Liberdade! Liberdade! Abre as Asas sobre Nós foi o enredo apresentado pela Imperatriz Leopoldinense no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 1989. Com o desfile, a escola conquistou o seu terceiro título de campeã do carnaval carioca, quebrando o jejum de sete anos sem conquistas. O título anterior da escola foi conquistado no carnaval de 1981.
O grande sucesso do desfile foi o samba-enredo, composto por Niltinho Tristeza, Preto Jóia, Vicentinho e Jurandir, que é comumente listado entre os melhores da história do carnaval, sendo qualificado com adjetivos como "histórico", "inesquecível", "primoroso", "antológico" e "icônico". O samba recebeu o prêmio Estandarte de Ouro de 1989 e possui mais de vinte regravações com grandes nomes da música brasileira. Em 2007, foi eleito o melhor samba de todos os tempo através de uma votação popular realizada pelo programa Domingão do Faustão. Em 2012, foi tema de abertura da novela Lado a Lado.
O enredo do desfile, assinado pelo carnavalesco Max Lopes, celebrou os cem anos da Proclamação da República do Brasil, completados em 1989, abordando acontecimentos que culminaram no golpe que instaurou a República, como: o declínio do Império brasileiro; a Guerra do Paraguai; a chegada dos imigrantes; e a abolição da escravidão. Max Lopes abordou os acontecimentos seguindo a narrativa "oficial", diferente do desfile do ano anterior, quando o enredo da Imperatriz, assinado pelo carnavalesco Luiz Fernando Reis, questionou diversos fatos históricos, como a Lei Áurea e a Proclamação da República. Após o quase rebaixamento de 1988, o presidente da Imperatriz, Luizinho Drummond, promoveu uma série de mudanças na escola. Além de Max Lopes, o intérprete Dominguinhos do Estácio também retornou a Imperatriz após alguns anos afastado. O desfile teve ainda Chiquinho e Maria Helena como mestre-sala e porta-bandeira; e Wagner Tavares de Araújo estreando como diretor de carnaval.
A Imperatriz foi a segunda escola a se apresentar na segunda noite do Grupo 1, em 6 de fevereiro de 1989. Especialistas elogiaram o desfile, listando a Imperatriz entre as favoritas ao título de campeã, mas apontando vantagem para a Beija-Flor, que desfilou com o antológico "Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia". A Imperatriz somou a mesma pontuação final que a Beija-Flor, conquistando o título no critério de desempate após receber nota máxima de todos os julgadores, enquanto a escola de Nilópolis teve três notas abaixo da máxima.
Antecedentes esquerda|miniaturadaimagem|376x376px|Dominguinhos do Estácio retornou à Imperatriz para o carnaval de 1989. A Imperatriz Leopoldinense chegou ao carnaval de 1989 enfrentando um jejum de sete anos sem vitórias. O título anterior da agremiação foi conquistado no carnaval de 1981 com "O Teu Cabelo não Nega", uma homenagem a Lamartine Babo. Foi o segundo título da agremiação, que também havia vencido no ano anterior. A escola ainda conseguiu boas colocações em 1982 (terceiro lugar) e 1983 (quarto lugar). Em 1984, o patrono da escola, Luizinho Drummond, se afastou da agremiação. Com poucos recursos, a agremiação realizou um desfile mais simples do que nos anos anteriores, conquistando o quarto lugar entre as sete escolas que desfilaram na segunda-feira. Luizinho retornaria à Imperatriz na reta final dos preparativos para o carnaval de 1985, mas a escola continuou distante da disputa por título. Se classificou em oitavo lugar em 1985 e 1986; e em sexto lugar em 1987. Para o carnaval de 1988, a Imperatriz contratou o carnavalesco Luiz Fernando Reis, conhecido por seus enredos irônicos e bem humorados. Ele desenvolveu um enredo sobre piadas, questionando acontecimentos da História do Brasil, como o Descobrimento, a Independência, a abolição da escravidão e a Proclamação da República. Segundo a sinopse do enredo, assinada por Luiz Fernando, a libertação dos escravizados brasileiros foi "muito mais econômica que humanitária, atendendo interesses comerciais da Inglaterra e de outras nações (brancas) da Europa"; e na Proclamação da República, "Deodoro a fez porque, senão, seria atropelado pelos republicanos". No desfile, a escola teve diversos problemas. A chuva fraca foi suficiente para danificar as fantasias, a maioria com plumas. A fantasia da porta-bandeira Maria Helena se desmanchou durante o desfile. Pela primeira vez, desde quando começaram a dançar juntos, Maria Helena e seu filho, Chiquinho, não receberam a nota máxima de todos os jurados. Com muitos componentes, a escola evoluiu de forma lenta, ultrapassando em doze minutos o tempo limite de desfile, sendo penalizada em nove pontos. A escola se classificou na 14.ª e última colocação e seria rebaixada, mas a LIESA cancelou o descenso, responsabilizando-se pelo atraso da agremiação, causado pela queda de um fio de alta tensão durante a passagem da escola anterior, a União da Ilha.
