thumb|upright=1.3|Morte na fogueira de três "bruxas" em Baden, na Suíça (1585), por Johann Jakob Wick A caça às bruxas é um movimento de perseguição religiosa, política e social cujo período clássico foi iniciado no século XV, atingindo seu apogeu nos séculos XVI a XVIII, principalmente na Alemanha, Escandinávia, Inglaterra, Escócia, Suíça e, em menor escala, na Polônia, Rússia, Finlândia, Islândia, Irlanda, França, Portugal, Itália, Áustria e Império Espanhol, e resultando em cerca de trinta e cinco mil a cinquenta mil execuções. O livro mais expressivo sobre o assunto é o "Martelo das Feiticeiras" (do latim: Malleus Maleficarum) de 1487.
Atualmente, o termo “caça às bruxas” se refere a qualquer investigação geralmente conduzida com muita publicidade, supostamente com o objetivo de revelar atividade subversiva, deslealdade ou corrupção, mas que busca enfraquecer a oposição política.
Em algumas regiões da África subsariana, no norte da Índia, no Nepal e na Papua Nova Guiné, foram noticiadas caçadas às bruxas contemporâneas, e legislação oficial contra a bruxaria ainda hoje se encontra na Arábia Saudita e nos Camarões.
Relação da sociedade com a bruxaria ao longo da História Antiguidade (4000 a.C.–476 d.C.) O castigo contra feiticeiros maléficos já existia em muitas sociedades antigas, leis antifeitiçaria apareciam nos primeiros códigos legais preservados. Tanto no Egito como na Babilônia, desempenhou um papel conspícuo. O Código de Hamurabi, de cerca do ano 1772 a.C., prescreve que: "Se um homem lançou um feitiço sobre outro homem e este ainda não foi justificado, aquele sobre quem o feitiço foi lançado deverá ir ao rio sagrado; ele deverá mergulhar no rio sagrado. Se o rio sagrado o vencer e ele se afogar, o homem que lançou o feitiço tomará posse de sua casa. Se o rio sagrado o declarar inocente e ele permanecer ileso, o homem que lançou o feitiço será condenado à morte. Aquele que mergulhou no rio tomará posse da casa de quem lançou o feitiço sobre ele." A Bíblia hebraica condenava a feitiçaria. Deuteronômio 18:10-12 declara "Não permitam que se ache alguém no meio de vocês que queime em sacrifício o seu filho ou a sua filha; que pratique adivinhação, ou se dedique à magia, ou faça presságios, ou pratique feitiçaria, ou faça encantamentos; que seja médium, consulte os espíritos ou consulte os mortos.O Senhor tem repugnância por quem pratica essas coisas, e é por causa dessas abominações que o Senhor, o vosso Deus, vai expulsar aquelas nações da presença de vocês. E Êxodo 22:18 prescreve "A Feiticeira não deixarás viver"; episódios como o do Primeiro Livro de Samuel 28, relatam como Saul tinha expulsado do país os médiuns e os espíritas.
Em 451 a.C., as Doze Tábuas do direito romano tinham provisões contra encantamentos e feitiços mal intencionados que podiam danificar culturas de cereais. Em 331 a.C., 170 pessoas teriam sido executadas por possível bruxaria após uma doença epidêmica desconhecida ter atingido a Itália Central, embora todo o episódio seja posto em dúvida.
Em 186 a.C., o senado romano emitiu um decreto restringindo severamente as celebrações a Dioniso, deus do vinho. Magia, adivinhação, e cultos estrangeiros foram associados a traição, e alegadamente cinco mil pessoas executadas por usarem feitiçaria. Posteriormente, o Estado romano expulsou e executou periodicamente astrólogos e feiticeiros, e vários dos primeiros imperadores proibiram práticas divinatórias que poderiam alimentar conspirações contra si.
Em 81 a.C., o cônsul romano Sula promulgou a lei Lex Cornelia de sicariis et veneficis, que proibia o comércio e posse de drogas nocivas, venenos, livros mágicos e outras parafernálias ocultistas. Estrabão, Caio Cílnio Mecenas, Dião Cássio e muitos outros confirmaram a tradicional oposição dos antigos contra a bruxaria e adivinhação.The Life of Augustus, by Suetonius Nessa mesma época, um clérigo israelita chamado Semeon ben Shetach condenou à morte 80 mulheres que haviam sido acusadas de bruxaria em um único dia na cidade de Ascalão. Mais tarde, os parentes das mulheres se vingaram trazendo falsas testemunhas contra o filho de Semeão, fazendo com que ele fosse executado. Nesse tempo, esse tipo de situação já ocorria.
