Celeste Alexandre Gobbato (Volpago del Montello, – Porto Alegre, ) foi um agrônomo, enólogo, professor, político, escritor e cientista ítalo-brasileiro. Considerado o grande pioneiro da vitivinicultura moderna no Brasil, deixou notável contribuição ao estudo e ao aperfeiçoamento da produção da uva e do vinho, dando aulas, prestando assessorias técnicas, dirigindo instituições e escrevendo obras de referência neste campo que em seu tempo tiveram larga circulação. Também fez carreira política, sendo intendente de Caxias do Sul e deputado estadual do Rio Grande do Sul. Como governante de Caxias realizou obras importantes, apesar de administrar entre grandes disputas e controvérsias, e na Assembleia Legislativa foi um defensor dos agricultores.
Primeiros anos e chegada ao Brasil Filho de Pedro Gobbato e Anna Agnoletti, formou-se em Enologia e Viticultura na Scuola di Conegliano e fez doutorado em Ciências Agrárias na Universidade de Pisa. Depois dirigiu uma vinícola em Treviso, deu aulas de Agronomia e Agricultura em Allano e foi nomeado assistente do Instituto Agrário de Treviso. Veio para o Brasil em 1912 a convite do Governo do Estado do Rio Grande do Sul a fim de ensinar na Escola de Engenharia de Porto Alegre. Trazia também uma sólida bagagem intelectual em Geografia, Literatura, História, Economia e Filosofia.Monteiro, Katani Maria Nascimento. Um Italiano Irrequieto em Contexto Revolucionário - Um estudo sobre a atuação de Celeste Gobbato no Rio Grande do Sul (1912-1924). Porto Alegre: PUCRS, 2001, pp. 22-26
No Instituto de Agronomia e Veterinária deu aulas em uma diversidade de disciplinas, incluindo Economia Rural e Social, Elementos de Mineralogia e Geologia Agrícola, Elementos de Física e Química Agrícola, Mecânica Elementar e Máquinas Agrícolas, Fermentos e Fermentações, Economia Rural, Enologia e Viticultura, Química Agrícola e Bromatologia, e Legislação Agrária e Florestal. Também escrevia numerosos artigos e dava instrução e pareceres sobre pecuária, triticultura e silvicultura. Segundo Katani Monteiro,
"A diversidade de assuntos de que Gobbato trata é excepcional para se valorizar o seu envolvimento e compreensão para com as formas de atividade agrícola e pecuária no Rio Grande do Sul durante a República Velha. A partir desses artigos é possível apontar os aspectos que Gobbato tentava valorizar, recuperar, construir e divulgar através de sua intensa produção cultural com objetivos eminentemente práticos voltados para o saneamento dos problemas da fauna e da flora existentes, que ele incansavelmente apontou e ajudou a combater".
De acordo com um testemunho da época, era um excelente professor, "assíduo, pontual, didático, humano, amigo dos alunos, granjeou logo simpatias sem reservas. [...] Não consultava apontamentos; fluente e seguro, marcava a sua segurança, quando, na Fitopatologia se referia às doenças criptogâmicas da parreira, assunto de sua predileção". Como professor do Instituto de Agricultura Borges de Medeiros, a partir de 1920 tornou-se o chefe do Ensino Ambulante, visitando plantações, granjas, fazendas e cantinas do Rio Grande do Sul a Minas Gerais, dando aconselhamento técnico. Como enólogo se preocupava especialmente com a modernização e higienização do processo de cultivo da uva e da produção do vinho, e com a seleção de videiras mais adaptadas ao clima gaúcho, que possibilitassem a obtenção de um vinho superior. Sua atuação foi importante para reforçar a competitividade do produto sulino no centro do país. Além disso, foi ativo na estruturação do Posto Zootécnico e da Estação Experimental da Escola de Engenharia, instalados em Viamão.Monteiro, pp. 42-107 Em 1921 foi nomeado pelo Governo do Estado para fazer parte da comissão encarregada de organizar o regulamento da Cooperativa da Escola de Engenharia.
