A história da Taça dos Campeões Europeus e da Liga dos Campeões da UEFA abrange mais de sessenta anos de competição, constatando campeões e vice-campeões de todo o continente.
Antecedentes
Primeiros torneios A primeira vez que os campeões de duas ligas europeias se encontraram foi no que foi apelidado de Campeonato Mundial de 1895, quando o campeão inglês Sunderland derrotou o campeão escocês Heart of Midlothian por 5 a 3. Ironicamente, a escalação do Sunderland no Campeonato Mundial de 1895 consistia inteiramente de jogadores escoceses – jogadores escoceses que se mudaram para a Inglaterra para jogar profissionalmente naquela época eram conhecidos como "Scotch Professors".
Antes disso, outros "Campeonatos Mundiais de Futebol" ocorreram, embora fossem entre os vencedores das copas da Escócia e da Inglaterra, já que as respectivas ligas ainda não haviam sido estabelecidas.
As competições de clubes entre times de países europeus remontam a 1897, quando a Challenge Cup foi fundada como uma competição entre clubes da Áustria-Hungria que em circunstâncias normais não se enfrentariam na competição. Esta competição decorreu até 1911, com o seu último vencedor, o Wiener Sport-Club, a manter o troféu. Simultaneamente, clubes ingleses e escoceses competiram no Campeonato Mundial de Futebol. O Troféu Sir Thomas Lipton foi disputado em 1909 e 1911 em Turim, Itália, envolvendo clubes da Itália, Alemanha, Suíça e Inglaterra.
A Challenge Cup é considerada a precursora da primeira verdadeira competição pan-europeia de clubes, a Copa Mitropa, que surgiu após o fim da Áustria-Hungria após a Primeira Guerra Mundial. Naquela época, as várias nações do centro da Europa estavam introduzindo ligas profissionais. A introdução de um torneio internacional de clubes destinava-se a ajudar financeiramente os novos clubes profissionais. A Mitropa Cup foi disputada pela primeira vez em 1927.
Uma das primeiras tentativas de criar uma copa para os clubes campeões nacionais da Europa foi feita pelo clube suíço Servette em 1930. O torneio chamado "Coupe des Nations" foi um grande sucesso e os campeões das dez principais nações europeias do futebol da época foram convidados. A taça foi conquistada pelo clube húngaro Újpest. Apesar do grande sucesso, o torneio nunca mais foi organizado, por questões financeiras.
Após a Segunda Guerra Mundial, a redução da classificação da Copa Mitropa levou à fundação de uma nova competição, a Taça Latina, para times da França, Itália, Espanha e Portugal. Esta competição foi disputada como um mini-torneio no final de cada temporada pelos campeões da liga de cada país. Outro torneio foi a Coppa Grasshoppers disputada em 1952 a 1957.
Criação da Taça dos Campeões Europeus O Campeonato Sul-Americano de Campeões, começou em 1948 após anos de deliberação e organização e colocou em movimento o antecedente da Copa Libertadores. O jornalista esportivo francês Jacques Ferran ficou fascinado com a ideia sul-americana de 1948 de uma liga dos campeões de clubes continental. O documento da UEFA sobre a história da Taça dos Campeões Europeus confirma que Jacques Ferran e Gabriel Hanot, jornalistas do jornal esportivo francês L'Équipe, foram os fundadores da Taça dos Campeões Europeus. Em entrevistas ao programa esportivo brasileiro Globo Esporte em 2015 e ao jornal chileno El Mercúrio em 2018, Jacques Ferran disse que o Campeonato Sul-Americano de Campeões foi a inspiração para a Taça dos Campeões Europeus: "Como poderia a Europa, que queria estar à frente do resto do mundo, não conseguir realizar uma competição do mesmo tipo da sul-americana? Precisávamos seguir esse exemplo."
