A educação em Angola diz respeito ao conjunto de elementos formais que se somam para formar do sistema de ensino do país, que mescla estabelecimentos de ensino público, privado e comunitário/confessional.

Dada a característica do país, de colonização e independência tardia, o sistema educacional angolano demorou sobremaneira para desenvolver-se, pautando-se em ciclos de franca expansão, com períodos de praticamente dormência. A independência da nação e sua subsequente vinculação ao bloco socialista, bem como as guerras colonial e civil, influiu bastante no sistema de ensino da jovem nação.

Desenvolvimento histórico

Período pré-colonial Ao chegar a bacia do congo, em 1481, Portugal encontrou uma série de Estados africanos que dominavam a região. Esse contato deixou registrado que naqueles territórios já havia uma educação formal, pelo menos voltada às cortes reais locais, aos chefes tribais e aos indivíduos mais influentes daquelas sociedades.

No Reino do Congo os portugueses tanto se impressionaram do grau de instrução das pessoas que ali viviam que, depois de se familiarizarem, os chamaram de "gregos de África". Já no século XV existiam escolas de mestres em Mabanza Congo, a capital do reino, fato que levou os portugueses a levar alguns daqueles cidadãos do Congo para ministrar aulas de humanidades na metrópole. Em contrapartida, a comitiva de Diogo Cão, com autorização do rei João I do Congo, partiu com um grupo de nobres do Congo "a fim de serem educados em Portugal e instruídos e baptizados na fé cristã".

Período colonial antigo (1482 a 1926) thumb|left|250px|Escola de Missionários Batistas, em 1911, no norte de Angola. O ensino escolar de influência portuguesa em Angola teve início no século XVI, portanto muito antes do actual território constituir uma unidade. No decorrer da sua presença no Reino do Congo, os padres católicos presentes na corte de Mabanza Congo empenharam-se em divulgar não apenas o cristianismo, mas também a língua portuguesa e a correspondente escrita, bem como rudimentos de matemática..

Em 1514, já existiam no Reino do Congo escolas masculinas de influência católico-portuguesa em Sundi, Quimbamba, Bambata e Pango. Uma irmã do rei ensinava meninas numa escola de Mabanza Congo. Essa geração de mestres eram compostos também por congoleses formados em Portugal nos Lóios e as cartilhas de ensino impressas nas oficinas congolesas. Em 1548, o padre Diogo Gomes foi mandado ao Congo, abrindo uma escola para 600 estudantes.

Depois da fundação das Praças Fortes de Luanda e de Benguela, estabeleceram-se lá algumas escolas de nível básico, inicialmente apenas para filhos dos colonos brancos, inclusive alguns que tiveram mulheres africanas, depois também para um pequeno número de crianças africanas. Nesta fase, as escolas não constituíam um sistema de ensino e nem sequer tinham estruturas muito definidas.

Entre 1548 e o século XIX o ensino foi basicamente capitaneado pelos missionários católicos. A primeira viragem ocorreu no ano de 1699, quando foi iniciada a Aula de Geometria e Fortificação, o primeiro curso de Engenharia da África Subsaariana, voltado para os militares portugueses, tendo como finalidade preparar os mesmos para erguer as edificações da colônia. Em 24 de Abril de 1789 foi criada a Aula de Medicina e Anatomia de Luanda, pela Carta Patente de D. Maria I, sendo a predecessora reclamada da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto. Em 29 de Dezembro de 1836 a Aula de Medicina passou a denominar-se Escola Médico-Cirúrgica de Luanda e, em 2 de Abril de 1845, alterou-se finalmente a denominação para Instituto Prático de Medicina da África Ocidental Portuguesa.

