Aimé-Adrien Taunay (Paris, outubro de 1803 – Rio Guaporé, 5 de janeiro de 1828) foi um pintor, desenhista e ilustrador científico francês. Filho de Nicolas-Antoine Taunay, estabeleceu-se no Rio de Janeiro com a família em 1816 e aprendeu desenho e pintura com o pai.
Antes de completar quinze anos, embarcou na viagem de circum-navegação comandada por Louis-Claude de Freycinet a bordo da corveta Uranie. Trabalhou como auxiliar do desenhista Jacques Arago e junto aos naturalistas da expedição. Seus desenhos de animais, plantas, habitantes e lugares visitados foram usados nos volumes publicados sobre a viagem.
Depois de regressar ao Rio de Janeiro em 1820, prosseguiu seus estudos e percorreu parte do interior da província em 1824. O caderno usado nessa viagem reúne desenhos, despesas, relatos de caminho, reflexões pessoais e observações sobre os moradores da região serrana fluminense.
Em 1825, Taunay foi contratado como primeiro desenhista da Expedição Langsdorff. Acompanhou a etapa fluvial de São Paulo a Mato Grosso e produziu estudos de rios, animais, plantas, viajantes e habitantes das áreas percorridas. Entre suas últimas obras estão quinze aquarelas feitas durante uma breve permanência entre indígenas Bororo. Morreu aos 24 anos, ao tentar atravessar a nado o rio Guaporé. Seus trabalhos encontram-se em acervos na Rússia, no Brasil, na Austrália e no Havaí.
Primeiros anos e formação
miniaturadaimagem|Retrato de Aimé-Adrien ainda criança, pintado por seu pai, Nicolas-Antoine Taunay
Aimé-Adrien Taunay nasceu em Paris, em outubro de 1803. Era o quinto e mais novo dos filhos do pintor Nicolas-Antoine Taunay e de Marie-Joséphine Rondel. Cresceu em uma família de artistas. Seu pai dedicava-se à pintura de paisagem e de história, enquanto seu tio Auguste Marie Taunay trabalhava como escultor. Nicolas-Antoine foi seu primeiro professor de desenho e pintura.
A família desembarcou no Rio de Janeiro em 26 de março de 1816, junto ao grupo de artistas franceses liderado por Joachim Lebreton que integrava a chamada Missão Artística Francesa. Aimé-Adrien tinha doze anos. Nicolas-Antoine pretendia permanecer no Brasil por seis anos e participar da criação de uma escola pública de artes, mas a implantação da instituição avançou lentamente. Os Taunay instalaram-se na Tijuca, perto da cascata que depois receberia o nome da família.
A casa da Tijuca recebia artistas, naturalistas e viajantes estrangeiros que passavam pelo Rio de Janeiro. Aimé-Adrien acompanhava essas conversas enquanto aprendia com o pai e desenhava os arredores. Ali encontrou temas que não conhecera em Paris, como a vegetação tropical, a baía, as montanhas e os habitantes da cidade.
Seu irmão Félix Émile Taunay também seguiu a carreira de pintor. Félix tornou-se professor de pintura de paisagem e, entre 1834 e 1854, dirigiu a Academia Imperial de Belas Artes.
Ilustração científica nas expedições do século XIX
As expedições científicas do início do século XIX reuniam naturalistas, médicos, astrônomos, cartógrafos e desenhistas. Enquanto parte da equipe media posições, recolhia espécimes ou escrevia notas, o artista fixava em papel aquilo que não podia ser transportado ou que mudaria pouco depois de ser recolhido.
Uma planta podia murchar antes de chegar ao navio. Peixes, moluscos e outros animais perdiam a cor ou alteravam a forma depois de mortos e conservados em álcool. Aves e mamíferos precisavam ser desenhados enquanto ainda mantinham sua postura e suas proporções. Os artistas também retratavam portos, rios, formações rochosas, construções, canoas, ferramentas, roupas e cerimônias.