O verão de 1953 viu o Wolverhampton Wanderers jogar um amistoso contra um sul-africano XI para iniciar uma série notável de vitórias nos meses seguintes. O Wolves jogou uma série de amistosos contra adversários estrangeiros, como o Racing Club da Argentina, o Spartak Moscou da União Soviética, entre outros, antes de enfrentar o Honvéd da Hungria em um jogo transmitido ao vivo pela BBC. O time do Honvéd incluía muitos jogadores da Seleção Húngara, que dominava o futebol mundial na época. Os lobos venceram o jogo por 3–2, o que levou seu técnico Stan Cullis e a imprensa britânica a proclamá-los como "Campeões do Mundo". Este foi o estímulo final para Hanot, que há muito fazia campanha para um torneio de clubes em toda a Europa para determinar quem era o melhor do continente.
O Congresso da UEFA de março de 1955 viu a proposta levantada, com aprovação dada em abril daquele ano, e o início da primeira Taça dos Campeões Europeus na temporada seguinte. No entanto, não haveria times soviéticos (até 1967) ou ingleses no primeiro torneio.
Taça dos Campeões Europeus (1955–1992)
1955–1960: Domínio inicial do Real Madrid O formato original da Taça dos Campeões Europeus colocava somente clubes escolhidos pela revista francesa L'Équipe para se enfrentarem. As escolhas eram baseadas na representatividade e no prestigio dos clubes na Europa, no qual somente sete dos dezesseis clubes convidados eram campeões de suas respectivas ligas nacionais. O Dínamo de Moscou, campeão da União Soviética, não pode participar devido a restrições climáticas. O Chelsea foi o primeiro clube da Inglaterra convidado para participar, porém a The Football Association, entidade que controla o futebol inglês, impediu seus clubes de participarem pois enxergava a competição como uma distração para seus torneios locais. No lugar de um clube inglês, foi chamado o Gwardia Warszawa da Polônia. O Manchester United aceitaria participar da edição seguinte contra a vontade da entidade, que logo após concordaria em aderir a competição europeia.
A primeira edição ocorreu em uma única chave eliminatória com 16 equipes, com as partidas disputadas no sistema de ida e volta, exceto pela final disputada em jogo único. No domingo, 4 de setembro de 1955, realizou-se em Lisboa o primeiro jogo da Taça dos Campeões Europeus, um empate de 3 a 3 entre o Sporting de Portugal e Partizan da Sérvia. A primeira final foi realizada no Parc de Princes, em Paris, e vencida pelo espanhol Real Madrid ao derrotar o francês Stade de Reims por 4 a 3.
Na edição seguinte houve um aumento de 16 para 22 equipes participantes, com cada país sendo representado unicamente pelos campeões de suas ligas nacionais, exceto pela Espanha, que havia uma vaga para o Athletic Bilbao, campeão espanhol de 1955–56, e para o Real Madrid, campeão da edição anterior da competição europeia. O Galatasaray foi o único, além do Real Madrid, a não participar como campeão nacional, já que não havia a liga turca na época. Foi a primeira vez que ocorreu uma rodada preliminar antes da fase principal, apesar de todas as partidas seguirem no mesmo formato eliminatório. O Real Madrid defendeu seu título em uma final disputada em sua casa, o Estadio Santiago Bernabéu, derrotando a italiana Fiorentina por 2 a 0.
O número de participantes foi aumentando gradativamente até chegar a 27 equipes na temporada de 1959–60. Na final desta edição, o Real Madrid aplicou sete gols pra cima do alemão Eintracht Frankfurt, com 4 de Ferenc Puskás e 3 de Alfredo Di Stéfano, os primeiros jogadores a marcarem três gols em uma final de Taça dos Campeões Europeus.
O Real Madrid dominou as cinco primeiras competições de forma relativamente confortável, além de Di Stéfano e Puskás, a equipe tinha jogadores importantes como Francisco Gento e Raymond Kopa. O espanhol Miguel Muñoz venceu as três primeiras edições como jogador e a última treinando a equipe.
