miniaturadaimagem|Selo brasileiro de 1974 com a representação da Iara para divulgação das Lendas Brasileiras
Iara ou Uiara (do nheengatu y + iára, "senhora das águas") é uma entidade lendária da Amazônia, a sereia do folclore brasileiro, metade mulher e metade peixe, de canto irresistível, e confundida com a Mãe-d'Água.
Descrição Trata-se de uma lenda amazônica surgida no século XIX, não havendo referência a ela nos textos coloniais.NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013. p. 565. Surgiu quando confundiram a sereia europeia com a mãe-d'água das águas brasileiras, que é a cobra-d'água e não tem poder algum de sedução.CASCUDO, 1988, p. 706
Segundo o folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo, Iara é a Mãe-d'Água dos brancos, vinda dos portugueses, que trouxeram as sereias da Europa, com modificações negras,CASCUDO, 2012, p. 141 desconhecida pelo indígena brasileiro.CASCUDO, 2012, p. 148
A mãe-d'água do rio São Francisco, também uma iara, é uma mulher-peixe idosa muito alta e muito feia, sem atrativos de sedução, diferentemente da descrição popular dessas sereias fluviaisCASCUDO, 2012, p. 177; também conhecida como "avó-d'água", ela é profundamente humana e rege os destinos dos pescadores do Velho Chico.CASCUDO, 1988, p. 87 Já no rio Amazonas, "mãe-d'água" (paranamaia, "mãe do rio"), registrado pelo botânico e antropólogo Von Martius no século XIX, é o nome que os indígenas dão à cobra-d'água — a Boiuna ou Boiaçu —, que não tem o poder de se tornar mulher nem metade mulher; encontrá-la ou, pior ainda, matá-la trará ruína a toda a tribo.CASCUDO, 2012, p. 377-378
O nome da Iara é emprestado do Uiara (do tupi ‘yîara, de ‘y, “água”, + îara, “dono, senhor”, “dono ou senhor das águas” [a origem tupi do nome do Uiara mostra que se trata de um mito nativo e mais antigo que o da Iara, nome que vem do nheengatu, o tupi moderno]). Uiara é a entidade protetora dos peixes e das águas na mitologia tupi, que os amazônicos dizem mudar entre a forma de boto e de gente. As estórias de sedução atribuídas aos botos, que podem se transformar em homem ou em mulher, são também tardias, surgidas em paralelo às da Iara sedutora,CASCUDO, 1988, p. 140 sofrendo igualmente a influência europeia: mas o golfinho das lendas greco-romanas, animal de Vênus e Afrodite, tem predileção por jovens rapazes em vez de moças, como nas lendas brasileiras.CASCUDO, 1988, p. 142
Cascudo informa que o primeiro a usar “Iara” como sinônimo de “sereia” teria sido Gonçalves Dias (nome, segundo este, vindo de Ig-Iára, "água-senhor").CASCUDO, 1988, p. 706 A Iara de Gonçalves Dias é uma roupagem de cultura europeia. Não há lenda indígena que tenha registrado a Iara de cabelos longos e voz maviosa; lendas indígenas mais velhas citam sempre o terrível homem marinho, o bruto ipupiara, comedor de gente, de quem a Iara também empresta alguns atributos.CASCUDO, 2012, p. 138
Lendas No chamado "furo do Aturiá" no Estreito de Breves, Pará ("furo" é um caminho natural entre dois rios, braço de rio que liga dois caudais, ou entre um rio e um lago), os pescadores e os tripulantes de embarcações, que por aí passam, costumam jogar na água uma peça de roupa qualquer. Segundo dizem, é para abrandar a cólera de uma iara, a rainha das águas, e da velha pobre, que lá habitam.CASCUDO, 1988, p. 84
Num encontro entre as lendas da iara e do boto, diz-se que ela pode transformar uma pessoa nesse animal após a morte, se ela foi, em vida, "abençoada" pelo boto: quando uma pessoa vai à margem do rio, ao sol da manhã ou da tarde, deixando a sombra refletir num perau (declive no leito de um rio), se um boto-vermelho, nessa ocasião, passar-lhe sob a sombra, isto é, cortá-la, ficará "botada"; mas para que a pessoa botada fique encantada, é preciso que, depois de morta, seja o seu corpo posto à mercê das águas, e que seja posto por qualquer parente ou amigo, pois Iara há de transformá-lo em boto-vermelho.CASCUDO, 1988, p. 139
