thumb|320px|Andrei Rublev: Trindade. Galeria Tretyakov
A pintura na Rússia tem uma história demarcada por cinco fases bem distintas. Apesar de haver registros de que existia uma tradição de pintura religiosa entre os povos eslavos pré-cristãos, não sobrevive qualquer exemplo.Donnelly, Michael E. Russian Icons. Purveyors of Fine Art Assim, deve-se estudar a pintura russa a partir da cristianização da Rússia de Quieve, ocorrida em torno de 860, quando o intercâmbio cultural com o Império Bizantino levou para lá a tradição da pintura de ícones. Essa tradição, toda religiosa, constitui o principal gênero de pintura realizado na Rússia em todos os tempos, já que permanece vivo até hoje e sua história já conta com mais de mil anos de prática ininterrupta, salvo um breve eclipse em meados do . Seria a forma pictórica mais prestigiada até a ocidentalização do país no por Pedro, o Grande, quando em menos de meio século formou-se uma escola de pintura toda nova, de caráter profano, correlacionada ao fim do Barroco que se desenvolvia no resto da Europa e que depois, integrando-se à evolução geral da arte européia, assimilando uma variedade de novas tendências, confluiria em meados do numa nova escola nacional.
A pintura russa teria um outro momento de destaque e daria uma importante contribuição própria à arte do ocidente por ocasião da emergência das vanguardas no início do , quando pintores como Kandinsky e Malevich seriam os precursores do Abstracionismo. Quando a Rússia aboliu sua monarquia houve nova ruptura; cerca de uma década após a Revolução de 1917 as vanguardas foram proscritas e os pintores foram obrigados pelo Estado a seguir uma estética figurativa populista, originando o estilo conhecido como Realismo Socialista, que só perderia força com a progressiva liberalização do regime político local no fim do . Então um grupo de artistas do underground iniciou um movimento de contestação das fórmulas da arte oficial e introduziria conceitos contemporâneos na pintura russa, diversificando enormemente seus horizontes e abrindo outra vez a arte local para o mundo.
A pintura de ícones
left|150px|thumb|Teófanes, o Grego: Virgem do Don (do tipo Vladimir), Galeria Tretyakov thumb|left|150px|Simon Ushakov: Cristo Acheiropoietos, c. 1660. Galeria Tretyakov
A tradição da pintura de ícones na Rússia foi importada do Império Bizantino, que forneceu ao estado recém cristianizado os materiais necessários à liturgia, incluindo as representações religiosas de santos e mártires da religião. O centro de cultura de então era Quieve - hoje pertencendo à Ucrânia - e possivelmente os primeiros pintores ativos nesta cidade foram gregos ou eslavos bizantinizados, servindo como mestres para a formação de uma escola local de pintura. Naturalmente a primeira produção da que seria chamada Escola de Quieve seguiu de perto o estilo bizantino, mas logo passou a exibir características próprias, evidentes na seleção de cores e na dimensão das imagens, bem como na expressão das figuras, das quais o Cristo Pantocrator, um dos modelos formais mais importantes nesta época, foi representado com um aspecto mais benevolente e humano do que no padrão original. Em 1240, Quieve foi tomada e completamente incendiada pelos mongóis, e a atividade artística principal moveu-se para Novogárdia.Kiev School. Russia the GreatBoguslawski, Alexander & Hurguy, Sarah. Kiev School. In Boguslawski, Alexander et alii. Russian Painting Na origem da iconografia sacra russa uma peça em especial merece nota - a celebérrima Virgem de Vladimir, um ícone de Maria com o Menino que, embora de origem bizantina (dada de presente ao Grão-duque Yuri Dolgoruki de Quieve em torno de 1131 pelo patriarca grego ortodoxo de Constantinopla Lucas Crisoberges), logo se tornou o modelo para um número incontável de cópias e variações, definido uma das tipologias mais populares de toda a iconografia sacra russa e sendo até hoje uma das imagens mais veneradas em todo país.
Novogárdia já tinha uma escola de ícones ativa no , que cristalizou um estilo próprio em torno do , e se manteve em atividade até o . Escapando da ocupação mongol da Rússia entre os séculos XIII e XIV, tornou-se o principal centro artístico do país até ser suplantada por Moscou. Sua primeira fase privilegiou o ícone em afresco, dos quais os mais antigos exemplos estão em Nereditsa e na Igreja de São Jorge em Staraia Ladoga. A Escola de Novogárdia produziu algumas das mais importantes pinturas da Idade Média russa, e o que a distingue são a intensidade das cores, aplicadas sem mistura ou gradações de tons, um sombreado mínimo, o desenho enérgico e preciso, e uma preferência pela composição clara com uma simbologia simples e facilmente legível pelo povo. No nota-se uma alteração no estilo em direção a uma suavização nas cores, a um crescente dinamismo e espontaneidade na composição e a um maior predomínio aspecto gráfico sobre o pictórico. A diferença entre Novogárdia e a tradição bizantina mais pura representada por Quieve também se nota na assimilação de elementos da arte folclórica local, no aspecto menos hierático e mais humanizado das figuras, que já eram menos estereotipadas e se pareciam à gente russa, e na passagem de seu olhar fixo e penetrante, que estabelecia um contato direto com o espectador, para uma expressão mais sonhadora, indireta e introspectiva. Seu maior representante foi Teófanes, o Grego (c. 1330-c.1410), que se educara em Constantinopla e mais tarde, mudando-se para Moscou, daria impulso à Escola de Moscou junto com outros mestres locais.Donnelly.Novgorod school. Britannica online Novgorodian Icon-Painting. Novgorod online
thumb|Escola de Novogárdia: São Nicolau e cenas de sua vida,
No também se formam outras escolas regionais em Vladimir, Susdália, Iaroslávia e Pescóvia, todas se desenvolvendo ligadas à tradição bizantina. Entretanto, no a invasão mongol devasta a Rússia e rompe seus laços históricos com Bizâncio, arruinando muitos dos centros produtores de ícones, salvo Novogárdia e Pescóvia, que não foram conquistadas, e onde a tradição de pintura de ícone pôde continuar viva. Embora menos sofisticada que Novogárdia, considerada sua "irmã maior", a Escola de Pescóvia se distinguiu pela iconografia formalista e arcaizante, pela intensa expressão emocional de suas figuras e pelo uso de tonalidades de cor diferenciadas, em especial quanto ao verde, laranja e vermelho.
