A Questão Oriental (ou Questão do Oriente) pode ser definida como o conjunto de problemas políticos e diplomáticos causados pela decadência do Império Otomano e dos interesses das grandes potências em algumas de suas regiões.FROMKIN, 2005, p. 65. A expressão não se aplica a qualquer problema particular, mas inclui uma variedade de questões levantadas durante os séculos XVIII, XIX e XX, incluindo a instabilidade no território europeu governado pelo império dos sultões. A Questão gerou incertezas sobre o futuro do decadente Império Otomano (o "velho doente da Europa")LOHBAUER, 2005, p. 21. e os problemas internacionais gerados por sua desintegração, como as disputas entre as grandes potências europeias pelos territórios turcos no Oriente Médio, no Norte da África, nos Bálcãs e no Cáucaso.FROMKIN, 2005, p. 65.
A Questão é normalmente datada em 1774, quando a Guerra Russo-Turca de 1768-1774 terminou em derrota para os otomanos. A partir do momento em que a dissolução do Império Otomano passou a ser considerada iminente, as potências europeias passaram a se envolver em uma luta para salvaguardar o seu poder militar, estratégico e interesses comerciais nos domínios otomanos.FROMKIN, 2005, p. 65. A Rússia Imperial tentava beneficiar da queda otomana expandindo-se pelos Bálcãs e pelo Cáucaso e procurando ter acesso às "águas quentes" do Mediterrâneo;LOHBAUER, 2005, p. 19. por outro lado, a Áustria e o Reino Unido consideravam que a preservação do Império era do seu interesse,Embora tenha se expandido às custas do Império Otomano com a anexação da Bósnia e Herzegovina, a Áustria ainda era favorável à manutenção do status quo balcânico e do domínio otomano na região, pois apenas assim conseguiria barrar o poder crescente da Sérvia.FROMKIN, 2005, p. 66. para impedir a expansão russa e, no caso da Áustria, para impedir a sublevação dos eslavos do sul que viviam sob o seu domínio, enquanto a posição da França mudou várias vezes ao longo dos séculos. Por fim, a Alemanha tinha como objetivo controlar economicamente o Império Otomano e se expandir para a Ásia Ocidental, no âmbito da política Drang nach Osten.BURNS, 1981, p. 759. A Questão do Oriente foi encerrada logo após a Primeira Guerra Mundial, que resultou no colapso do Império Otomano.
Antecedentes thumb|400px|No auge do seu poder (1683), o Império Otomano controlava vastos territórios no Oriente Próximo e no Norte da África, bem como na Europa Central e nos Bálcãs
A Questão Oriental emergiu quando o poder do Império Otomano começou a diminuir durante o . Os otomanos estavam no auge do seu poder em 1683, quando então foram derrotados na batalha de Viena pela Áustria. A paz foi selada muito mais tarde (em 1699) com o Tratado de Karlowitz, que obrigou o Império Otomano ceder muitas de suas posses da Europa Central, incluindo a Hungria. Com a sua expansão para o oeste barrada, o Império Otomano nunca mais seria uma ameaça grave para a Áustria, que se tornou a potência dominante na Europa Central.
A Questão Oriental se desenvolveu verdadeiramente durante as Guerras russo-turcas do . A primeira das guerras, que começou em 1768, terminou em 1774 com o Tratado de Küçük-Kainarji. O tratado foi interpretado pelos russos como uma permissão para que agissem como protetores dos cristãos ortodoxos que viviam sob a soberania do sultão otomano, e estabeleceu a Rússia um grande poder sobre o mar Negro. Outro conflito russo-turco começou em 1787. A imperatriz da Rússia, Catarina II, entrou em uma aliança com o governante austríaco, o imperador José II, e os dois concordaram com a partilha do Império Otomano entre os seus respetivos povos, o que alarmou as outras potências europeias, nomeadamente o Reino Unido, França e a Prússia. A Áustria foi então forçada a retirar-se da guerra em 1791. De imediato, após o Tratado de Jassy (1792), a Rússia passou a desempenhar um papel preponderante no Mar Negro.
