Catherine Deshayes, dita La Voisin (Paris, – Paris, ), foi uma suposta feiticeira francesa, famosa por ser um dos personagens principais do famoso "Caso dos Venenos".

Quiromante, aborteira e promotora de Missas Negras, envolveu-se no "Caso dos Venenos", possivelmente agindo por influência de Madame de Montespan, antiga amante oficial (maîtresse-en-titre) de Luís XIV de França. Através do uso de sortilégios, Madame de Montespan pretendia recuperar os favores do rei, que passara a preferir Mademoiselle de Fontanges.

Julgada juntamente com 36 cúmplices, Catherine Deshayes foi condenada à morte e queimada na Praça de Grève em 22 de Fevereiro de 1680. Quanto a Madame de Montespan, esta não foi molestada, graças à proteção do rei, e continuou a frequentar a Corte, apesar de cair em desgraça.

Contexto A sociedade francesa como um todo passa por um período de grande medo dos envenenadores. Qualquer mulher cujo marido morresse de causas naturais, ou que se queixasse ao médico de dores para as quais este não tinha remédio, era imediatamente acusada de lidar com venenos, e de bruxaria. Isso se acentua quando, em fevereiro de 1677, foi encontrado um documento que revela um plano para envenenar o Rei. O estado francês começou então uma grande busca à pessoas que se envolviam com a criação de venenos. No mesmo período, uma mulher chamada Lagrange, cujo verdadeiro nome era Madeleine Guenisseau foi presa, e, em seu interrogatório, revelou que foi a primeira a ensinar o uso do veneno, e de colocá-lo nas mãos de diferentes pessoas, esta foi executada em setembro de 1679.

Personalidades do caso

La Reynie O chefe da polícia da época, e uma coincidência ajuda-o a colocar os olhos no próximo caso. Ele recebe uma visita de Desgrez, o homem que dois anos atrás prendera a marquesa de Brinvilliers conta que, em um jantar para o qual havia sido convidado, ouviu de uma mulher bêbada demais uma acidental confissão de vender venenos. Os dois então armaram uma emboscada para flagrar Marie Bosse.

Marie Bosse Marie, que já fora presa por dinheiro falso, era viúva. Admitiu ter conhecido Lagrange, na casa de Voisin, uma adivinhadora. Foi entregada no interrogatório da senhora Poulaillon, uma mulher casada com o diretor das Águas e Florestas também é entrevistada. Ela gastava muito com um amante, La Rivière, e queria matar o marido. Adquiriu um veneno com Bosse, que lhe vendeu arsênico. Mas o marido teve a vida salva pela governanta, e, para não fazer escândalo, não dá queixa na polícia. A senhora Poulaillon veio a se tornar, mais tarde, a primeira prisioneira de categoria da investigação de La Reynie. Na revista na casa de Marie Bosse são encontradas outras suspeitas, dentre elas, a Vigoureux.

Voisin No dia 10 de janeiro, La Reynie recebeu autorização do Rei para abrir um inquérito. Então no dia 18 de fevereiro de 1676, ele questionou Vigoureux, em uma sala da Bastilha, onde ela revelou conhecer um homem chamado Lesage, por intermédio de Voisin. Vigoureux mencionou Voisin mais uma vez, dizendo que Voisin e Lesage eram amantes, mas que a mulher era insaciável e tinha muitos outros, inclusive o carrasco da França, o homem que cortou a cabeça de Marie Brivalliers.

Com esse depoimento, La Reynie resolveu deter Voisin, que foi presa no dia 12 de março, um domingo, enquanto saía da missa. Seu nome verdadeiro era Catherine Deshayes, 42 anos, e trabalhava como advinha. Três dias após a detenção de Voisin, a madame de Mostespan deixou a Corte de Versalhes às pressas. Os subordinados de Desgrez também apreenderam Lesage.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 106

A comissão do arsenal (ou comissão ardente) Louvois, Ministro da Guerra francês, temia uma possível publicidade dessas revelações, que com certeza seriam feitas sob tortura, e por isso pediu a La Reynie que uma “comissão especial” fosse responsável por julgar unicamente os envenenadores.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 107 A decisão teve o apoio do Rei, que reconheceu a necessidade de certa discrição. Todos os escolhidos pelo Rei são da elite, e possuem ou vão possuir uma grande reputação no futuro.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 108 O Rei proibiu que as mulheres da Corte fossem perseguidas, deixando de condenar as esposas de parlamentares ou burgueses. O tribunal ganhou o nome de “comissão do arsenal”, mas acabou ficando conhecido como “câmara ardente”, uma alusão às salas nas quais os bruxos e bruxas eram presos na Idade Medieval.

O Rei decretou também, em 7 de abril de 1679, que a comissão do arsenal trata-se de um tribunal de exceção, cujos assuntos eram secretos e que não aceitavam recursos. Louvois dominou quase completamente a liderança, apesar de ser apenas um militar. A primeira sessão aconteceu no dia 17 de abril do mesmo ano.