A Escola de Moscou tem suas origens obscurecidas pela quase completa inexistência de exemplos primitivos, mas sabe-se que surgiu aproximadamente junto com Novogárdia e que quando Teófanes lá chegou já havia significativa atividade artística. Ele, junto com Andrei Rublev, embora possuíssem estilos muito diversos, levaram esta escola para ao seu primeiro florescimento importante no , acompanhando a crescente influência de Moscou sobre as outras cidades após a expulsão dos mongóis, tornando-se também o centro da ortodoxia religiosa.Moscow school, Britannica online Também a eles se deve a definição da iconostase como hoje a conhecemos, uma parede coberta de ícones que se elevou tanto ao ponto de esconder completamente o altar, isolando-o da congregação, uma alteração significativa quanto ao modelo do altar bizantino, e que foi introduzida nas obras que realizaram na Catedral Blagoveshchensky de Moscou em torno de 1405.Donnelly. Moscou sucedeu a Novogárdia como o principal centro produtor de ícones, e ali se formaria um novo estilo que lançaria as bases da primeira escola nacional de pintura no . Nesse período, que marca também o início de sua decadência, se destacaram Dionísio, o Sábio e Simon Ushakov, que renovaram a concepção do espaço pictórico, deram atenção a sutilezas cromáticas e enfatizaram o misticismo em sua arte, em detrimento do aspecto dramático. Também se nota a influência da pintura ocidental no uso, especialmente visível em algumas obras de Ushakov, de um discreto chiaroscuro para acentuar a ilusão de tridimensionalidade. Outro elemento distintivo é o aparecimento de um retratismo profano, conhecido sob o nome de parsuna, também influenciado pelo ocidente mas regido pelas convenções da pintura religiosa.Bennett, Brittany & Bennett, Courtney. Parsunas. In Boguslawski et al. A expulsão dos invasores possibilitou ainda que a tradição dos ícones ressurgisse ou iniciasse em muitas outras cidades - Tver, Susdália, Rostov e até na distante Kargopol. Entre esses centros menores merece nota a Escola de Tver, que se diferenciou pelo uso de exóticos tons de azul e turquesa numa paleta mais clara.
A partir de meados do se observa na Escola de Moscou, que predominara sobre todas, uma perda de conteúdo místico em favor de um decorativismo, e o surgimento de uma preferência pela miniatura, uma diversificação nos temas sacros sob a influência do florescimento literário do país, e aparece na mesma cidade a Escola Stroganov. Foi marcada pela preferência pela miniatura, por suas cores e seu grande refinamento e detalhamento das imagens, substituindo a monumentalidade pelo virtuosismo e a emoção pela elegância decorativa. Dentre seus mestres estavam Prokopiy Chirin, Nikifor e Istoma Savin. A Escola Stroganov, cujo nome deriva da rica família Stroganov, que a patrocinava, permaneceu influente até o fim do , quando a arte profana patrocinada pelo Estado e pela nobreza tornou-se o foco dos novos desenvolvimentos na pintura.
Entre as últimas escolas regionais de ícones estava a que floresceu em torno do Mosteiro da Trindade e São Sérgio, em Kholui, que iniciou suas atividades no e rapidamente ganhou muito prestígio no norte do país. Em 1882 sua produção foi organizada pela Fraternidade Alexander Nevsky nos moldes da Academia de Artes, sendo dirigida por N. N. Kharlamov, um egresso da Academia de São Petersburgo. Seus formados constituíram uma associação e iniciaram uma grande produção de ícones e afrescos em diversas cidades importantes e mesmo no exterior, cuja qualidade era da mais alta. Quando o Comunismo foi implantado na Rússia em 1917 a religião foi perseguida, muitas igrejas e mosteiros depredados ou destruídos. A escola de Kholui foi fechada e a pintura religiosa chegou a um termo em toda Rússia.Russian Lacquer Miniature: History. Kholui Art Workshops
Entretanto, a refinada técnica empregada em sua confecção não foi perdida. Depois de algum tempo a escola de Kholui foi reaberta em 1943, agora sob a direção de um graduado na Academia de Leningrado, U. A. Kukuliev, transformando-se em uma oficina de artes aplicadas, centrada na produção de miniaturas laqueadas. A reabilitação da Igreja Ortodoxa na Rússia possibilitou então que a pintura de ícones, depois um período de banimento, voltasse recentemente a ser praticada na própria Kholui e outros centros como Palekh.
A ocidentalização da Rússia thumb|left|150px|Karp Zolotaryov: Teótoco, fim do . Museu Andrei Rublev