Durante o início do , os posicionamentos das grandes potências mediante o Império Otomano se tornaram claros e a Rússia ficou ainda mais diretamente envolvida com a Questão Oriental. A nação estava principalmente preocupada com o controle do acesso ao Mar Negro e ao Mediterrâneo (em especial adquirindo o importante porto de Constantinopla).BURNS, 1981, p. 759. A Rússia estava especialmente ansiosa para obter direitos sob a navegação segura para seus navios mercantes e de guerra, enquanto negava privilégios semelhantes a outras forças europeias. Outro interesse russo não menos importante era a proteção dos interesses envolvendo os cristãos ortodoxos nos Bálcãs, que estavam sob o controle dos otomanos e também dos austríacos.BURNS, 1981, p. 759.
A Áustria foi a potência que se opôs mais ferozmente aos interesses russos sobre os territórios otomanos. Embora se considerasse o principal adversário europeu do Império Otomano, a Áustria acreditava que a ameaça otomana era muito menos grave do que um avanço russo ao longo do rio Danúbio, que cortava boa parte do seu império. A Áustria também temia que a desintegração do Império Otomano em vários Estados-nações daria origem ao sentimento de nacionalismo entre os muitos grupos étnicos de seu próprio império, e principalmente entre os eslavos do sul. Por estes motivos, um dos principais objetivos da Áustria tornou-se manter a unidade do Império Otomano.
Do mesmo modo, o Reino Unido via a contenção do Império Russo como vital para a segurança das suas possessões coloniais na Índia, e havia um clima de grandes desconfiança entre as duas potências devido ao Grande Jogo.BURNS, 1981, p. 760. Além disso, o controle russo de Estreito de Bósforo poderia dificultar a dominação britânica do Mediterrâneo oriental. O Império Britânico estava também preocupado com a preservação do tradicional equilíbrio global do poder,BURNS, 1981, p. 760. que acabaria por ser afetado com uma eventual queda do Império Otomano.
História Era napoleônica
thumb|esquerda|300px|Frota russa após a Batalha de Atos de Aleksey Bogolyubov (1824-1896)
No início do , a atenção da Europa foi roubada por Napoleão Bonaparte. Para garantir a sua própria dominação da Europa e tornar as potências quase impotentes, Napoleão estabeleceu uma aliança com a Rússia através da celebração do Tratado de Tilsit, em 1807. O Império Russo se comprometeu a ajudar Napoleão em sua guerra contra o Reino Unido enquanto este, por seu turno, receberia os territórios otomanos da Moldávia e Valáquia. Caso o sultão se recusasse a entregar tais territórios, França e Rússia iriam atacar o império e os domínios otomanos na Europa seriam divididos entre os dois aliados.
O regime de Napoleão ameaçava não somente o sultão, mas também o Reino Unido, a Áustria e a Prússia, que se viam quase impotentes em face de tal aliança. A aliança aprovada incomodava principalmente os austríacos, uma vez que estes imaginavam que um ataque conjunto franco-russo devastaria totalmente o Império Otomano. A Áustria tentou então, a partir de seu ministro Metternich, usar a via diplomática para impedir tal ataque, e quando esta falhou, a potência foi obrigada a concordar com uma partição pacífica. Esta seria uma solução desvantajosa para a Áustria, mas seria menos perigosa que uma completa aquisição do sudeste da Europa por parte da Rússia.
Entretanto, o eventual ataque contra o império nunca chegou a acontecer, e a aliança construída em Tilsit acabou por ser dissolvida pela Campanha da Rússia em 1812. Após a derrota de Napoleão pela ação das grandes potências, em 1815, os representantes dos vencedores se reuniram no Congresso de Viena, que falhou ao não tomar medidas relacionadas à integridade territorial do decadente império dos sultões. Essa omissão, juntamente com a exclusão dos otomanos da Santa Aliança,LeGOFF, 2008, p. 123. foi interpretada por muitos como uma definição de que a Questão Oriental era apenas russa, e que não afetaria quaisquer outras nações europeias.
