Crânio de cristal ou também Caveira de cristal é uma série de esculturas de crânio humano esculpidas em quartzo rosa ou leitoso, artisticamente conhecido como "cristal de rocha", as quais alega-se, por seus descobridores, serem artefatos pré-colombianos da Mesoamérica. No entanto, nenhum dos exemplares disponíveis para estudo científico foi autenticado como pré-colombiano de origem.

Resultados de estudos demonstraram que os exemplares examinados foram fabricados em meados do século XIX ou mais tarde, provavelmente na Europa.<ref>British Museum (nd-b), Jenkins (2004, p.217), Sax''et al (2008), Smith (2005), Walsh (1997; 2008)</ref> Apesar de algumas reivindicações no sentido de popularização literária, as lendas dos crânios de cristal com poderes místicos não figuram na genuína mitologia mesoamericana ou de outros nativos americanos.Aldred (2000, passim.); Jenkins (2004, pp.218–219). Em seu último trabalho, Philip Jenkins, ex-professor de História e Estudos Religiosos e posteriormente professor de Ciências Humanas da PSU, escreve que os crânios de cristal são os mais óbvios exemplos de que a associação à espiritualidade nativa é "historicamente recente" e "artificial". São "produtos de uma geração de criativos empreendedores espirituais" que não "[representam] a prática de qualquer comunidade histórica"

Os crânios são frequentemente alegados como representantes de fenômenos paranormais por alguns membros do movimento da Nova Era, e têm sido muitas vezes retratados como tal na ficção; além disso, têm sido um tema popular que aparece em numerosos representantes de ficção científica em séries de televisão,Por exemplo em Stargate SG-1, terceira temporada, episódio #65, "Crystal Skull" romancesPor exemplo Indiana Jones, de Max McCoy (1995, 1996, 1997, 1999) e videogames.Por exemplo, o videogame Legend of the Crystal Skull e Illusion of Gaia

Investigações Científicas A autenticidade de diversos crânios de cristal atribuídos às civilizações pré-colombianas passou a ser questionada ao longo do século XX. Investigações realizadas por museus e pesquisadores passaram a analisar não apenas a procedência desses objetos, mas também as técnicas empregadas em sua fabricação.

Em 2008, pesquisadores associados ao Museu Britânico e ao Instituto Smithsonian publicaram uma investigação sobre dois crânios de cristal anteriormente apresentados como possíveis artefatos pré-colombianos. O estudo examinou a composição do material e as marcas deixadas durante o processo de fabricação.

A análise das superfícies permitiu identificar marcas compatíveis com técnicas de lapidação que não correspondiam aos métodos conhecidos das sociedades mesoamericanas pré-colombianas. Os resultados reforçaram as dúvidas sobre a antiguidade e a origem atribuídas a alguns dos exemplares mais conhecidos.

As pesquisas sobre esses objetos também demonstraram a importância da análise da procedência em estudos arqueológicos. Artefatos sem contexto arqueológico documentado podem ser mais difíceis de autenticar, pois sua origem depende frequentemente de relatos de colecionadores, comerciantes ou proprietários anteriores.

Procedência e Comércio de Antiguidades Parte das dúvidas sobre os crânios de cristal está relacionada à ausência de informações arqueológicas confiáveis sobre sua descoberta. Alguns dos exemplares mais conhecidos passaram por coleções particulares e pelo comércio de antiguidades antes de chegarem a museus, dificultando a reconstrução de sua trajetória histórica.

Coleção de Crânios de Cristal thumb|200px|left|Instituto Smithsoniano, onde um dos Crânios de Cristal está exposto. Foi feita uma distinção, por alguns pesquisadores, entre os menores crânios de cristal, do tamanho de uma pérola, que apareceram pela primeira vez em meados do século XIX, e os maiores (aproximadamente em tamanho real), que apareceram no final do século XX. Os crânios de cristal maiores têm atraído muito a atenção popular nos últimos tempos, e alguns pesquisadores acreditam que eles tenham sido fabricados como falsificações na Europa.

