O tordo-comum, tordo-músico ou tordo-pinto (nome científico: Turdus philomelos) é uma ave pertencente ao género Turdus. Ocorre naturalmente na Europa, Norte de África, Médio Oriente e Sibéria,, Peter; , Ren; e foi introduzida na Austrália e Nova Zelândia durante a segunda metade do século XIX. Dependendo da latitude, pode ser residente, migratória ou parcialmente migratória, possuindo três subespécies geralmente aceitas.

O tordo-comum é omnívoro, consumindo uma grande variedade de invertebrados, bagas e drupas, tendo o hábito de usar uma pedra como uma bigorna para partir a casca dos caracóis. Ambos os sexos possuem a parte superior da cabeça e do corpo castanha, contrastando com a parte inferior do corpo de cor creme ou couro com malhas negras. Os machos possuem um vasto repertório de vocalizações, que incluem distintivas frases musicais repetidas. Esta espécie nidifica em florestas, jardins e parques, construindo ninhos em forma de taça com ervas e lama em árvores e arbustos.

Apesar de se encontrar em declínio na Europa, possui uma grande área de distribuição geográfica e uma grande população global, pelo que não se considera que se encontre globalmente ameaçada. Existem numerosas referências literárias e culturais ao tordo-comum, frequentemente relacionadas com o canto melodioso dos machos.

Taxonomia esquerda|thumb|upright=1.25|Adulto de T. p. philomelos, Mannheim, Alemanha. O tordo-comum foi descrito em 1831 pelo ornitólogo alemão Christian Ludwig Brehm como Turdus philomelos. O nome genérico, Turdus, é uma palavra em latim, que significa 'tordo', enquanto o nome específico, philomelos, se refere ao mito de Filomela, a princesa ateniense que foi transformada num rouxinol, cujo nome deriva do grego antigo Φιλο (philo-), que significa 'amante', e μέλος (melos), que significa 'canção'.

O tordo-comum tem três subespécies aceites: a subespécie nominal T. p. philomelos, descrita pela primeira vez por Brehm em 1831, que está presente na maioria da área de distribuição geográfica da espécie na Eurásia; a T. p. hebridensis, descrita pelo ornitólogo britânico William Eagle Clarke em 1913, uma subespécie essencialmente residente encontrada nas Hébridas Exteriores e na ilha de Skye, na Escócia; e a T. p. clarkei, descrita pelo zoólogo alemão Ernst Hartert em 1909 e batizada em honra de William Eagle Clarke, uma subespécie parcialmente migratória que se reproduz no resto da Grã-Bretanha, na Irlanda, na França, na Bélgica e nos Países Baixos, e inverna no sul da França e na Península Ibérica, e foi introduzida na Austrália e na Nova Zelândia. Esta última hibridiza com a subespécie nominal na Europa Central e com a T. p. hebridensis nas Hébridas Interiores e na Escócia ocidental, e nessas áreas as aves apresentam características intermédias. Foram descritas outras subespécies, como a T. p. nataliae da Sibéria pelo ornitólogo russo Sergei Buturlin em 1929, mas não são amplamente aceites.

Um estudo molecular recente indica que os parentes mais próximos do tordo-comum são a tordoveia (Turdus viscivorus) e o Turdus mupinensis. Estas três espécies divergiram da linhagem das aves do género Turdus antes destas se terem diversificado e espalhado pelo mundo, e como tal são parentes mais afastados de outras espécies europeias do género Turdus como o melro-preto (Turdus merula).

