thumb|240px|O Doríforo, de Policleto, paradigma do cânone clássico masculino. Cópia no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles
A escultura do Classicismo grego tem sido longamente considerada como o ponto mais alto do desenvolvimento da arte escultórica na Grécia Antiga, tornando-se quase um sinônimo para "escultura grega" e eclipsando outros estilos que por lá foram cultivados em sua longa história. O Cânone, um tratado sobre as proporções do corpo humano escrito por Policleto em torno de , é tido geralmente como seu marco inicial, e seu fim é assinalado com a conquista da Grécia pelos macedônios, em , quando a arte grega começa uma grande difusão para o oriente, de onde recebe influências, muda seu caráter e se torna cosmopolita, na fase conhecida como Helenismo. Nesse intervalo é quando se consolida a tradição do Classicismo grego, tendo o homem como a nova medida do universo, e o reflexo disso na escultura é a primazia absoluta da representação do corpo humano nu. A escultura do Classicismo elaborou uma estética que conjugava valores idealistas com uma fidedigna representação da natureza, evitando, embora, a caracterização excessivamente realista e o retrato de extremos emocionais, mantendo-se geralmente numa atmosfera formal de equilíbrio e harmonia. Mesmo quando o personagem se encontra imerso em cenas de batalha, sua expressão parece pouco tocada pela violência dos acontecimentos."Western Sculpture: Ancient Greek - The Classical period - Early Classical (c. 500–450 bc)". Encyclopaedia Britannica On lineBOARDMAN, John. "Greek Art and Architecture". In BOARDMAN, John; GRIFFIN, Jasper & MURRAY, Oswin. The Oxford History of Greece and the Hellenistic World. Oxford University Press, 1991. pp. 330-331
O Classicismo elevou o homem a um nível de dignidade sem precedentes, ao mesmo tempo em que lhe atribuiu a responsabilidade de criar seu próprio destino e ofereceu um modelo de vida harmonioso, num espírito de educação integral para uma cidadania exemplar. Esses valores, junto com sua tradicional associação de Beleza com Virtude, encontraram na escultura do período Clássico, com seu retrato idealizado do ser humano, um veículo particularmente apto para expressão, e um eficiente instrumento de educação cívica e ética, bem como estética. Com ela se inaugurou uma forma de representação do corpo humano que foi um dos fulcros para o nascimento de um ramo filosófico novo, a Estética, além de ter sido o fundamento estilístico de movimentos revivalistas posteriores de enorme importância, como o Renascimento e o Neoclassicismo, e permanecer influente até os dias de hoje. Assim, seu impacto sobre a cultura ocidental não pode ser suficientemente enfatizado, sendo uma referência central para o estudo da história da arte do ocidente. Mas, além de seu valor histórico, sua qualidade artística intrínseca poucas vezes foi questionada, a vasta maioria dos críticos antigos e modernos a enaltece com veemência, e os museus que a preservam são visitados por milhões de pessoas todos os anos. A escultura do Classicismo grego, embora sendo por vezes alvo de algumas críticas que relacionam suas bases ideológicas a preconceitos raciais, dogmatismos estéticos e outros exclusivismos, ainda pode ter um papel positivo e renovador a desempenhar para a arte e a sociedade contemporâneas.HERSEY, George. "Beauty is in the eye of a Greek chisel holder". The Offer, 31/05/1996.THOMAS, Carol G. "Introduction". In THOMAS, Carol G. (ed). Paths from Ancient Greece. BRILL, 1988. pp. 1-5GARDNER, Percy. "The Lamps of Greek Art". In LIVINGSTONE, R. W. The Legacy of Greece. Kessinger Publishing. pp. 353 ss
Definição de "clássico" 230px|thumb|Leo von Klenze: Reconstrução ideal da Acrópole de Atenas, 1846
