Dinorá de Carvalho (Uberaba, 1 de junho de 1895 - São Paulo, 1980) foi uma pianista e compositora brasileira. Sua vida foi dedicada a música. Seu catálogo de obras publicado pelo Ministério das Relações Exteriores no ano de 1977 traz um número estimado de 160 peças compostas. A obra de Dinorá de Carvalho tem sido estudada nos meios acadêmicos e resultou em publicações científicas que abordam estudos aprofundados sobre a sua produção artística. Algumas de suas partituras, tais como o Salmo XXII - O Bom Pastor e suas peças corais a cappella, foram recentemente publicadas. Dois acervos salvaguardam parte de sua obra, o acervo de Mário de Andrade, que está atualmente no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP), e a Coleção Dinorá de Carvalho da Coordenação de Documentação de Música Contemporânea (CDMC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Biografia

Dinorah Gontijo de Carvalho nasceu em Uberaba, Minas Gerais e começou seus estudos de piano muito cedo, incentivada pelo pai Vicente Gontijo, que era músico amador. Com a morte do pai em 1904, a família se mudou para São Paulo, onde Dinorá começou a estudar piano no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, quando ela tinha por volta de 10 anos. Iniciou seus estudos de piano com a professora Maria Lacaz Machado, passando depois para a classe de Carlino Crescenzo. Sua primeira música teria sido uma valsa chamada “Serenata ao luar” e, na mesma época, improvisou um “Noturno” na cidade de Campinas". Suas primeiras composições foram feitas em 1912 e desde então se tornou um costume dela apresentar material composicional próprio em todos os seus recitais de piano. Ela se formou em 1916, tendo Mário de Andrade (1893-1945) como contemporâneo nesta escola, que mais tarde incentivou suas composições. Lucivan dos Santos afirma que Francisco Mignone (1897-1986) também fez parte da turma de Dinorá.

Dinorá obteve nota máxima ao piano, o que lhe proporcionou uma bolsa do governo de Minas Gerais logo após sua formatura para estudar em Paris, com o professor Isidor Philip (1863-1958). Retornou ao Brasil por volta de 1924, mesmo focando exclusivamente no aperfeiçoamento do piano e executou uma obra de autoria própria chamada “Sertaneja” que rendeu comentários de Mário de Andrade quanto ao seu estilo composicional. Informa estar “nitidamente dentro do experimentalismo sinfônico [...] com melodias mais longas e mais incontestavelmente nacional”. Em 1929 começou seus estudos com o uruguaio Lamberto Baldi (1895-1979), também professor de composição de Camargo Guarnieri, tendo sido Mário de Andrade quem os apresentou. Em 1933 sua primeira composição para canto e piano intitulada "Pipoqueiro" também rendeu uma outra crítica de Mário no jornal Estado de São Paulo que disse: “Pipoqueiro de Dinorá de Carvalho, com um acompanhamento que é um achado, sustentando uma melodia que envolvia bem o grotesco e o trágico do poema”.

Foi uma das raras compositoras a compor para instrumentos solistas; corais; coral e orquestra; conjuntos de câmara; piano e orquestra; orquestra sinfônica; teatro e balé. e em 1936 foi a primeira mulher a dirigir uma orquestra no Brasil. No ano de 1938, aos 43 anos, se casou com o seu admirador paranaense, José Joaquim Bittencourt Muricy.  Foi também a 1° mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Música. Premiada diversas vezes como compositora e pianista, Dinorá também se destacou como educadora tendo sido inspetora de ensino superior do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo.

A década de 1940 foi o início de sua grande atividade como professora de piano, tendo montado uma escola em sua casa, por onde passaram importantes nomes da música como Almeida Prado, Flávio Varani, Maria Regina Luponi, entre outros. Seu cuidado e dedicação com a formação do aluno, principalmente crianças, e seu método inovador de ensino musical foram muito elogiados na época, fazendo com que a escola fosse muito procurada. Foi também nesta década de 40 que ela criou e dirigiu a Orquestra Feminina São Paulo, a primeira orquestra do gênero na América Latina

Dinorá de Carvalho recebeu muitas homenagens. Seu nome foi dado à escola de música criada pela Associação Cívica Feminina. Recebeu muitas condecorações, como a Medalha Cultural Princesa Leopoldina, a Medalha Cultural José Bonifácio de Andrada e Silva e a Medalha de Ouro do IV Centenário da Fundação de São Paulo, em 1954, por seus esforços em prol da formação musical da criança. Como compositora, recebeu 9 prêmios, dentre eles, o prêmio de Melhor Obra de Câmara. Também recebeu um convite do Ministério da Cultura e em 1960, seguiu para uma missão cultural na Europa apresentando obras de autores brasileiros incluindo as suas.

