Manuel José Nogueira Valadares (Lisboa, 26 de fevereiro de 1904 — Paris, 31 de outubro de 1982) foi um físico português especializado em física atómica e nuclear, doutorado sob a orientação de Marie Curie. Desempenhou um papel relevante no arranque da investigação atómica e nuclear na Universidade de Lisboa antes de retornar à França, em 1947, após ser demitido da Universidade de Lisboa pelo governo do Estado Novo, juntamente com outros professores e investigadores considerados opositores ao regime.«Manuel José Nogueira Valadares». Foi também pioneiro em Portugal na utilização de raios X para estudo e restauro de obras de arte.Lídia Salgueiro, «Vida e obra de Manuel Valadares» in Gazeta de Física, VI (1978) pp. 2-12.
Biografia Manuel José Nogueira Valadares nasceu na capital portuguesa, Lisboa, a 26 de fevereiro de 1904. Em 1926 licenciou-se em Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa,http://memoria.ul.pt/index.php/Valadares,_Manuel_José_Nogueira onde ficou como assistente a partir de 1927, dando aulas no Liceu Pedro Nunes como professor provisório.
A partir de 1929 foi contratado como assistente no Instituto Português de Oncologia, ligação que manteve até 1932, estudando a utilização da radioatividade na luta contra o cancro. Neste período obteve uma bolsa da então Junta de Educação Nacional, que lhe permitiu estagiar, de novembro de 1929 a julho de 1930, no Instituto do Rádio de Genebra (Institut du Radium de Genève), sob a direção de Eugène Wassmer.L'institut du Radium de Genève. Aquela instituição, criada em 1914 como o Radium Institut Suisse S.A. (RIS), tinha ao tempo essencialmente fins comerciais, produzindo equipamentos e produtos médicos destinados à utilização de rádio em terapia anti-cancerígena. Embora reconhecendo que tinha aprendido muito com a estadia em Genebra, Valadares aponta no seu relatório que o Instituto estava mal equipado, sem equipamento para medir a intensidade da radiação, e com pouco espaço disponível, o qual não era suficiente para proteger o pessoal da radiação.
No termo do seu período de trabalho em Genebra, estagiou durante um mês no instituto de luta contra o cancro de Turim, antes de regressar a Portugal e às suas funções no Instituto Português de Oncologia e na Faculdade de Ciências.Cimetière du Père Lachaise: Valadares Manuel (1904-1982).
Pouco depois partiu para Paris, novamente como bolseiro da Junta de Educação Nacional, onde de novembro de 1930 a finais de 1933 trabalhou nos laboratórios do Instituto Curie visando aperfeiçoar as suas capacidades como investigador e realizar o seu doutoramento. Neste período publicou diversos trabalhos no domínio da radioatividade, tendo obtido o doutoramento a 11 de dezembro de 1933 com a tese intitulada Contribution à la spectrographie par diffraction cristalline du rayonnement gamma, orientada por Marie Curie, trabalho que mereceu a menção très honorable de um júri constituído por Marie Curie, Jean Baptiste Perrin e André-Louis Debierne. Apesar de no seu primeiro encontro com Marie Curie se ter sentido muito intimidade, admitindo em correspondência que estava hesitando e me repetindo horrivelmente, estabeleceu uma excelente relação com a sua orientadora e com a equipa de investigadores do Instituto, um grupo que incluía, entre outros, Yvette Cauchois, Fernand Holweck e Salomon Rosenblum. Num artigo que publicou em 1947, cita Paul Langevin e Francis Perrin como grandes influências durante sua estada em Paris.