Caxias do Sul thumb|Celeste Gobbato em sua posse em 1924.
Seu grande prestígio entre os imigrantes italianos da região serrana do estado e sua própria condição de italiano tornaram fácil sua eleição para o cargo de Intendente de Caxias do Sul. Era já bem conhecido na cidade, em 1913 havia assessorado o intendente Pena de Moraes fornecendo-lhe um relatório sobre as condições do cultivo da uva na região, onde descrevia métodos de combate às pragas desta lavoura, trabalho muito elogiado que foi impresso em folhetos e distribuído largamente na zona rural."Viticultura". O Brazil, 22/01/1913 No ano seguinte visitou Caxias e foi homenageado com um banquete,"Banquete". O Brazil, 14/03/1914 e pouco depois seu Manual Prático de Viticultura foi divulgado na cidade."Manual Pratico de Viticultura". O Brazil, 29/08/1914 Em março de 1924 foi incumbido pela Escola de Engenharia de dar nova assessoria técnica e visitar os principais estabelecimentos vinícolas da cidade."A Escola de Engenharia em pról da industria vinicola". O Brazil, 11/03/1924 Em julho retornou a Caxias junto com Otávio Rocha, como representantes do presidente do Estado, para discutir a sucessão intendencial, que estava criando polêmicas. Foi tentada uma coligação com a Aliança Libertadora, cuja assembleia rejeitou o acordo, mas um grupo de dissidentes passou a apoiar o Partido Republicano, que estava no poder. Após algumas reuniões, em 21 de julho Otávio Rocha formalizou a chapa republicana, composta por Gobbato na titularidade e Abramo Eberle como vice."A successão intendencial em Caxias". O Brazil, 27/07/1924
Assim, Gobbato fixou residência na cidade. As eleições se realizaram em 12 de agosto, com a sua vitória."Notas Sociaes". O Brazil, 11/08/1924 A posse ocorreu em 12 de outubro. Iniciou sua administração prometendo reduzir gastos, aumentar o rigor na cobrança de impostos, melhorar as ruas e estradas, o abastecimento de água, o serviço de esgotos, as condições do ensino e da higiene pública, e fomentar a agricultura, mas foi modesto na previsão das obras públicas que pretendia realizar, a fim de não gerar expectativas altas demais numa situação de crise de receitas. Porém, principalmente apresentou uma proposta política conciliadora."A Posse do Novo Governo". O Brazil, 18/10/1924 Era uma fase de grande turbulência, tendo ocorrido em 1923 uma revolução armada em que lutaram partidários do presidente do Estado, Borges de Medeiros, contra os aliados de Joaquim Francisco de Assis Brasil. Segundo Gustavo Valduga, sua posse marcou o início da consolidação do poder dos descendentes de italianos, quando até então predominaram políticos luso-brasileiros na administração municipal, resultado do lento processo de cooptação da elite local e de "uma situação em que os ideais étnicos, políticos e religiosos se conjugaram e permitiram a subida ao poder".
Ele acumulou também as funções de sub-chefe de polícia e chefe do Diretório do Partido Republicano, e foi um ativo defensor do fascismo, ideologia que teve grande penetração regional nesta época e que desempenhou papel importante na formação da identidade coletiva dos italianos, baseando-se numa ética de disciplina, ordem e trabalho. Contudo, apesar de seu nome atender às expectativas de parcela expressiva da população e da Igreja, os partidários do antigo intendente Pena de Moraes passariam a fazer constante oposição ao seu governo, e em pouco tempo o clima de conciliação se dissolveu. Complicou sua atuação o fato de ele ser um recém-chegado em Caxias e pouco conhecer da realidade local. Por outro lado, o apoio e propaganda da Igreja foram fundamentais para que se criasse em torno dele uma imagem de administrador eficiente.