Para o carnaval de 1989, Luizinho Drummond promoveu uma série de mudanças na Imperatriz. O número de componentes foi reduzido de 5.500 em 1988 para 3.900 em 1989. Os 406 diretores administrativos foram reduzidos para 83. A bateria deixou de ser liderada por apenas um diretor, passando a ser comandada por quatro mestres. A Comissão de Frente foi toda substituída. Foram criadas regras para os desfilantes como, por exemplo, não desfilar embriagado. Em outra determinação, os componentes que não soubessem cantar o samba nos ensaios, também seriam impedidos de desfilar. Além disso, Luizinho levou de volta à Imperatriz o intérprete Dominguinhos do Estácio e o carnavalesco Max Lopes. Dominguinhos foi intérprete da escola entre 1979 e 1982, participando dos títulos de 1980 e 1981. Max Lopes foi carnavalesco da agremiação em 1977, quando a escola foi rebaixada para a segunda divisão, e 1978, quando a escola venceu o Grupo 2, retornando à elite do carnaval. Wagner Tavares de Araújo assumiu a direção de carnaval da escola, cargo que ocuparia durante três décadas. Patrono e presidente da escola, Luizinho Drummond contribuiu com cerca de 380 mil NCz$.
O enredo miniaturadaimagem|377x377px|Max Lopes, carnavalesco e autor do enredo do desfile. "Liberdade! Liberdade! Abre as Asas sobre Nós" celebrou os cem anos da Proclamação da República do Brasil, completados em 1989. O título do enredo é um verso do Hino da Proclamação da República ("Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós! / Das lutas na tempestade / Dá que ouçamos tua voz!"). O enredo, assinado pelo carnavalesco Max Lopes, aborda, sem ordem cronológica, acontecimentos que culminaram no golpe que instaurou a forma republicana presidencialista de governo no Brasil. O enredo começa abordando o declínio do Império do Brasil, tendo como marco a realização do Baile da Ilha Fiscal, também conhecido como O Último Baile do Império, realizado em 9 de novembro de 1889, seis dias antes da Proclamação da República. A seguir, o enredo aborda a Guerra do Paraguai, conflito armado disputado entre Paraguai e a Tríplice Aliança, composta pelo Império do Brasil, Argentina e Uruguai, entre os anos de 1864 e 1870, cerca de vinte anos antes da Proclamação. Apesar da vitória do Brasil, o conflito causou um aumento ruinoso da dívida pública do país. A dívida de guerra, e a crise social desencadeada após o conflito, contribuíram para a queda do Império e a Proclamação da República. Em seguida, o enredo trata da imigração no Brasil. Com a proibição do tráfico negreiro e o declínio do sistema escravagista no fim do Império, a mão de obra escrava foi substituída por imigrantes. O enredo foca nos imigrantes italianos, que foram trabalhar nas fazendas de café da região sudeste do Brasil. A seguir, o enredo aborda a abolição da escravatura no Brasil, com a assinatura da Lei Áurea, pela Princesa Isabel, em 13 de maio de 1988, cerca de um ano e meio antes da Proclamação da República. O enredo é finalizado com a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889.