Nas viagens de Taunay, a fotografia ainda não fazia parte do trabalho de campo. A mais antiga fotografia feita com câmera que se conserva, produzida por Nicéphore Niépce em Le Gras, data de cerca de 1826 ou 1827. A imagem exigiu uma exposição de muitas horas e não oferecia um recurso prático para viajantes em navios, rios ou florestas.
miniaturadaimagem|Ilustração botânica de uma paineira produzida por Aimé-Adrien Taunay
Os desenhos de história natural procuravam reunir os traços necessários para reconhecer um organismo. Folhas, flores, frutos, penas, escamas e órgãos podiam ser ampliados, separados ou apresentados de mais de um ângulo na mesma prancha. Galhos que ocultavam uma flor podiam ser retirados, e detalhes vistos em espécimes diferentes podiam ser reunidos em uma única composição.
O trabalho começava com esboços em grafite, tinta ou aquarela. O desenhista podia anotar cores, medidas e características que não cabiam na imagem. Depois da viagem, os materiais passavam para gravadores, litógrafos e impressores. Uma prancha publicada podia reunir o trabalho de quem observara o objeto, de quem preparara o desenho e de quem o transferira para a matriz de impressão. Por isso, o nome impresso na prancha nem sempre corresponde ao único autor da imagem.
O retrato de habitantes exigia outras escolhas. O artista decidia quem seria desenhado, em qual posição e com quais objetos. Trajes, pinturas corporais, armas, ferramentas e moradias interessavam aos estudos de costumes, mas as imagens também seguiam convenções europeias de composição.
Essas imagens não eram cópias neutras. O enquadramento, a pose, os objetos escolhidos e o tempo disponível alteravam o resultado. Sua leitura precisa considerar o que foi posto na folha, o que ficou de fora e a finalidade para a qual o desenho foi produzido.
Trabalho de ilustrador a bordo do Uranie
miniaturadaimagem|A corveta Uranie ancorada junto a Rawak
Embarque no Rio de Janeiro
Em 17 de setembro de 1817, a corveta francesa Uranie deixou Toulon com 125 tripulantes, sob o comando de Louis-Claude de Freycinet. O governo francês havia encarregado a expedição de ampliar os levantamentos feitos em viagens anteriores. Freycinet pretendia estudar a forma da Terra, o magnetismo, a meteorologia e a posição geográfica dos lugares percorridos. A tripulação também recolheria plantas, animais e minerais para museus franceses e tomaria notas sobre os povos encontrados pelo caminho.
A equipe científica incluía os médicos e naturalistas Jean René Constant Quoy e Joseph Paul Gaimard, o botânico Charles Gaudichaud-Beaupré e oficiais responsáveis pelos cálculos astronômicos e hidrográficos. Jacques Arago era o desenhista oficial da viagem. Cabia a ele pôr no papel os lugares, habitantes, animais, plantas, embarcações e acontecimentos encontrados no percurso.
O Uranie chegou ao Rio de Janeiro em 6 de dezembro de 1817. Durante uma escala de quase dois meses, a tripulação fez medições, reabasteceu a corveta e recolheu espécimes. Os naturalistas conheceram a família Taunay, estabelecida na cidade desde 1816. Quando a embarcação deixou o Rio, no fim de janeiro de 1818, Aimé-Adrien seguiu com a expedição como auxiliar de Arago. Ainda não havia completado quinze anos.
O contrato e as circunstâncias de sua contratação não são conhecidos. Aimé-Adrien aprendera desenho e pintura com o pai e praticava nos arredores da casa da família, na Tijuca. A bordo do Uranie, começou a trabalhar ao lado de naturalistas e a desenhar como parte das tarefas da viagem.
Desenhos de história natural
Aimé-Adrien embarcou como auxiliar de Arago, mas logo passou a trabalhar diretamente com Quoy e Gaimard. Os naturalistas dependiam de desenhos feitos enquanto os animais ainda estavam vivos ou pouco depois de recolhidos, antes que mudassem de cor, forma ou postura. Peixes, moluscos e outros seres marinhos se alteravam quando conservados em álcool, e certos detalhes precisavam ser fixados logo após a captura.
Entre essas imagens estava o desenho de um marsupial de pelagem malhada, feito com o animal ainda vivo. Águas-vivas, anêmonas e corais exigiam a mesma rapidez, pois seus corpos translúcidos se deformavam fora da água. Taunay também desenhou peixes, aves, répteis e plantas. Quoy e Gaimard deram seu nome a um peixe recolhido em Guam, publicado como Chétodon Taunay.