O comércio de artefatos pré-colombianos falsificados se desenvolveu durante o século XIX e, em 1886, o arqueólogo William Henry Holmes, do Instituto Smithsoniano, escreveu um artigo chamado "The Trade in Spurious Mexican Antiquities", para o jornal Science.Holmes (1886) Embora vários museus tenham adquirido anteriormente crânios, foi Eugène Boban, um negociante de antiguidades que abriu sua loja em Paris em 1870, quem ficou mais associado às coleções de crânios de cristal. Muito de sua coleção, incluindo três crânios de cristal, foi vendida para o etnógrafo Alphonse Pinart, que doou a coleção para o Trocadéro Museum, que mais tarde se tornou o Musée de l'Homme.

Pesquisa sobre as origens dos Crânios de Cristal thumb|left|200px|Máscara Asteca ou Mixteca, com mosaicos. Muitos crânios de cristal são reivindicadas como sendo pre-colombianos, geralmente atribuídos aos astecas ou maias. A arte mesoamericana tem numerosas representações de crânios, mas nenhuma dessas coleções de museus vêm de escavações documentadas.Walsh (2008) Pesquisas realizadas em vários crânios de cristal no Museu Britânico, em 1967, 1996 e novamente em 2004, mostraram que as linhas recuadas na marcação dos dentes (esses crânios não tinham mandíbulas separadas, ao contrário do Crânio de Cristal de Mitchell-Hedges) foram esculpidas usando equipamentos de joalharia (ferramentas rotativas) desenvolvidos apenas no século XIX, questionando uma suposta origem pré-colombiana.Craddock (2009, p.415) O tipo de cristal foi determinado por exame de inclusões de cloreto, e só pode ser encontrado em Madagascar e no Brasil, sendo, portanto, inalcançável ou desconhecido dentro da Mesoamérica pré-colombiana. O estudo concluiu que os crânios foram criados no século XIX na Alemanha, muito provavelmente em oficinas na cidade de Idar-Oberstein, conhecida por elaborar objetos feitos a partir de quartzo brasileiro importado no período no final do século XIX.British Museums (n.d.-b); Craddock (2009, p.415).

Foi estabelecido, tanto pelo Museu Britânico, quanto pelo de Paris, Musée de l'Homme,A amostra no Musée de l'Homme é a metade do tamanho que os crânios de cristal foram originalmente vendidos pelo francês Eugène Boban, negociante de antiguidades, que estava atuando na Cidade do México entre 1860 e 1880.Ver "The mystery of the British Museum's crystal skull is solved. It's a fake" ("O mistério da caveira de cristal do Museu Britânico é resolvido. É uma farsa"), em The Independent (Connor 2005). Ver também a declaração pública emitida pelo Museu sobre o seu crânio de cristal (British Museum n.d.-c). O crânio de cristal do Museu Britânico foi negociado através da Tiffany de Nova York, enquanto o do Musée de l’Homme foi doado por Alphonse Pinart, um etnógrafo que havia comprado a partir de Boban.

Uma investigação realizada pelo Instituto Smithsoniano em 1992, sobre um crânio de cristal fornecido por uma fonte anônima, que afirmou tê-lo comprado na Cidade do México em 1960, e que era de origem asteca, concluiu que, igualmente, fora feito recentemente. De acordo com o Instituto Smithsoniano, Boban adquirira os crânios de cristal que ele vendeu a partir de fontes na Alemanha – conclusões que estão em consonância com as do Museu Britânico.Veja o relato feito pela antropóloga Jane Walsh, do Instituto Smithsoniano, sobre suas investigações conjuntas coma cientista de materiais Margaret Sax do Museu Britânico, que as amostras de crânio de cristal foram feitas no Século XIX, em Smith (2005). Veja também Walsh (1997).

