Aljustrel e Neves-Corvo, em território nacional, e do Rio Tinto, em Espanha. A área correspondente ao Município de Mértola teve um grande potencial mineiro, com um grande número de explorações ao longo dos tempos. Por exemplo, no Serro do Ouro, igualmente na freguesia de Corte do Pinto, funcionou uma mina de cobre e pirite, que foi trabalhada na segunda metade do século XIX e on século XX. Mais perto de Mértola existiram minas de ferro e manganês, que também foram exploradas entre os séculos XIX e XX, Em Santana de Cambas também funcionou a mina da Tapada do Touril, igualmente de ferro e manganês. Do outro lado da fronteira também existiu a mina de Vuelta Falsa, nas imediações da povoação portuguesa de Corte do Pinto, e que também foi responsável por graves problemas ambientais no Rio Chança.
A mina de São Domingos foi o principal centro de mineração no país até à década de 1930, e uma das maiores explorações de pirites na Península Ibérica. A nível regional, foi considerado como o principal promotor para o desenvolvimento do Município de Mértola.
Composição
Mina e infraestruturas No artigo Minas do Distrito de Beja, escrito pelo professor Aboim Inglês e publicado na obra Album Alentejano: Distrito de Beja, de 1932, o jazigo é descrito como sendo composto por «uma grande massa da pirita ferro-cuprifera de 600 metros de comprimento por 60 m de largura máxima, estando conhecido até aos 300 ms de profundidade».
Os principais produtos da mina eram enxofre e pirite de cobre, sendo também importante a exploração de ouro, prata, estanho, chumbo, níquel, cobalto, cádmio e arsénio antimónio. O minério era principalmente piritoso, com teores médios de 45 a 48% de enxofre, sendo triturado e processado antes de ser levado a bordo dos navios. Inicialmente a mina focou-se principalmente na produção de cobre, e posteriormente na de pirite.
Segundo o artigo O cobre em Portugal: A Mina de São Domingos publicado por Adelino Mendes na revista Ilustração Portuguesa em 1907, a mina comunicava com a superfície através de três túneis, dois terminando no vale, onde se situavam as máquinas e oficinas, e um na extremidade inferior da corta. Esta tinha sido uma mina a céu aberto, e consistia num fosso de grandes dimensões, cuja abertura à superfície tinha cerca de dois quilómetros de circunferência. A mina em si tinha dois níveis, sendo o acesso ao primeiro feito através de um túnel inclinado, que terminava numa grande zona de esplanada, de onde saíam os túneis para os filões de minério. Para chegar ao segundo nível era necessário descer através de poços perpendiculares, onde se encontravam os elevadores de minério e as escaleiras para os trabalhadores. Neste segundo nível existiam também túneis laterais como no primeiro, além de outros poços que permitiam atingir uma profundidade de cerca de 240 m. No seu ponto máximo, a exploração a céu aberto atingiu os 120 m de profundidade, enquanto que os poços e galerias chegaram aos 400 m. Aboim Inglês explicou que «até ao piso 150 faz-se a extracção por poço vertical por meio de jaulas transportando os vagons continuos que depois são engatados no cabo sem fim para subir pelo tunel inclinado automaticamente á superfície a uma instalação trituradora e classificadora por tamanhos». Neste local, o minério era dividido em diversos tipos: «ou é levado á cementação para produzir (Cáscara de cobre) (producto com 70 a 80% cobre) ou era exportado pelo seu caminho de ferro até ao porto do Pomarão». Aboim Inglês destacou igualmente a utilização do método pioneiro da hidrometalurgia natural, desenvolvido pelos britânicos Joel e Harvey e pelo capataz Manuel Joaquim, que substituiu a calcinação, e que permitiu um aproveitamento do enxofre para a produção de ácido sulfúrico.
Como parte do funcionamento da mina foi construído um conjunto de estruturas administrativas e de apoio, que incluíam armazéns e oficinas, destacando-se a central eléctrica, que além da mina em si também abastecia a aldeia de São Domingos, e que foi a primeira estrutura deste género na região do Alentejo. Foram construídas quatro barragens para fornecer água à mina sendo um dos principais usos o processamento dos minerais de baixo teor, através da via húmida.
