Inácio Elói de Madureira (? — Desterro, ) foi um militar e administrador colonial português. Foi governador da vila de Santos e o primeiro titular da Capitania do Rio Grande de São Pedro recém-criada, ocupando o cargo de 1760 a 1763, sendo o quinto governante dos territórios portugueses no Continente de São Pedro, hoje o estado brasileiro do Rio Grande do Sul.
Carreira
Em fevereiro de 1752 era coronel de Infantaria do regimento de Elvas,Coleção Digital Pombalia - Pombal Global. "Aviso de Carvalho e Melo para Manuel Freire de Andrade mandar abonar tempo e soldo ao coronel Inácio Elói de Madureira, do regimento da guarnição de Elvas". Universidade de Coimbra quando foi nomeado governador da vila de Santos, no Brasil,"Requerimento de Inácio Elói de Madureira". Arquivo Público do Estrado de São Paulo, 5 de fevereiro de 1752 com jurisdição sobre as comarcas de São Paulo e Paranaguá. Partiu de Lisboa em 9 de abril na fragata Nossa Senhora do Livramento e chegou ao Rio de Janeiro em 19 de junho. Em 23 de agosto proibiu que fosse usado o Caminho Velho do Lopo, que conduzia às Minas Gerais, percorrido por contrabandistas de ouro para evitar o pagamento dos impostos.Registo geral da Camara da cidade de São Paulo: 1750/1763, volume X. Typographia Piratininga, 1920, pp. 126; 205-206
Em janeiro de 1753 foi requisitado pelo governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, para auxiliá-lo nos trabalhos de demarcação territorial decorrentes do Tratado de Madri de 1750, que definiu os limites entre as posses de Portugal e Espanha na América, sendo incumbido de cuidar dos trâmites legais da matéria. Foi formado um corpo de soldados para incorporar a expedição demarcatória no Continente de São Pedro (hoje o Rio Grande do Sul), mas os moradores da comarca de Santos ficaram receosos que o recrutamento fosse forçado. Assim, Madureira publicou um édito prometendo que os moradores podiam "estar certos e sem o menor susto, que no tempo do meu governo os não obrigarei a serem soldados, salvo se houver ocasião de guerra".Funchal, William de Andrade. Governo local em uma capitania sem governador (São Paulo, 1748-1765). Universidade Estadual Paulista, 2016, p. 49
Em 14 de outubro de 1753 escreveu ao rei informando que havia iniciado uma coleta de fundos para a criação de um hospital militar, e pedindo que ele amparasse a iniciativa com materiais e a nomeação de um médico. Em 26 de março de 1754 recebeu do rei ordem de recolher todas as leis, regimentos e alvarás que foram expedidos pela Coroa para a praça de Santos, enviando uma cópia para Lisboa, a fim de integrar a compilação geral da legislação do Reino que estava sendo empreendida. Em 1755 transferiu a farmácia dos militares para a farmácia dos jesuítas e no mesmo ano suspendeu a lavra de diamantes do Tibagi, no distrito de Curitiba. Em 3 de julho de 1756 comunicou ao provedor da Fazenda o cumprimento da ordem de dobrar o soldo das tropas da Guarda de Tibagi. Deixou a governadoria de Santos antes de novembro de 1757.Documentos Historicos, vol. II. Archivo Nacional, 1925, pp. 160; 182-184; 230; 244 Em 1757 fez parte das expedições ao sertão do Tibagi, relatando não ter encontrado pedras preciosas.Gama, Mariana Pereira. Poder e conhecimento : a trajetória governativa de José Custódio de Sá e Faria no Rio Grande de São Pedro (1764-1769). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2023, p. 51