Independência grega e novos conflitos
thumb|200px|A Batalha de Vassilika, em 1821, marcou o ponto de virada na guerra entre gregos e turco-otomanos
A Questão Oriental mais uma vez tornou-se um grande problema europeu quando os gregos declararam independência do império do sultão em 1821. Foi a esta altura que a expressão "Questão Oriental" foi cunhada. Desde a derrota de Napoleão, em 1815, existiam rumores de que o imperador da Rússia desejava invadir o Império Otomano, e de que a revolta grega seria um pretexto para uma invasão se tornar ainda mais provável. O Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Robert Stewart, Visconde de Castlereagh, bem como o Ministro dos Negócios Estrangeiros austríaco, Metternich, aconselharam o imperador da Rússia, Alexandre I, para não entrar em guerra. Em vez disso, pediram a ele que mantivesse o Concerto da Europa (o espírito de colaboração ampla no continente que persistia desde a derrota de Napoleão).LESSA, 2005, p. 55. Um desejo de uma cooperação pacífica também foi pretendido por Alexandre I, que tinha fundado a Santa Aliança. Ao invés de ajudar os gregos e atacar os otomanos, aliviando imediatamente a Questão do Oriente, o czar oscilou e, em última instância, não tomou qualquer ação decisiva.
A morte de Alexandre I, em 1825, levou Nicolau I ao trono russo, que logo decidiu que não toleraria negociações e conferências e interviria imediatamente na Grécia. O Reino Unido também se envolveu pouco depois, interessado em impor sua vontade sobre um recém-formado Estado grego, e também para evitar que a nação se tornasse vassala dos russos. O espírito do romantismo, que no momento dominava a vida cultural da Europa Ocidental, também fez apoio à independência grega politicamente viável. A França se alinhou com os gregos, porém a Áustria (ainda preocupada com a expansão russa) não. Indignado com a interferência das grandes potências, o sultão otomano, , denunciou a Rússia como um inimigo do Islã, declarando guerra ao país em 1828. A Áustria, alarmada, procurou formar uma coligação anti-russa, mas suas tentativas foram em vão.
À medida que a guerra prosseguia, a Rússia ganhava uma firme vantagem sobre o Império Otomano. Ao prolongar ainda mais as hostilidades, no entanto, a Rússia convidaria a Áustria para entrar na guerra contra ela, o que teria resultado em grande suspeição no Reino Unido. Assim, para os russos tornou-se claro que a tentativa de destruir o império não iria dar certo e que outras potências iriam interferir.SARAIVA, 2001, p. 73. Nesta fase, o rei da França, Carlos X, propôs a divisão do Império Otomano entre Prússia, Áustria, Rússia e outras potências,SARAIVA, 2001, p. 73. mas seu esquema foi apresentado tarde demais para produzir algum resultado.
Deste modo, a Rússia foi capaz de assegurar que não sofreria uma derrota decisiva e também que não seria realizada a partilha do Império Otomano. A nação optou, a partir de então, a política de degradação do império do sultão, de modo a torná-lo meramente uma dependência. Em 1829, o imperador russo concluiu o Tratado de Adrianópolis com o sultão e, ao seu império, foi concedido um território adicional ao longo do Mar Negro. Além disso, foi concedido às naves russas o direito de acesso ao Estreito de Dardanelos. Pouco depois, a independência grega seria finalmente concedida pelo Tratado de Constantinopla, em 1832, e a Grécia seria a primeira nação balcânica de várias outras que viriam a se formar.
Crises do Egito e Maomé Ali thumb|180px|esquerda|Maomé Ali