Um estudo detalhado do Museu Britânico e do crânio de cristal Smithsoniano foi aceito para publicação pelo Journal of Archaeological Science, em maio de 2008.Sax et al. (2008) Usando microscópio eletrônico e cristalografia de raios X, uma equipe de pesquisadores britânicos e americanos descobriu que o crânio do Museu Britânico foi trabalhado em uma substância dura abrasiva, tal como coríndon ou diamante, e foi moldado usando uma ferramenta de disco rotativo feito de algum metal adequado. A amostra do Instituto Smithsoniano havia sido trabalhada com um abrasivo diferente, o composto de carbeto de silício, ou carborundum, que é uma substância sintética fabricada utilizando modernas técnicas industriais.Carbeto de silício ocorre naturalmente apenas em pequenas quantidades na forma do raro mineral moissanite, identificado pela primeira vez em um meteorito em 1893. Ver resumo da descoberta e da história de carboneto de silício em Kelly (n.d.) Desde que a síntese de carborundum apenas ocorreu na década de 1890, e sua maior disponibilidade tenha sido para o século XX, os pesquisadores concluíram: "[a] sugestão é que ela foi feita na década de 1950 ou mais tarde".Veja reportagem do estudo, em Rincon (2008), bem como o estudo em Sax et al. (2008).

Especulações sobre crânios menores Nenhum dos crânios existentes em museus vem de escavações documentadas. Outro exemplo paralelo é fornecido pelos espelhos de obsidiana na Mesoamérica, objetos rituais amplamente representados na arte asteca. Embora alguns espelhos de obsidiana sobreviventes tenham vindo de escavações arqueológicas,Como em Teotihuacan, ver Taube (1992). nenhum dos espelhos astecas de obsidiana é documentado; no entanto, a maioria das autoridades em cultura asteca considera os tais espelhos como autênticos objetos pré-colombianos.Ver, por exemplo Olivier (2003). O arqueólogo Michael E. Smith relata um não “peer-reviewed” encontro de um pequeno crânio de cristal em um sítio asteca, no Vale do México.Michael E. Smith, "Aztec Crystal Skulls," Publishing Archaeology Blog Crânios de cristal têm sido descritos como “um exemplo fascinante de artefatos que fizeram o seu caminho em museus sem nenhuma evidência científica para provar sua origem pré-colombiana”. Um caso semelhante é a máscara Olmeca talhada em jade; curadores e estudiosos se referem a ela como "estilo olmeca", apesar de, até o presente momento, nenhum exemplo ter sido recuperado em um contexto olmeca arqueologicamente controlado, o estilo é igual. No entanto, tais máscaras foram recuperadas a partir de sítios de outras culturas, incluindo uma depositada no recinto cerimonial de Tenochtitlán (Cidade do México), que presumivelmente teria cerca de 2000 anos de idade.Artworld University of East Anglia collections

Crânios individuais Crânio de Mitchell-Hedges Talvez o crânio mais famoso e enigmático tenha sido o descoberto em 1924 por Anna Le Guillon Mitchell-Hedges, filha adotiva do aventureiro e autor popular britânico Frederick Albert Mitchell-Hedges. Foi o tema de um documentário feito em 1990, Crystal Skull of Lubaantun. Tem-se observado, após o exame por pesquisadores do Instituto Smithsoniano, ser "quase uma réplica do crânio do Museu Britânico - quase exatamente o mesmo formato, mas com mais modelagem detalhada dos olhos e os dentes".Walsh (2008). Veja também o debate de 1936 sobre sua semelhança com o crânio do Museu Britânico, em Digby (1936) e Morant (1936),passim Anna Hedges alegou tê-lo encontrado enterrado sob um altar desabado dentro de um templo em Lubaantun, nas Honduras Britânicas, agora Belize.Ver Garvin (1973, legenda da foto 25); também Nickell (2007, p.67) Tanto quanto pode ser determinado, F. A. Mitchell-Hedges não fez nenhuma menção à alegada descoberta em qualquer um dos seus escritos sobre Lubaantun, assim como outras pessoas presentes no momento da escavação não foram documentadas como observando tanto a descoberta do crânio, como a presença de Anna na escavação.Nickell (2007, pp.68–69) thumb|180px| Eugène Boban, principal comerciante francês de artefatos pré-colombianos durante a segunda metade do século XIX e provável fonte de muitos crânios famosos.