O Jean Bart foi um couraçado operado pela Marinha Nacional Francesa e a segunda embarcação da Classe Richelieu, depois do e seguido pelo Clemenceau e Gascogne, porém estes não foram finalizados. Sua construção começou em dezembro de 1936 em resposta à italiana Classe Littorio, sendo lançado ao mar em março de 1940, alguns meses depois do início da Segunda Guerra Mundial. O projeto do Jean Bart e seus irmãos foi baseado em seus predecessores da Classe Dunkerque, tendo mantido o mesmo arranjo incomum da bateria principal de duas torres de artilharia quádruplas montadas na proa do navio. Era armado com oito canhões de 380 milímetros, tinha deslocamento carregado de mais quarenta mil toneladas e conseguia alcançar uma velocidade de mais de trinta nós.
A embarcação não estava finalizada quando a Alemanha venceu a Batalha da França em junho de 1940, com o Jean Bart fugindo para Casablanca com apenas uma torre de artilharia e algumas armas antiaéreas instaladas. Os franceses tentaram prepará-lo para ação o quanto possível sob infraestrutura e materiais limitados. Forças Aliadas invadiram o Norte da África em novembro de 1942 e o Jean Bart inicialmente tentou resistir ao ataque, entrando em um duelo com o couraçado estadunidense até ser danificado por ataques aéreos. Os franceses deserdaram para o lado Aliado e tentaram fazer com que a embarcação fosse completada nos Estados Unidos, porém sem sucesso. Ele foi então consertado o quanto possível em Casablanca e usado como navio de treinamento pelo restante da guerra.
Discussões sobre o destino do Jean Bart ocorreram em 1945, com as opções consideradas sendo finalizá-lo como um couraçado, convertê-lo em um porta-aviões ou descartá-lo por completo. A Marinha Nacional por fim decidiu completá-lo como couraçado com modificações, um processo que durou vários anos. A maioria dos trabalhos foi finalizada em 1955, quando o Jean Bart finalmente entrou em serviço ativo, realizando pouco depois duas viagens para o exterior até a Dinamarca e Estados Unidos. Ele participou da intervenção francesa na Crise de Suez em novembro de 1956, incluindo um breve bombardeio de Porto Said. O navio foi colocado na reserva em agosto de 1957 e usado como alojamento flutuante até 1961. Foi renomeado e permaneceu inoperante até 1970, quando foi enviado para desmontagem.
Características
thumb|250px|esquerda|Desenho de reconhecimento do Richelieu em sua configuração original A Itália anunciou em 1934 a construção de dois novos couraçados, com a Marinha Nacional Francesa iniciando imediatamente preparações para combatê-los. Os pequenos couraçados da Classe Dunkerque serviram de base para o novo projeto, porém precisavam ser ampliados para se igualar aos italianos, tanto em termos ofensivos quanto defensivos. A equipe de projeto considerou armas de 380 e 406 milímetros, porém a segunda opção foi descartada pois não podia ser incorporada em um projeto dentro do limite de toneladas do Tratado Naval de Washington. A Classe Dunkerque tinha seu armamento principal em duas torres de artilharia quádruplas à vante da superestrutura e os projetistas experimentaram outros arranjos, porém a necessidade de maximizar o comprimento da blindagem e o peso fez com que adotassem a mesma disposição.
O Jean Bart, como originalmente projetado, tinha 247,85 metros de comprimento de fora a fora, boca de 33,08 metros e calado de 9,9 metros. Possuía um deslocamento padrão de toneladas, mas esse valor podia chegar a toneladas quando totalmente carregado com suprimentos de combate. Seu sistema de propulsão tinha seis caldeiras Sural alimentadas por óleo combustível que impulsionavam quatro conjuntos de turbinas a vapor Parsons, que chegavam a produzir um total de 155 mil cavalos-vapor (114 mil quilowatts) de potência. O Jean Bart era capaz de alcançar uma velocidade máxima de 32 nós (59 quilômetros por hora) e tinha uma autonomia de 9,5 mil milhas náuticas (17,6 quilômetros) a uma velocidade de quinze nós (28 quilômetros por hora). Sua tripulação era de oficiais e marinheiros. A embarcação também era equipada com duas catapultas de lançamento no convés da popa, quatro hidroaviões Loire 130 para ações de reconhecimento e um guindaste para içar as aeronaves de volta a bordo.
