Disbiose intestinal é o desequilíbrio da microbiota intestinal, caracterizado por alterações na composição, diversidade ou funções dos micro-organismos que habitam o trato gastrointestinal.
Esse desequilíbrio está associado a diversas condições clínicas e metabólicas:
Obesidade e diabetes tipo 2 – a disbiose promove inflamação crônica de baixo grau, aumento da permeabilidade intestinal e alteração na produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), contribuindo para resistência à insulina e acúmulo de gordura.
Hipertensão arterial – estudos observacionais mostram que indivíduos hipertensos apresentam menor diversidade bacteriana e redução de produtores de AGCC, o que favorece inflamação sistêmica e desregulação da pressão arterial.
Doenças inflamatórias intestinais (DII) – pacientes com doença de Crohn e retocolite ulcerativa apresentam redução de bactérias benéficas (como Faecalibacterium prausnitzii) e aumento de espécies pró-inflamatórias, o que contribui para a quebra da barreira epitelial e ativação exacerbada do sistema imune.
Síndrome do intestino irritável (SII) – a disbiose está relacionada a alterações na motilidade intestinal, hipersensibilidade visceral e produção de metabólitos que modulam o eixo intestino-cérebro, influenciando sintomas como dor abdominal e distensão.
A microbiota intestinal é composta por trilhões de micro-organismos que coexistem em simbiose (relação de longa duração entre dois organismos de espécies diferentes, onde um ou ambos se beneficiam) fornecendo capacidades metabólicas adicionais por meio de milhões de genes do microbioma. Alterações nesse ecossistema podem resultar em perda de diversidade microbiana, supercrescimento de determinados grupos e mudanças funcionais na produção de metabólitos, como ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), neurotransmissores e vitaminas.Ríos-Covián, D. et al. (2016). Frontiers in Microbiology. Disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmicb.2016.00185/full
O termo disbiose também pode ser aplicado a outras microbiotas do corpo humano, como a cavidade oral, a pele e a vagina, onde desequilíbrios microbianos estão relacionados a doenças como cárie dentária, periodontite, dermatite atópica, acne e vaginose bacteriana.Rajasekaran, J.J. et al. (2024). Oral Microbiome: A Review of Its Impact on Oral and Systemic Health. Microorganisms. Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-2607/12/9/1797Borrego-Ruiz, A.; Borrego, J.J. (2025). Microbial Pathogens Linked to Vaginal Microbiome Dysbiosis and Therapeutic Tools for Their Treatment. Acta Microbiol. Hell. Disponível em: https://www.mdpi.com/2813-9054/70/2/19
Apesar da existência de diferentes tipos de disbiose (oral, cutânea, vaginal), a maior parte das pesquisas científicas estão relacionadas a disbiose intestinal, devido ao seu papel central na digestão, metabolismo energético, modulação imunológica e comunicação pelo eixo intestino-cérebro.Carding, S.; Verbeke, K.; Vipond, D.T.; Corfe, B.M.; Owen, L.J. (2015). Dysbiosis of the gut microbiota in disease. Microbial Ecology in Health and Disease. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.3402/mehd.v26.26191Silva, N.C.; et al. Eixo intestino–cérebro: perspectivas em transtornos psiquiátricos. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2020;42(6):664–672. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbpsiq/a/vC7DMqRZtLcK7QmxS6NH3jM/?format=html&lang=pt
Historicamente, utilizava-se a expressão "flora intestinal", mas a literatura científica atual utiliza "microbiota intestinal" para refletir melhor a ecologia microbiana e suas funções.Marchesi, J.R.; Ravel, J. (2015). The vocabulary of microbiome research: a proposal. Microbiome. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1186/s40168-015-0094-5
Causas A disbiose intestinal é a forma mais estudada e pode ser desencadeada por múltiplos fatores:
Uso de antibióticos: antibióticos de amplo espectro reduzem tanto bactérias patogênicas quanto espécies benéficas, favorecendo micro-organismos oportunistas e diminuindo a diversidade da microbiota intestinal. O uso recorrente desses fármacos está associado ao aumento da resistência bacteriana e à maior suscetibilidade a doenças inflamatórias.Yoon, M.Y.; Yoon, S.S. Impact of antibiotics on the human gut microbiome: a review of mechanisms and consequences. Frontiers in Microbiology. 2023. PMC9959899. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9959899/
Uso de outros medicamentos: antiácidos, laxantes e principalmente anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) alteram a composição da microbiota intestinal, modificando o pH e a diversidade bacteriana, podendo levar à disbiose.Ferreira de Mello, D.S.; Mendes, A.B.; Tanimaru, A.N.; Gonzalez, F.G.; Carvalho, C.F. Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) x microbiota: uma simbiose ou disbiose intestinal? Revista de Medicina. Universidade de São Paulo. 2024. Disponível em: https://revistas.usp.br/revistadc/article/view/210041Imhann, F.; Vich Vila, A.; Bonder, M.J.; et al. Drugs, gut microbiome and inflammatory bowel disease. Journal of Crohn's and Colitis. 2020. PMC7398478. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7398478/Zhang, S.; Wang, R.; Li, D.; Zhao, L.; Zhu, L. Role of gut microbiota in functional constipation. Gastroenterology Report. Oxford Academic. 2021;9(5):392–401. https://doi.org/10.1093/gastro/goab035
Alimentação inadequada: dietas pobres em fibras reduzem a produção de ácidos graxos de cadeia curta (SCFA), fundamentais para a integridade da mucosa intestinal e para o equilíbrio da microbiota.
Estresse crônico: alterações hormonais e neuroendócrinas ligadas ao estresse afetam a motilidade intestinal e a permeabilidade da mucosa, criando condições favoráveis ao desequilíbrio da microbiota.Ma, L.; Yan, Y.; Webb, R.J.; Li, Y.; Mehrabani, S.; Xin, B.; Sun, X.; Wang, Y.; Mazidi, M. Psychological Stress and Gut Microbiota Composition: A Systematic Review of Human Studies. Neuropsychobiology. 2023;82(5):247–262. Disponível em: https://karger.com/nps/article/82/5/247/862016/Psychological-Stress-and-Gut-Microbiota
Infecções gastrointestinais: episódios de diarreia, intoxicações alimentares ou parasitoses reduzem temporariamente a diversidade bacteriana e favorecem a colonização por espécies nocivas.Chen, Y.; Xu, J.; Chen, Y. Gastrointestinal infection and gut microbiota: pathogenesis and therapeutic perspectives. Frontiers in Immunology. 2024. PMC12006732. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12006732/
Doenças metabólicas e inflamatórias: obesidade, diabetes tipo 2 e doenças inflamatórias intestinais estão fortemente associadas à disbiose persistente, sugerindo uma relação bidirecional entre microbiota alterada e patogênese dessas condições.Patra, D.; Barman, S.; Sahoo, S.; et al. Recent insights of obesity-induced gut and adipose tissue dysbiosis in type 2 diabetes. Frontiers in Molecular Biosciences. 2023. Disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmolb.2023.1224982/full
Hábitos de vida: sedentarismo, consumo excessivo de álcool e tabaco também contribuem para o desequilíbrio da microbiota intestinal. O álcool pode reduzir a diversidade bacteriana e aumentar a permeabilidade intestinal, favorecendo processos inflamatórios. O tabagismo, por sua vez, está associado à diminuição de espécies benéficas e ao aumento de micro-organismos patogênicos, intensificando o risco de disbiose.Engen, P.A.; Green, S.J.; Voigt, R.M.; Forsyth, C.B.; Keshavarzian, A. The role of alcohol and tobacco smoke in the regulation of the human microbiome. Alcohol Research: Current Reviews. 2022. PMC9527826. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9527826/
A disbiose oral está relacionada principalmente a:
Má higiene bucal, que favorece o acúmulo de placa bacteriana e crescimento de espécies cariogênicas. Alimentação rica em açúcares, que aumenta a proliferação de bactérias produtoras de ácidos. Uso de antibióticos, que altera a flora oral e reduz espécies protetoras. Doenças sistêmicas, como diabetes e imunossupressão, que aumentam a suscetibilidade ao desequilíbrio. A disbiose cutânea pode ser causada por:
Uso de produtos agressivos, como sabões antibacterianos e cosméticos com álcool, que destroem a flora protetora da pele. Poluição e estresse, que alteram o pH cutâneo e a imunidade local. Doenças dermatológicas, como acne e eczema, que estão associadas ao desequilíbrio microbiano.Byrd, A.L.; Belkaid, Y.; Segre, J.A. (2018). The human skin microbiome. Nature Reviews Microbiology. Disponível em: https://www.nature.com/articles/nrmicro.2017.157 A disbiose vaginal está frequentemente ligada a:
Alterações hormonais, como menstruação, gravidez e menopausa, que modificam o ambiente vaginal. Uso de antibióticos, que reduzem a população de Lactobacillus e favorecem patógenos. Hábitos de higiene inadequados, como duchas vaginais e uso de produtos químicos que alteram o pH.Borrego-Ruiz, A.; Borrego, J.J. (2025). Microbial Pathogens Linked to Vaginal Microbiome Dysbiosis and Therapeutic Tools for Their Treatment. Acta Microbiol. Hell. Disponível em: https://www.mdpi.com/2813-9054/70/2/19
Consequências Disbiose intestinal
Barreira intestinal comprometida: bactérias benéficas produzem ácidos graxos de cadeia curta (AGCC, como o butirato), que fortalecem a mucosa intestinal. Na disbiose, a queda desses AGCC enfraquece a barreira e permite a passagem de fragmentos bacterianos como o lipopolissacarídeo (LPS, componente da parede de bactérias Gram-negativas) para o sangue, fenômeno chamado endotoxemia metabólica. Inflamação crônica: o LPS ativa receptores de defesa como o TLR4 (receptor Toll-like 4), disparando a via NF-κB (fator nuclear kappa B), que aumenta a produção de citocinas inflamatórias como IL-6 e TNF-α. Essa inflamação é discreta, não causa febre, mas mantém o corpo em alerta constante e prejudica metabolismo e vasos sanguíneos. Alterações metabólicas: a disbiose modifica a conversão de ácidos biliares e a ativação de receptores como FXR (receptor Farnesóide X) e TGR5 (receptor acoplado à proteína G), impactando o metabolismo de glicose e lipídios e favorecendo resistência à insulina e acúmulo de gordura no fígado. Eixo intestino–cérebro: mudanças na microbiota afetam neurotransmissores (serotonina, GABA e dopamina) e a comunicação pelo nervo vago, associando-se a alterações de humor, cognição e sintomas como ansiedade e depressão.
Doenças associadas
Obesidade e síndrome metabólica: menor produção de AGCC e maior endotoxemia favorecem resistência à insulina e inflamação de baixo grau. Diabetes tipo 2: alterações na microbiota e nos ácidos biliares pioram o controle glicêmico. Doença hepática gordurosa não alcoólica (NAFLD): mudanças em microbiota e ácidos biliares contribuem para lipogênese e inflamação hepática. Doenças inflamatórias intestinais (DII): redução de produtores de butirato e expansão de patobiontes associam-se à inflamação mucosal. Síndrome do intestino irritável (SII): desequilíbrios microbianos afetam fermentação, motilidade e sensibilidade visceral.
Outras disbioses
Oral: a disbiose da microbiota oral está associada a doenças periodontais (inflamação e destruição dos tecidos de suporte dos dentes) e pode ter repercussões sistêmicas. O desequilíbrio favorece a expansão de espécies patogênicas como Porphyromonas gingivalis, que produzem lipopolissacarídeos (LPS, moléculas da parede bacteriana) capazes de induzir inflamação crônica. Essa inflamação local pode contribuir para doenças cardiovasculares e outras condições sistêmicas, mostrando que a boca funciona como uma porta de entrada para efeitos da disbiose em todo o organismo.Kilian, M.; Chapple, I.L.C.; Hannig, M.; et al. The oral microbiome – an update for oral healthcare professionals. British Dental Journal. 2022;233(9):763–777. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9405223/