Com o lançamento do samba-enredo do desfile, Max Lopes foi questionado por setores progressistas e conservadores da sociedade. Representantes da cultura afro-brasileira demonstraram preocupação com a importância dada a Princesa Isabel (descrita no samba como "a heroína que assinou a lei divina") na abolição da escravatura; enquanto herdeiros da antiga monarquia brasileira se preocuparam com a forma com que seria retratada a queda do Império (descrito no samba como "decadente, muito rico, incoerente"). Max respondeu que apenas retrataria os fatos da história, sem fazer juízo de valor dos personagens e acontecimentos. Antes de ser contratado pela Imperatriz, Max Lopes ofereceu o tema a Portela, mas a escola menosprezou a proposta, reduzida a "enredo de bloco"."O enredo, no meu entender, tinha muito a ver com a Portela. Ofereci à escola porque a águia é o símbolo da liberdade. Mas o tema foi absolutamente bem recebido pela Imperatriz, que tem uma abordagem cultural muito forte, um de seus traços marcantes, e me deu ampla liberdade para trabalhar".
O samba-enredo O samba-enredo do desfile foi composto por Niltinho Tristeza, Preto Jóia, Vicentinho e Jurandir. O samba foi oficialmente lançado no álbum Sambas de Enredo das Escolas de Samba do Grupo 1A - Carnaval 89, com interpretação de Dominguinhos do Estácio. A Imperatriz realizou um concurso para a escolha do samba-enredo do desfile. O samba vencedor disputou a final do concurso contra outros dois sambas: um da parceria liderada por Zé Katimba e outro da parceria de Dominguinhos do Estácio. O samba favorito da comissão julgadora era o da parceria de Dominguinhos, que descrevia melhor o enredo. O samba vencedor tinha partes que não contemplavam o enredo. Isto porque a composição de Niltinho Tristeza estava pronta para ser um samba romântico, sobre o amor, e seria oferecida para Jorginho do Império gravar, quando o compositor decidiu adaptá-la para o samba-enredo. Diversas partes da letra foram alteradas pelos compositores, mantendo a melodia criada por Niltinho. O início "Vou me perder contigo, amor / Nos acordes da poesia" foi transformado em "Vem, vem, vem reviver comigo, amor / O centenário em poesia". Em outro trecho, "Meu despertar foi poesia / Trocando a noite pelo dia / Sonhei te amar / Foi bom amar / Sem fantasia" passou a ser "Pra Isabel, a heroína / Que assinou a lei divina / Negro dançou, comemorou / O fim da sina". E ainda, "Nessa noite de esplendor / Eu só quero brincar / E curtir o nosso amor" virou "A imigração floriu de cultura o Brasil / A música encanta e o povo canta assim". Parte da letra original foi mantida. É o caso dos versos "Surgem os tamborins, vem emoção / A bateria vem no pique da canção" e também "Vem viver o sonho que sonhei / Ao longe faz-se ouvir", que nada dizem sobre o enredo. O único trecho totalmente criado para o samba-enredo foi o refrão principal ("Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós / E que a voz da igualdade / Seja sempre a nossa voz"). Durante o concurso, o samba ganhou o apoio do carnavalesco Max Lopes, que conseguiu convencer o presidente da escola, Luizinho Drummond, a escolher a parceria de Niltinho, argumentando que a Imperatriz precisava de um samba com "apelo popular"."A Imperatriz vinha de um carnaval difícil. Em 1988, foi a última colocada. Para aquele ano, tínhamos um enredo histórico, pesado e um desfile pesado. Precisávamos de um samba leve, que contagiasse a avenida, para embalar. Eu gostei muito, porque tratava do enredo da escola, de modo descritivo, mas também de modo poético [...] Havia uma tendência na escola favorável ao samba de Dominguinhos do Estácio, que era mais descritivo. Mas eu gostei muito da forma como os autores vencedores falavam não só do enredo, como do próprio carnaval".
esquerda|miniaturadaimagem|280x280px|Em primeiro plano, Luizinho Drummond junto com os autores do samba-enredo.