Corte da Mina e Achada do Gamo Um dos mais importantes pontos na antiga exploração mineira de São Domingos era a Corte da Mina, que funcionou como mina a céu aberto, e como acesso às galerias subterrâneas. Na Achada do Gamo, situada no percurso entre a mina de São Domingos e o Pomarão, foi instalado um grande complexo industrial para o aproveitamento do enxofre extraído na mina, que era depois utilizado nas fábricas nacionais para a produção de ácido sulfúrico e de pesticidas agrícolas. Devido às suas estruturas, este local é considerado como um dos mais emblemáticos no percurso da antiga mina. Nesta zona também se reuniu um impressionante conjunto de depósitos de escórias, conhecidos como escombreiras.
thumb|Linha férrea da mina de São Domingos, em 1880. Via férrea e porto do Pomarão
O complexo de São Domingos incluía uma rede ferroviária entre as minas e o porto de abrigo do Pomarão, situado a cerca de 18 Km da mina. Este porto fluvial situa-se no Rio Guadiana, nas imediações da foz do Rio Chança, e a 50 Km da foz do Guadiana no Oceano Atlântico, em Vila Real de Santo António. Aqui era feito o transbordo do minério para navios, com destino aos grandes centros industriais do Reino Unido, Alemanha, França e Itália, tendo Aboim Inglês referido que a «empresa tem depositos e instalações para cargar dois vapores por dia». Neste ponto não se fazia apenas o embarque do minério, mas também se desembarcavam mercadorias, principalmente equipamentos e materiais para a mina. Na zona da Palanqueira, na margem direita do Guadiana, também se situavam algumas estruturas de apoio ligadas às funções portuárias, além de um pombal.
O percurso de visita da Rota do Minério acompanha de perto a antiga via férrea, desde a aldeia de São Domingos até ao Pomarão.
Aldeia
De forma a albergar o grande número de trabalhadores das minas e as suas famílias, a companhia instalou uma aldeia de raiz, igualmente denominada de São Domingos. Além das casas em si, o povoado também incluía um posto da polícia, e conjunto de infraestruturas destinadas a melhorar a quotidiano dos trabalhadores, incluindo uma igreja, um cine-teatro, um hospital e uma farmácia, uma escola, e uma cooperativa onde se podiam abastecer de alimentos. A central eléctrica da mina também abastecia a aldeia, que foi uma das primeiras em território nacional a ter iluminação eléctrica. A povoação também alcançou um certo desenvolvimento do ponto de vista cultural e desportivo, com uma banda de música e uma equipa de futebol própria, o São Domingos Futebol Clube. Aboim Inglês refere que «os serviços medicos e de farmacia são gratis. Os serviços de higiene publica são tambem por conta da Empreza: poços dágua potável, lavatorios, retretes, ruas e fiscalização dos quarteis [residências dos trabalhadores] são objecto de constantes cuidados. Estes cuidados e a guerra ao mosquito reduziu a malaria que existia em S. Domingos a quási nada.».
Porém, apesar destas facilidades, a vida dos operários ainda se fazia em condições de pobreza, devido principalmente aos baixos salários da mina, pelo que muitos também se dedicavam à pesca, caça ou ao contrabando. Por exemplo, o jornal A Sapataria Portuguesa de 17 de Junho de 1892 noticiou que numa casa da povoação foram encontradas 120 pares de alparcatas e 137 Kg de açúcar, que tinham vindo ilegalmente de Espanha, de forma a não pagar os impostos aduaneiros.
Em 1907, Adelino Mendes descreveu a aldeia como sendo de «casaria uniforme e toda branca que se accumula em arruamentos symetricos n'uma encosta suave que vem morrer no volle [sic] cortado pelas linhas ferreas e povoado d'officinas, com o seu mercado amplo e espaçoso, onde se vende tudo o que é mais necessario á vida, com os seus massiços de verdura, com as grandes florestas de eucalyptos altos e esguios, com o seu aspecto ridente e feliz, é uma das mais encantadoras aldeias alemtejanas, e talvez a única onde n'este verão que morreu conseguiram resistir ao calor ardente de um sol de fogo alguns canteiros floridos que os ingleses cultivam com esmero em torno dos seus homes recatados e simples». Refere ainda que para abastecimento da povoação, a empresa «construiu lagos immensos onde se accumulam dezenas de milhões de metros cubicos d'agua». A companhia também ordenou a plantação de árvores e jardins, no sentido de combater a aridez da região, e ao mesmo tempo minimizar os efeitos da poluição gerada pelas operações mineiras.
Em 1929, o escritor Ferreira de Castro investigou a Mina de São Domingos para uma reportagem do jornal O Século, e apesar de ter sido impedido de entrar na mina pela administração, esteve no bairro operário, onde constatou as miseráveis condições de vida dos seus habitantes. O escritor descreveu as casas como sendo muito pequenas, sujas e escuras, onde «os olhos carecem de alguma distância para avaliar os objectos», e as crianças se arrastavam pelo chão, como «rãs na lama de um charco», tendo destacado as esposas dos mineiros como «produtoras dum heroísmo quotidiano».