As acusações contra Voisin

A primeira sessão revelou que, na casa de Bosse, foram encontrados arsênico, vitríolo, pó de camarão, aparas de unhas, sangue menstrual, pó de cantárida (ingredientes considerados afrodisíacos, ou venenosos). A acareação entre Vigoureux e Bosse revelou que as mulheres conheciam ao menos outras quatrocentas pessoas em Paris que também mexiam com venenos. Quando foi a vez de Bosse e Voisin, as duas se atacaram mutuamente, Bosse acusou Voisin de ter tentado envenenar o marido, de ter vendido venenos à duas mulheres da corte, Senhora Dreux e Senhora Leféron, e de ter praticado abortos. La Reynie mandou prender as senhoras, a primeira que havia sucedido em matar o marido, e a segunda que havia tentado. As prisões causaram grande comoção na França.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 110

No dia 28 de abril de 1679, Vigoureux e Bosse foram levadas ao tribunal. Não é sequer preciso utilizar a tortura, pois as duas rapidamente começam a entregar outros nomes. O magistrado fica sabendo dos nomes de várias outras “advinhas”, e cada uma denuncia aquelas que consideram concorrentes.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 111 Mas ambas concordam que Voisin é a mais perigosa. Os nomes entregados por Vigoureux e Bosse são presos.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 112

Quando Voisin e Vigoureux são colocadas juntas, começam afirmando que não desejam censurar uma a outra, mas logo começam a surgir as acusações.

As confissões e execuções de Bosse, Vigoureux e Ferry Vigoureux, Bosse, seus filhos, e mais uma senhora Ferry, acusada de envenenar o marido foram submetidos à tortura nos dias 4, 5 e 6 de maio. Ferry foi acusada de ter obtido os venenos e os utilizado para matar o marido. Foi sentenciada a ter o pulso direito cortado, e depois ao enforcamento. Vigoureux e Bosse foram sentenciadas a confessar seus crimes em Notre-Dame, com uma corda no pescoço, e segurando um peso (1kg) ardente. Depois seriam queimadas vivas e teriam suas cinzas jogadas ao vento. Antes disso, porém, precisavam passar por tortura ordinária e extraordinária. Durante a tortura, Vigoureux revela mais alguns nomes, dentre eles o do marechal de Luxemburgo. Não resiste ao processo, e morre de congestão cerebral. Bosse dura mais, entrega também o nome do marechal, e mais alguns.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 113 Por não suportar a tortura da agua (a mesma infligida à marquesa de Brivilliers), é utilizado o aparelho de tortura nos pés (aparelhos que se iam apertando cada vez mais com a ajuda de cunhas).OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 114

Bosse e Ferry foram queimadas vivas em Notre-Dame, e seus filhos, obrigados a assistirem.

A senhora Poulaillon O julgamento da senhora de Poulaillon era perigoso, porque, justamente como Dreux e Leféron, o resultado poderia revoltar a burguesia e os parlamentares contra os magistrados do Arsenal. No fim, ela foi condenada a exílio em um convento, e o escrivão ainda a elogiou muito o “seu espírito” no relatório.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 115

Voisin e Lesage La Reynie compreendia, no entanto, que nenhum dos julgados até então se comparava à Voisin, e seu amante Lesage, ou sua amiga Lepère. Escreveu então à Louvois, pedindo permissão para começar os inquéritos deles, que, por sua vez, pediu permissão ao rei Luís XIV consentiu.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 116

Voisin foi interrogada no dia 7, revelando ainda mais nomes de clientes. Mas no dia 9 foi acareada com Lesage, o amante. Os dois também se acusaram mutualmente. Voisin o acusou de feitiçaria e de moeda falsa, e Lesage a acusou de ter tentado mata-lo com veneno, uma certa vez na qual ficara doente e pedira o auxílio dela. A acareação foi composta de insultos de ambas as partes, de uma forma que faz até o escrivão se perder. No mesmo dia, Voisin também foi confrontada com Lepère, que acusa a amiga de ter lhe levado garotas para virarem suas aprendizas (na prática do aborto).OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 117

Lepère foi submetida à tortura, porém branda, porque era de idade avançada, mas acabou não revelando nada. O magistrado decidiu enforca-la naquele mesmo dia. O caso de Voisin foi retomado em 12 de setembro. Ela disse deixar o julgamento nas mãos de Deus, e que se estava demorando para falar, era porque não queria prejudicar ninguém. Admite ter vendido veneno às duas senhoras (Leféron e Dreux) e que tentou envenenar o marido, mas que a empregada, Margot, havia impedido. No entanto, começa a ser prolixa. Numa carta endereçada ao Rei, Louvois escreveu que ela denunciou a senhora Vivonne (cunhada de Montespan).OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 118 assim como a Senhora de La Mothe, e que as duas haviam pagado para se desfazerem de seus maridos, por intermédio de Lesage. No dia 17 de setembro, o amante foi ouvido novamente. Leu-se nas anotações de La Reynie sobre o dia que: Lesage revelou que a Voisin tinha muito dinheiro, cerca de 100 mil escudos, e que planejava sair do país. Lesage também fala pela primeira vez da madame de Montespan.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 119

Voisin e Lesage eram realmente os dois principais autores dos crimes, e compreendiam que confissões mais claras eram o melhor modo para obterem a clemência do rei. Mas Luís XIV ficou assustado com as declarações da Câmara Ardente, pois não queria que o resto da Europa soubesse quão ruins eram os membros da sua corte. Isso o levou a ter mais discrição e privacidade nos casos, o que fez com que muitos detalhes ficassem perdidos no tempo, principalmente no que diz respeito à Senhora de Montespan, uma de suas amantes favoritas.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 120 Lesage e Voisin começaram então a revelar os nomes da nobreza, o que assustou ainda mais Luís XIV, temeroso de que o escândalo se espalhasse.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 121

Conforme o interrogatório de Voisan vai prosseguindo, ela é questionada sobre várias viagens dentre estas uma até a casa de Monstespan, que um dia fora a amante favorita do rei na época, esta com o aparecimento de uma nova preferida passa a contatar Voisin, percebe-se então que o processo em andamento deixa de ser apenas casos de envenenamento e bruxaria mas sim crimes que poderiam via a atingir o rei visto seu relacionamento com Montespan.OTTO, Pierre. Os Grandes Julgamentos da História: o processo dos venenos e o Landru. pp. 126