Iara também aparece na lenda da Cobra-Maria do rio Solimões, uma tapuia encantada em serpente gigantesca com poderes mágicos. Segundo registrado pelo escritor brasileiro Quintino Cunha em 1907, a filha de um pajé deixou-se levar pelo amor de um emigrado, concebendo dois filhos gêmeos: José e Maria. Quando o velho pajé soube do caso, calou-se e, quando as crianças nasceram, matou a filha (a mãe das crianças) e atirou os bebês na água, morrendo José; Maria foi protegida pela Iara e hoje faz tudo quanto quer na água; aparece sempre à noite, os seus olhos são duas tochas de fogo, derrubando barrancos, afundando canoas, encalhando navios e fazendo muitos valentes agonizar de fraqueza.CASCUDO, 1988, p. 236
Para livrar o indígena da sedução da Iara o remédio, dizem, é uma fumigação de alho e uma surra com a corda do arco até ficar restabelecido.CASCUDO, 1988, p. 707
Falsa lenda Uma suposta versão da lenda da Iara que tenta atribuir-lhe uma origem indígena aparece frequentemente em mecanismos de busca e nas redes sociais. Nessa história, Iara é uma guerreira bela e corajosa cujas habilidades excepcionais despertaram a inveja de seus irmãos, levando-os a armar uma emboscada contra ela. Iara sobreviveu ao ataque, mas matou os irmãos ao se defender. Seu pai, desolado, condenou-a à morte, e seu corpo foi lançado ao rio Solimões. Compadecidos da jovem, os peixes pediram à Lua que zelasse por ela; assim, ela renasceu como Iara, a sereia brasileira.COSTA, Andriolli. Iara. In: CARTAS DE CULTURA. São Paulo: Estúdio Ampla Arena, 29 jan. 2022.
Apesar de sua mensagem inspiradora e de empoderamento, a origem dessa história não consta em nenhum registro histórico — nem nos escritos dos primeiros cronistas, nem nas interpretações de antropólogos, folcloristas e pesquisadores contemporâneos ou mesmo em contos literários de escritores reconhecidos. Seu registro mais antigo conhecido é uma postagem em um blog do início dos anos 2000, o que mostra que a narrativa é uma invenção puramente ficcional, e não parte do folclore de qualquer cultura específica.
Influência cultural Literatura Diversos escritores notáveis da literatura brasileira já escreveram sobre a Iara.
O poeta maranhense Gonçalves Dias, em seu poema "A Mãe d'Água" (1851), apresentou a personagem-título como uma sereia (ele não a chama de “Iara” aqui), descrevendo-a como uma fada de cabelos loiros tocadora de harpa como as sirenas da mitologia grega e dona de um palácio de cristal no fundo da água como as nereidas também da Grécia.DIAS, Gonçalves. A Mãe d'Água. In: DIAS, Gonçalves. Últimos cantos. Rio de Janeiro: Typographia de F. de Paula Brito, 1851. p. 47–57.
Uma descrição clássica da sereia "indígena", mais europeia impossível e digna de um conto de fadas, está em O Tronco do Ipê (1871) do escritor cearense José de Alencar, que dedica todo o capítulo VIII da primeira parte do romance à Mãe-d'Água. O trecho conta a história de uma princesa das águas, filha da Mãe-d'Água, que se casa com um rei humano e divide sua vida entre o reino terrestre e o palácio submerso da mãe. Quando a fada é transformada em uma flor pelo rei das fadas, a princesa parte em sua busca e, ao retornar, descobre que o marido, enganado por calúnias, casou-se novamente e permitiu que seu filho fosse maltratado. Revoltada com a traição e a injustiça, ela leva o príncipe para o fundo do mar e faz as águas destruírem o reino. Desde então, passa a emergir ocasionalmente para afogar pessoas e levar crianças consigo, explicando, segundo a tradição popular, a origem do temor em relação à Mãe-d'Água.ALENCAR, José de. O tronco do ipê. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1871.
O escritor fluminense Machado de Assis cita a mãe-d'água no poema "Sabina" (1875), presente no livro Americanas, descrevendo sua tez alva e cabelos dourados em contraste com a pele morena e cabelos escuros de Sabina, a mucama da fazenda.ASSIS, Machado de. Sabina. In: ASSIS, Machado de. Americanas. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1875. p. 159–172.