Os desenhos eram feitos em grafite, tinta ou aquarela. Algumas folhas traziam anotações sobre cores e proporções para orientar os gravadores que preparariam as pranchas impressas na França. Entre a observação do animal e a imagem publicada, o trabalho podia passar pelas mãos do naturalista, do desenhista e do gravador. Nem sempre é possível separar a participação de cada um, sobretudo quando Arago retocava um esboço de Taunay ou quando o desenho era transformado em gravura.
Em algumas folhas, Taunay assinou "Taunay Jne fecit". A abreviação vinha de Taunay jeune, ou "Taunay jovem", e diferenciava seus trabalhos dos de Nicolas-Antoine. Quoy e Gaimard também se referiram a ele como "A. Taunay Filho" nos textos zoológicos da expedição.
Taunay desenhou ainda pessoas, trechos do litoral, canoas, casas, roupas e utensílios. Essas imagens atendiam às tarefas geográficas e etnográficas da viagem e guardavam escolhas do artista, como a pose, o enquadramento e os objetos postos junto às figuras.
Arago continuou como o desenhista oficial do Uranie e orientou Taunay ao longo da viagem. Os dois trabalharam lado a lado, embora nem sempre seja possível distinguir suas tarefas nas imagens publicadas. Arago reuniu lembranças e desenhos da expedição em Promenade autour du monde, pendant les années 1817, 1818, 1819 et 1820, sur les corvettes du roi l'Uranie et la Physicienne, commandées par M. Freycinet, publicado em Paris em 1822.
Percurso pelo Índico e pelo Pacífico
Depois de deixar o Rio de Janeiro, o Uranie seguiu para o Cabo da Boa Esperança e atravessou o oceano Índico. Em setembro de 1818, a corveta passou quinze dias na baía Shark, na costa oeste da Austrália. A tripulação montou um acampamento e um observatório na península de Peron. Ali, os oficiais fizeram cálculos astronômicos, examinaram a costa e recolheram plantas e animais. Arago desenhou um encontro entre os tripulantes e indígenas malgana da região.
O Uranie deixou a baía Shark em 26 de setembro e seguiu para Timor. A rota passou por Rawak, perto da costa oeste da Nova Guiné, pelas Ilhas Carolinas, por Guam e pelo Havaí, então chamado de Ilhas Sandwich pelos europeus. Depois da travessia do Pacífico, a corveta chegou a Porto Jackson, em Sydney, onde permaneceu por cerca de um mês no fim de 1819.
A cada escala, Taunay encontrava animais, embarcações, roupas e costumes diferentes dos que conhecera em Paris e no Rio de Janeiro. Suas folhas trazem aves tropicais, peixes, canoas, moradores das ilhas e integrantes das administrações coloniais. No Havaí, pintou em aquarela o governador Cox de Maui. A obra, datada de 1819, pertence ao Museu de Arte de Honolulu.
miniaturadaimagem|Green Parrot ("Papagaio-verde"), aquarela de Taunay, cerca de 1819, pertencente à Biblioteca Nacional da Austrália
A aquarela Green Parrot, feita por volta de 1819, também pertence a essa fase da viagem. Taunay pintou a ave de perfil sobre um galho, isolada contra um fundo claro. A folha permite examinar o formato do bico, das asas e da cauda, além da distribuição das cores da plumagem. A obra pertence à Biblioteca Nacional da Austrália.
Naufrágio e retorno ao Rio de Janeiro
O Uranie partiu de Sydney em 25 de dezembro de 1819. Em 14 de fevereiro de 1820, atingiu rochedos na baía Francesa, nas Ilhas Malvinas. Os danos tornaram impossível recuperar a embarcação. Todos conseguiram chegar à costa, mas parte dos herbários e alguns desenhos se perderam. A tripulação retirou do navio os instrumentos, as anotações e grande parte das coleções reunidas desde o início da viagem.
Freycinet comprou um baleeiro norte-americano para continuar o percurso e deu ao navio o nome de Physicienne. A embarcação seguiu para o Rio de Janeiro e chegou à cidade no fim de junho de 1820. Aimé-Adrien desembarcou nessa escala e não acompanhou a expedição até a França. A razão pela qual permaneceu no Brasil não foi registrada. O restante da equipe chegou a Le Havre em 13 de novembro de 1820.