A situação mudou no decorrer do século XIX, quando Portugal passou a ocupar lentamente o território correspondente ao de Angola de hoje e, paralelamente à acção militar, e muitas vezes a precedê-la, houve uma acção missionária cada vez mais extensa, tanto católica como protestante. Os missionários ligavam sempre a cristianização a uma escolarização mais ou menos desenvolvida. Esta começou, inclusive, a abranger a população africana urbanizada que se aglomerava em Luanda e Benguela bem como nas vilas que se foram fundando passo a passo.

Assim, apenas em 1845 foi instituída em Angola uma estrutura oficial do ensino, pelo decreto de 14 de agosto de 1845, criado por Joaquim José Falcão, ministro do Estado, da Marinha e do Ultramar, e assinado pela rainha D. Maria II. Falcão criou algumas escolas, tal como a Escola Principal de Instrução Primária, e constituiu um Conselho Inspetor de Instrução Pública.

O final deste ciclo pode-se dizer que ocorreu com a instalação do primeira liceu angolano, o Liceu Central de Luanda (atual Magistério Mutu-ya-Kevela), em 22 de fevereiro de 1919, somente equiparado ao regime jurídico dos liceus da metrópole em 13 de dezembro de 1923.

Período colonial clássico (1927 a 1961) thumb|left|250px|Mapa do mundo com azulejos portugueses, em uma das paredes do Edifício Liceu Nacional Salvador Correia, sede do Magistério Mutu-ya-Kevela, em 2013. No início do século XX, delimitado no essencial o território colonial, iniciou-se a construção de um Estado colonial e, inclusive, de um incipiente sistema de ensino: ao lado das escolas missionárias, criaram-se nos ambientes urbanos escolas básicas do Estado e, pouco a pouco, alguns liceus. Em meados dos anos 1920, com o advento do Salazarismo em Portugal, houve uma primeira sistematização deste sector, que durou 30 anos e que, no período do "colonialismo tardio", cedeu o lugar a um sistema inteiramente reformulado. Para o período de ocupação colonial podem, portanto, distinguir-se duas fases no domínio da educação escolar, uma de 1928 a 1958, e outra de 1958 a 1975.

O primeiro período caracteriza-se pela aplicação ao ensino de uma política de separação por raças que chegou a ser apelidada de apartheid branda. Para o nível primário e secundário geral foi introduzida uma distinção e separação entre escolas que obedeciam ao modelo introduzido em 1927 em Portugal, reservados aos "civilizados" (brancos, a maior parte dos mestiços, um ínfima parte dos negros) e escolas para "indígenas" que, geralmente, não iam para além da segunda classe. Na primeira categoria, as escolas eram na sua maioria estatais, mas numa parte significativa (a partir dos anos 1930) também privadas ou de comunidades religiosas. O número de alunos do ensino primário nesta categoria, cerca de 4000 em 1929/30, chegou a mais de 35 000 em 1959/60, sendo pouco menos da metade brancos, perto da quarta parte mestiços, e mais da quarta parte negros. O desenvolvimento a nível secundário foi mais lento e acentuou-se apenas nos anos 1950. Para além de liceus em Luanda e no Lubango houve sobretudo os seminários menores da Igreja Católica. Em 1960, o total dos alunos de nível secundário era de cerca de 11 000, na sua grande maioria brancos.

No desenvolvimento do ensino para "indígenas" podem, durante este período, distinguir-se duas fases. De 1926 a 1941 ele teve pouca expressão: em 1929/30 contava apenas com cerca de 2000 alunos, metade nas "escolas-oficinas", metade nas "escolas rurais". Em 1937 estes tipos de escolas públicas foram extintos e substituídos por "escolas elementares de artes e ofícios". Entretanto ocorreu neste domínio uma mudança incisiva pelo facto de o Estado Português encorajar as Missões Católicas a aumentarem a sua actividade no ensino para indígenas, permitindo o mesmo às Missões Protestantes. Em 1929/30, havia pouco mais de 3000 alunos no ensino católico, e dez anos depois eram cerca de 7000. Durante esta fase, o número de alunos no ensino protestante manteve-se estável, pouco acima de 9000.