Características esquerda|thumb|upright=1.14|Macho adulto cantando, Países Baixos. A subespécie nominal T. p. philomelos tem 20– de comprimento, uma envergadura de 33- e um peso de 50-. Ambos os sexos são similares, com a parte superior da cabeça e do corpo castanha, contrastando com a parte inferior do corpo de cor creme ou couro com malhas negras, mais pálida na barriga. A parte inferior das asas é amarela, o bico é amarelado e as patas são cor-de-rosa. O tom das partes inferiores vai ficando progressivamente mais pálido de ocidente para oriente ao longo da sua área de reprodução, da Suécia à Sibéria. Os juvenis são semelhantes aos adultos, mas possuem listas cor-de-laranja ou couro nas costas e coberteiras nas asas. A subespécie T. p. hebridensis é a mais escura das subespécies, com a parte superior do corpo castanha-escura, uropígio acinzentado, partes inferiores cor de couro com malhas negras e flancos acinzentados. A subespécie T. p. clarkei exibe um tom de castanho mais vivo que a subespécie nominal na parte superior do corpo, uropígio tingido de verde-azeitona e partes inferiores amarelas com malhas negras.

Na Europa, a espécie de tordo mais similar ao tordo-comum é o tordo-ruivo (Turdus iliacus), mas essa espécie possui uma lista supraciliar branca, flancos vermelhos e a parte inferior das asas vermelha, enquanto a tordoveia (Turdus viscivorus) é bastante maior e possui os cantos da cauda brancos. Já o Turdus mupinensis da Ásia, embora muito similar em termos de plumagem, tem marcas negras na cara e vive fora da sua área de distribuição geográfica.

O tordo-comum possui várias vocalizações, incluindo um curto e agudo tsip, substituído durante a migração por um ténue e alto seep, semelhante ao chamado do tordo-ruivo mas mais curto, e um chook-chook de alarme, que se torna progressivamente mais curto e estridente com o aumento do perigo. O canto do macho consiste numa sonora sequência de frases musicais repetidas duas a quatro vezes, filip filip filip codidio codidio quitquiquit tittit tittit tereret tereret tereret, intercalada com notas dissonantes e imitações de vocalizações de outras espécies de aves. É dado a partir de árvores, telhados ou outros poleiros elevados, a qualquer hora do dia, normalmente entre fevereiro e junho para a subespécie T. p. hebridensis, e entre novembro e julho para as restantes subespécies. Cada macho pode ter um repertório de mais de 100 frases, muitas das quais copiadas dos seus progenitores e de aves vizinhas. As suas imitações podem incluir o som de objetos feitos pelo homem como telefones, e vocalizações de aves exóticas em cativeiro, como a marreca-piadeira (Dendrocygna viduata). Relativamente ao seu peso, o tordo-comum possui das vocalizações mais barulhentas de entre as aves.

Habitat e migração Habitat thumb|upright=1.36|Adulto, Alemanha. Tipicamente, o tordo-comum nidifica em florestas com bastante vegetação rasteira e zonas abertas próximas, e na Europa Ocidental usa também jardins e parques. Reproduz-se até à linha das árvores, podendo ser encontrado até aos na Suíça. A subespécie T. p. hebridensis nidifica em terreno mais aberto, incluindo charnecas, e a subespécie nominal está restrita ao limite das densas florestas de coníferas a oriente da sua área de distribuição geográfica. Em áreas intensamente cultivadas onde as práticas agrícolas parecem ter tornado o terreno inadequado para o efeito, os jardins são um importante local de nidificação. Em um estudo inglês, apenas dos ninhos foram encontrados em terrenos agrícolas enquanto foram encontrados em jardins, apesar destes últimos corresponderem a apenas da área total. Os restantes dos ninhos foram encontrados em zonas florestais (correspondentes a da área total).

O habitat de inverno é similar ao usado para a nidificação, embora as terras altas e outros locais expostos sejam evitados; no entanto, a subespécie T. p. hebridensis frequenta a costa durante o inverno.

