thumb|275px|Sede da Academia da Língua Asturiana em Oviedo

A língua asturiana (endônimo: asturianu; ), historicamente também conhecido como bable (), é uma língua indo-europeia pertencente ao ramo das línguas românicas. O termo designa a variedade falada no Principado das Astúrias do diassistema asturo-leonês, um contínuo linguístico ocidental da Península Ibérica que inclui ainda o leonês e o extremenho (castúo). O asturiano desenvolveu-se a partir do latim vulgar introduzido na região durante a romanização e apresenta traços fonológicos, morfológicos e lexicais próprios.

A língua é utilizada principalmente nas Astúrias, bem como em zonas limítrofes de Castela e Leão, e conta com cerca de 709 mil usuários, número que inclui tanto falantes nativos quanto aqueles que possuem competência passiva ou que a utilizam com diferentes graus de fluência. A variedade padrão contemporânea baseia-se, por razões históricas e linguísticas, nos dialetos centrais das Astúrias. O asturiano dispõe de ortografia, gramática e dicionário próprios, estabelecidos e regulados pela Academia da Llingua Asturiana, criada em 1980.

Existem três variedades dialectais dentro das Astúrias — oriental, central e ocidental, esta última partilhada com a região leonesa. O idioma não possui caráter de língua oficial plena na Espanha (ao contrário do galego, basco ou catalão), mas é protegido juridicamente sob o Estatuto de Autonomia das Astúrias e é de inclusão opcional no currículo escolar daquela comunidade, sendo ofertado como disciplina eletiva.

No século X, o centro político do Reino se deslocou das Astúrias para Leão e, à medida que a Reconquista se deslocava para o sul, o asturiano expandiu-se territorialmente, embora tenha começado a distanciar-se administrativamente dos centros de poder com o passar dos séculos. O ramo mais meridional do domínio linguístico é o extremenho.

Etimologia O termo asturiano deriva de "Astúrias", topônimo histórico que tem origem no etnônimo latino Astures, usado pelos autores clássicos para designar os povos pré-romanos do noroeste da Península Ibérica. A origem de Astures é incerta, sendo associada por alguns estudiosos a um elemento hidronímico pré-indoeuropeu *ast/*stur encontrado em nomes antigos de rios e lugares, o que sugere uma raiz geográfica anterior à romanização. Com a romanização, o adjetivo asturianus passou a qualificar o que pertencia ou estava relacionado às Astúrias, incluindo a língua falada na região.

O principal endônimo da língua é asturianu, usado pelos falantes e documentado em dicionários etimológicos do próprio idioma. Historicamente, também se utilizou o nome bable para as variedades coloquiais asturianas. A origem de bable é debatida por filólogos, pois algumas fontes ligam o termo a usos populares antigos e a conotações de fala coloquial, do latim "fabula" (fala), enquanto outras indicam que o termo adquiriu sentido pejorativo, já que pode vir do latim "balbus" (gago, dissimulado), motivo pelo qual é hoje evitado em normas linguísticas oficiais. Entre os exônimos, asturiano é usado em português e em muitas outras línguas para se referir tanto à língua quanto a aspectos culturais e geográficos das Astúrias, formado a partir de Astúrias com o sufixo românico -ano.

Distribuição

O asturiano é falado sobretudo no Principado das Astúrias (norte da Espanha) e em áreas contíguas das províncias de Leão e Samora (Castela e Leão). Estima-se que cerca de 700 000 pessoas falam o idioma, sendo como língua nativa ou segunda língua. Pequenas comunidades de falantes existem também em Miranda do Douro (Trás-os-Montes, Portugal, onde a variedade local – o mirandês – é cooficial) e em algumas zonas do leste da Cantábria e do norte de Estremadura, além de centros de emigrantes na América Latina (especialmente Argentina e Uruguai). Geograficamente, o asturiano está delimitado ao norte pelo Mar Cantábrico e ao sul pela Cordilheira Cantábrica (rios como o Nalón e o Sella formam fronteiras naturais entre variantes); a região de maior uso concentra-se nas terras montanhosas centrais das Astúrias. A língua não tem status oficial, mas é protegida pelo Estatuto de Autonomia das Astúrias e pode ser ensinada como disciplina opcional na rede escolar daquela comunidade.