Em 8 de dezembro de 1759 Freire de Andrade escreveu ao primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho solicitando permissão para substituir o governador da Comandância Militar do Rio Grande de São Pedro, Pascoal de Azevedo, e sugerindo em seu lugar Tomás Luís Osório, mas o vice-rei, Marcos José de Noronha e Brito, desconfiava de Osório e a ideia não foi aprovada. Então Freire de Andrade sugeriu Madureira, pois ele "fizera o Governo de Santos com acerto e grande atenção às minhas ordens, e as executou na expedição da Partida, que de São Paulo lhe mandei pusesse em marcha ao descobrimento do Salto Grande, com grande atividade e juízo a executou, e certo fez um grande giro, e gasto, para o que não teve ajuda de custo, por ser a diligência no distrito de seu Governo".Gama, pp. 40-41
A sugestão foi aprovada, em 13 de agosto de 1760 a Comandância Militar foi transformada na Capitania do Rio Grande de São Pedro, continuando subordinada ao Rio de Janeiro, e em 19 de agosto Madureira foi nomeado governador por um período de 3 anos,Osório, Helen; Berwanger, Ana Regina; Souza, Susana Bleil de. "Avulsos - Rio Grande do Sul (1732-1800)". In: Catálogo de documentos manuscritos avulsos referentes à Capitania do Rio Grande do Sul existentes no Arquivo Histórico Ultramarino. Fundação Biblioteca Nacional, 2023, §137 confirmado por carta-patente de 9 de setembro e promovido a brigadeiro.Serqueira, Thomás José Pinto de. Relatorio apresentado ao Illm. e Exm. Sr. Conselheiro José Fernandes da Costa Pereira Junior. Typographia Nacional, 1874, p. 167 Prestou juramento de fidelidade e bons serviços ao governador do Rio de Janeiro em 8 de dezembro,Livro dos termos, homenagens e assentos. Archivo Publico Nacional, 1907, pp. 85-86 e tomou posse em 17 de janeiro de 1761.Mendes, Jeferson dos Santos. Capitulações Portuguesas na América Meridional, 1762-1777: Histórias, Julgamentos e Punições das Autoridades Coloniais. Universidade de Lisboa, 2019, pp. 35-36 Assim que tomou posse, começou a reorganizar as finanças da Capitania e entrou em conflito com devedores e com o provedor da Real Fazenda, Manuel Barba Rica, que se recusava a cumprir suas ordens e já havia tido enfrentamentos com Azevedo, que o acusou de má administração e desonestidade.Arpini, Paula Andrea Dombkowitsch. Retratos da Provedoria: Os agentes fazendários do Rio Grande de São Pedro (1748-1802). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015, pp. 116-117; 131
O Tratado de Madri foi anulado em 1761, e as relações entre Portugal e Espanha se deterioravam de novo, desencadeando a Guerra Fantástica. Em 16 de janeiro de 1763, prevendo uma invasão do Rio Grande, o governo do Rio de Janeiro enviou ordens a Madureira para que, em caso de superioridade do inimigo, e assim que os espanhóis chegassem à Guarda do Chuí, o governador deveria evacuar e proteger a população da vila de Rio Grande, transferir todos os bens, armas, munições e apetrechos que houvesse na vila e no quartel para o outro lado do canal, fortificar a margem do canal, e cerrar fileiras na Guarda Norte, a quatro léguas ao norte, onde deveria ser feita a resistência. Também deveria demolir o Forte Jesus, Maria e José, para que não fosse dito que os inimigos haviam conquistado uma fortaleza. Outras instruções foram dadas ao comandante do Forte de Santa Teresa no Chuí, Tomás Luís Osório. Caso fosse possível defendê-lo, deveria cuidar de não ser cercado e manter livres rotas de fuga pelo Taim ou por São Miguel. A maior parte dessas providências parece não ter sido executada.Valdez, Luísa Caiaffo. O Rio Grande de São Pedro espanhol (c.1763 - c.1776) : viver e governar uma povoação de fronteira no sul da América. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2023, pp. 71-76Mendes, pp. 66-67