1960–1965: Sucesso do Benfica e dos clubes de Milão O domínio do Real Madrid foi encerrado na temporada de 1960–61 por seus maiores rivais domésticos, o Barcelona, que após passar pela fase preliminar, eliminou os detentores do título em duas partidas disputadas que culminaram em 4 a 3 para o Barça. Outro clube que iniciou a competição na fase preliminar foi o Benfica de Portugal, que chegou até a final sendo o clube mais goleador do torneio, graças à jogadores como José Águas, José Augusto, Santana e Mário Coluna. O Benfica derrotou o Barcelona por 3 a 2 na partida final no Wankdorf Stadium em Berna, Suíça, se tornando os primeiros campeões após o reinado madrileno. Na temporada seguinte de 1961–62, o Benfica contratou o lendário jogador Eusébio, que junto com José Águas, marcaram diversos gols pela equipe. O Benfica enfrentou o Real Madrid na final em 2 de maio de 1962. Pela segunda vez, Ferenc Puskás marcava três gols em uma final da competição, que colocou os campeões espanhóis na frente antes do intervalo, mas dois gols de Coluna e da estrela em ascensão Eusébio viraram o placar para 5 a 3, tornando o Benfica bicampeão europeu.
Na temporada de 1962–63, aumentou-se o número de participantes para 30. O Benfica chegou a sua terceira final consecutiva, mas perdeu por 2 a 1 para o incrível time do Milan, da cidade de Milão, na Itália. O Milan iniciou a competição aplicando uma extraordinária goleada para cima do Union Luxembourg de 14 a 0 no agregado. Isso ajudou dois dos jogadores do Milan, José Altafini e Paolo Barison, a terminarem a competição como maiores artilheiros, ao lado de Eusébio, com seis gols cada.
A edição seguinte foi a primeira a ter dois clubes italianos participantes, os principais da cidade de Milão — Milan e Internazionale. O Milan foi o único time desta edição a não começar pela fase preliminar, já que havia vencido o torneio anterior. No entanto, o Milan caiu nas quartas de final para o Real Madrid, tomando uma goleada de 4 a 1 na partida de ida e não conseguindo reverter o placar na partida de volta, vencendo somente por 2 a 0. O Real Madrid chegou novamente à final, mas perdeu para a Internazionale por 3 a 1, com dois gols de Sandro Mazzola e um de Aurelio Milani. Na temporada de 1964–65 a Inter defendeu seu título com sucesso ao derrotar o Benfica na final por 1 a 0, essa que seria a primeira final com um único gol, marcado pelo brasileiro Jair da Costa. Este período da "Grande Inter", liderado pelo técnico Helenio Herrera e o craque Luis Suárez, é bem lembrado na Itália, com muitos na época esperando que o clube igualasse o domínio do Real Madrid ao longo da década.
1965–1969: A sexta do Real Madrid, campeões britânicos e Milan O Real Madrid se vingaria da Internazionale na temporada de 1965–66, ao eliminá-los nas semifinais por um placar de 2 a 1. O time madrileno conquistou novamente o título na final por 2 a 1 contra o Partizan da antiga Iugoslávia, a primeira equipe do leste do continente a chegar à final. No entanto, os dois maiores artilheiros desta edição seriam jogadores de times que caíram nas quartas de final, o português Eusébio do Benfica e o húngaro Florián Albert do Ferencváros, ambos com 7 gols desde as rodadas preliminares. Outro resultado notável dessa temporada veio do clube inglês Manchester United, que quebrou a invencibilidade do Benfica como mandante ao vencê-los por 5 a 1.
Na final de 1966–67, o escocês Celtic se tornou o primeiro time do norte da Europa a vencer a competição, voltando de uma desvantagem de 1 a 0 após um pênalti de Sandro Mazzola para vencer a Internazionale por 2 a 1 no Estádio Nacional de Lisboa, com gols de Tommy Gemmell e Stevie Chalmers. A equipe, que ficou conhecida como "Lisbon Lions" (lit. Leões de Lisboa), comandada por Jock Stein, era única, pois todos os jogadores nasceram a 30 milhas (50 km) do Celtic Park, em Glasgow.
Dez anos após o desastre aéreo de Munique, o Manchester United se tornou o primeiro time inglês a vencer a competição na temporada de 1967–68, derrotando o Benfica na final por 4 a 1 após a prorrogação no Estádio de Wembley, em Londres. Matt Busby, técnico do United na época do desastre em Munique, sobreviveu aos ferimentos fatais sofridos no acidente e ainda estava no comando do time, e dois outros sobreviventes do desastre jogaram na partida — Bobby Charlton, que marcou dois gols no jogo, e Bill Foulkes.