Dialetos e Línguas relacionadas

thumb|500px|Isoglossas em território asturiano. thumb|450px|Mapa das línguas relacionadas e dialetos em relação ao asturiano

O asturiano pertence ao conjunto asturo-leonês ocidental das línguas românicas. Tradicionalmente divide-se em três grandes variedades regionais:

Asturiano ocidental: compreende as áreas entre os rios Návia e Nalón, estendendo-se pelas províncias de Leão e Samora. A sua característica mais marcante é a pronúncia, nas comarcas da zona de Laciana, da fricativa surda // no lugar da lateral palatal sonora //; por exemplo, tsíngua ao invés de llíngua "língua". Igualmente, no dialeto ocidental ocorre a conservação dos ditongos decrescentes // e // (ex: cousa, veiga), um traço arcaizante que o aproxima das soluções fonéticas do galego e do português, diferenciando-se da monotongação típica do castelhano e do asturiano padrão para os fonemas // e //. Forma um continuum dialetal com o leonês das áreas limítrofes. Asturiano central: serve de base à norma padrão. Abrange a zona central das Astúrias (da foz do Nalón até o rio Sella) e parte do norte de Leão. É relativamente homogêneo e partilha a maior parte dos traços comuns do asturiano sem as pronúncias mais conservadoras do ocidental (reduz os ditongos // e // para // e //). Asturiano oriental: falado a leste do Sella (Llanes, Cabrales, etc.), próximo do dialeto montanhês da Cantábria. Em alguns lugares preserva a aspiração [] do fonema latino inicial // (como em habil[ai]), e em termos gerais aproxima-se foneticamente do espanhol padrão, fechando as vogais finais (ex: perru > pirru).

Outras línguas intimamente relacionadas incluem: Leonês: variedade asturo-leonesa falada no centro-leste de Castela e Leão (província de Leão). Filogeneticamente, muito próxima do asturiano; estudiosos como Ramón Menéndez Pidal demonstraram em 1906 que o leonês não é um dialeto do castelhano, mas sim o resultado da evolução direta do latim na região do antigo Reino de Leão, mantendo continuidade estrutural com o asturiano. Mirandês: variante falada em Miranda do Douro (Trás-os-Montes, Portugal), cooficial naquele município desde 1999. Mantém elevada inteligibilidade com o asturiano e compartilha grande parte do léxico e da gramática, sendo parte do mesmo grupo linguístico (asturo-leonês). Estremenho (castúo): falado em áreas ocidentais da província de Salamanca e norte da Estremadura, é considerado o ramo meridional do asturo-leonês, apresentando traços de transição para o espanhol sul-peninsular. Montanhês (cántabro): falado em partes montanhosas da Cantábria, apresenta traços de transição entre o asturiano oriental e o espanhol setentrional.