Uma situação nova dá-se com a assinatura, em 1941, do chamado Acordo Missionário . Este acto entrega às Missões Católicas a responsabilidade integral do ensino para indígenas, então designado como "ensino rudimentar" (e mais tarde como "ensino de adaptação"). As suas escolas são reconhecidas como oficiais. A manutenção do mesmo tipo de escolas é permitida às Missões Protestantes, mas sem reconhecimento como oficiais. O Estado retira-se desta área, exceptuando as poucas escolas de artes e ofícios, que em 1949/50 tinham menos de 400 alunos.

Durante os anos 1940 e 1950 verifica-se nestes sectores um crescimento contínuo, embora lento. Em 1959/60 encontram-se quase 70 000 alunos nas escolas de adaptação. As escolas normais de adaptação, entretanto fundadas, têm mais de 300 alunos. As escolas de artes e ofícios têm cerca de 1500 alunos. Perto de 290 000 crianças frequentam as escolas de catequese das Missões Católicas, que não fazem parte do sistema "oficial e oficializado" de ensino.

Expansão colonial tardia (1962 a 1975) thumb|right|250px|Estudantes durante atividade recreativa no pátio do Colégio P.S.V., em Lubango, em 2011. Já nos últimos anos 50, houve alterações no sentido de uma flexibilização do sistema. Registou-se uma maior articulação entre os sistemas primários "regular" e "de adaptação", em termos de programas e de possibilidades de passar do segundo para o primeiro. Em reacção às primeiras manifestações de uma resistência anti-colonial armada, ocorridas em 1961, Portugal adoptou medidas radicais, concebidas para opor às ideologias nacionalistas o modelo de uma real integração. Em 1962 foi abolido o Estatuto do Indigenato, reconhecendo a todos o estatuto de cidadão. No domínio do ensino primário, houve uma unificação: a uma classe pré-primária seguiam-se quatro anos regulares. As escolas elementares de artes e ofícios mantiveram-se a título de excepção. Em consequência destas medidas, houve uma verdadeira explosão primeiro do ensino primário, a seguir do ensino secundário. Além disto, foram fundados alguns institutos profissionais de nível médio, bem como a Universidade de Luanda (com uma faculdade no Huambo). Em 1972/73, o total dos alunos tinha quadruplicado em relação a 1961/62: o seu total era ligeiramente superior a 600 000 - mais de 500 000 no ensino primário, cerca de 75 000 no ensino secundário, mais de 3000 no ensino normal (preparação de professores do ensino primário) e um número sensivelmente igual no ensino superior.

Importa salientar que a nível primário a taxa de insucesso escolar era extremamente alta: apenas cerca de 10% dos alunos que ingressavam na classe pré-primária conseguiam concluir o 4º ano. A razão principal residia no facto de apenas uma pequena minoria dos professores ter as habilitações regulares (frequência de uma escola de magistério), mas também que estes estavam sem excepção concentrados nas áreas urbanas. Uma segunda categoria eram os "professores de posto", com uma formação pedagógica básica. Além disto havia os "professores auxiliares" (alguma formação secundária) e os "monitores" (apenas a 4ª classe), ambos sem formação profissional. Em 1970, no universo rural menos de 10% eram professores de posto, enquanto mais de 40% eram professores auxiliares e outros tantos monitores.

De 1961/62 a 1972/73, o aumento do número dos alunos do ensino secundário e médio foi de 500%.. A razão principal residiu, naturalmente, na abertura à procura por parte dos anteriormente "não civilizados". Contribuiu ao aumento também a criação de Escolas Preparatórias que representavam uma uniformização, e autonomização institucional, dos dois primeiros anos do ensino secundário (liceal, técnico, comercial). Uma terceira razão foi o aumento do número de liceus, essencialmente em resposta a uma pressão por parte das pequenas burguesias de todas as raças.