O historiador Suetônio refere que o Imperador Augusto mandou queimar publicamente mais de 2 mil livros de bruxaria, escritos em latim e grego, que confiscou em Roma no ano 31 a.C.Suetônio, Vita Augusti, XXXI. O imperador Constantino, decretou entre 317–319 leis de combate à bruxaria, lei que depois foi incorporada no código do imperador Teodósio: "Esses homens que praticam a magia e dos quais se tenha demonstrado que conspiraram contra a segurança dos indivíduos, ou que transformaram em seres lúbricos espíritos até então virtuosos, serão castigados e corrigidos como merecem pelas mais severas leis".Teodósio, Codex Theodosiamus, 9,16,3. Em 354 da era cristã, enquanto Tiberius Claudius era imperador, 45 homens e 85 mulheres, todos suspeitos de feitiçaria, foram executados.
A caça às bruxas continuou até o final do século IV (301–400), quando o católicismo se tornou religião oficial do Império Romano na década de 390. O desejo da Igreja Católica de inibir a caçada de bruxas aparece nos concílios de Elvira (306) e Ancira (314), que impuseram certas penitências eclesiásticas suaves.
Idade Média arcaica (476–800) Esse ceticismo ficou explicito nos decretos de Trullo em 692 e Paderborn em 785 que proibia as pessoas de dedurar bruxas e condenou à morte aqueles que pensavam em queimar bruxas. O código Lombardo de 643 dizia: "Que ninguém pretenda matar alguém ou uma estrangeira como bruxa, pois não é possivel, nem deve ser acreditado por mentes cristãs" O Concílio de Frankfurt em 794, convocado por Carlos Magno, também foi muito explícito ao condenar a perseguição de supostas bruxas, chamando a crença na bruxaria "supersticiosa" e ordenando a pena de morte para aqueles que presumiam queimar bruxas. Outros exemplos incluem um sínodo irlandês em 800, e um sermão de Agobard de Lyon (810).
Alta Idade Média (800–1200) thumb|De Lamiis et Pythonicis Mulieribus, de Ulrich Molitor, foi publicado em 1489. A posição de Molitor é a mesma da antiga lei católica, o Canon Episcopi (de 906), que considerava a feitiçaria uma ilusão.
Durante a Alta Idade Média, o ceticismo em relação às bruxas aumentou. No ano 906, século X (901–1000), uma lei canônica da Igreja, o Canon Episcopi, afirmava que é heresia acreditar em bruxas e bruxarias e que essa crença popular era comportamento pagão.
O rei Kálmán (Colomano) da Hungria, no Decreto 57 de seu Primeiro Livro Legislativo (publicado em 1100), proibiu a caça às bruxas e disse: "as bruxas não existem". "A decree of King Coloman of Hungary (c. 1074–116, r. 1095–1116) against the belief in the existence of strigae (De strigis vero que non sunt, ne ulla questio fiat) suggests that they were thought to be human beings with demonic affiliation: witches.", Behringer, "Witches and Witch-hunts: a Global History", p. 32 (2004). Wiley-Blackwell.
O "Decretum" de Burcardo, Bispo de Worms (1020), especialmente o seu 19.º livro, é outro trabalho de grande importância. Burchard estava escrevendo contra a crença em poções mágicas, como por exemplo, que podia provocar impotência ou aborto. Este também foi condenado por vários Padres da Igreja. Mas ele rejeitou também a possibilidade de muitos outros poderes alegados das bruxas. Tais, por exemplo, voar com uma vassoura mágica nas noites de sábado, mudar a disposição de uma pessoa do amor para o ódio em relação a outra pessoa, o controle do trovão, da chuva e do sol, a transformação de pessoas em animais, a relação sexual de íncubos e súcubus com seres humanos e entre outros. Não só a tentativa de praticar tais coisas, mas a própria crença em sua possibilidade, é tratada por Burcardo como falsa e supersticiosa.