De posse de informações passadas por seus alunos que estavam ou retornavam da Europa, criou obras de grande envergadura que foram recebidas com espanto e louvor pela crítica, como sua Sonata n°1 e sua Missa De Profundis. Se destacou também como crítica musical, atividade que exerceu até a década de 1970. Mesmo com tantas tarefas, Dinorá sempre compunha novas obras e se reinventava como compositora. O catálogo de obras publicado pelo Ministério de Relações Exteriores no ano de 1977, traz um total de mais de 150 títulos composicionais escritos por Dinorá de Carvalho.  Ao morrer em 1980, deixou duas canções não finalizadas, intituladas “Presença” e “Espelho”. O trabalho de catalogação de Flávio Carvalho apresenta 40 canções para piano e canto da compositora, sendo duas obras inacabadas e sete que estão desaparecidas. Portanto nos fornece um acervo de mais de 80% (31 obras) de sua obra cancioneira prontamente terminada e revisada para serem avaliadas e candidatas a serem transcritas.

Obras A listagem a seguir foi gerada com base no Catálogo de obras da compositora publicado em 1977 pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil e está organizada por formação instrumental, especificando também o ano de criação.

Voz Solista e Piano:

Pipoqueiro, 1933, barítono e piano Acalanto, 1933, soprano e piano Canção da saudade, 1936, soprano e piano Pau-piá, 1948, soprano e piano Pobre cego, 1948, mezzosoprano e piano Ê bango-bango-ê, 1948, mezzosoprano e piano Quem sofre, 1948, contralto e piano Banzo, 1948, contralto e piano Coqueiro, Coqueiro-irá, 1948, soprano e piano Mosaico, 1948, soprano e piano Menino Mandu, 1948, soprano e piano Quibungo-tê-rê-rê, 1949, soprano e piano Sinal da Terra, 1949, soprano e piano Velas no mar, 1949, soprano e piano Último retrato, 1950, contralto e piano Ausência, 1955, soprano e piano A ti flor do céu, 1960, soprano e piano Perdão, 1960, soprano e piano Sum-sum, 1960, barítono e piano Epigrama nº 9, 1964, soprano e piano Embalo, 1968, soprano e piano Instantâneo do adeus - De não querer - De tuas mãos, 1969, mezzosoprano e piano “Ideti - a menina preta que buscava Deus”, 1970, soprano e piano Samaritana, 1972, mezzosoprano e piano Fogo (com expressão corporal), 1972, soprano e piano Água, 1972, soprano e piano Ar, Terra, 1972, soprano e piano Uai-Ninim, 1974, mezzosoprano e piano Quin-gue-lê, 1974, soprano e piano Escrava mãe, 1974, soprano e piano Estampas de Vila Rica, 1975, soprano e piano. Movimentos: Carmo; São Francisco de Assis Teu rosto azul, (para o morto Cassiano Ricardo), 1975, soprano e piano

Voz Solista e Instrumentos:

Salmo XXII - “O Bom Pastor” (1969), Barítono, harpa, trompa, clarineta, violoncelo, piano, percussão. Movimentos: Versículo I; Versículo II; Versículo III; Intermezzo; Versículo IV; Versículo V; Recitativo: solo de violoncelo; Versículo VI; Quasi Fugato Três canções ingênuas (1977), soprano, flauta, piano

Coro a Cappella:

Acalanto (1933), SATB Oú-lê-lê-lê (1936), SATB Procissão de Cinzas em Pernambuco (1936), SATB Caramurus da Bahia (1936), SATB Ave Maria (1938), SATB Boi Tungão (1950), SATB Rochedo Sinhá (1958), SATB Lorigena (Omulú) (1956), SATB Angorô (1966), SATB Qui-bungo-tê-rê-rê (1973), SATB

Coro e Instrumento:

Viva Jesus (1952), 2 vozes agudas e piano Credo (1966), 2 vozes femininas (SA) e piano

Instrumento Solo:

Rêverie (1923), piano Soldadinhos (1929), piano Noturno (1930), piano Meditação (1930), piano Dança das bonecas (1930), piano Pirilampos (1930), piano Polonaise (1930), piano Rêverie (1930), piano Gavota (1930), piano Caixinha de Música (1930), piano Bailado das Sombras (1932), piano Berceuse da boneca (1932), piano O carrilhão encantado (1932), piano Caixinha de música da princesinha (1933), piano Minha viola (1933), piano O batalhãozinho pra frente (1933), piano Sertaneja (1933), piano Estudo nº1 (1934), piano Prelúdio só para mão esquerda (1934), piano Lá vai a barquinha carregada de… (1939), piano O burrinho teimoso (1939), piano Manhã radiosa (1939), piano Valsinha nº1 (1939), piano No país das palmeiras (1940), piano 4 peças dançantes (1940), piano 11 peças infantis (álbum) (1940), piano Palhaço coxo no circo (1940), piano Disputa dos garotos (1940), piano Menino Jesus adormecendo (1940), piano Toada paulista (1940), piano Alegria dos Pássaros (1940), piano Jogos no parque D. Pedro II (1940), piano Valsa nº1 (1944), piano Cantilena (1945), piano Nas mãos do Senhor (1945), piano Num recanto triste (1945), piano Madonas - Exposição Paim (1949), piano. Movimentos: Verdes Mares, Chuva e ouro, Cactus Vendaval (1949), piano Festa do Santo Rei (1949), piano Polka Imperial (1948), piano Chora minha terra (1949), piano Sonatina nº 1 (1949), piano Marcha do galinho (1949), piano Chácara D. Jorge (1950), piano Valsa da bonequinha preta (1950), piano Dança dos índios cocares vermelhos (1950), piano Festim das Amazonas (1950), piano Sertões (1950), piano Mural de pássaros (suíte) (1950/74), piano … alegre (1950), piano … colorido (1954), piano … azul (1954), piano … tranquilo (1960), piano … triste (1960), piano … mágico (1960), piano …sem rumo (1970), piano … estranho (1970), piano … enamorado (1973), piano …dançantes (1974),  piano … guerreiro (1974), piano Coqueterie (1951), piano Vela, vela, velador (1952), piano Você disse… (1952), piano Canção de Natal (1952), piano Bate-bate (1952), piano Morena, vamos serenar (1953), piano Musete (1953), piano Dorme filhinha (1953), piano Valsa n.º 3 (1953), piano Cavalinho de piche (1955),- piano Lenda cabocla (1956), piano Ciranda (1956), piano Meninas pulando corda (1960), piano Valsa da primavera (1960), piano Caiapó (1960), piano Cenas no circo (1963), piano Palhaços Dançarinas Trapezistas Bonecos mágicos Contemplação (1963), piano Pobre cego (1963), violão Suíte: Marcha - Angústia - Solidão - Pola - Alegro brilhante (1968), piano Tema - 11 variações (1968), piano Dolor (1974), piano Sonata n.º,  piano Diário do viandante (1975), harpa Misterioso De longe uma voz… Ansiedade Mastinal festivo Cantares (1975),  cravo

Duo

Suíte brasileira (1948), violoncelo e piano Introdução Saltitante Toada Dança Canção do boiadeiro (1948), violino e piano Meninas brincam de cirandinha (1950), violino e piano Embalo (1955), violino e piano Capricho (1955), violino e piano Ninho de abelhas (1955), violino e piano Valsa (1964), flauta e piano Recitativo (1969), violoncelo e piano Devaneio (1969), violoncelo e piano Suíte (1971), violoncelo e piano Mensagem Presença Vertigem Cantiga de ninar (1972), flauta doce e piano Toada chorosa Cantiga de ninar (1972), flauta doce e piano Duas bucólicas (1975), clarineta e piano Duas peças (1976), oboé e piano Distâncias Encontro

Trio

Trio n.º 1 (1950), violino, violoncelo, piano Trio n.º 2 (1971), flauta, violoncelo, piano

Quarteto

Quarteto n.º 1 (1962), violinos I, II, viola, violoncelo Profundo Nostálgico Impetuoso Quarteto nº. 2 (Mitos e Palmares) (1973/74), violinos I,II, viola, violoncelo Entrada: enérgico Misterioso (calmo) Allegro Brilhante

Orquestra de cordas