A palavra clássico tem uso largo, e ainda não há consenso na literatura especializada sobre sua definição exata. As civilizações grega e romana foram em sua totalidade chamadas de clássicas, por terem estabelecido padrões culturais que se tornaram canônicos e que continuam válidos até os dias de hoje. Nesse sentido, clássico é tudo o que estabelece um gabarito pelo qual se julgarão expressões pertencentes a uma mesma categoria. O termo ainda é usado com um significado mais estrito, para referir um breve período dentro da longa história da cultura grega antiga - de meados do até quase o fim do - quando se desenvolveu um estilo e se criou um corpo de obras que durante muitos séculos seriam considerados a mais alta conquista na arte da escultura em todos os tempos, e por isso mesmo merecendo o qualificativo de clássico. Entretanto, como ocorre em todos os processos de evolução artística, quaisquer datas que se definam rigorosamente via de regra se revelam inexatas e passíveis de contestação, sempre havendo elementos de transição antes e depois do período enfocado, tornando as fronteiras sempre difusas e de difícil caracterização, tornando-se necessário para fins práticos adotar as delimitações consagradas pela tradição.WHITLEY, James. The Archaeology of Ancient Greece. Cambridge University Press, 2001. pp. 3-4
Contexto e antecedentes
O Classicismo na escultura grega deriva principalmente da evolução cultural ateniense no Em Atenas a principal figura artística era Fídias, mas o Classicismo deve a Policleto, ativo em Argos, uma contribuição estética hoje reconhecida como igualmente importante. No entanto, naqueles tempos Atenas era uma cidade muitíssimo mais influente, daí seu maior papel como pólo difusor da nova tendência. Em torno da metade do a Grécia experimentava um momento de autoconfiança. Depois da vitória contra os persas, Atenas assumira a liderança das cidades gregas, chefiando a Liga de Delos e sendo a depositária de seu tesouro. Péricles dominou a política local entre 460 e , tendo como objetivo transformar sua cidade num modelo para todo o mundo grego. Incentivou o imperialismo, reduzindo seus antigos aliados a uma condição de tributários, mas protegeu artistas e filósofos, que deram forma e voz aos seus ideais. Seu papel na história da escultura grega deriva da decisão de reconstruir a cidade quebrando um voto feito pelos atenienses de deixar em ruínas os monumentos que haviam sido destruídos pelos persas, como uma lembrança perene da barbárie. Usando em parte recursos próprios e em parte os excedentes do tesouro da Liga, Péricles empregou uma multidão de operários e artífices, o que ao mesmo tempo dinamizou a economia e deixou um testemunho monumental do novo status político e cultural da cidade. O legado principal da vasta empreitada foi a renovação da Acrópole de Atenas, tendo Fídias como diretor artístico das obras.POLLITT, Jerome. Art and experience in classical Greece. Cambridge University Press, 1972. pp. 64-66HEMINGWAY, Colette & HEMINGWAY, Seán. "The Art of Classical Greece (ca. 480–323 B.C.)". In: The Metropolitan Museum of Art. Heilbrunn Timeline of Art History, 2000. Plutarco descreveu mais tarde o entusiasmo que fervia: thumb|100px|Tetradracma ateniense, período clássico thumb|100px|thumb|Kouros de Anavissos, original. Museu Arqueológico Nacional de Atenas. Exemplo do estilo Arcaico thumb|100px|Mestre de Olímpia: Apolo, original. Museu Arqueológico de Olímpia. Exemplo do estilo Severo "À medida que as obras prosseguiam, resplandecendo em grandeza e possuindo inimitável graça de formas, e como os artesãos se esforçavam por superar uns aos outros na beleza de seus trabalhos, era maravilhosa a rapidez com que eram executadas as novas estruturas… Havia um aspecto de novidade em cada trabalho, e eles pareciam atemporais. É como se uma vida em contínua floração e um espírito de eterna juventude tivessem sido infusos em sua criação".POLLITT, p. 66
A filosofia mudava seu foco de atenção do mundo natural para a sociedade humana, acreditando que o homem podia ser o autor de seu próprio destino. Mais do que isso, o homem passava a ser considerado o centro da Criação. Sófocles expressa esse novo pensamento na Antígona (c. ), dizendo:
"Existem muitas maravilhas, mas nenhuma tão admirável quanto o homem. Através do mar encapelado nas tempestades de inverno esta criatura abre seu caminho por entre as ondas gigantescas. E a terra, a mais antiga das deusas, a que é imortal e imune à velhice, ele trabalha lavrando para frente e para trás, ano após ano, virando o solo com os cavalos que alimentou. (…)
"Com suas invenções ele domina as bestas ferozes das montanhas, o cavalo bravio ele amordaça, e põe-lhe o cabresto, assim como faz com o touro infatigável da montanha. Ensinou a si mesmo a linguagem, rápida como o vento, e aprendeu por si a viver em sociedade, e a escapar do ímpeto das tempestades e do frio penetrante dos dias brancos. Ele pode enfrentar tudo, nunca está despreparado, seja o que for que o futuro trouxer. Apenas da morte não sabe fugir, pois até para as doenças mais graves descobriu uma cura".POLLITT, p. 70
Assim o Classicismo nasce de um sentimento de confiança nas capacidades e realizações de um determinado povo, de um desejo de glória e eternidade para si, e este orgulho, bem como uma xenofobia, são patentes no discurso político e na literatura da época, mas os poetas e filósofos já estavam cientes das implicações para todo o gênero humano desse novo modo de ver as coisas. O homem se torna a nova medida do mundo, que passava a ser julgado a partir da experiência humana. Isso está presente, por exemplo, na irregularidade matemática das dimensões do Partenon, que se desviam da ortogonalidade rigorosa para conseguir efeitos de regularidade puramente óptica, e também se expressa no rápido e crescente naturalismo da representação escultórica das formas humanas.MORRIS, Sarah. Daidalos and the Origins of Greek Art. Princeton University Press, 1992. pp. 363-364POLLITT, p. 74
No que diz respeito propriamente à elaboração da forma clássica típica, seu naturalismo deve muito a conquistas de escultores do período que antecede o Clássico. Os cinquenta anos anteriores haviam sido um período de rápidas e radicais mudanças sociais e estéticas, que determinaram o abandono do padrão Arcaico para um outro a que se denominou Severo. O estilo Arcaico fazia uso de uma série de convenções herdadas dos egípcios, e seu gênero mais importante, o nu masculino, o kouros, era uma fórmula fixa, uma imagem de linhas estilizadas que só retinha do corpo humano real os traços mais básicos, exibia uma face invariavelmente sorridente e sempre a mesma atitude corporal. Era uma arte essencialmente ritual, cerimonial, convencional e impessoal, embora conseguissem resultados de um aspecto augusto e inegável pujança. Esse modelo vigorou com pouca variação por mais de duzentos anos, mas os artistas do período Severo introduziram-lhe um novo senso de naturalismo abrindo o caminho para o estudo da anatomia a partir do natural e para a expressão das emoções de maneira mais convincente e variada. Em torno de Míron, escultor da transição, criava seu Discóbolo, uma obra que já evidencia um grau de naturalismo ainda mais avançado, e logo a seguir Policleto consolidava, em torno de , um novo cânone de proporções, síntese que expressava de maneira muito convincente a beleza, harmonia e vitalidade do corpo e lhe dava um aspecto de eternidade e perene juventude. Quase na mesma altura, a partir de Fídias, liderando o grupo de escultores que decoravam a Acrópole, deixaria nos relevos e estatuária do Partenon a primeira série de obras classicistas em escala monumental, estabelecendo modelos temáticos e narrativos que perdurariam por longo tempo. Com eles se lançaram os fundamentos na escultura daquilo que se convencionou chamar de Alto Classicismo (c. ).O período tem uma cronologia diferente conforme o autor consultado. A Encyclopedia Britannica o estende até c. POLLITT, pp. 80-81
Alto Classicismo thumb|esquerda|180px|Busto de Ártemis, com o típico vulto clássico de traços idealizados e expressão impassível. Cópia romana, Museu Arqueológico Nacional de Nápoles