O papa Gregório VII, em 1080, escreveu ao rei Haroldo III da Dinamarca, proibindo que as bruxas fossem mortas por presunção de terem causado tempestades, fracassos de colheitas ou pestilências. Em muitas ocasiões, os eclesiásticos usaram a sua autoridade para desenganar o povo da sua crença supersticiosa na bruxaria.
A partir de então, mulheres que praticavam curandeirismo e benzedorismo passaram a ser uma das figuras mais respeitadas na sociedade Medieval, principalmente nas áreas rurais, chamadas de “mulheres sábias” em todo o continente europeu. Eram geralmente viúvas ou solteiras, com enorme conhecimento de ervas medicinais. Embora fossem pessoas miseráveis, tinham grande prestígio social, pois serviam como faz-tudo: parteiras, adivinhas, terapeutas, enfermeiras, médicas e entre outros.
Por outro lado, pessoas que praticavam magia negra, goética, enoquiana e outros, também aproveitaram essa época dourada e tolerante para as praticas mágicas e ocultismo. Fazendo valer seus caprichos, amaldiçoando inimigos e enfeitiçando amantes.
Baixa Idade Média (1200–1500) thumb|Os períodos de fome e peste do século XIV disseminaram a ideia de que pessoas conspiravam contra os reinos cristãos.As atitudes de relativa tolerância da Igreja foram-se modificando gradualmente durante os séculos XII e XIII. Já Tomás de Aquino, na Summa Theologiae, argumentava que os demónios poderiam assumir uma forma física, e ter relações sexuais com humanos. Segundo Aquino, os demónios femininos recolhiam o sémen dos humanos e mais tarde, já como íncubos, poderiam fecundar as mulheres com ele.
Em 1230, a Inquisição Episcopal (1184–1230) é substituída pela Inquisição Papal. Eram tribunais eclesiásticos para identificar hereges, oficializados em 1233. Nesta data, o Papa Gregório IX publica a primeira bula da história contra a feitiçaria, Vox in Rama, que afirma como real a presença do Diabo em cerimónias secretas, onde podia assumir a forma de diversos animais, entre eles um gato preto a que os "devotos" beijavam o ânus, e encomenda pela primeira vez os dominicanos como inquisidores em Regensburg.
A Igreja Católica acusava frequentemente as heresias ou rebeliões nascentes de adoração de demónios e rituais mágicos. No episódio pouco conhecido da Cruzada de Stedinger, em 1233, que foi uma revolta camponesa contra impostos e apropriação de terras foi esmagada com milhares de mortes; os revoltosos foram acusados de realizar orgias e venerar demónios. Também os Cátaros, massacrados na Cruzada Albigense, (1209–1244), foram acusados pelos ortodoxos de profanação da cruz e dos sacramentos, canibalismo, convenções secretas durante a noite, renúncia formal a Cristo, e orgias sexuais.
Em 1307, a Igreja acusou de heresia a Ordem dos Templários. Entre as acusações estavam heresia, bruxaria, adoração do diabo, e homossexualismo, "provadas" por meio de torturas severas.
Na França, em 1317, o bispo Hugues Géraud foi executado por usar a feitiçaria na tentativa de matar o papa João XXII. Em 1326 (ou 1327), esse mesmo papa emitiu a bula Super Illius Specula, a partir da qual a bruxaria passou ao rol de heresia já que, de acordo com as teorias correntes, implicava pactos demoníacos e infidelidade à fé cristã.
Em 1324 o bispo de Ossory (Irlanda) Richard de Ledrede acusou Alice Kyteler, e várias pessoas associadas, de heresia e feitiçaria. Sob tortura, a serva de Alice, Petronilla de Meath, que seria queimada na fogueira alguns meses depois, confirmou que A. Kyteler mantinha relações sexuais com um demónio, um incubus.
No ano de 1329, em Carcassonne, Peter Recordi, um monge carmelita, foi condenado pela Inquisição por ter feito imagens com cera, sangue de sapos, e saliva, consagrando-as ao Diabo e escondendo-as nas casas de mulheres com quem pretendia ter relações sexuais. Seria também acusado de ter chamado Satanás em pessoa e sacrificar-lhe... uma borboleta.