Criou uma comissão especial composta de líderes da sociedade a fim de auxiliá-lo na solução dos problemas municipais,"Pró Caxias". Correio Colonial, 07/03/1925 e conseguiu realizar algumas obras importantes. Fundou o Patronato Agrícola, que no entanto foi envolvido em uma controvérsia e durou pouco,Monteiro, pp. 101-120 criou uma Caixa de Depósitos Populares para recolher auxílio espontâneo da população na forma de empréstimos para seu plano de governo,"Caixa de Depositos Populares da Intendencia Municipal". Correio Colonial, 07/02/1925 criou o Parque do Cinquentenário por ocasião dos festejos do cinquentenário da colonização italiana, deu grande incentivo à produção agrícola, com especial atenção ao setor da vitivinicultura, reformou a Inspetoria de Limpeza Pública, investiu no saneamento básico, iniciou a construção da Hidráulica Municipal, ampliou e construiu estradas e pontes na zona rural, usou incentivos fiscais para mobilizar a construção civil, aboliu alguns impostos e favoreceu a indústria. Recebeu numerosos elogios e homenagens durante sua gestão, que louvavam sua operosidade, seu zelo e seu caráter austero e ilibado,"Nova Vicenza". Correio Colonial, 14/03/1925"Carta Aberta". Correio Colonial, 04/04/1925"Pela cidade". Correio Colonial, 02/05/1925"As festas de domingo ultimo em S. Marcos". O Regional, 16/01/1926"Problemas Municipaes". O Regional, 23/01/1926"Problemas Municipaes". O Regional, 24/04/1926"Caxias commemora o dia doze de outubro". O Regional, 16/10/1926"Desenvolvimento agricola". O Regional, 30/10/1926"Pelos municipios". A Federação, 06/01/1928 mas ao mesmo tempo suas obras provocaram aumento dos gastos, dos impostos em geral e da dívida pública, gerando descontentamento entre a população e seus opositores políticos, cujas críticas foram se intensificando à medida que os anos passavam, acusando-o também de provocar uma cisão no partido e de ser inexperiente, intrigante e corrupto. No último ano de seu mandato já se pensava que ele renunciaria antes de concluí-lo, e como resultado de tanta oposição ele fracassou em designar seu sucessor. thumb|Programa da Festa da Uva de 1933.
Valduga diz que sua passagem pela Intendência foi mais tarde mitificada como um período de harmonia comunitária, mas que de fato foi marcada por intensas disputas e controvérsias.Valduga, Gustavo. Para além do coronelismo: italianos e descendentes na administração dos poderes executivos da Região Colonial Italiana do Rio Grande do Sul (1924-1945). Tese de Doutorado. PUCRS, 2012, pp. 17; 69; 238-243; 268 Na apreciação de Maria Abel Machado, tendo encontrado uma cidade "carente de infra-estrutura e com falta de recursos financeiros para atender às necessidades de investimentos", Gobbato teve de "buscar saídas corajosas e criativas que se traduziram na concretização de inúmeros projetos".Machado, Maria Abel. "Empresários na busca do poder político: acordos e conflitos. Caxias do Sul, 1894-1935". In: Primeiras Jornadas de História Regional Comparada. Porto Alegre, 23-25/08/2000 A mesma é a opinião de Mário Gardelin, dizendo que "recebendo uma Prefeitura muito endividada, ele e o Conselho Municipal realizaram milagres". Já Loraine Giron criticou a introdução na cidade dos pardais, espécie invasora que causa grandes prejuízos às lavouras, a introdução dos ligustros, outra espécie invasora cujo pólen pode agravar as doenças respiratórias, principal causa da mortalidade regional, e "sendo um liberal conseguiu aderir ao fascismo. Enfim, um exemplo para os futuros prefeitos".Giron, Loraine Slomp. "Caxias 1925: no centenário da imigração italiana". História Daqui, 13/10/2011