A bateria principal do Jean Bart consistia em oito canhões Modèle 1935 calibre 45 de 380 milímetros. Estes eram montados em duas torres de artilharia quádruplas, ambas na frente da superestrutura com uma torre sobreposta a outra. Seu armamento secundário tinha nove canhões Modèle 1930 calibre 55 de 152 milímetros montados em três torres triplas, todas instaladas na parte de trás da superestrutura. A defesa antiaérea era composta por doze canhões Modèle 1930 calibre 45 de 100 milímetros dispostas em torres duplas, oito canhões Modèle 1925 de 37 milímetros em torres de artilharia duplas e vinte metralhadoras em quatro montagens quádruplas e duas duplas. O cinturão de blindagem tinha entre 177 milímetros de espessura nas extremidades e 327 milímetros na área central do navio, enquanto o convés era protegido por uma blindagem que ia desde quarenta milímetros até 170 milímetros de espessura. As torres de artilharia eram protegidas por 430 milímetros na frente, trezentos milímetros nas laterais, tetos que ficavam entre 170 e 195 milímetros e traseiras de 260 a 270 milímetros. A torre de comando tinha laterais de 340 milímetros, teto de 170 milímetros e traseira de 280 milímetros.
História Construção e fuga O contrato para a construção do Jean Bart foi entregue a Chantiers de Penhoët em Saint-Nazaire no dia 27 de maio de 1936. O batimento de quilha ocorreu em 12 de dezembro, menos de três semanas antes do fim do Tratado Naval de Washington. A construção do Jean Bart e seu irmão colocou a França em violação dos termos do tratado, que limitava o país a construir no máximo de 71 mil toneladas de novos couraçados durante um período de dez anos. Os dois membros da Classe Richelieu e os dois navios da Classe Dunkerque totalizavam 125 mil toneladas. A França rejeitou as objeções britânicas, citando em junho de 1935 o Acordo Naval Anglo-Germânico, que o Reino Unido tinha assinado unilateralmente com a Alemanha e efetivamente nulificado as cláusulas de desarmamento naval do Tratado de Versalhes no processo. Os trabalhos na embarcação mesmo assim foram atrasados pela escassez de trabalhadores e a necessidade de completar o casco do couraçado para que este fosse lançado ao mar no mesmo mês. A nova doca seca usada para construir o navio era a recém finalizada Doca Caquot, nomeada em homenagem ao seu engenheiro Albert Caquot, porém ela era comumente chamada de "Doca Jean Bart". As obras no couraçado inicialmente prosseguiram devagar, mas as tensões cada vez maiores com a Alemanha no início de 1939 fizeram com que uma ênfase maior fosse dada para a finalização do navio. Essas tensões levaram à Invasão da Polônia em setembro e o início da Segunda Guerra Mundial.
