Paulo Virgínio, pseudônimo de Paulo Gonçalves dos Santos (Cunha, — Cunha, 28 de julho de 1932), foi um trabalhador rural brasileiro natural do Taboão, bairro posicionado a cerca de vinte quilômetros ao sul do centro de Cunha, no interior do estado de São Paulo, Brasil. Filho do senhor Virgínio Gonçalves dos Santos e da dona Maria Joaquina de Jesus, ambos naturais daquele município, tornou-se um dos principais mártires e heróis civis da Revolução Constitucionalista.“9 de julho: as marcas em São Paulo da revolução por trás do feriado” BBC News Brasil
Símbolo da resistência popular sertaneja perante a ditadura do então presidente Getúlio Vargas, foi morto no bairro cunhense da Aparição (no km 56,9 da atual estrada de rodagem SP-171) com dezoito tiros nas costas por não ter revelado aos legalistas fluminenses, presentes naquelas redondezas, onde estavam posicionadas as guarnições da Força Pública (hoje Polícia Militar) de São Paulo ao longo daquela via e quais seriam os possíveis caminhos para desviar do centro do município e chegar à capital paulista, evitando o bloqueio terrestre.
O seu apelido deriva de “Paulo do Virgínio” ou “Paulo, filho do Virgínio”, em referência ao nome de seu pai; todavia, é possível encontrar na literatura uma variante com a letra L (“Virgílio”)“O Mártir Desconhecido – Uma Breve Lembrança de Paulo Virgílio” São Paulo in Foco ou misturada com seu sobrenome (“Paulo Virgínio Gonçalves”), como mencionado na página eletrônica sobre a Ação Penal n.° 3.190/1933,“Paulo Virgínio Gonçalves” ARQUIMEDES/STM do Supremo Tribunal Militar (STM) do Brasil. Seu apelido não guarda qualquer relação ou reminiscência com a obra Paulo e Virgínia de Bernardin de Saint-Pierre, 1788.
Nascimento e Modo de Vida
Sobre a data exata de nascimento de Paulo Virgínio, existem divergências históricas significativas. É possível encontrar fontes que apontam para o ano de 1899 (dando a ele uma faixa etária simbólica correspondente à idade de Jesus Cristo durante sua crucificação); porém, a Sociedade dos Veteranos de 32 - MMDC sustenta a data 26 de setembro de 1897, domingo de sua apresentação à Comunidade Católica, sob a administração pública da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição (Igreja Matriz de Cunha), como o testemunho mais antigo de sua existência recém-nascidaSOCIEDADE VETERANOS DE 32 - MMDC, Associação. “Morro, mas São Paulo vence! – Paulo Gonçalves dos Santos, Mártir e Herói Cunhense”. [S. l.], [28/07/2018]. Disponível em: <https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1083016378516966&id=200379003447379&set=a.200401880111758>. Página oficial da Associação no Facebook: <https://www.facebook.com/mmdc32/about_profile_transparency>) — resultando-lhe uma idade maior de 33 anos —. No Direito, documentos eclesiásticos, como certidões de batismo ou de casamento, emitidos antes ou durante a transição para o registro geral (RG) obrigatório (em vigor legal desde 1888) possuem fé pública para fins de prova de filiação e data de nascimento em casos de ausência do RG ou qualquer outro documento civil.“De quem foi o RG de número 1?” Superinteressante
thumb|330px|Igreja Matriz de Cunha Paulo Gonçalves dos Santos é originário de uma família de camponeses que habitavam o sertão do Taboão, um bairro de Cunha localizado na zona do Indaiá (fração da Serra do Mar, que confina com as terras altas da Bocaina), próximo à fronteira (divisa) natural com o Rio de Janeiro. Como sua vida particular não é de domínio público, não há muitas menções sobre sua infância ou estilo de vida: apenas que recebeu uma educação modesta e, durante seu crescimento, sempre permaneceu pelas redondezas daquele sertão, vivendo de poucos recursos, no étnico modo “caipira” de ser (ou seja, como uma pessoa simples do campo).