Em 8 de março de 1763 Madureira enviou carta ao secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, informando sobre os planos de Pedro de Cevallos para invadir o Rio Grande e Santa Catarina e sobre a construção de fortificações que havia iniciado para barrar a passagem dos espanhóis, mas estava sem dinheiro para pagar as tropas e necessitava de mais armamentos e soldados.Osório, Berwanger & Souza, §143 Ao mesmo tempo, jurou "pela minha honra [...] que sou português, e que me hei de defender em quanto me for possível, dando mil vidas se as tivera pelo meu rei e pelo meu general a quem devo tanto".Mendes, p. 68 Fez instalar defesas na área de Jaguarão, que dariam origem á atual cidade.Silva, Domingos de Araújo e. Diccionario historico e geographico da provincia de S. Pedro do Rio Grande do Sul. Laemmert, 1863, p. 56
As defesas do Chuí caíram entre 18 e 19 de abril, os espanhóis se aproximavam de Rio Grande, e no dia 20 Madureira reuniu o provedor, o tesoureiro, o escrivão da Câmara e os homens bons, comunicando as más notícias. Com a chegada dos primeiros fugitivos do Chuí, o pânico se instalou.Mendes, p. 74 Os dias seguintes foram de caos e desespero. Segundo Henrique Wiederspahn, "a população da vila e das circunvizinhanças, inclusive alguns dos casais açorianos do Povo Novo e da ilha de Martins, correram para as praias, à procura de embarcações. Começou o saque do comércio e das casas abandonadas e até das igrejas, no afã de nada deixar para os invasores. Muitas das canoas, superlotadas, inutilizaram-se, e outras encalharam nos baixios no canal, sendo os seus ocupantes aprisionados pelas vanguardas hispânicas".Wiederspahn, Henrique Oscar. A colonização açoriana no Rio Grande do Sul. EST / Instituto Cultural Português, 1979, p. 86 Segundo Alves & Torres, os militares também participaram dos saques, aumentando "o ambiente de pânico, roubando, depredando e atentando contra integridade física e moral dos habitantes, não parando nem mesmo diante das autoridades civis, militares e religiosas", cometendo "todo o tipo de desatino, contribuindo decisivamente para o caos cada vez mais predominante".Alves, Francisco das Neves & Torres, Luiz Henrique. Textos do século XVIII para o estudo da ocupação lusitana no Brasil Meridional. Universidade de Lisboa / Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes / Biblioteca Rio-Grandense, 2016, pp. 68-69 No dia 22 o capataz Domingos de Morais Navarro chegou à vila com 3 mil cavalos e 122 homens, o que aumentou a confusão.Mendes, p. 74 Madureira então se retirou para a Guarda Norte, e dali rumou para Viamão, onde estabeleceu a sede do governo, deixando Rio Grande com um destacamento de apenas cerca de 200 soldados e 20 oficiais para sua defesa. No dia 23 de abril todas as casas da vila já haviam sido destruídas.
Em 24 de abril, quase sem oposição, Cevallos invadiu a vila com mais de dois mil soldados e terminou de saquear o local. Grande quantidade de armamentos e munições havia sido deixada para trás, além de milhares de cabeças de gado e mais de 4 mil cavalos dos dragões. Mais de 500 famílias haviam conseguido fugir, carregando consigo, em grande desordem, o que puderam, mas outros que ficaram foram aprisionados e transportados para Maldonado. A população fugitiva acabou dispersa por vários locais, principalmente Viamão.Mendes, p. 76 O governador de Laguna relatou o estado daqueles que ali buscaram refúgio: "miserandos, que consternados de terror, de enfermidade e de fome, padecidas pelas desertas praias, ali chegavam esqueletos, havendo muitos morrido pelos caminhos".Rosa, Letícia Vieira Braga da. Dos Açores às terras dos confins e ao território de ninguém: percurso migratório e redes de relacionamento das famílias açorianas nas origens do Espírito Santo do Serrito no Jaguarão. Ed. da Feevale, 2025, p. 208 thumb|Soldado do Regimento de Dragões de Rio Grande