O couraçado foi lançado em 6 de março de 1940, porém, devido aos sucessos alemães na Batalha da França no início de maio, os construtores perceberam que o processo normal de equipagem teria de ser abandonado em favor de preparar a embarcação para partir. Os trabalhos no sistema de propulsão foram acelerados; 3,5 mil trabalhadores foram designados para o projeto, com três caldeiras, dois conjuntos de turbinas, dois turbo-geradores e duas bombas d'água sendo instalados em um mês, além de sistemas de comunicação internos importantes. As hélices externas foram instaladas em 6 e 7 de junho, enquanto suas três caldeiras foram acesas pela primeira vez nos dias 12 e 14. Seu leme e correntes das âncoras foram instalados, enquanto o fundo duplo selado. O armamento do Jean Bart estava praticamente incompleto; a primeira torre de artilharia principal tinha seus canhões e blindagem instalados, porém não tinha o equipamento necessário para lidar com os projéteis e muito mesmo um diretório de controle de disparo. A segunda torre estava sem armas e blindagem e nenhum dos canhões secundários tinham sido instalados. Quatro canhões antiaéreos Modèle 1930 de 90 milímetros, tirados do colocador de redes Gladiateur, foram instalados em 18 de junho durante a corrida para preparar o navio para partir, no lugar das armas de 100 milímetros, cujas construções tinham sido adiadas, porém na época não tinham munição ou diretórios. Três das armas de 37 milímetros e seis das metralhadores de 13 milímetros foram instalados, os únicos armamentos operacionais a bordo do couraçado na época de sua partida, porém apenas sob controle local, pois seus diretórios também não tinham sido completados.
O capitão Pierre-Jean Ronarc'h, o oficial comandante do Jean Bart, recebeu ordens em 11 de junho, enquanto os trabalhos ainda estavam em andamento, para partir com o navio até Casablanca, no Marrocos, assim que possível. Ele estimou que o dia 19 seria a melhor oportunidade baseado nas marés, com o navio sendo rebocado para fora da doca às 3h30min daquela manhã por três rebocadores até um canal que tinha sido rapidamente dragado, mas não suficientemente, para permitir que a embarcação escapasse. O Jean Bart encalhou acidentalmente na escuridão, entortando uma das lâminas de sua hélice, porém os rebocadores conseguiram liberá-lo às 4h45min e a tripulação ligou os motores. Três bombardeiros alemães Heinkel He 111 achegaram pouco depois a uma altura de um quilômetro e atacaram o navio. Uma das aeronaves acertou uma bomba de cem quilogramas entre as torres de artilharia, porém causando apenas danos insignificantes. O couraçado aumentou sua velocidade para doze nós (22 quilômetros por hora) e se encontrou às 6h30min com os contratorpedeiros Le Hardi e Mameluk, que deveriam escoltá-lo na viagem até Casablanca. O contratorpedeiro britânico HMS Vanquisher e dois rebocadores encontraram os franceses no mar e se ofereceram para rebocar o Jean Bart até o Reino Unido, porém Ronarc'h recusou a oferta. A embarcação reabasteceu óleo combustível a partir de dois petroleiros às 18h00min e deixou a área com suas escoltas. O contratorpedeiro Épée substituiu o Le Hardi no dia seguinte enquanto passavam por Lorient, com os três navios navegando a uma velocidade de 24 nós (44 quilômetros por hora) até finalmente chegarem em Casablanca às 17h00min de 22 de junho.
Casablanca thumb|290px|O Jean Bart em Casablanca O Jean Bart teve a maioria de suas armas antiaéreas removidas a fim de fortalecer as defesas do porto; os canhões de 90 e 37 milímetros foram transferidos para os molhes que protegiam o porto, enquanto duas das metralhadoras foram colocadas em caminhões. Os franceses assinaram o Armistício de 22 de junho de 1940, encerrando sua participação na guerra. Eles propuseram durante as negociações de paz que o Jean Bart e outras embarcações em Orã, na Argélia, fossem neutralizadas, porém foi concordado que o couraçado e seu irmão Richelieu fossem levados para Toulon e desmobilizados. Os alemães depois voltaram atrás, pois temiam que os britânicos tentariam tomar os navios enquanto passassem pelo Estreito de Gibraltar. Os britânicos, por outro lado, estavam sob a falsa impressão que os alemães tentariam tomar a frota francesa para uso próprio. Isto levou à Operação Catapulta, uma série de ataques contra navios de guerra franceses a fim de neutralizar aqueles que não deserdaram para a França Livre.