Após regressar a Portugal, ainda como bolseiro de investigação, procurou implementar no Laboratório de Física da Universidade de Lisboa a investigação experimental no domínio da espectrografia da radiação X e da física nuclear. Apesar de nos primeiros anos o seu trabalho ter sido limitado pela falta de equipamentos adequados devido à escassez de fundos, em 1936 iniciou várias pesquisas no campo da espectrografia de raios X e radioatividade, cujos resultados só apresentou alguns anos depois. Nesta fase da sua carreira demonstra grande empenho na criação de um sistema de apoio à investigação científica em Portugal, afirmando a urgência de «criar entre nós a investigação científica no domínio da Física», como sublinhou em carta a Ruy Luís Gomes, acrescentando que tal «nunca tinha existido (...), aparte alguns casos esporádicos e realizados mais com o objetivo de satisfazer imposições legais do que como consequência de um desejo, de uma criatividade cultural». Este mesmo empenho levou a que em 16 de novembro de 1936, tivesse participado na fundação do Núcleo de Matemática, Física e Química, agremiação que reuniu Bento de Jesus Caraça e diversos bolseiros do Instituto de Alta Cultura, instituição que resultara da reforma da Junta de Educação Nacional, que, tal como Valadares, se tinham especializado em diferentes países da Europa, entre os quais Arnaldo Peres de Carvalho, Herculano Amorim Ferreira e António da Silveira. O Núcleo apenas sobreviveu três anos, extinguindo-se a 6 de novembro de 1939, vítima das dificuldades encontradas e das divergências internas sobre qual deveria ser a atuação dos cientistas na afirmação da Ciência em Portugal.
Entretanto, com a estruturação do regime ditatorial do Estado Novo, foi publicado o Decreto-Lei n.º 25317, de 13 de maio de 1935, que manda aposentar, reformar ou demitir os funcionários ou empregados, civis ou militares, que tenham revelado ou revelem espírito de oposição aos princípios fundamentais da Constituïção Política ou não dêem garantia de cooperar na realização dos fins superiores do Estado.Decreto-Lei n.º 25317, de 13 de maio de 1935, que manda aposentar, reformar ou demitir os funcionários ou empregados, civis ou militares, que tenham revelado ou revelem espírito de oposição aos princípios fundamentais da Constituïção Política ou não dêem garantia de cooperar na realização dos fins superiores do Estado. Em consequência desse decreto, em 1936 todos os funcionários, incluindo os bolseiros, foram obrigados a assinar uma declaração, sob compromisso de honra, de repúdio ao comunismo e de aceitação da ordem estabelecida pela Constituição de 1933, isto é o corporativismo salazarista. Manuel Valadares acedeu com relutância, assinando a declaração cerca de um mês depois de ter sido solicitado.
Durante a sua estadia em Paris Manuel Valadares frequentou o Institut Mainini (Laboratoire du Musée du Louvre, Institut Mainini), uma instituição pioneira na utilização de raios-X no estudo de obras de arte, com trabalho feito no Museu do Louvre que havia sido fundada a partir de 1931 no Museu do Louvre pelos médicos de origem argentina Carlos Mainini e Fernando Perez. Em consequência dessa experiência na utilização de raios X no estudo e restauro de obras de arte, em 1937 recebeu uma bolsa de investigação para trabalhar com João Couto no Museu das Janelas Verdes, em Lisboa, onde fundou um laboratório dedicado à investigação de obras de arte utilizando equipamento radiográfico, tendo orientado investigadores nesse domínio. Esse laboratório deu origem ao centro de restauro do Museu Nacional de Arte Antiga e permitiu produzir investigação cujos resultados publicou no Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga (1939-1943). Essas publicações mostram a intervenção direta de Manuel Valadares na criação do laboratório de investigação científica do Museu das Janelas Verdes, tendo, com João Couto e Fernando Mardel, definido o programa das instalações da oficina e laboratório do novo Instituto para exame e restauro das obras de arte.Manuel Valadares, «Laboratório para o exame das obras de arte» in Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga, n.º 1, 1939.Manuel Valadares e Olívia Trigo de Sousa, «Exame comparativo ao Raio X de alguns quadros atribuídos aos Cranach (Velho e Novo)» in Boletim dos Museus Nacionais de Arte Antiga, n.º 3, 1942.