Comparação dialectal

Comparação de textos entre variedades dialectais e outras línguas Art. 1.º da Declaração Universal dos Direitos HumanosLocalizaçãoBloco linguísticoTextoDialetos asturo-leonesesFala de CarreñoAstúriasCentralTolos seres humanos nacen llibres y iguales en dignidá y drechos y, pola mor de la razón y la conciencia de so, han comportase fraternalmente los unos colos otros.Fala de SomiedoAstúriasOcidentalTódolos seres humanos nacen ḷḷibres ya iguales en dignidá ya dreitos ya, dotaos cumo tán de razón ya conciencia, han portase fraternalmente los unos conos outros.PaḷḷuezuLeãoOcidentalTódolos seres humanos nacen ḷḷibres ya iguales en dignidá ya dreitos ya, dotaos cumo tán de razón ya conciencia, han portase fraternalmente los unos conos outros.CabreirêsLeãoOcidentalTódolos seres humanos ñacen llibres y iguales en dignidá y dreitos y, dotaos cumo están de razón y concéncia, han portase fraternalmente los unos pa coños outros.MirandêsTrás-os-MontesOcidentalTodos ls seres houmanos nácen lhibres i eiguales an denidade i an dreitos. Custuituídos de rezon i de cuncéncia, dében portar-se uns culs outros an sprito de armandade.Falas de transiçãoEstremenhoEstremadura / SalamancaFalas de transição entre o asturo-leonês e o castelhanoTolos hombris nacin libris i egualis en digniá i derechus i, comu gastan razón i concéncia, ebin comportal-se comu hermanus los unus conos otrus.Cântabro ou montanhêsCantábriaTolos seris humanos nacin libris y eguales en dignidá y drechos y, dotaos comu están de razón y conciencia, tién de comportase comu hermanos los unos conos otros.Outras línguas romancesPortuguêsPortugalPortuguêsTodos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.GalegoGalizaGalegoTodos os/tódolos seres humanos nacen ceibes e iguais en dignidade e dereitos e, dotados como están de senso e consciencia, deben de se comportar fraternalmente uns cos outros.CastelhanoCastelaCastelhanoTodos los seres humanos nacen libres e iguales en dignidad y derechos y, dotados como estão de razón y conciencia, deben comportarse fraternalmente los unos con los otros.

Comparação lexical (Atlas Linguístico da Península Ibérica - ALPI) Comparação de termos recolhidos pelo questionário ALPI em diferentes pontos do domínio linguístico:

PalavraNavelgas(Tineo)Villanueva(Teberga)Llantones(Castrillón)Felechosa(Aller)Folledo(Leão)Los Carriles(Llanes) Bloco Dialetal Ocidental Ocidental Central Central (Aller) Leonês Orientalolhogüeyugüechugüeyugüiyugüetyu'oyuorelhaureyauretʃaoreyaoreyaoreyeoreíyaouvidoouyíuouiduoyiduoyíuuyíuoíduéguayeuguayeuguayeguayeguayeguayeguaeixoel eisl'exela eixael exeel exila exalobotsobutsobullobutsutsobullobunónoyunodiunuedunuibunuedunuduleitetseititseichillechitsetsetseichillechepontepontipontipuentiuna pontepuentipuentechoverchovertsoverlloveryovertyoverlloverchamachamatsaparadallamayamatyamallaparadanevenievinieviñevinievenievinieveuma colheruna cuyarcucharecuyarcuyarcutyarun cucharvespagueiespaabiespaabiésperabiésprayespraabiésparabailarbeitsarbeitsarbailarbaitsaRbaitsarbaillarmulhermuyermuchermuyermuyermutyermuyerfarinhafarinaFarinafariñafariñavarinah.arinatudotodutoutodotootootoutrouxeramtrouxienuntrouxieruntrixerontrixorentrouxorintrayeronforamfonunfuerun...fueronforenvorinh.oronassobiarxiplarxiblarxiblarxieblarxiblarchiflarlouroxoreirutsaurellloreulaurellaurellloru

Plurilinguismo O asturiano é distinto do espanhol. Há aproximadamente 80% de inteligibilidade com o espanhol — o suficiente para provocar uma ruptura na capacidade comunicativa. Nas zonas rurais isoladas, o espanhol é usado em ocasiões formais e com estrangeiros, nomeadamente pela população mais idosa. Durante um discurso formal, é comum ouvir frases formadas por palavras castelhanas misturadas com palavras asturianas, usando a gramática asturiana, que se assemelha mais à portuguesa que à gramática espanhola, isto passa-se pela afinidade linguística.

História História da língua miniaturadaimagem|Pintura de Fernando III em Sevilla