Apesar de ser semianalfabeto, o jovem rapaz aprendeu sobre como lavrar o solo — isto é, a preparar a terra para os vários tipos de plantação — e a cuidar da roça. Seguindo pela sua fase adulta, trabalhou para proprietários de terra locais, zelando por arados e lavouras, o que consolidou sua identidade como lavrador. No livro Cruzes Paulistas (1.ª publicação em 1936), o jurista e então promotor público José Augusto César Salgado (que iniciou sua carreira advocatícia na própria comarca de Cunha)“César Salgado: O Promotor das Américas” Ministério Público de São Paulo descreveu-o como uma pessoa humilde, inteligente e simpática (boa de prosa). Em sua formação rural, o lavrador adquiriu um saber empírico sobre caminhos e trilhas que conectavam diversas localidades entre o Vale do Paraíba e o litoral, quando transportava carga de Cunha a Paraty e vice-versa, com seus colegas tropeiros, todos a cavalo pela estrada de rodagem que fez parte do antigo Caminho do Ouro e hoje transformou-se na SP-171, na parte paulista (até Guaratinguetá), e na RJ-165, na parte fluminense.“Cruzes Paulistas: os que tombaram, em 1932, pela glória de servir São Paulo” Benedicto Montenegro; Jefferson Biajone et al., pp. 528-533 (em PDF)
thumb|330px|Exemplo de um casebre feito de pau-a-pique A vida do trabalhador rural foi humilde, no sentido de que sua família foi criada na ausência de grandes luxos, ou seja, não era rica de modo socioeconômico e possuía requintes de simplicidade ligados à cultura de subsistência. Viviam em um casebre, habitação típica de sociedades caipiras (sertanejas) que vivem um isolamento profundo, distantes das áreas urbanizadas. Como não há muitas menções historiográficas de suas ações cotidianas, não é uma tarefa tão simples conciliar contos populares com o que aconteceu de fato. Contudo, o que pode ser afirmado e verificado é que, durante o período de transição política, entre a República Velha e a Era Vargas, ele constituiu família — esposando a dona Juventina Maria da Conceição“Eduardo César Werneck: ‘Você não sabia, mas isto aconteceu em 1932’” Jornal ROL e tornando-se pai dedicado de três crianças (de nomes Virgílio (o neto), José e Júlia)“Filhos do Paulo Virginio, da esquerda pra direita Tio Virgílio, tia Júlia e meu pai José Paulo Virginio”. Disponivel em: <https://www.facebook.com/groups/memoriacunhense/permalink/8565997350083042/>, Memória Cunhense - Facebook] — e sempre permaneceu com eles na área dos bairros vizinhos à divisa do estado, a cerca de vinte quilômetros de distância da zona urbana.
A preservação do registro histórico do jovem lavrador materializou-se na toponímia de diversos logradouros pelo estado de São Paulo. O 1.° trecho da estrada de rodagem SP-171, que liga os municípios de Guaratinguetá e Cunha, foi oficialmente denominado Rodovia Paulo Virgínio pela Lei Estadual n.º 1.585 de 17 de abril de 1978.“Lei nº 1.585, de 17 de abril de 1978 – Denomina 'Paulo Virgínio' a Rodovia SP-171, que liga Guaratinguetá a Cunha” Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo Além dessa importante via de comunicação, sua designação toponímica estende-se a outras vias públicas localizadas em cinco municípios: em Campinas (sob o Código brasileiro de Endereçamento Postal (CEP) n.º 13044-240);“Rua Paulo Virgínio, Campinas (SP)” Código Postal Org na Vila Mariana, na Capital (sob o CEP n.º 04012-180);“Rua Paulo Virgínio, São Paulo (SP)” Código Postal Org no bairro Paulicéia, em São Bernardo do Campo (sob o CEP n.º 09684-000);“Rua Paulo Virgínio, São Bernardo do Campo (SP)” Código Postal Org no centro de Palmital (sob o CEP n.º 19973-140);“Rua Paulo Virgínio, Palmital” Google Maps e, como reconhecimento em sua terra natal, no perímetro urbano de Cunha (sob o CEP n.º 12530-000).“Travessa Paulo Virgínio, Cunha (SP)” Lista Mais
Uma das homenagens significativas foi realizada em 3 de fevereiro de 1967, quando seu nome também foi dado à maior instituição de ensino de Cunha. Criada originalmente como Escola normal e Ginásio através da Lei n.º 9.719, a instituição nasceu com o propósito de suprir a necessidade de formação docente e intelectual no município.“Projeto de Lei nº 1.069, de 1965 – Dispõe sobre a denominação de 'Paulo Virgínio' ao Ginásio Estadual e Escola Normal de Cunha” Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo Ao longo das décadas, passou por importantes transformações administrativas: em 1970, foi elevada à categoria de Colégio Estadual; e, em 1976, foi reorganizada como Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau.“Escola Estadual Paulo Virgínio” Portal da Transparência - Secretaria da Educação de SP Em janeiro de 2020, tornou-se uma das sedes do Centro de Estudos de Línguas (CEL), oferecendo cursos de idiomas estrangeiros a estudantes do ensino público.“Edital de Credenciamento – Centro de Estudos de Línguas (CEL) – EE Paulo Virgínio (Cunha)” Diretoria de Ensino de Guaratinguetá Sendo a principal instituição de ensino da região, essa Escola Estadual desempenha um papel fundamental no desenvolvimento social dos habitantes locais, acolhendo estudantes tanto da cidade como provenientes de diversos bairros rurais e dos sertões de Cunha. Assim, o nome “Paulo Virgínio” deixou de representar apenas o episódio trágico de uma guerra nacional para tornar-se um símbolo de acesso ao conhecimento e progresso para as novas gerações de cidadãos brasileiros.
Ver também
Revolução Constitucionalista de 1932 Rodovia Paulo Virgínio e Salvador Pacetti
Ligações externas
Obelisco do Ibirapuera - Site Oficial O Monumento-Mausoléu aos Heróis de 1932 - Portal Última Trincheira
Bibliografia
MONTENEGRO, Benedicto [et al]. Cruzes Paulistas: 90 Anos da Epopeia de 32. Itapetininga: Museu Histórico de Itapetininga, 2022 (Versão digital). Disponível em: <https://mh.itapetininga.com.br/1932/cruzespaulistas90.pdf>. SCHMIDT, César Borges. Paulo Virgínio. Paulistânia, São Paulo, n. 23, maio-jun. 1948.el. Monumentos de São Paulo: a história da cidade contada por suas obras. São Paulo: Amarelo Grão, 2025.
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