Migração thumb|esquerda|upright=1.02|Um adulto em voo, Kent, Inglaterra. O tordo-comum nidifica desde a Europa Ocidental (exceto na maioria da Península Ibérica e no sul da Itália e da Grécia) até à Sibéria, quase até ao lago Baikal, atingindo a latitude 75º N na Noruega mas apenas 60° N na Sibéria, e foi introduzido na Austrália e Nova Zelândia. As aves da Escandinávia, Europa Oriental e Rússia invernam mais a sul, ao redor do Mediterrâneo, no Norte de África e no Médio Oriente, mas apenas algumas das aves da zona mais temperada a ocidente da zona de distribuição geográfica abandonam as suas zonas de nidificação. Ao contrário dos mais nómadas tordo-zornal (Turdus pilaris) e tordo-ruivo (Turdus iliacus), o tordo-comum tende a regressar regularmente aos mesmos locais para invernar.

Normalmente esta espécie não é gregária, mas várias aves podem repousar em conjunto durante o inverno ou associar-se livremente em grupos dispersos em locais de alimentação apropriados, por vezes com outros turdídeos como o melro-preto (Turdus merula), o tordo-zornal (Turdus pilaris), o tordo-ruivo (Turdus iliacus) e o Turdus ruficollis.

Durante a migração viaja sobretudo de noite e em bandos soltos, com um voo forte e direto, emitindo frequentemente chamados para manter o contacto. O tordo-comum é uma ave migratória que se movimenta numa frente larga, o que significa que as rotas de migração das aves não afunilam nas zonas de travessia mais curta do mar, como os estreitos de Gibraltar e do Bósforo, mas cruzam todo o Mediterrâneo. A migração pode começar a partir de agosto nas zonas mais setentrionais e orientais da sua zona de nidificação, mas a maioria das aves, com distâncias menores a percorrer, ruma a sul entre setembro e meados de dezembro. No entanto, condições atmosféricas adversas podem forçar movimentações adicionais. O regresso às zonas de nidificação varia entre meados de fevereiro (ao redor do Mediterrâneo) e maio (norte da Suécia e Sibéria central).

Como seria de esperar para uma espécie migratória tão amplamente distribuída, já foi observada fora da sua área de distribuição habitual na Eurásia, como na Gronelândia, em várias ilhas atlânticas e na África Ocidental.

Comportamento Alimentação thumb|upright=1.14|Partindo a casca de um caracol O tordo-comum é omnívoro, consumindo uma grande variedade de invertebrados, especialmente minhocas e caracóis, assim como bagas e drupas. Tal como o seu parente, o melro-preto (Turdus merula), caça principalmente com a visão, corre aos trancos e barrancos enquanto caça em terreno aberto, e revira folhas em decomposição de forma barulhenta e demonstrativa em busca de alimento. Os caracóis são particularmente importantes quando a seca ou condições atmosféricas adversas tornam outros tipos de alimento difíceis de encontrar. O tordo-comum usa frequentemente pedras como uma bigorna para partir a casca dos caracóis antes de extrair o seu corpo mole e invariavelmente esfregá-lo no chão antes do consumir. Aves jovens inicialmente agitam objetos e brincam com eles até aprenderem a usar pedras como instrumentos para partir a casca dos caracóis.

A espécie de caracol Cepaea nemoralis é regularmente consumida pelo tordo-comum, e foi sugerido que os padrões polimórficos da sua casca são uma resposta evolutiva para reduzir a predação por parte desta espécie; no entanto, o tordo-comum pode não ter sido a única força de seleção envolvida.

Tal como outros melros e tordos, esta espécie regurgita pequenas bolas contendo as sementes após a partes moles terem sido digeridas.

Reprodução thumb|esquerda|upright=1.25|Ninho com três ovos, Bretanha, França. O tordo-comum é uma espécie territorial monogâmica, e nas áreas em que é migratório os machos reestabelecem o seu território nos locais de nidificação logo que regressam. Em zonas mais temperadas algumas aves são residentes, com os machos a permanecer no seu território durante o inverno, cantando intermitentemente, enquanto as fêmeas podem estabelecer um território separado até à formação dos pares no início da primavera. A parada nupcial incluí o canto e algumas exibições de corte por parte do macho, que se aproxima da fêmea com a cauda aberta e achatada no chão, e a cabeça inclinada para trás com o bico aberto.