O poema "As Uiáras" (ou "As Uyáras", 1882), do poeta baiano Mello Morais Filho, ficou conhecido ao ser musicada pelo compositor Alberto Nepomuceno no ano de 1895. A obra retrata as mães-d'água, descritas como "alvas, mais alvas que dentes das antas, / mais louras que a pele das onças".MORAES FILHO, Mello. Uyáras: lenda do Amazonas. In: MORAES FILHO, Mello (org.). Revista da Exposição Anthropologica Brazileira. Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro & C., 1882. p. 87–94.
O intelectual e historiador paraense Barão de Santana Néri publicou em 1889 dois contos com a Iara, um ambientado no Pará e outro no Amazonas. A primeira acompanha Januário Marinho, um jovem português noivo de Mundica, que, atraído pelo misterioso canto da iara, desafia os avisos de sua noiva e acaba encontrando a criatura às margens de um igarapé. Fascinado pela aparição, ele passa a oscilar entre a razão e a superstição, até ser vencido pelo encanto da Iara e desaparecer nas águas, sendo posteriormente encontrado morto. Na segunda, um jovem guerreiro da tribo dos manaus, admirado por sua beleza, coragem e habilidade, encontra às margens do igarapé do Tarumã uma mulher de beleza sobrenatural, de cabelos dourados e voz encantadora. Fascinado por sua aparição, ele confidencia o ocorrido à mãe, que o alerta tratar-se da Iara, cujo encanto leva os homens à morte. Ignorando o aviso, o jovem retorna ao local no dia seguinte e desaparece para sempre. Desde então, pescadores afirmam ver, nas noites do igarapé, a figura da Iara cantando ao lado do jovem, até que ambos mergulham juntos nas águas, reforçando a crença no poder sedutor e fatal da entidade.NERY, Frederico José de Santa-Anna. Folk-lore brésilien: poésie populaire, contes et légendes, fables et mythes, poésie, musique, danses et croyances des indiens; accompagné de douze morceaux de musique; préface du Prince Roland Bonaparte. Paris: Librairie Académique Didier Perrin et Cie, 1889. p. 95–150.
O poeta fluminense Olavo Bilac compôs A Iara (1919, publicado postumamente), um célebre poema parnasiano que retrata a sereia do folclore brasileiro, descrevendo-a como uma criatura mítica de cabeleira dourada e corpo frio, representando uma paixão idealizada que seduz o eu lírico. Quando ele tenta abraçá-la, a ilusão se desfaz em espuma.BILAC, Olavo. A Iara. In: BILAC, Olavo. Tarde. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1919.
No romance Macunaíma (1928) do escritor paulista Mário de Andrade, a Uiara (como ele chama a Iara) e a Mãe-d'Água são duas entidades distintas. No capítulo XIII o herói crê que a Boiuna, que o está sempre perseguindo, aparece na cidade de São Paulo para atentá-lo como a mãe d'água, assumindo a forma de um navio iluminado, o “piróscafo”. Ao final do livro, no capítulo XVIII, o herói encontra a Uiara, uma lindíssima cunhã "alvinha", mas também descrita como "morena e coradinha", que mora no fundo de uma lagoa coberta de ouro e prata; já solitário e sem os irmãos, Macunaíma é seduzido pela Uiara, que o devora e o deixa aleijado. Desiludido, solitário e sem forças, o anti-herói decide subir para o céu, onde ele se transforma na constelação da Ursa Maior.ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o heroi sem nenhum caracter. São Paulo: [s.n.], 1928.
Artes visuais thumb|"As Iaras", escultura de bronze de Alfredo Ceschiatti, no Palácio da Alvorada, em Brasília. Conhecidas também como "As Banhistas", as esculturas de bronze "As Iaras" (1958) foram criadas pelo artista plástico mineiro Alfredo Ceschiatti, que também esculpiu a estátua "A Justiça" em frente ao prédio do Supremo Tribunal Federal (STF). Instaladas no espelho d'água do Palácio da Alvorada, em Brasília, as figuras femininas transmitem uma sensação de leveza e movimento, dialogando perfeitamente com a arquitetura de Oscar Niemeyer.BRASIL. Presidência da República. Escultura As Iaras, de Alfredo Ceschiatti, no Palácio da Alvorada (fotografia). Brasília, DF: Presidência da República, [s.d.].
Audiovisual