Em resultado da investigação realizada nesse período, recebeu o Prémio Artur Malheiros (Ciências Físico-Químicas) de 1939, da Academia de Ciências de Lisboa, em reconhecimento pelo seu trabalho no campo da espectrografia utilizando raios-X no estudo dos processos de decaimento radioativo e transmutação.«Análise, por espectrografia de Raios X, de transmutações naturais e provocadas».
Já em plena Segunda Guerra Mundial, em 1940 Manuel Valadares foi novamente bolseiro, estagiando no Instituto Alessandro Volta (o Istituto "A. Volta"), em Pavia, Itália. A escolha daquela instituição deveu-se a ali estar em processo de montagem um acelerador de partículas. Naquele instituto também lhe foi permitido usar um microfotómetro Moll para estudar a intensidade das bandas espectrais do chumbo. De Pavia, Valadares transferiu-se para o Laboratorio di Fisica dell'Istituto Superiore di Sanità, em Roma, onde utilizou um espectrógrafo especialmente construído para estudar a difração da radiação em cristais. Essa permanência de 14 meses na Itália fascista, para além da experiência científica permitiu-lhe conhecer diretamente a realidade política europeia do tempo.
Em 1940 criou-se oficialmente o Centro de Estudos de Física, anexo ao Laboratório de Física da Faculdade de Ciências de Lisboa. Deste Centro foi nomeado diretor o Prof. Cyrillo Soares, que, embora não fosse um investigador, realizou uma obra notável pela orientação imprimida à investigação científica. No outono de 1941 Manuel Valadares regressou a Portugal, e juntou-se à equipa daquele Centro, onde desempenhou um papel importante no início da investigação em física atómica e nuclear.Isabel Serra, (2010). O Laboratório de Manuel Valadares e a Ciência em Portugal. Conferências de História e Filosofia das Ciências promovidas pela Secção Autónoma de História e Filosofia das Ciências. Faculdade de Ciências, Lisboa. Ali orientou pesquisadores em física nuclear e espectrometria e com Aurélio Marques da Silva, Armando Gibert e alguns investigadores mais jovens, entre os quais Lídia Salgueiro, conseguiu que o Laboratório fosse sendo reconhecido internacionalmente. A partir do ano letivo de 1941/1942 foi-lhe atribuída a regência da cadeira de Física, Química e Naturais (conhecida por Física F. Q. N.), destinada a estudantes de Medicina, revelando-se um excelente docente.
Após um longo e complexo processo, só em 1942 obteve na Universidade de Lisboa a equivalência ao grau de doutor que obtivera em Paris em 1931. Messe mesmo ano foi-lhe oferecido emprego como professor na Universidade do Porto, que recusou pois pretendia concentrar-se na investigação científica e não na docência. Isto apesar das excecionais aptidões pedagógicas que demonstrava, facto que se destacou quando lhe foi atribuído o grau de doutor honorário da Universidade de Lisboa em 1981. Confirmando a sua aptidão para o ensino, continuou a preparar um manual destinado aos alunos de licenciatura sobre física atómica, obra que foi publicada em 1947.Elementos de Física Atómica, Sá da Costa Ed., Lisboa, 1947.
Em 1943, com Cyrillo Soares (1883-1950), Aurélio Marques da Silva (1905-1965) e Manuel Telles Antunes (1905-1965), foi co-fundador da revista Portugaliae Physica, com a qual se pretendia divulgar o trabalho de investigação em Física realizado em Portugal e, ao mesmo tempo, divulgar cientistas estrangeiros e os seus trabalhos junto dos investigadores e estudantes portugueses. Contribuiria também em 1946, com Armando Gibert, para a fundação da revista Gazeta de Física, destinada a físicos e estudantes portugueses, publicando vários artigos. A primeira editora deste periódico foi Lídia Salgueiro, cuja tese de doutoramento orientou.